BASBAUM, Leôncio (brasileiro; Recife, 1907 – São Paulo, 1969)

O marxismo de Leôncio Basbaum, médico, editor e pensador marxista, foi organizador da Juventude Comunista

Também foi dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCB), destacando-se em trabalhos de formação política e produzindo uma das primeiras aplicações do materialismo histórico à realidade brasileira

Lincoln Secco, Paulo Alves Junior
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Vida e práxis política de Leôncio Basbaun

Leôncio Basbaum nasceu no Recife do começo do século XX, sendo o sexto dos onze filhos de Isaac e Clara Basbaum, imigrantes originários de Kichinev, capital da então Bessarábia (hoje Chisinau, Moldávia). A família, proprietária de uma pequena joalheria na capital pernambucana, integrou-se a um meio urbano em transformação.

Em suas memórias, registraria que uma de suas primeiras experiências políticas de importância foi a celebração da vitória dos Aliados na Primeira Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, nas ruas do Recife, episódio que marcou sua passagem da infância para a adolescência.

Basbaum recebeu boa formação escolar. Em 1919, foi matriculado no Ginásio Ayres Gama e, em 1923, transferiu-se para o Ginásio Carneiro Leão, prestigiada instituição recifense. Concluído o ensino médio, embarcou, em março de 1924, para o Rio de Janeiro, com o objetivo de cursar Medicina. No mês seguinte, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio, onde se formaria em 1929. Nesse período, aproximou-se do universo literário e político, escrevendo contos para a Revista Número, sob o pseudônimo de Jeremias Cordeiro.

O marxismo de Acosta Saignes, Jornalista, professor, editor, antropólogo e historiador, foi fundador do Partido Comunista da Venezuela

De acordo com seu próprio relato, os primeiros meses no Rio de Janeiro não foram de militância imediata, mas de adaptação e vida social no ambiente estudantil, além de conversas noturnas na pensão em que vivia sobre futebol, professores, literatura e família.

No entanto, as férias de 1924 e 1925 no Recife foram decisivas. Frequentando a enfermaria do Hospital Pedro II como estudante de Medicina, Basbaum mantinha laços com antigos camaradas da faculdade, entre eles Raul e Manuel Karacik, com quem discutia a respeito da “Rússia bolchevista”. Por intermédio dos irmãos Karacik, foi apresentado a Souza Barros, que o iniciou nas discussões sobre comunismo, bolchevismo e as figuras de Lênin e Trótski.

Essa cadeia de sociabilidade o levou a conhecer Cristiano Cordeiro, Astrojildo Pereira e outros militantes que haviam participado da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 25 de março de 1922, e da primeira Comissão Central Executiva (CCE), núcleo dirigente do partido. Com eles, Basbaum teve seu primeiro contato mais direto com o marxismo.

Em 1925, de volta ao Rio de Janeiro, participou de um comício de 1º de Maio na Praça Mauá, em um contexto de estado de sítio decorrente da Revolta Paulista de 1924. Nesse momento, o nome de Luiz Carlos Prestes e a experiência da chamada Coluna Prestes começaram a circular com mais intensidade em seu horizonte político.

O vínculo orgânico com o PCB consolidou-se no ano seguinte, quando, após nova participação nas comemorações de 1º de Maio, recebeu uma ficha de filiação de Abelardo Nogueira, um dos primeiros militantes do partido e pioneiro da imprensa operária.

Poucos dias depois, Leôncio Basbaum tornou-se membro do PCB. Com Manuel Karacik e João Celso de Uchôa Cavalcanti, formou a primeira célula comunista da Faculdade de Medicina. Nesse mesmo ano, a pedido de Astrojildo Pereira, organizou e ministrou, durante três meses, um curso de introdução a O capital no sindicato dos tecelões, baseado no resumo de Gabriel Deville. Já se delineava, então, a articulação entre militância e formação teórica que marcaria sua trajetória.

