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Nem guerra, nem acordo: a hegemonia seletiva dos EUA em ação

A negativa em negociar com o Irã em Islamabad revela a transição incompleta entre coerção e mediação e expõe como os Estados Unidos tentam reinventar sua liderança global sem abdicar dos mecanismos de dominação

Maurício Alfredo
Diálogos do Sul Global
Rio Claro (SP)

Tradução:

A crise da hegemonia coercitiva

O início do século XXI expôs, de forma incontornável, os limites da hegemonia baseada na força. As guerras prolongadas no Oriente Médio não apenas drenaram recursos materiais, como também corroeram a legitimidade internacional da ação estadunidense. A promessa de estabilização democrática, frequentemente mobilizada como justificativa para intervenções, revelou-se incapaz de produzir ordem duradoura.

Assim sendo, a superioridade militar dos Estados Unidos permanece intacta, mas sua capacidade de converter poder bélico em governança política entrou em declínio. Destruir regimes mostrou-se muito mais fácil do que construir ordens políticas estáveis e legitimadas.

Esse descompasso marca o esgotamento de um modelo: o unilateralismo militar como instrumento central de organização da ordem internacional.

A emergência do regionalismo seletivo

Diante desse cenário, não houve uma retirada dos Estados Unidos do sistema internacional, mas uma profunda reconfiguração de sua forma de atuação, dando origem a um padrão que pode ser definido como regionalismo seletivo. Conforme apontam análises recentes (CNN BRASIL, 2025; BLOOMBERG LÍNEA, 2025), essa estratégia organiza-se em três movimentos complementares: a priorização de regiões consideradas vitais para a segurança nacional, a delegação de funções operacionais a aliados e parceiros regionais e a substituição de intervenções diretas por instrumentos de influência indireta, como sanções, inteligência e dissuasão.

Essa reorganização não implica uma diminuição da ambição hegemônica, mas uma tentativa de torná-la mais sustentável. Ao invés de atuar como “polícia do mundo” em escala global, os Estados Unidos passam a operar por recortes geopolíticos, escolhendo onde intervir, onde mediar e onde se ausentar.

No entanto, essa seletividade não é neutra: ela reflete uma hierarquização dos interesses e, sobretudo, uma tentativa de manter controle em um ambiente cada vez menos controlável.

A mediação como estratégia e como contradição

A política externa estadunidense recente encontra sua síntese na chamada “Doutrina JD Vance”. Conforme aponta a revista TIME (2025), essa inflexão não representa uma ruptura com o uso da força, mas uma tentativa de reduzir custos estratégicos mediante três eixos: a definição estrita do interesse nacional, uma diplomacia assertiva e o recurso a intervenções cirúrgicas, de curta duração, para evitar atoleiros geopolíticos. Longe de um isolacionismo clássico, trata-se de uma estratégia transacional que não substitui a coerção pela mediação, mas as integra sob uma mesma lógica de poder.

Nesse contexto, a mediação de conflitos emerge como ferramenta central, embora não deva ser confundida com neutralidade. Trata-se, antes, de uma “mediação condicionada”: Washington se posiciona como árbitro apenas quando detém a prerrogativa de definir os parâmetros do jogo. Essa postura expõe uma tensão fundamental da atual hegemonia: ao buscarem se afirmar como mediadores, os Estados Unidos permanecem operando como competidores estratégicos. A mediação, portanto, não substitui a lógica da força; ela apenas a reconfigura.

O retorno recorrente da coerção

A transição em curso está longe de ser linear. Sempre que interesses considerados vitais são ameaçados, observa-se um retorno à lógica coercitiva.

Esse movimento pendular entre negociação e imposição evidencia que a força não desapareceu, mas foi reposicionada: deixa de operar como instrumento dominante e passa a atuar como mecanismo de última instância, acionado quando a mediação falha ou quando os custos da concessão se tornam politicamente inaceitáveis.

O resultado é uma política externa marcada por ambiguidades: negocia-se enquanto é possível controlar; impõe-se quando o controle se perde.

