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O novo front de Israel: controlar o que o mundo — e a inteligência artificial — dirão sobre a Palestina

Enquanto cresce a rejeição internacional a Israel, o governo amplia investimentos em diplomacia pública, inteligência artificial e campanhas digitais para influenciar como a história e o presente da Palestina serão narrados

Jaldía Abubakra
El Salto
Madrid

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

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Há uma batalha que não se trava com aviões, drones nem soldados. Não tem fronteiras claramente delimitadas e, no entanto, atravessa continentes. É travada nas telas de nossos celulares, nas universidades, na grande mídia, nas igrejas evangélicas, nos parlamentos e, cada vez mais, nesse território aparentemente invisível onde algoritmos e inteligência artificial intervêm em nossa maneira de acessar o conhecimento.

Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu leaves a note in… — PICRYL -  Public Domain Media Search EngineO próprio aparato israelense começou a tratá-la como uma frente estratégica. Benjamin Netanyahu apresentou-a como a “Oitava Frente”: a batalha pelos “corações e mentes”, com especial atenção para a juventude ocidental e setores conservadores dos Estados Unidos.

ONU: Israel matou 20 mil crianças em Gaza; menores presos sofreram tortura e violência sexual

Quando um Estado transforma a opinião pública em uma frente de guerra, está reconhecendo que as palavras, as imagens e a interpretação da realidade adquiriram para ele um valor estratégico.

O governo israelense destinou mais de um bilhão de dólares à diplomacia pública desde outubro de 2023

Não estamos falando simplesmente de campanhas publicitárias nem da velha hasbara adaptada ao TikTok.

Falamos de uma infraestrutura internacional de influência que combina empresas de comunicação, campanhas digitais, delegações políticas, jornalistas, criadores de conteúdo e influencers, e que começa a estender-se para um terreno muito mais profundo: o entorno informativo de que se alimentam buscadores e sistemas de inteligência artificial.

Uma investigação publicada em julho de 2026 pelo Quince Institute for Responsivel Statecraft, baseada em registros da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos —FARA— e documentos de contratação pública israelenses, calcula que o governo israelense destinou mais de um bilhão de dólares a diplomacia pública desde outubro de 2023.

Desde então, mais de 100 milhões de dólares foram destinados a atividades de influência israelense declaradas sob FARA e 17 novas empresas se registraram entre 2024 e 2025 para trabalhar a favor de interesses israelenses. Para 2026 propôs, ademais, um orçamento de uns 750 milhões de dólares para diplomacia pública, aproximadamente quatro vezes o do ano anterior, segundo se explica no informe do Quince Institute. Neste contexto, talvez a pergunta mais interessante que devamos fazer-nos não seja quanto dinheiro está gastando Israel com tudo isto, e sim porque necessita gastá-lo agora.

As opiniões desfavoráveis em relação a Israel estão aumentando

Durante décadas, Israel desfrutou de uma posição excepcional em boa parte do Ocidente e não necessitava convencer desde zero. Governos, grandes meios de comunicação, instituições culturais e acadêmicas reproduziram os marcos desde os quais devia entender-se a Palestina. A colonização se transformava em “conflito”, a ocupação desaparecia atrás da “segurança” e a resistência palestina era separada das condições históricas que a tinham produzido. Cada nova agressão começava informativamente quando Israel decidia responder, como se todo o anterior pertencesse a outra história.

O que aconteceu depois em Gaza produziu algo que não fora previsto em toda a sua dimensão: milhões de pessoas começaram a observar, quase em tempo real, aquilo que durante décadas tinha sido filtrado, fragmentado ou explicado por intermediários

O 7 de outubro de 2023 não criou essa máquina narrativa. Existia desde muito antes. Mas o que aconteceu depois em Gaza provocou algo que não fora previsto em toda a sua dimensão: milhões de pessoas começaram a observar, quase em tempo real, aquilo que durante décadas fora filtrado, fragmentado ou explicado por intermediários.

Jornalistas palestinos, famílias, médicos e habitantes de Gaza mostraram diretamente ao mundo bairros destruídos, hospitais atacados, deslocamentos em massa, fome, meninos e meninas assassinados e famílias inteiras apagadas do registro civil. Então apareceu um problema muito mais difícil de resolver mediante relações públicas. Já não se tratava apenas de decidir o que contar sobre a Palestina, mas de convencer milhões de pessoas de que aquilo que tinham visto devia ser interpretado de outra maneira.