Em 1927, foi encarregado de construir uma organização juvenil de alcance nacional e passou a integrar a direção do Partido Comunista, com direito a voz e voto, como representante da Juventude Comunista (JC). Tornou-se, então, o primeiro secretário-geral do Comitê Central da JC, cargo que ocupou até 1929. Suas tarefas incluíam o recrutamento de jovens em fábricas, empresas, comércio e escolas, organizando atividades culturais, esportivas e recreativas como forma de politização e propaganda das ideias marxistas. Era também responsável pela edição do semanário O Jovem Proletário (1927–1928). A JC adquiriu peso numérico e político dentro do PCB.

No início de 1928, sob a vigência da chamada Lei Celerada — que, em 1927, limitou a liberdade de imprensa e de reunião no país com o objetivo de reprimir o movimento operário e a oposição política —, Basbaum foi preso, sem explicações, por alguns dias na sede da polícia. Ainda naquele ano, o PCB recebeu convites da Internacional Comunista (IC) para participar do VI Congresso da Internacional Comunista e do V Congresso da Internacional Juvenil Comunista, em Moscou.

Na ocasião, Basbaum foi escolhido como delegado da juventude. Suas lembranças sobre esse evento são reveladoras: por um lado, admirava a formação teórica dos marxistas europeus; por outro, criticava neles a quase completa ignorância sobre a América Latina e a tendência de transpor mecanicamente esquemas analíticos elaborados para a Ásia à realidade latino-americana.

No congresso, presenciado por Stálin, Basbaum relata a emoção ao ouvir A Internacional executada sob a regência de Pierre Degeyter, bem como a perplexidade diante da resolução que identificava os social-democratas como principais inimigos, relativizando o perigo do nazismo então em ascensão. Esse contexto internacional moldou a linha obreirista e sectária que mais tarde seria aplicada no Brasil.

Em 1929, Basbaum chefiou a delegação do PCB na I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires, ocasião em que tentou convencer Luiz Carlos Prestes a ingressar no partido, buscando aproximar o proletariado da pequena burguesia que havia se engajado nas propostas da Coluna Prestes. De volta ao Brasil, expôs suas impressões à direção, inclusive com críticas às posições de Prestes.

As diferenças de avaliação sobre a via revolucionária no país, porém, foram superadas pela decisão de incorporá-lo à liderança partidária a partir de 1930, o que ocorreu com a publicação do Manifesto de Maio no jornal paulistano Diário da Noite, em 29 de maio de 1930. No documento, Prestes criticou Getúlio Vargas, rompeu com o tenentismo e com a Aliança Liberal varguista e anunciou uma plataforma socialista. Sua efetiva filiação ao PCB ocorreria em 1934.

Durante a década de 1930, como resultado das políticas adotadas após o III Congresso do PCB — que condenou alianças com a social-democracia —, houve um fortalecimento da política obreirista dentro do partido. Isso levou ao afastamento de parte importante da primeira geração dirigente, privilegiando operários considerados “autênticos” em detrimento de intelectuais como Basbaum.

Entre prisões — primeiro em 1930 e, depois, em 1932, em São Paulo, com transferência para a Casa de Detenção do Rio de Janeiro e, posteriormente, para a Ilha Grande — e debates internos, sua posição passou a ser criticada como “pequeno-burguesa”. Nesse ínterim, em 1931, casou-se com Sílvia Pereira, ex-militante da JC, com quem teve, no ano seguinte, seu primeiro filho, Maurício Leôncio Basbaum.

Em 1933, diante da exigência de uma autocrítica formal, optou por afastar-se do partido. Nesse período, chamado em suas memórias de “tempos burgueses” (1933–1942), dedicou-se ao comércio varejista da família, nas Lojas Brasileiras, e ao exercício da Medicina, ao mesmo tempo em que refletia e escrevia sobre sua experiência política. Desse contexto surgiu A caminho da revolução operária e camponesa, publicado sob o pseudônimo de Augusto Machado. Em 1935, nasceu seu segundo filho, Hersch Basbaum.