Esse padrão não se restringe ao plano abstrato. Ele se manifesta em episódios concretos da diplomacia internacional. Na crise envolvendo os Houthis no Mar Vermelho, por exemplo, tentativas iniciais de contenção diplomática rapidamente cederam lugar a sanções e operações militares após sucessivos ataques a rotas comerciais estratégicas, que elevaram custos logísticos globais e pressionaram diretamente interesses econômicos centrais (Newsweek, 2025). De forma semelhante, o fracasso das negociações com a Venezuela, interrompidas sob o argumento de descumprimento de compromissos políticos, revela os limites de uma mediação condicionada. Mesmo diante de sinais de possível transição negociada, Washington manteve uma postura inflexível quanto aos termos do acordo, priorizando a imposição de seus próprios parâmetros estratégicos (Folha SP, 2025)

Nesse contexto, a mediação revela seu caráter instrumental: ela se sustenta apenas enquanto os interlocutores operam dentro dos limites previamente estabelecidos pelos Estados Unidos. Ao primeiro movimento de autonomia ou resistência, a lógica da negociação cede lugar à intensificação da pressão, seja por meio de sanções, bloqueios ou demonstrações de força (Agência Brasil, 2026).

É nesse quadro que as recentes negociações em Islamabad emergem como expressão particularmente reveladora dos limites dessa transição.

Islamabad e os limites da mediação estadunidense 

A recusa dos Estados Unidos em participar da rodada de negociações com o Irã em Islamabad não deve ser interpretada como um gesto circunstancial ou meramente tático. Trata-se, antes, de um episódio revelador das limitações estruturais que hoje condicionam a atuação diplomática de Washington em um sistema internacional crescentemente fragmentado.

O deslocamento do espaço de negociação para Islamabad não é geopoliticamente neutro. O Paquistão vem se consolidando como um ator cada vez mais integrado aos circuitos econômicos e estratégicos asiáticos, especialmente por meio de sua articulação com a China. Negociar nesse ambiente implica aceitar uma perda relativa de controle sobre os termos e os mediadores do processo, algo que contraria a tradição de centralidade diplomática dos Estados Unidos.

No entanto, foram nos temas substantivos da negociação que a mediação revelou seus limites mais evidentes. O impasse em torno do programa nuclear iraniano explicitou a incompatibilidade entre duas racionalidades distintas. De um lado, a exigência estadunidense de garantias permanentes que impedissem o desenvolvimento de capacidades nucleares estratégicas; de outro, a recusa de Teerã em aceitar termos que interpreta como uma violação direta de sua soberania. Nesse contexto, a negociação deixa de operar como espaço de construção de consenso e passa a assumir a forma de imposição assimétrica, na qual uma das partes é chamada a abdicar previamente de instrumentos considerados essenciais à sua autonomia.

Essa mesma lógica se reproduz na disputa em torno do Estreito de Ormuz, um dos pontos mais sensíveis da geopolítica energética global. Ao defender mecanismos de controle e restrição sobre o fluxo marítimo na região, os Estados Unidos procuram inscrever o estreito em uma lógica de governança internacional sob sua influência. O Irã, por sua vez, reivindica o controle soberano sobre a área, recusando o que percebe como uma tentativa de internacionalização seletiva de seu território estratégico. Aqui, a disputa ultrapassa a dimensão regional e revela um conflito mais amplo: quem define as regras de circulação dos fluxos vitais da economia mundial.

Diante desses impasses, a ruptura das negociações foi rapidamente seguida pelo retorno a instrumentos clássicos de coerção, como a imposição de medidas de bloqueio naval. Essa sequência de negociação, impasse e coerção, evidencia que a mediação estadunidense opera sob condições restritivas, pois só se sustenta enquanto os resultados permanecem compatíveis com os parâmetros estratégicos de Washington.

Ao mesmo tempo, a própria escolha de não avançar no processo negociador deve ser compreendida à luz da disputa mais ampla pela arquitetura da governança internacional. A crescente presença da China como mediadora e parceira econômica de países como o Irã introduz um elemento adicional de competição: o controle dos espaços e dos mecanismos de negociação. Ao evitar arenas nas quais não detêm centralidade, os Estados Unidos buscam não apenas proteger seus interesses imediatos, mas também limitar a consolidação de arranjos alternativos de poder.

