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Montagem: Diálogos do Sul Global

Papa Francisco e futebol: entenda como pontífice se envolveu na defesa de um clube punk antifascista em Roma

Ao lado de jovens antifascistas, Papa Francisco interveio contra a especulação imobiliária para salvar o campo de futebol do clube popular Atletico San Lorenzo em Roma — e reafirmou seu compromisso com as periferias

Bruno Carvalho
AbrilAbril
Lisboa

Tradução:

Em 2013, um grupo de amigos bebia cerveja e ouvia punk no mítico Sally Brown, no bairro de San Lorenzo, em Roma, enquanto discutia a criação de um novo clube de futebol. Contestavam a financeirização do esporte, a lavagem de dinheiro e a distância cada vez maior entre os torcedores e os clubes, geridos com uma lógica cada vez mais empresarial.

Foi então, entre várias conversas em bares e livrarias de esquerda, que decidiram fundar o c, associação esportiva que leva o nome do bairro romano. Pegaram as cores do West Ham United e a iconografia skinhead antifascista e lançaram o projeto.

Naquele mesmo ano de 2013, quando nasceu o Atletico San Lorenzo, chegava a Roma um novo Papa. Jorge Mario Bergoglio, sócio número 88235 do Atletico San Lorenzo de Almagro, clube de Buenos Aires, passou a se chamar Francisco. Fervoroso torcedor de futebol, chegou a receber das mãos de Diego Armando Maradona, no Vaticano, uma camisa da seleção argentina.

Mas em 2021, o campo de futebol onde treinava e jogava o Atletico San Lorenzo, em Roma, passou a correr risco. No terreno, que pertence a uma fundação católica, estava previsto um campo de padel e um estacionamento.

A notícia caiu como uma bomba no bairro. A mobilização foi imediata para evitar o fim do único espaço disponível para a associação esportiva. Conhecendo a paixão do pontífice pelo futebol — e sendo ele torcedor fervoroso de um clube com o mesmo nome — decidiram entrar em contato com Francisco.

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Montagem: Diálogos do Sul Global com imagens de reprodução

Havia anos, trabalhava no Vaticano um velho skinhead antifascista que poderia ser a ponte. Em um dos momentos mais difíceis da vida, esse trabalhador perdeu a esposa em um afogamento e recebeu um telefonema do próprio Papa, que fez questão de lhe ligar pessoalmente para dar os pêsames. Muitas vezes, Francisco aparecia para almoçar com os trabalhadores na cantina do Vaticano. Foi esse funcionário quem possibilitou o contato com o pontífice.

Dias depois, saiu a manchete na imprensa: “Neste campo não se mexe”. Por meio de uma carta pública, assinada por Edgar Peña Parra, da Secretaria de Estado do Vaticano, Papa Francisco se opôs à decisão da Fundação Cavalieri di Colombo e manifestou apoio ao projeto do Atletico San Lorenzo, que tem como missão levar o esporte às classes populares.

Como resposta, Valentina Cittadini, vice-presidenta do clube, agradeceu as palavras do Papa e pediu ainda a remoção das barreiras que existiam no acesso ao campo:

“Depois de quase dois meses de mobilização, esta carta nos dá esperança, porque capta o sentido da nossa causa e, de certa forma, a apoia. Pedimos também a remoção imediata das barreiras do campo de futebol. Se não forem retiradas em uma semana, nós resolveremos o assunto.”
E resolveram.

Em poucos  dias, Papa Francisco será sepultado não nas Grutas do Vaticano, onde estão muitos túmulos papais, mas na Basílica de Santa Maria Maior — não muito distante do campo onde joga o Atletico San Lorenzo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Bruno Carvalho

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