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Em muitos casos, os nomes das cidades brasileiras nascem de situações prosaicas, como uma fazenda, um rio, uma piada local, uma expressão indígena, uma devoção religiosa. (Imagem: Captura de tela / Google Maps)

Frei Betto | Varre-Sai, Passa-e-Fica, Fartura: humor, cultura e poesia nas cidades brasileiras

Longe de serem apenas curiosidades, os nomes das cidades ao longo de todo o Brasil revelam a profunda relação entre língua e território

Frei Betto
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O Brasil é um país de vastidões geográficas, culturais e linguísticas. E talvez em nenhum outro aspecto essa diversidade se revele de maneira tão pitoresca quanto na toponímia, ou seja, na arte de batizar lugares. O mapa brasileiro é um inventário de nomes que despertam curiosidade, humor e poesia. Há cidades que parecem verbos, expressões populares, promessas ou até avisos. Entre as mais conhecidas, duas se destacam pelo exotismo e pelo sabor regional: Varre-Sai, no noroeste do Rio de Janeiro, e Passa-e-Fica, no agreste do Rio Grande do Norte.

Esses nomes, que soam quase como ordens ou provérbios, carregam histórias que misturam anedotas, cultura popular e o modo bem brasileiro de lidar com a linguagem cheia de graça, oralidade e criatividade.

Situada na divisa com Minas Gerais e o Espírito Santo, Varre-Sai é uma pequena cidade de cerca de dez mil habitantes, conhecida pela produção de café de montanha. O nome curioso, segundo a tradição oral, teria surgido de um fenômeno natural: os ventos fortes que varriam a região antes da chegada dos primeiros colonos italianos.

Reza a lenda que tropeiros e viajantes, ao passarem pelo local, diziam que ali “o vento varria e saía levando tudo”. Daí a expressão “Varre-Sai”, que acabou fixada como nome do povoado e, mais tarde, do município, emancipado em 1991.

Mas há quem veja também na denominação um traço de humor popular: o verbo “varrer”, associado ao movimento do vento e à limpeza da terra, carrega uma ironia involuntária, como se o lugar estivesse sempre pronto para “varrer o que chega e deixar sair o que vai”. 

A cerca de 100 km de Natal, Passa-e-Fica é outro exemplo notável da imaginação popular aplicada aos mapas. Fundada no início do século 20, a cidade nasceu como ponto de parada para tropeiros e comerciantes que cruzavam o interior potiguar.

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Conta-se que, ao abrigo das serras, havia uma fazenda onde os viajantes costumavam descansar. Certa vez, um deles teria dito ao dono: “Vou só passar”. O anfitrião, hospitaleiro, respondeu: “Pois passa e fica!”. A expressão pegou. E quando o povoado cresceu e virou município, o nome já estava consolidado. Passa-e-Fica é síntese perfeita do acolhimento nordestino e do humor de quem transforma uma conversa casual em identidade coletiva.

O curioso é que o nome encerra uma contradição: passar e ficar são ações opostas. Mas a linguagem popular é mestra em conciliar opostos. Em Passa-e-Fica, o paradoxo se torna convite, pois quem passa, fica; quem fica, quer passar adiante a história.

Casos como esses não são isolados. O Brasil está repleto de nomes de municípios que poderiam figurar em um livro de poesia ou repertório de ditados: Pau dos Ferros (RN), Não-Me-Toque (RS), Vai-Vem (BA), Espera Feliz (MG), Rodeio Bonito (RS), Fartura (SP), Bom Jesus do Galho (MG), entre centenas de outros.

Esses nomes, longe de serem apenas curiosidades, revelam a profunda relação entre língua e território. Em muitos casos, nasceram de situações prosaicas, como uma fazenda, um rio, uma piada local, uma expressão indígena, uma devoção religiosa. Ao serem fixados como topônimos, porém, ganham peso simbólico ao transformar a fala do povo em história oficial.

Pórtico de Espera Feliz, município localizado no sudeste do estado de Minas Gerais. (Imagem: Captura de tela / Google Maps)

O geógrafo Milton Santos dizia que o território é também um “sistema de significados”. Nomes como Varre-Sai e Passa-e-Fica são, assim, mais que palavras no mapa, são narrativas condensadas, pedaços da memória oral transformados em geografia.

Há quem veja nesses nomes apenas exotismo ou folclore. Mas também expressam uma sabedoria discreta, uma ironia diante da vida. Espera Feliz, por exemplo, parece um conselho; Riachão das Neves, uma constatação; Não-Me-Toque, um aviso que, segundo alguns, teria origem em uma briga entre vizinhos.

Já Passa-e-Fica e Varre-Sai lembram que o Brasil interiorano vive de movimento, de idas e vindas, de ventos e estradas, de gente que passa, mas deixa um traço, e de lugares que varrem a poeira do tempo, mas preservam a memória.

Estudar os nomes dos municípios é também estudar o país. O Atlas Toponímico do Brasil, projeto da Universidade de São Paulo, mostra que a maioria dos topônimos brasileiros tem origem na natureza (rios, serras, plantas, animais), como o próprio nome Brasil, oriundo de vegetal, a árvore Pau-Brasil, ou em referências religiosas. Mas há um grupo notável de nomes de origem popular, fruto da oralidade e da cultura sertaneja que dá ao mapa brasileiro um tom de crônica viva.

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Cada nome curioso é um microconto. Varre-Sai fala do vento; Passa-e-Fica, da hospitalidade; Fartura, da esperança; Espera Feliz, do otimismo; Não-Me-Toque, da prudência. São expressões de uma imaginação coletiva que transforma o cotidiano em história e o território em poesia.

Outros nomes curiosos em nosso mapa: Choró (CE), deriva do choro dos índios expulsos de suas terras; Trombudo (SC), vem de um rio sinuoso, “trombudo” como uma tromba; Ressaquinha (MG), provável referência à ressaca de um rio ou, quem sabe, de seus habitantes… Xique-Xique (BA), nome de um cacto típico do sertão; Buriti Bravo (MA), buriti é palmeira e bravo, uma forma de marcar sua resistência; Pau Grande (RJ), terra do lendário Garrincha, jogador do Botafogo, tem este nome herdado da árvore monumental de uma antiga fazenda; e Curralinho (PA), diminutivo carinhoso que lembra o tempo dos currais e da pecuária ribeirinha.

Nosso mapa é um mosaico onde o humor, a natureza e a história popular se misturam.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

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