A partir de 1939, com o endurecimento do Estado Novo varguista, Basbaum voltou a ser preso em razão de sua antiga militância comunista. Em 1943, publicou, na Argentina, Fundamentos do materialismo histórico (pela Americalee) e, em 1944, foi encarregado pela direção do PCB de organizar a Editora Vitória, instrumento importante de formação e propaganda do partido.

Após a legalização temporária do PCB, em 1945, reassumiu posições de destaque na organização, como na Comissão Nacional de Finanças, ao mesmo tempo em que se afastava da direção cotidiana da editora.

Nos primeiros meses de 1945, morreu seu pai, aos 75 anos. Dias após a perda, recebeu a visita de Diógenes Alves de Arruda Câmara. Arruda lhe confidenciou que Prestes seria libertado dentro de poucos dias e que precisavam de um lugar seguro e suficientemente amplo para alojá-lo até que pudesse instalar-se com a família. Os poucos dias transformaram-se em dez meses.

Em Uma vida em seis tempos, Basbaum afirma que Prestes sempre foi um hóspede educado, gentil e reservado. Ainda no primeiro semestre de 1945, o PCB obteve autorização para atuar legalmente, situação que durou pouco, pois, em janeiro de 1947, acusado de receber recursos de Moscou, voltou à ilegalidade.

Nesse período, Basbaum já estava reincorporado ao partido, embora sem integrar o Comitê Central. A esse respeito, afirmou que não estava mais disposto a executar tarefas práticas simples, “que qualquer outro camarada pode executar”; desejava dedicar-se a tarefas políticas.

Em 1953, Basbaum, então proprietário de uma pequena fábrica no bairro do Brás, em São Paulo, enfrentava dificuldades financeiras. Desolado com os rumos do PCB, retomou uma antiga ideia concebida na década de 1930. Passou a estudar História de forma sistemática, com o objetivo de levar adiante o projeto de escrita da obra que seria intitulada História sincera da República.

Até 1954, conseguiu concluir o livro em que sistematiza, na perspectiva marxista, a história do período republicano brasileiro. O primeiro volume foi publicado em 1957, mesmo ano em que foi convidado para uma reunião na casa de Calvino Filho, editor e militante comunista. Na ocasião, foi-lhe apresentado um projeto de revista marxista e independente do partido. Após algumas reuniões, veio à luz o primeiro número do periódico Novos Tempos, do qual seriam publicados sete números ao todo.

Em 1958, Basbaum matriculou-se em cursos do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), com o objetivo de ampliar seus conhecimentos em Economia Política — tendo como professores Ignácio Rangel e Michel Debrun — e em Sociologia, disciplina cursada com Guerreiro Ramos. Após algum tempo separado da primeira esposa, casou-se, em 1959, com Eni Basbaum.

No início dos anos 1960, redigiu Caminhos brasileiros para o desenvolvimento, livro organizado durante uma viagem à Europa com a esposa. Escreveu ainda, a partir de anotações dessa viagem, No estranho país dos iugoslavos, publicado em 1962. Nesse mesmo ano, dedicou-se também à Filosofia da História e redigiu Processo evolutivo do Brasil, publicado em 1963.

Em razão do golpe de 1964, interrompeu seu intenso período de produção intelectual e passou a viver na clandestinidade. Partiu, então, para o exílio na Europa, onde concluiu, em 1966, História e consciência social.

Leôncio Basbaum morreu em São Paulo, vítima de um derrame, aos 61 anos, em 1969.