Nesse sentido, o episódio de Islamabad explicita uma contradição fundamental da política externa estadunidense contemporânea. Ao mesmo tempo em que busca se afirmar como mediador em uma ordem em transformação, Washington revela-se incapaz de sustentar esse papel quando ele exige a aceitação de resultados fora de seu controle direto. A recusa em negociar, seguida do retorno à coerção, não representa um desvio, mas a síntese de uma hegemonia em transição, onde a potência permanece presa no paradoxo de pretender mediar o sistema internacional enquanto depende, em última instância, da coerção para preservar o status quo.

O caso de Islamabad, nesse sentido, não é um episódio isolado, mas parte de uma transformação mais ampla na estrutura do sistema internacional.

O novo tabuleiro geopolítico: governança como campo de disputa

A reconfiguração da hegemonia estadunidense ocorre em um contexto de transformação mais ampla do sistema internacional, profundamente impactado pelo avanço da China e pela emergência de arranjos como os BRICS+. Esse novo cenário desloca o eixo da disputa: da coerção direta para a capacidade de estruturar a governança global.

Os Estados Unidos, que historicamente se mobilizaram sob a lógica da “segurança”, da “estabilidade” e dos “valores democráticos”, enfrentam um desgaste crescente dessas narrativas, sobretudo quando associadas a práticas coercitivas e seletivas. Essa inflexão expressa uma crise de forma da hegemonia: a coerção permanece disponível, mas já não é suficiente para organizar a ordem internacional de maneira estável. Surge, assim, a tentativa de transição para uma hegemonia mediadora. No entanto, essa transição é atravessada por uma contradição estrutural: sempre que a mediação ameaça escapar ao controle ou produzir resultados indesejados, recorre-se novamente à coerção.

Esse movimento pendular compromete a legitimidade internacional de Washington. Ao alternar mediação e imposição, os Estados Unidos passam a ser percebidos não como árbitros, mas como parte interessada, o que gera uma crescente crise de credibilidade em seu papel de mediador.

Em contraste, a China opera sob uma lógica distinta, frequentemente descrita como um “jogo longo”. Sua estratégia combina diplomacia, financiamento e integração econômica, articulando soft power e construção de interdependências em torno de uma narrativa baseada em “desenvolvimento”, “cooperação” e “harmonia”. Ancorada em investimentos em infraestrutura e crédito, sua atuação oferece aos países do Sul Global uma alternativa concreta à ordem tradicional, ao mesmo tempo em que consolida uma forma de poder indireta, porém estrutural, baseada na construção da dependência via interdependência.

Diante desse quadro, torna-se evidente que a governança internacional deixou de ser um espaço neutro de coordenação e passou a constituir o principal campo de disputa geopolítica contemporânea.

Essa transição, contudo, não representa uma passagem de uma lógica de dominação para uma lógica de parceria. O que se observa é uma mudança mais sutil, o da dominação direta para uma dominação por influência, mediada pela capacidade de estruturar dependências e oferecer previsibilidade.

Conter oferecendo: o dilema estratégico dos Estados Unidos

O avanço chinês e a consolidação de polos alternativos de poder impõem aos Estados Unidos um desafio inédito. Já não basta conter adversários por meio da ameaça ou da coerção, é necessário oferecer uma alternativa viável de organização da ordem internacional.

Nesse sentido, a inflexão estratégica norte-americana pode ser lida como uma tentativa de responder a esse novo ambiente competitivo. A mediação, a governança e a articulação institucional passam a ser instrumentos centrais não por convicção normativa, mas por necessidade estratégica.

Os Estados Unidos buscam, assim, reposicionar sua hegemonia: menos baseada na imposição direta e mais na capacidade de definir regras, estruturar agendas e coordenar alianças. No entanto, esse movimento esbarra em um limite estrutural, o da dificuldade de conciliar liderança com compartilhamento real de poder.

Conclusão: adaptação sob constrangimento

A passagem do unilateralismo militar ao regionalismo seletivo não deve ser interpretada como um processo de humanização da política externa norte-americana. Trata-se, antes, de uma adaptação estratégica diante de novas restrições estruturais e da ascensão de alternativas sistêmicas.

Os Estados Unidos não abandonaram a coerção, assim como não se converteram plenamente à mediação. Operam, na verdade, em um terreno híbrido, onde diferentes instrumentos são combinados de forma pragmática.