Os dados permitem observar esta ruptura. Em fevereiro de 2026, a Gallup registrou pela primeira vez que a simpatia da população estadunidense para com os palestinos superava a expressa em relação aos israelenses: 41% a 36%. Entre as pessoas de 35 a 54 anos, a diferença chegava a 46% a 28%. O Pew Research Center registrou ainda que entre os republicanos de 18 a 49 anos 57% tinha uma opinião desfavorável a Israel.

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Mikel Bejarano

Não surpreende que jovens, conservadores e evangélicos apareçam entre os públicos prioritários das novas campanhas.

A documentação examinada pelo Quince Institute inclui uma campanha de 3,2 milhões de dólares dirigida a cristãos evangélicos e outra destinada a recrutar influencers com menos de 30 anos para alcançar audiências conservadoras de Instagram e TikTok.

A batalha consiste também em impedir que continue se erodindo o consenso que manteve durante décadas a relação especial entre Washington e Israel.

Enquanto amplos setores das sociedades europeias se afastam de Israel, numerosos governos mantêm estreitas relações militares, econômicas, tecnológicas, científicas e diplomáticas com o Estado israelense

Os Estados Unidos não são uma exceção. Em 2026, uma pesquisa do Pew Research Center realizada em 36 países registrou uma média de 67% de opiniões desfavoráveis a Israel, frente a 25% favoráveis. Em todos os países europeus incluídos predominavam as opiniões negativas. Na Espanha chegavam a 96% entre aqueles que se situavam à esquerda, mas também 66% entre quem se identificava com a direita.

Aqui aparece uma contradição cada vez mais visível: enquanto amplos setores das sociedades europeias se afastam de Israel, numerosos governos mantêm estreitas relações militares, econômicas, tecnológicas, científicas e diplomáticas com o Estado israelense. Por isso a batalha pela opinião pública não busca unicamente melhorar pesquisas, mas evitar que a rejeição social termine tornando-se força política: embargos de armas, sanções, rupturas institucionais, boicote ou questionamentos da impunidade israelense.

A mesma disputa atravessa a América Latina. Em 2026, as opiniões desfavoráveis sobre Israel superavam 50% em países como Chile, México, Colômbia, Argentina e Brasil, segundo o Pew Research Center. Precisamente porque a Palestina conserva um enorme capital histórico de solidariedade na região, Israel e organizações que trabalham para estreitar suas relações com ela buscam chegar não só a governos, mas também a parlamentos, empresários, mídia, jornalistas, criadores de conteúdo e setores religiosos.

Nem todas estas iniciativas são financiadas diretamente pelo Estado israelense nem fazem parte de uma única estrutura centralizada. Existem fundações, organizações aliadas, redes empresariais, atores políticos e movimentos religiosos com autonomia

Neste mês de junho passado, Leah Soibel, fundadora da Fonte Latina, afirmava que sua organização levara a Israel a 300 jornalistas de fala espanhola não judeus e falou abertamente em trabalhar com jornalistas, influencers e criadores latino-americanos, segundo documentava Genesis Prize Foundation. A tanto se somam iniciativas como os Acordos de Isaac, concebidos para ampliar as relações de Israel com a América Latina e para os quais se anunciou um investimento inicial de um milhão de dólares.

Nem todas estas iniciativas são financiadas diretamente pelo Estado israelense nem fazem parte de uma única estrutura centralizada. Existem fundações, organizações aliadas, redes empresariais, atores políticos e movimentos religiosos com autonomia. Mas essa diversidade mostra uma ampla rede internacional de atores e interesses capaz de estender a influência muito além das embaixadas. As redes do sionismo cristão desempenham aqui um papel especialmente importante.

Aproximar-se dos países árabes

No mundo árabe a estratégia adota outras formas. Israel está há anos desenvolvendo uma diplomacia digital especificamente em língua árabe. Constrói um relato próprio: Israel como Estado moderno e disposto a viver em paz; a Palestina reduzida a um problema de segurança; a resistência transformada em responsável por guerras produzidas por décadas de colonização; e a normalização apresentada como porta para a estabilidade. A própria Knesset informou sobre campanhas que alcançaram cerca de 858 milhões de visualizações em meios digitais em árabe.