Contribuições ao marxismo

A entrada de Leôncio Basbaum no Partido Comunista do Brasil (PCB), em 1925, ocorreu antes de ele adquirir uma formação marxista sólida. Seu pensamento resultou de múltiplas influências: de um lado, o marxismo de matriz soviética, especialmente de Lênin e Bukharin; de outro, resquícios de uma cultura intelectual positivista ainda dominante na República Velha.

A formação médica também deixou marcas em sua obra: o interesse pela quantificação social, pelo recurso sistemático a dados estatísticos e por analogias com as ciências naturais, o que explica sua constante busca por causalidades mecânicas e regulares nos fenômenos históricos e sociais.

A produção intelectual de Basbaum é vasta e atravessa os campos da História, da Filosofia e da Política. Entretanto, o núcleo de seu pensamento está em sua concepção de revolução e de estrutura social brasileira, formulada com maior clareza no livro A caminho da revolução operária e camponesa (1933).

Nessa obra, seu marxismo aparece sistematizado como uma interpretação da sociedade brasileira a partir das relações de produção, das formas de propriedade e da inserção do país no capitalismo mundial. Para Basbaum, o Brasil era dominado por um bloco “burguês-feudal”, composto por setores agrários e frações burguesas associadas ao imperialismo, embora reconhecesse interesses modernizantes em parte da burguesia.

Suas memórias, publicadas postumamente em 1976, oferecem uma perspectiva marcadamente subjetiva, além de relatarem situações e debates que, por vezes, soam inverossímeis. Ainda assim, o livro tornou-se fonte incontornável para o estudo da vida interna do PCB nas décadas de 1920 e 1930. Apesar de eventuais exageros e do tom ressentido, Basbaum pertence a uma geração que deixou poucos registros sobre o período em que atuou.

Entre os dirigentes do PCB daquela época, praticamente nenhum legou tantos detalhes sobre a luta interna do partido. Isso porque Astrojildo Pereira foi expulso em 1931; Octávio Brandão deixou o Brasil no mesmo ano, rumo à União Soviética; e Luiz Carlos Prestes somente ingressou no PCB em 1934, sendo preso no ano seguinte.

As duas obras-chave do pensamento de Basbaum são A caminho da revolução operária e camponesa (1933), pela natureza de verdadeiro documento de uma época, e História sincera da República, pelo pioneirismo.

É, porém, na primeira que seu marxismo maduro se revela com maior nitidez, como resultado das múltiplas correntes que o influenciaram. Basbaum integrou a pequena comissão responsável pela elaboração da estratégia partidária para o III Congresso do PCB, em 1928, ano da inflexão promovida pela Internacional Comunista (IC), quando a aliança com os social-democratas foi condenada e se adotou a linha de proletarização dos quadros dirigentes (obreirismo) e da política de “classe contra classe”.

Essa orientação levou ao abandono das alianças anteriormente defendidas e ao isolamento político do partido. O III Congresso afastou o PCB de uma participação efetiva na Revolução de 1930 e excluiu do partido o grupo dirigente fundador, em consonância com o Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista (SSA-IC).

Em 1929, o recém-formado SSA-IC lançou a “Carta aberta aos Partidos Comunistas da América Latina sobre os perigos da direita”, aprovada em seguida pelo PCB. Astrojildo Pereira estava em Moscou, e o líder interino do partido era Cristiano Cordeiro. Em abril daquele ano, Paulo de Lacerda assumiu a direção.

Intelectual fluminense e irmão de Fernando e do deputado Maurício de Lacerda, Paulo seria logo substituído por uma direção coletiva da qual participavam seu irmão Fernando e Leôncio Basbaum. Portanto, Basbaum estava fortemente imbuído da linha obreirista da IC e, não por acaso, emprega em seu livro a expressão “social-fascismo”. Isso ajuda a explicar sua permanência no partido por mais tempo do que outros integrantes da primeira geração pecebista.

