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ToggleHá noventa anos, em 1936, John Maynard Keynes publicava A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Era uma resposta a uma crise que abalara as certezas do pensamento econômico dominante. Keynes ousou contestar as fórmulas. Mostrou que o mercado não continha em si uma espécie de sabedoria capaz de produzir automaticamente o pleno emprego e o equilíbrio.

Colocou no centro da discussão a demanda, o investimento, o emprego, a incerteza e a responsabilidade do Estado. Noventa anos depois, a obra continua provocadoramente atual.
Mas onde estão hoje os que contestam as fórmulas?
Os desafios fiscais dominam a mídia. Déficit, dívida, corte de gastos, equilíbrio das contas públicas, juros. O debate econômico parece começar e terminar aí. Discute-se quanto cortar, onde cortar, quando cortar. Raramente se pergunta a serviço de quê e de quem deve funcionar a economia.
O poder econômico, financeiro e midiático conseguiu transformar determinadas escolhas políticas em verdades técnicas aparentemente indiscutíveis. Vivemos sob a ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro.
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Não foi sempre assim. Keynes escreveu justamente porque as certezas de seu tempo haviam fracassado diante da realidade.
Décadas mais tarde, outra ortodoxia ganhou força. Reagan nos Estados Unidos, Thatcher na Inglaterra e, depois, o chamado Consenso de Washington ajudaram a consolidar uma visão de mundo baseada na liberalização, na privatização, na desregulamentação e na redução do papel do Estado.
As fórmulas mudaram. A pretensão de apresentá-las como inevitáveis permaneceu.
E chegamos ao Brasil de hoje.
Estamos entrando numa disputa eleitoral decisiva, e a pergunta continua ausente: quem vai discutir o modelo?
Não basta discutir quem administrará melhor as regras existentes. É preciso discutir as próprias regras.
Lula sinaliza que, se conquistar um novo mandato, pretende fazer aquilo que ainda não conseguiu fazer. Sai de cena o “Lulinha paz e amor” e aparece, nas palavras do próprio presidente, o “Lulinha porreta”.
Será?
Não depende apenas de Lula.
Depende da correlação de forças que sair das urnas. Depende, sobretudo, do Congresso que será eleito. Um presidente pode ter votos, vontade política e legitimidade popular, mas, sem força parlamentar, encontra pela frente os limites impostos por um sistema no qual o poder econômico possui enorme capacidade de pressão.
Por isso, talvez uma das grandes questões desta eleição não seja apenas quem será o presidente, mas qual Congresso o povo brasileiro vai eleger.
Sem compreender isso, corremos novamente o risco de depositar num homem a responsabilidade por transformações que exigem força social e política organizada.
Recuperar o pensamento crítico
É justamente aqui que os noventa anos da Teoria Geral podem servir não para uma comemoração acadêmica, mas para uma provocação.

Precisamos voltar a ler aqueles que tiveram coragem de pensar contra as verdades estabelecidas.
Na América Latina, tivemos uma tradição extraordinariamente rica.
Raúl Prebisch, na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ajudou a romper com a ideia de que os países periféricos deveriam simplesmente seguir as receitas elaboradas nos centros do capitalismo. Celso Furtado levou essa reflexão adiante e tornou-se um dos grandes intérpretes do subdesenvolvimento brasileiro e latino-americano.
Furtado nos ensinou que subdesenvolvimento não é simplesmente uma etapa anterior ao desenvolvimento. É uma formação histórica produzida dentro de relações econômicas desiguais.
Essa tradição latino-americana abriu caminho para debates que alcançariam enorme repercussão internacional.
E houve uma geração ainda mais radical na contestação.
Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini estiveram entre os grandes formuladores da teoria marxista da dependência.
Passaram pela recém-criada Universidade de Brasília e, depois do golpe de 1964 e do exílio, continuaram desenvolvendo um pensamento que buscava compreender a América Latina a partir da própria América Latina.
Eles não lutavam apenas contra uma teoria econômica.
Lutavam contra uma ordem social. E lutavam também contra a ditadura.
Suas conclusões não eram idênticas às de Celso Furtado ou de Prebisch. Ao contrário: existiam divergências profundas entre o estruturalismo cepalino e a vertente marxista da teoria da dependência. E justamente aí está a riqueza dessa geração: havia debate. Havia confronto de ideias. Havia a convicção de que a realidade latino-americana precisava produzir pensamento próprio.
É isso que parece faltar hoje.
Não precisamos transformar Keynes, Furtado, Prebisch, Theotonio, Vânia ou Marini em santos de uma nova religião econômica.
Precisamos lê-los.
Precisamos recuperar a coragem intelectual de contestar.
Porque uma democracia em que podemos escolher os governantes, mas não podemos discutir o modelo econômico que eles deverão administrar, é uma democracia limitada.
Noventa anos depois de Keynes, talvez a melhor homenagem que possamos prestar ao pensamento crítico seja fazer novamente a pergunta que todo poder procura evitar:
E se as fórmulas estiverem erradas?





