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O capitalismo divide os povos para dominá-los

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Entrevista a Carlos Aznárez diretor de Resumen Latinoamericano: O capitalismo selvagem divido os povos com muros para melhor dominá-los.

Mario Hernández entrevista a Carlos Aznárez*

Prêmio Simón Bolívar 2017 de Comunicação. Uma homenagem que foi entregue pelo presidente Nicolás Maduro. O que significa pra você e para Resumen Latinoamericano este prêmio?

Carlos Aznárez1Carlos Aznárez: É um reconhecimento importante vindo da Venezuela e dos companheiros e colegas venezuelanos, tanto jornalistas como comunicadores sociais. No ano passado nos deram o prêmio Aníbal Nazoa, que também é importante para a atividade jornalística na Venezuela, mas este prêmio nos parece fundamental porque reconhece o trabalho que estamos fazendo em solidariedade com Venezuela.

Nesse sentido é um reconhecimento que nos enche de orgulho e nos convoca a redobrar o trabalho numa circunstância em que a Venezuela passa por muita pressão, não somente midiática mas também por uma escalada violenta de guerra de baixa intensidade que às vezes parece de alta intensidade.

Na última semana de junho você esteve na Conferência Mundial dos Povos que reuniu na Bolívia delegações de movimentos populares latino-americanos e algumas personalidades internacionais relacionadas com o tema da migração. Seus comentários sobre esse evento.

Carlos Aznárez: Esse evento foi convocado pelo governo boliviano, fundamentalmente pela sensibilidade de Evo Morales diante do tema da migração, presente no debate, como da construção de muros que separam os povos. Evo pensa no futuro vendo o presente. Disse claramente na abertura do encontro, que é incrível que falemos de muros para separar povos, para separar gente, para separar famílias e que isto seja um produto típico da concepção capitalista selvagem, em vez de aproximar e amalgamar as sociedades, dividi-las para melhor poder dominar. É certo que toda a política guerreira que as potências desenvolvem sobre o Terceiro Mundo gera centena de milhares de imigrantes que, desesperados por fugir da guerra, vão para onde podem. Muitos vão para Europa e ali se deparam outra vez com o maltrato, são confinados e depois queimam os acampamentos.

Evo Morales tentou formar um núcleo de gente sensível a isso que pudesse formular propostas, embora tenha ressalvado que a única receita é acabar com o capitalismo e com o colonialismo. O encontro contou com a participação de muitas organizações sociais bolivianas e também do continente.

Houve também algumas presenças não gratas. Estava, por exemplo, Rodríguez Zapatero, sentado ali não tendo nada que fazer. Quando governou a Espanha perseguiu imigrantes. E ali mesmo foi visto com Aznar e Felipe González confabulando que não há que conceder a independência a Catalunha e que se continuam insistindo há que aplicar a força. É a opinião de Zapatero que finge ser progressista na Venezuela e na Bolívia.

Outra presença que caiu mal foi a de Baltazar Garzón, um tipo vinculado a lei antiterrorista na Espanha, assessor em seu momento de Álvaro Uribe e amigo dos opositores na Venezuela.

São coisas que nos desmerece mas que tem que ser dito. Fora isso o encontro foi importante e necessário, destacou o perfil de estadista de Evo Morales, porque é um dos homens que tem um pé na terra permanentemente, consulta com as bases e a base lhe grita suas propostas e ele as escuta e isso não é muito usual entre os mandatários de nenhum tipo.

Uma importante delegação argentina chegou a Quitipaya junto com delegações de Cuba, Chile, Colômbia, Panamá, Uruguai e outros países da região. Quem esteve presente da Argentina?

Carlos Aznárez: O único que falou da Argentina foi  Juan Grabois da CTEP, mas em todas as mesas e oficinas os argentinos tivemos participação muito forte. Havia companheiros de todos os países e também da Europa, gente que veio para participar porque ali também há muros e racismo.

Quais as principais conclusões e o futuro das atividades relacionadas ao problema dos refugiados e das migrações?

Carlos Aznárez: A principal conclusão é um sonho de Evo Morales que oxalá pudesse concretizar-se, que é o da cidadania universal. Que não haja fronteiras no sentido de divisão do que já separam. Que qualquer cidadão do mundo possa transitar por qualquer país sem dar explicações. El pensa com essa cosmogonia que tem o movimento indígenas na Bolívia, mas também como o movimento indígena de toda a Abya Yala, a ideia de fraternidade  sem especulações de nenhum tipo, a aproximação povo a povo.

Por outro lado, a ideia de trabalhar fortemente para liquidar com esses muros físicos além dos muros ideológicos. Evo dedicou um longo parágrafo a Trump dizendo que é um personagem que não entende o que é um ser humano, que acredita que por estar sobre um púlpito possa falar com todos como se fôssemos animaizinhos. E se aprovou terminar com os muros, apontando os mais fortes, o de México, no Saara e na Palestina que são muros já construídos e que geram muito dano.

Será formada uma comissão não burocrática, de supervisão, organizada pelo governo da Bolívia, para que de alguma maneira se persigam as resoluções aprovadas. Estas incluem também exortar os países europeus a que cessem a repressão contra os imigrantes e que se lhes ofereça um caminho de solução para os problemas de integração ou a possibilidade de viver decentemente nos países que geraram as guerras das quais os imigrantes fugiram.

Quais as últimas informações sobre a situação na Venezuela?

Carlos Aznárez: A situação na Venezuela é bastante complicada. A escalada de violência na para. Repetem-se episódios lamentáveis. Na semana passada houve feridos, mortos, queimados, estamos vivendo um ataque realmente bestial pelos setores da oposição que dizem estar infiltrados, dizem que são os paramilitares, porém tudo isso está protegido pelo manto da Mesa da Unidade Democrática (MUD) e obviamente incentivados por Washington, pela OEA e todos os meios de comunicação hegemônicos.

Aplaude-se a morte de chavista e se chora permanentemente quando se detém ou morre em alguma circunstância alguém da oposição, Mas os mortos fundamentalmente são do chavismo.

A guerra econômica continua. Há desabastecimento, há gente que está cansada de dar a outra face para bater. O que ocorreu na segunda-feira (5/7/17) na Assembleia Nacional é uma mostra disso. Gente dos movimentos populares que dizem a gritos basta de mortos. Por outro lado há uma decisão popular e governamental de chegar ao 30 de julho com a Constituinte. Uma constituinte com muita participação mas inclinada ao lado do chavismo porque a oposição não vai participar. Mais que isso, está convocando um plebiscito para 16 de julho com a ideia de armar logo um governo de unidade nacional e derrubar Maduro.

É muito difícil reconciliar a esses setores. O que legitima o governo é que conta com grande apoio popular . O outro também tem apoio, mas dos setores da classe média, média alta e do campo internacional, do Império. Creio que cedo ou tarde o governo de Nicolás Maduro terá que vestir as botas com tudo o que isto significa e terminar com essa escalada que já tem características de guerra civil. Quando fazem a guerra há que responder com tudo o que isso significa. O pior é continuar pondo os mortos e ser o democrata, porque a democracia é a que te envolve e te condiciona para que não responda ao que lhe atira com uma bazuca, que é o que ocorre nos quartéis, são atacados, ferem e golpeiam os soldados que estão armados mas não atiram porque sabem que se fizerem começa algo que não se sabe quando termina. O problema é até quando se poderá suportar isso.

*Original de Rebelión.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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