Até 1928, o PCB buscou estabelecer contatos com a pequena burguesia representada pelos tenentes e apoiou a chamada “terceira revolta” — a primeira fora a dos Dezoito do Forte de Copacabana, e a segunda, a Revolta Paulista de 1924, à qual se seguiu a Coluna Prestes-Miguel Costa.

Com a queda do grupo dirigente de 1928–1930, essa linha passou a ser criticada, e a nova direção recebeu assistência do Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista (SSA-IC). Foi nesse contexto que Basbaum procurou influenciar o debate, oferecendo ao partido uma estratégia de revolução, quando essa elaboração já se encontrava definida pela Internacional Comunista. Evidentemente, buscava adaptar sua proposta aos documentos enviados pelo Birô Sul-Americano.

Para Basbaum, a classe dominante constituía um bloco burguês-feudal. À burguesia interessava integrar o território nacional e expandir o mercado interno por meio dos transportes e de melhorias na agricultura; porém, temia mais as massas do que os latifundiários e, por isso, evitava a revolução. Ao mesmo tempo, entendia que esse bloco feudal-burguês estava subordinado aos capitais inglês, francês e estadunidense.

Esse bloco dividia-se entre os grandes cafeicultores paulistas ligados ao imperialismo britânico, os estancieiros gaúchos, os fazendeiros de café mineiros e outros grupos sociais vinculados ao imperialismo dos Estados Unidos. A expressão dessas divergências internas era a disputa em torno da política de valorização do café.

O Partido Republicano Paulista (PRP) controlava o instituto do café e defendia a política de valorização dos preços. Já o Partido Republicano Mineiro (PRM) se opunha a essa orientação. Basbaum não conseguiu encaixar em seu esquema interpretativo o Partido Democrático (PD), aliado de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. A “Outubrada” — referência à denominada Revolução de 1930, movimento que derrubou o presidente Washington Luís, pôs fim à República Velha e levou Getúlio Vargas ao poder — foi, para ele, apenas mais um golpe militar.

Com base nos números apresentados por Basbaum, pode-se inferir que, embora o volume bruto das exportações de café tenha aumentado 10,85% entre 1927 e 1931, isso não impediu que o valor das exportações brasileiras caísse 44,26%. É dessa crise, inserida no contexto da principal atividade econômica do país, que deriva sua análise das classes sociais brasileiras.

O estudo de Basbaum constitui uma aplicação do materialismo histórico à realidade brasileira, embora compreenda os grupos sociais como meros instrumentos de dois imperialismos em disputa, o britânico e o estadunidense.

Apesar de seu método evolucionista e mecanicista — no qual as partes compõem um mecanismo, e não uma totalidade; as antíteses são formuladas em termos de universais abstratos; e os grupos políticos incidem na História apenas de maneira ocasional —, Basbaum surpreende justamente em um tema que o marxismo conhecido por ele ainda não havia desenvolvido: a questão étnica. Sem recorrer a conceitos previamente estabelecidos, vê-se obrigado a lançar mão da imaginação sociológica. Para ele, no “Brasil não há apenas o choque das classes — há também o das raças e das nacionalidades”.

Na perspectiva materialista histórica de Basbaum — que desafia as teorias do determinismo biológico defendidas por parte das elites intelectuais do início do século XX —, as desigualdades e a marginalização das populações indígena e negra decorriam historicamente da exploração econômica, do regime escravocrata e do desenvolvimento do capitalismo dependente no Brasil, e não de supostas “deficiências raciais”.

Embora Basbaum acompanhasse as formulações da Internacional Comunista (IC) sobre a questão nacional, foi além delas. Conseguiu apreender essa metodologia de maneira criativa e concluiu que o problema do racismo, assim como o das nações oprimidas, não poderia ser simplesmente resolvido após uma revolução socialista; mesmo que houvesse um poder soviético no Brasil, negros e indígenas não seriam emancipados por decreto. Basbaum percebeu que aqueles que mais sofriam preconceito eram os pretos e os pardos de pele mais escura, e observou que São Paulo era uma cidade marcada por forte racismo.