Há uma lição que décadas de acordos não conseguiram apagar: podem normalizar-se relações entre governos sem normalizar a consciência dos povos

No entanto, quando passamos das telas para as sociedades aparece outra realidade. Arab Barometer detectou que, depois do 7 de outubro de 2023, em nenhum dos sete países árabes estudados a população que apoiava a normalização com Israel superava 13%. No Marrocos, o apoio caiu de 31% a 13%. O Arab Opinion Index registrou ainda que 89% rejeitavam que seus países reconhecessem Israel e que 92% consideravam a causa palestina uma questão de todos os árabes e não somente dos palestinos. Há uma lição que décadas de acordos não conseguiram apagar: podem normalizar-se relações entre governos sem normalizar a consciência dos povos.

A “Oitava Frente”, no entanto, olha também para o futuro. E aí aparece a inteligência artificial: em maio de 2024, OpenAI informou que havia interrompido várias operações encobertas de influência que utilizavam seus modelos. Uma estava vinculada à STOIC, uma empresa comercial israelense, que empregara ferramentas de inteligência artificial para gerar artigos e comentários divulgados posteriormente em distintas plataformas. OpenAI indicou, no entanto, que não encontrara provas de que seus modelos tivessem aumentado significativamente o alcance daquela operação.

Se milhões de pessoas utilizam sistemas de IA para compreender a história e o presente, influir sobre as fontes e os conteúdos que compõem o entorno informativo torna-se também uma batalha pelo conhecimento do futuro

O Quince Institute documenta ainda um contrato israelense com Clock Tower X que inclui a criação de páginas web e conteúdos orientados a influir na forma como os sistemas generativos recuperam e apresentam informação, buscando determinados enquadramentos em conversações com sistemas GPT e uma maior presença de certos conteúdos em buscadores.

Isto não significa que Israel controle ChatGPT nem nenhum outro sistema de inteligência artificial. A questão é diferente e provavelmente mais importante a longo prazo. Se milhões de pessoas utilizam sistemas de IA para compreender a história e o presente, influir sobre as fontes e os conteúdos que compõem o entorno informativo torna-se também uma batalha pelo conhecimento do futuro.

Está em jogo o espaço de que dependerão as respostas que amanhã receberemos quando perguntarmos o que aconteceu em Gaza, o que é o sionismo, quando começou a colonização da Palestina ou porque existe a resistência palestina.

Aqui qualquer pessoa que leia este artigo tem também uma responsabilidade: aprender a reconhecer como funciona a propaganda. A mais eficaz raras vezes necessita inventar tudo; basta-lhe decidir onde começa a história, que palavras utilizar e o que não se encaixa.

A necessidade de recuperar o relato palestino

Quando ouvimos que “Israel se defende”, convém perguntar: em que momento começa a história que nos contam? Quando se fala de “conflito israelense-palestino”, por que uma realidade de colonização, ocupação e enorme desigualdade de poder é apresentada como um enfrentamento entre iguais? Por que desaparecem a ocupação e o domínio colonial, como se a resistência palestina tivesse nascido do nada?

O mesmo acontece quando se fala da “única democracia do Oriente Médio” — esta última uma denominação geográfica colonial que deveria ser substituída por Ásia Ocidental —. Democracia para quem? Onde ficam os milhões de palestinos submetidos a ocupação, bloqueio, deslocamento, discriminação e regimes jurídicos profundamente desiguais?

A propaganda perde parte de seu poder quando deixamos de discutir dentro das palavras que ela mesma escolheu. Mas sua máquina segue sendo poderosa: bilhões de dólares compram campanhas, acesso político, produção audiovisual, influencers, consultores e tecnologia, sem contar grandes organizações estadunidenses favoráveis a Israel que não recebem financiamento do governo israelense, como a AIPAC.

Desde os Acordos de Oslo (1993 e 1995), uma parte importante do discurso oficial palestino foi deslocando a linguagem da libertação para a do “processo de paz”

Esta máquina pode contribuir para criminalizar organizações, pressionar universidades, condicionar debates e perseguir a solidariedade com a Palestina. Conhecê-la e expô-la não é uma tarefa exclusivamente da população palestina, mas de todas aquelas pessoas que queiram saber quem tenta condicionar o que vê, lê e como interpreta o mundo.

A tudo isso se soma uma questão que poucas vezes se reconhece fora da Palestina. Desde os Acordos de Oslo (1993 e 1995), uma parte importante do discurso oficial palestino foi deslocando a linguagem da libertação para a do “processo de paz”, a negociação permanente e a construção de um Estado em uma parte do território.

