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“Parem de nos matar”: sobre a dor da morte de Marcus Vinicius e a necropolítica no Brasil

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Marcus Vinicius da Silva foi baleado durante operação da Polícia Civil no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. (Foto: Agência Brasil)

No governo golpista de Michel Temer, em fevereiro do corrente ano tivemos, via medida provisória Nº 821, publicada no Diário Oficial da União no dia 27 de fevereiro de 2018 a criação do Ministério da Segurança Pública. A nova pasta tinha por objetivo, a integração das ações governamentais na área do combate à violência.

Suelen Aires Gonçalves*, no Sul21

Um dos pontos sensíveis neste momento histórico é a Intervenção Militar no RJ, determinada via decreto em 16 de fevereiro. O que tais medidas tem em comum? A política de produção de “segurança”, além, de promoção da popularidade do Presidente Golpista em avançar em uma pauta sensível para a população. Sobre tais aspectos, não obtiverem avanço. Temer amarga taxas baixíssimas de popularidade “entre aqueles que ocuparam a Presidência da República do período pós-redemocratização em nosso país, para fins de registro histórico.

Neste momento da escrita, gostaria de dar atenção a intervenção no RJ, sua militarização e seu uso como laboratório de intervenção com possibilidades reais de se “espraiar” pelo país como diria Olívio Dutra. A intervenção foi decretada logo após o carnaval, em tese, tem seu término no final do ano. Tem em seu comando, o general Walter Braga Netto. Ou seja, outro momento de reflexão, militares com tarefas na segurança pública? Com qual organização, planejamento e recurso essas ações estão sendo construídas? A formula é antiga e as respostas também. Vamos combater a violência, os grupos criminosos. Mas com qual inteligência, com qual estratégia?

Neste processo de intervenção militar do RJ, a militarização da vida cotidiana, fez inúmeras vítimas. Nesta triste estatística, tivemos em março, a morte da vereadora Mariele Franco e Anderson Gomes. Em abril, encontra-se os casos dos cinco jovens assassinados em Maricá, em um residencial do programa “Minha casa, minha vida” e uma ação de retaliação na Rocinha, com a morte de oito pessoas por conta de uma morte de um PM da UPP da citada favela.

Nossa dor só aumenta e nestes últimos dias a dor torna-se insuportável. O caso do menino Marcus Vinícius, de 14 anos, que foi morto no complexo da Maré no Rio de Janeiro, com um tiro de fuzil, na quarta-feira (20) é a síntese de um estado genocida contra a população pobre e negra neste país. Confesso que este último assassinato tirou meus pés do chão e inúmeros sentimentos foram aflorando após a triste notícia- raiva, impotência, desespero e dor. Marcus, uma criança negra, estava a caminho da sua escola e teve sua vida ceifada por um aparato estatal preparado para matar.

Como diria Achille Mbembe, com sua obra “Necropolítica”, que nos apresenta o conceito, título da obra, que seria a produção da morte, segundo o autor uma ação política centralizada na produção da morte em larga escala. (MBEMBE, 2006). Ou seja, é o poder do Estado traduzido no fazer morrer, eis a síntese da produção de morte no Brasil na contemporaneidade. Não é por acaso, que nosso país amarga 62.517 homicídios em 2016, conforme nos apresenta os dados do Atlas da Violência. Sendo a juventude, 33.590 dos casos da pesquisa realizada. O peso da desigualdade racial histórica neste país é refletida nesta e tantas outras pesquisas acadêmicas, estatísticas e notícias. O Brasil é, acima de tudo, uma forma de violência contra eu próprio povo. Nossas vítimas tem cor, tem idade e são filhos e filhas da classe trabalhadora. O menino Marcus foi morto quarta, Marielle foi morta há 100 dias e isso nos mata fisicamente, psicologicamente e politicamente, como diria Mbembe.

O modelo implementado baseado na lógica do confronto, do inimigo interno e da “Guerra as drogas” está fadado ao fracasso. Ele se traduz em operações com altos custos nas periferias, produção do medo e sensação de (in)segurança para a população e produção de morte. Não tenho outras palavras, urgência de vida do que: parem de nos matar.

(*) é socióloga


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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