Como exemplo, apontou que os praças eram excluídos da guarda de honra de autoridades estrangeiras em visita ao país, não podiam frequentar determinadas barbearias e cafés, e que pessoas negras eram impedidas de exercer profissões como garçom, barbeiro e caixeiro, além de receberem salários menores pelo mesmo trabalho — embora representassem 40% do proletariado. Da mesma forma, defendeu as religiões de matriz africana.

“Alega-se a inferioridade do negro: é preguiçoso, insolente e analfabeto; os negros não têm cultura própria nem pensamento próprio!”, registra, para concluir que “não há maior mentira”. Em outra passagem, observa que “até a religião do negro é fora da lei”, pois “o branco acha que a religião do negro é feitiçaria”, que “macumba não é religião, mas crime e bruxaria, porque tem certos ritos que os brancos não compreendem”.

Basbaum defendia a autodeterminação da população negra, mas era radicalmente contrário ao movimento negro da época, a Frente Negra Brasileira, no qual identificava semelhanças com as ideias de Marcus Garvey. Quanto aos indígenas, sua posição não poderia ser mais insólita para a época: “mais ainda que a raça negra, o seu ideal é a autodeterminação, a constituição em Estado independente, o direito de habitar e cultivar a terra que lhe seja própria, vivendo de acordo com seus credos e costumes”. Dessa forma, para Basbaum, somente o proletariado poderia ajudar os povos indígenas nessa luta.

Depois dessa incursão original, o marxismo de Basbaum estabilizou-se na forma do marxismo-leninismo soviético. Acompanhando outros intelectuais de sua geração, como Caio Prado Júnior, Eduardo Sucupira e Nelson Werneck Sodré, aprofundou-se na Filosofia.

No fim dos anos 1950, quando deixou o PCB — após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em 1956, e a “Declaração de Março”, de 1958 —, produziu sua obra mais influente: a já mencionada História sincera da República, inspirada em Histoire sincère de la nation française [História sincera da França] (1933), de Charles Seignobos, historiador francês amplamente lido no Brasil durante a Primeira República (1889–1930).

Nela, Basbaum remete-se, do ponto de vista metodológico, às formulações de Stálin em obras como Problemas econômicos da União Soviética (1952), Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico (1938) e Marxismo e problemas da Linguística (1950), além de dialogar com Zhdanov, teórico do realismo socialista, e com o próprio Marx. Entre os autores brasileiros, Caio Prado Júnior é citado.

História sincera da República foi escrita em um processo de franca ruptura pessoal de Basbaum com o PCB, entre 1954 e 1956. Embora irregular, apoiando-se em dados econômicos e em exposição factual construída a partir de outros historiadores, de memórias, de jornais e de revistas, a obra cumpriu papel importante na historiografia, consolidando o autor entre os principais historiadores marxistas brasileiros.

Antes dele, a República já havia sido objeto de sínteses que combinavam aspectos sociais, econômicos e políticos. José Maria Bello e Sertório de Castro figuravam entre os poucos autores que produziram narrativas de grande qualidade sobre a vida política republicana, enquanto Nelson Werneck Sodré ofereceu um marco interpretativo mais amplo da História do Brasil. Depois de Basbaum, surgiu a obra mais importante sobre a República produzida por outro historiador marxista: Edgard Carone.

Nos anos 1970, durante o período mais violento da ditadura militar, História sincera da República serviu como texto de formação política para a juventude do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), permitindo que seus militantes contornassem a censura e tivessem contato com a interpretação crítica de Basbaum sobre a História do Brasil. Materiais educativos, como cartilhas e panfletos baseados em sua obra, foram distribuídos clandestinamente entre jovens militantes como forma de romper com a “História Oficial” ufanista.