A Palestina ficou cada vez mais reduzida à Cisjordânia e Gaza, relegando aos refugiados o direito ao retorno e aos palestinos dos territórios ocupados em 1948, enquanto a questão colonial cedia espaço à linguagem do “conflito”, da gestão e da diplomacia.

Recuperar o relato palestino exige superar também esses limites. A Palestina não é uma Autoridade nem um território administrado: é Gaza, Jerusalém, Cisjordânia, as cidades e aldeias palestinas ocupadas em 1948, os campos de refugiados e a diáspora. É uma terra, um povo e uma história que a fragmentação não conseguiu converter em causas diferentes. Recuperar o relato palestino significa também reivindicar o direito de um povo de definir o que significa libertar-se, quais são seus direitos inalienáveis e que futuro reclama.

Para compreender a Palestina é preciso abandonar dois filtros: deixar de olhar para ela unicamente a través do relato sionista e deixar de encerrá-la nos limites que décadas de negociação e diplomacia oficial impuseram sobre a própria questão palestina; porque a Palestina não começou com a criação do Estado de Israel nem pode ser reduzida a uma sucessão de agressões e respostas.

Antes da Nakba havia cidades, povoados, escolas, jornais, sindicatos, associações de mulheres e uma sociedade que já enfrentava a colonização. Depois houve campos de refugiados transformados em espaços de organização, gerações que preservaram as chaves e os nomes de suas aldeias, presos que escreveram na prisão e uma cultura que atravessou fronteiras sem abandonar a ideia do retorno.

Conhecer esta história é romper uma das formas mais persistentes do colonialismo: reduzir um povo àquilo que seu colonizador diz dele. Significa recuperar arquivos e vozes silenciadas, inclusive as de gerações que nasceram longe das aldeias de suas famílias e seguiram transmitindo seus nomes. Deixar de perguntar somente o que faz Israel e perguntar-nos também quem são os palestinos, que memória conservam e que futuro reclamam. Mais de um bilhão de dólares podem ser lidos também como a medida do problema que Israel tenta resolver.

Frente a um povo que utiliza uma quantidade extraordinária de dinheiro, a tecnologia e o poder, a resposta não pode ser construir uma propaganda mais eficaz, mas investigar, contrastar, ouvir as vozes que o poder tenta silenciar e preservar a memória

Durante décadas, o sionismo conseguiu que uma parte considerável do mundo ocidental discutisse a Palestina dentro de limites previamente estabelecidos. Hoje esta relação começa a mostrar fissuras. Gaza abriu uma das mais profundas. Não porque os palestinos tenham descoberto como contar sua história, mas porque milhões de pessoas viram demais: meninos e meninas assassinados, médicos sem meios, jornalistas assassinados, famílias deslocadas e pessoas buscando comida. Mas também viram um povo que, em meio ao genocídio, continua ensinando, estudando, cuidando e aferrando-se obstinadamente à vida.

Frente a um povo que utiliza uma quantidade extraordinária de dinheiro, a tecnologia e o poder, a resposta não pode ser construir uma propaganda mais eficaz, mas investigar, contrastar, ouvir as vozes que o poder tenta silenciar e preservar a memória. Não se trata de viver respondendo a Israel, mas de devolver o centro à Palestina: sua história, seu povo, sua resistência, sua memória e seu futuro. Porque esta batalha também se trava sobre as palavras e o conhecimento, e não pertence somente aos palestinos: interpela qualquer um que acredite que não se devem silenciar a verdade, a memória dos povos nem seu direito a contar sua própria história.

Israel pode comprar campanhas, contratar empresas, financiar influencers e produzir milhões de conteúdos. Pode tentar ocupar cada nova tecnologia que transforme nossa maneira de acessar a informação. Mas há algo muito mais difícil de apagar.

Depois de Gaza, a batalha já não consiste somente em conseguir que o mundo olhe para a Palestina. Consiste em impedir que, depois de tê-la visto, alguém volte a convencê-lo de que não viu o que viu. E também em aprender, por fim, a olhar a Palestina sem precisar que Israel — nem aqueles que durante décadas administraram os limites do possível — nos digam o que estamos vendo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Jaldía Abubakra Jornalista e colaboradora do portal El Salto.

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