A figura do “árbitro geopolítico” emerge menos como uma superação da hegemonia tradicional e mais como uma reformulação tática de seu exercício. Em um sistema internacional fragmentado, a mediação torna-se uma ferramenta tão estratégica quanto a intervenção direta, desde que o resultado favoreça a manutenção da influência estadunidense. Na prática, Washington busca atuar como um mediador “seletivo”: por exemplo, ao mediar acordos comerciais ou cessar-fogos regionais, os EUA frequentemente estabelecem cláusulas que garantem a continuidade de sua supervisão sobre as rotas de energia ou o acesso a tecnologias críticas, transformando o ato diplomático em um mecanismo de controle disfarçado.

Contudo, a contradição permanece: para preservar sua centralidade, os Estados Unidos precisam oferecer ‘bens públicos globais’, como a estabilidade do sistema financeiro (baseado no dólar) e a segurança das rotas marítimas. Contudo, ao fornecerem esses serviços que sustentam a economia mundial, os Estados Unidos são pressionados a aceitar uma pluralidade de atores que, ao ganharem voz, passam a contestar as regras impostas pelo mediador. O custo dessa forma de liderança reside, precisamente, na necessidade de ceder espaço a outros atores, como ocorre quando Washington precisa negociar com potências emergentes ou grupos regionais em arenas multilaterais. Esse desafio torna-se particularmente agudo em cenários como o de Islamabad, onde a centralidade estadunidense é tensionada pela atuação de novos arquitetos geopolíticos. Esse movimento gera um paradoxo insolúvel, pois quanto mais os EUA buscam mediar para conter rivais, mais são pressionados a aceitar um grau de pluralidade e de concessões que, em última análise, acaba por tensionar os próprios alicerces de sua hegemonia.

Contudo, a contradição permanece. Para preservar sua centralidade, os Estados Unidos precisam oferecer “bens públicos globais”, como a estabilidade do sistema financeiro (ancorado no dólar) e a segurança das rotas marítimas.

Ao sustentar esses pilares da economia internacional, Washington é pressionado a conviver com uma pluralidade crescente de atores que, ao ampliarem sua participação, passam também a contestar as regras impostas pelo próprio mediador. O custo dessa forma de liderança reside, precisamente, na necessidade de ceder espaço, seja ao negociar com potências emergentes, seja ao operar em arenas multilaterais cada vez menos controláveis.

Esse desafio torna-se particularmente agudo em cenários como o de Islamabad, onde a centralidade estadunidense é tensionada pela atuação de novos arquitetos geopolíticos.

Dessa dinâmica emerge um paradoxo estrutural, quanto mais os Estados Unidos recorrem à mediação como instrumento de contenção, mais se veem obrigados a aceitar níveis de pluralidade e concessão que tensionam os próprios fundamentos de sua hegemonia.

BIBLIOGRAFIA:

AGÊNCIA BRASIL. Na Venezuela, sanções dos EUA contribuíram para colapso econômico. Brasília, 18 jan. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-01/na-venezuela-sancoes-dos-eua-contribuiram-para-colapso-economico

BLOOMBERG LÍNEA. Por que a nova estratégia externa dos EUA não deve assustar a América Latina. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com.br/2025/12/10/por-que-a-nova-estrategia-externa-dos-eua-nao-deve-assustar-a-america-latina/

CNN BRASIL. EUA divulgam nova estratégia de segurança e política externa; entenda. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eua-divulgam-nova-estrategia-de-seguranca-e-politica-externa-entenda/

FOLHA DE S.PAULO. Maduro propôs deixar poder em dois anos, e EUA rejeitaram, diz jornal. Mundo, 19 nov. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/11/maduro-propos-deixar-poder-em-dois-anos-e-eua-rejeitaram-diz-jornal.shtml

NEWSWEEK. Houthis, Red Sea and U.S. response: what’s at stake. Disponível em: https://www.newsweek.com/houthis-yemen-red-sea-donald-trump-united-states-shipping-middle-east-2040469

TIME. J.D. Vance defines the “Trump Doctrine”. 2025. Disponível em: https://time.com/7297452/trump-doctrine-vance-peace-through-strength-america-first-presidents-history/


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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