Comentário sobre a obra

Leôncio Basbaum não foi apenas um militante que ocasionalmente escrevia, mas um intelectual orgânico cuja produção acompanha e interpreta as vicissitudes do movimento comunista nacional e internacional. Seus textos abrangem os campos da História, da Filosofia e da Política. Suas obras não surgem como exercício acadêmico “puro”, mas como prolongamento reflexivo da militância, da experiência organizativa e das sucessivas derrotas e reorientações do Partido Comunista do Brasil (PCB) ao longo de quatro décadas.

A caminho da revolução operária e camponesa (Rio de Janeiro: Editora Calvino, 1933) foi escrito no calor dos debates internos do PCB e assinado sob o pseudônimo Augusto Machado. O livro constitui um verdadeiro documento de época. Nele, Basbaum busca formular uma estratégia revolucionária para o Brasil, articulando a análise da estrutura de classes, da dependência externa e das possibilidades de aliança entre proletariado, campesinato e setores da burguesia.

É também um testemunho da influência direta da Internacional Comunista (IC) e do chamado marxismo-leninismo em sua forma mais dogmática, ainda que apresente importantes elementos de originalidade.

Após intensa atuação militante nos anos seguintes, publicou, uma década depois, Los fundamentos del materialismo: introducción al estudio de la historia de la filosofía (Buenos Aires: Americalee, 1943). Originalmente lançada na Argentina, a obra saiu também no Brasil no ano seguinte, com o título Fundamentos do materialismo (Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1944).

Nela, Basbaum sistematiza elementos da filosofia marxista, com forte inspiração no marxismo soviético da época. Voltado à formação de quadros militantes, o livro procura expor, em linguagem acessível, as bases do materialismo histórico e do método dialético. Em 1944/1945, ganhou nova edição brasileira pela Pan-America S/A (EPASA). Em 1959, foi novamente publicado com o título Sociologia do materialismo: introdução à história da filosofia (São Paulo: Obelisco).

Sua obra mais conhecida, História sincera da República (São Paulo: Fulgor), foi publicada em quatro volumes: o primeiro em 1957, o segundo em 1958 e os dois últimos em 1962. Nela, propõe uma síntese marxista da história da República, articulando dimensões econômicas, sociais e políticas. Com o objetivo de desmistificar a narrativa oficial das classes dominantes, analisa o protagonismo da luta de classes, dos conflitos econômicos e da dependência externa brasileira.

Embora irregular e baseada em fontes secundárias, memórias, jornais e revistas, a obra preencheu um vazio interpretativo em sua época. Antes de Basbaum, a República raramente havia sido objeto de sínteses orgânicas que combinassem economia, sociedade e política. O livro exerceu influência significativa até ser superado, em termos de documentação e detalhamento, por trabalhos posteriores, como os de Edgard Carone.

Outra obra dedicada à análise da sociedade brasileira é Caminhos brasileiros do desenvolvimento (São Paulo: Fulgor, 1960). Redigido ao longo dos anos 1950, o texto articula sociologia histórica e economia política, examinando as vias possíveis de desenvolvimento capitalista no Brasil. Reflete o impacto dos debates travados no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e a influência de autores como Ignácio Rangel e Guerreiro Ramos, com quem Basbaum teve contato ao frequentar cursos da instituição.

Como resultado das anotações de uma viagem realizada com a esposa, Basbaum publicou No estranho país dos iugoslavos (São Paulo: Edaglit, 1962), livro que reúne o relato da viagem e reflexões políticas sobre a experiência iugoslava, registrando o olhar de um marxista formado na tradição soviética diante de um modelo socialista heterodoxo, indicando tentativas de diálogo com outras experiências e caminhos do socialismo.

Já afastado do PCB, publicou, ao longo dos anos 1960, Processo evolutivo da História: apontamentos críticos à filosofia da história e à sociologia (São Paulo: Edaglit, 1963), síntese de filosofia da história aplicada ao caso brasileiro, na qual procura compreender a formação histórica do país em uma perspectiva evolutiva, articulando economia, política, classes sociais e problemas nacionais.

