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Diálogos do Sul Global

O silêncio diante do estupro também é violência

Os números recordes da violência sexual no Brasil revelam a ausência do Estado na proteção da infância e das mulheres, expondo uma tragédia cotidiana marcada pelo silêncio, pela impunidade e pela omissão social

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2025, o Brasil registrou em 2024 o maior número de estupros da série histórica: foram 87.545 casos oficialmente contabilizados, o equivalente a 240 estupros por dia, dez por hora e uma vítima a cada seis minutos. A maior parte das vítimas é formada por crianças e adolescentes menores de 14 anos. E o mais grave: a maioria dos crimes acontece dentro de casa, praticada por familiares, parceiros ou pessoas próximas da vítima.

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Estamos diante de uma epidemia de violência sexual naturalizada pela sociedade e agravada pela ausência do Estado.

Quando se observa que quase metade dos estupros é cometida por familiares, percebe-se que não se trata apenas de um caso policial. É um problema estrutural, social, cultural e político. É a falência da proteção à infância e à mulher.

O Estado brasileiro chega tarde ou simplesmente não chega.

Falta presença do Estado na educação, na assistência social, na saúde mental, no acompanhamento de famílias vulneráveis e na segurança pública. Falta prevenção. Falta orientação nas escolas. Falta acolhimento às vítimas. Falta estrutura policial especializada. Falta investigação eficiente. Falta punição rápida.

A ausência de políticas públicas permanentes cria um ambiente favorável à repetição da barbárie.

Muitos setores conservadores combatem qualquer debate sobre educação sexual nas escolas, como se informar e orientar crianças e adolescentes fosse uma ameaça. Mas é justamente o contrário: educação protege. Informação protege. Crianças precisam aprender desde cedo a identificar abusos, reconhecer situações de violência e denunciar.

Sem isso, prevalece a lei do silêncio.

E o silêncio é cúmplice.

Juventude sob violência: um retrato alarmante do abuso sexual no Brasil

O estupro destrói vidas, traumatiza famílias inteiras e deixa marcas profundas que acompanham as vítimas por décadas. Uma sociedade que tolera isso como rotina adoeceu moralmente.

Não basta endurecer penas depois do crime consumado. É preciso impedir que o crime aconteça. Isso exige Estado presente, escola forte, assistência social ativa, proteção às mulheres e às crianças, além de investimento pesado em prevenção e inteligência policial.

Uma nação que não consegue proteger suas crianças perdeu parte de sua humanidade.

O combate ao estupro não pode ser tratado como tema secundário ou disputa ideológica. Trata-se de civilização.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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