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Na fauna geopolítica, leões Putin e Biden vivem "guerra morna". Para o restante do zoo, ficam as lições de Omar Torrijos

Nesse zoológico humano nós somos simples coelhos. No Panamá, fechamos o caminho aos chineses e ficamos sem nada. Nosso coelho não sabe de artimanhas...
Roberto Días Herrera
Diálogos do Sul Global
Cidade do Panamá

Tradução:

Na selva geopolítica há, como em qualquer fauna, todo tipo de animal. Entre eles se destacam e mandam os leões: EUA, China e Rússia entre os principais. Depois, há jaguares, também muito fortes, mas menos que os leões: Japão, Alemanha, Inglaterra, França. Índia e outros são fortes, mas menos perigosos. 

Nesse contexto eu localizo a política. Chamou a minha atenção que um católico decente como Joe Biden, em meses passados, partiu contra Putin, utilizando adjetivos realmente agressivos, quase insultantes, querendo arrastar a Europa.

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O líder russo respondeu de forma mensurada com mais diplomacia e tato; uma lição. Depois, em uma cúpula de potências na Europa, eu os vi sorridentes, estreitando-se as mãos. Vivemos uma “guerra morna” entre esses leões.

Nesse zoológico humano nós somos simples coelhos. No Panamá, fechamos o caminho aos chineses e ficamos sem nada. Nosso coelho não sabe de artimanhas...

Wikicommons
Joe Biden e Vladimir Putin em Geneva, em 16 de junho de 2021

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As lições de Torrijos

O ex-presidente do Panamá Omar Torrijos (1968 a 1981), militar que não era doutor, nos legou umas lições que vale a pena refrescar. 

Nesse zoológico humano nós somos simples coelhos. O general aprendeu as lições famosas do coelho das histórias em quadrinhos que brincava com os leões e tigres à base de pura astúcia.

Antes de sua obra máxima — os Novos Tratados — ele se pôs a brincar com o leão da Metro de diferentes maneiras, enquanto exigia os novos pactos e o fim do enclave no Canal do Panamá. 

Uma forma — depois que Nixon nos enganara prometendo o enviado Lakas que chegou eufórico acreditando nele — foi visitar quase todos os mandatários continentais nessa primeira fase de “internacionalizar nossa causa”. 

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Mas incomodou ainda mais o leão: visitou o líder líbio Muammar al-Gaddafi, então apoiado por europeus como José María Aznar, mas tachado por Washington e, como se fosse pouco, foi a Cuba e se retratou com Fidel Castro e uma multidão. Após ver o árabe foi até o ex-Primeiro-ministro de Israel Menachem Begin e cearam sorridentes. Depois trouxe Josip Broz Tito, que Washington odiava.

Enfim, quando se puseram duros e fizeram manobras militares em nossas ribeiras, com tanques e armamentos, ordenou que três mil fardados nossos em poucas horas montassem a “Operação: Ai, que medo!” Provocação ao cubo. Mas, nos dizia: “podemos brincar com a corrente, mas não com o leão”.

Interesses panamenhos

Em outros sentidos, no cerro Punta, diante de agricultores disse certa vez: “Se eu lhes consigo uma semente de batata de Arkansas que pegue bem e renda por hectare, eu vou lhes trazer. Mas, se os campos russos nos mandam alguma que renda mais: por que não a aceitar? A mensagem era: “o melhor para os interesses panamenhos e ponto final; não é desse modo que jogam as potências?”

Estas linhas estão inspiradas hoje pela atitude do jovem presidente de El Salvador. 

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Nayib Bukele, após aceitar ser parte de uma ajuda milionária dos EUA, como parte do “triângulo norte” — onde habilmente se colou Costa Rica — aceitou um convite oficial da China e obteve bons dividendos.

Doações gigantescas

Uma dúzia de doações gigantescas não reembolsáveis: um novo estádio, moderno e com grande capacidade. Construção de uma nova Biblioteca Nacional, de vidro e vários pisos.

Uma usina nova que extrairá e tornará potável a água do lago Ilopango, em El Salvador, solucionando o déficit de água da capital. 

O sistema de distribuição de água potável e saneamento de águas servidas no setor turístico das praias. O circuito de ruas de pedestres, calçadas, parques, beira-mar e cabeamento elétrico subterrâneo ao longo das praias turísticas.

A recuperação do Sítio Arqueológico “Joya de Cerén”. A restauração total do porto de La Libertad para ser um atrativo turístico internacional com restaurantes e lojas.

Além disso, uma dúzia de convênios em setores de agricultura, turismo, além de outros rubros. Coelho hábil e criativo que aceitou uma potente injeção intravenosa em crise pós pandêmica desse leão asiático, sem brigar com o da Metro. 

Panamá “yes, sir”

Por aqui, continuamos recebendo delegados de Washington aos quais dizemos “Yes, Sir”, sem receber ajudas reais nem investimentos prometidos (a Boeing foi para a Costa Rica, da mesma forma que as sedes regionais do FMI e do BID) e igualmente farão outras grandes empresas, porque estamos freados.

Altos empresários estrangeiros nos disseram: “nos interessa o Panamá, mas cheira a corrupção, a burocracia complicada e a justiça manchada”. E o leão da Metro nos tem há três anos sem um simples embaixador. Fechamos o caminho aos chineses e ficamos sem nada. Nosso coelho não sabe de artimanhas…

Roberto Días Herrera, colaborador da Diálogos do Sul desde a Cidade do Panamá

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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