Pouco depois, lançou História e consciência social: das conexões entre a psicologia, a sociologia e a história (São Paulo: Fulgor, 1967), obra em que aborda a formação da consciência e o comportamento das massas, investigando como a psicologia coletiva pode influenciar o rumo dos processos históricos.

Também de 1967 é Alienação e humanismo (São Paulo: [s.n.], 1967), em que apresenta uma reflexão filosófica sobre a condição humana no capitalismo, retomando categorias como alienação, trabalho, humanismo e emancipação.

Com sua morte prematura, em 1969, Uma vida em seis tempos: memórias foi publicado postumamente, em 1976 (São Paulo: Alfa-Omega). Organizada segundo os diferentes “tempos” de sua trajetória — desde o “tempo dos sonhos” (infância e juventude, antes da entrada no PCB) até o “tempo da afirmação como escritor” —, a obra constitui fonte de primeira ordem para o estudo da vida interna do Partido Comunista, especialmente nas décadas de 1920 e 1930.

Mais do que uma autobiografia, trata-se de um testemunho histórico e crítico que revela diversos conflitos internos vividos pelo PCB. O tom ressentido e a tendência do autor de sobrevalorizar sua própria atuação não diminuem o valor documental da obra, sobretudo diante da escassez de relatos tão detalhados deixados por dirigentes e militantes daquela primeira geração.

A essas obras somam-se inúmeros artigos, panfletos, colaborações em jornais e a participação na revista Novos Tempos, de orientação marxista e independente do PCB, que publicou sete edições. Seus escritos podem ser encontrados em portais como Traduagindo e Marxists.

Bibliografia de referência

ALVES JUNIOR, Paulo. Anais do XXX Simpósio Nacional de História – ANPUH. Recife, jul. 2019.

BASBAUM, Hersch W. Cartas ao Comitê Central: história sincera de um sonhador. São Paulo: Discurso Editorial, 1999.

FARIA, Helena. “Basbaum, Leôncio”. In: CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, [s.d.]. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br.

JESUS, Geferson Santana de. Os intelectuais comunistas e as questões raciais no Brasil. Tese (Doutorado em História Econômica) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. Disponível em: https://teses.usp.br.

KAREPOVS, Dainis. “A nação e a juventude comunista do Brasil”. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, jul. 2011.

LOVATO, Angelica. “Seis tempos de uma vida: apontamentos sobre a biografia política de Leôncio Basbaum”. Novos Rumos, Marília (SP), jun. 2016. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br.

MARASCHIN, Hudson. A juventude do MDB (JMDB): entre a resistência e a consolidação institucional (1974-1979/1982). Tese (Doutorado em História) — Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2023. Disponível em: https://udesc.br.

PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. Caminhos da Revolução (1929-1935). Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1995.

SILVA, Gilberto da. “História sincera da República: Leôncio Basbaum, um intérprete do Brasil na periferia do PCB”. In: Simpósio Nacional de História – Anais da ANPUH. Recife, 2019. Disponível em: https://www.snh2019.anpuh.org.

SILVA, Renan Somogyi Rodrigues da. “Basbaum, Leôncio”. In: Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Buenos Aires: Cedinci, 2022.


Notas editoriais

Com edição de texto de Yuri Martins-Fontes e Joana Coutinho, e ilustração de Felipe Santos Deveza, este artigo foi originalmente publicado no portal do Núcleo Práxis-USP, como um dos verbetes do Dicionário marxismo na América. Permite-se sua reprodução, sem fins comerciais, desde que citada a fonte e que seu conteúdo não seja alterado. Sugestões podem ser enviadas para: editoria@nucleopraxisusp.org


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Lincoln Secco
Paulo Alves Junior Paulo Alves Junior é professor de História do Instituto de Humanidades e Letras

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