O sangue de Paul Flores, o cantor do grupo norteño Armonía 10, foi o início da recente crise que se manifestou em diversos episódios e atingiu seu ápice com a censura ao ministro do Interior pelo Congresso da República e a gigantesca mobilização do último 21 de março no Peru.
Flores foi violentamente executado em 16 de março, após um show em Lima, quando criminosos alvejaram o ônibus que transportava o grupo.
Entre um e outro acontecimento, ocorreram diversos fatos que refletiram claramente a grave crise pela qual o país passa e que ameaça se prolongar, como se o país estivesse em um escuro beco sem saída.
Na realidade, o trágico evento ocorrido em San Juan de Lurigancho comoveu a todos, mas revoltou um segmento particularmente sensível e amplamente apoiado pela opinião pública: os artistas. O governo não teve resposta, e seus porta-vozes optaram simplesmente por se calar. No domingo, dia 16, o país ficou em silêncio, como a tumba de um cemitério.
Quando a convocatória para a marcha do dia 21 de março começou a ganhar força, o regime tentou deslegitimá-la. Acusou os organizadores, afirmando que estava sendo “politizada”, como se a política fosse patrimônio exclusivo dos ministros e como se esperasse que os partidos de esquerda se calassem, talvez por medo. Ninguém deu ouvidos.
Depois, optou por chamar os organizadores da mobilização de “caviares”, talvez acreditando que, assim, todos aqueles que não se identificam com esse rótulo se afastariam do chamado. Isso também não deu resultado.
Com anúncio de eleições, Boluarte tenta abafar escândalos e crise social no Peru
Por fim, pressionou os grupos musicais para que desistissem de participar do evento e, a princípio, conseguiu persuadi-los com falsas promessas. A mentira logo caiu por terra, e nas primeiras horas do dia 21, esses coletivos reafirmaram sua decisão de estar presentes nas ruas. E assim foi.
Eles até recusaram um convite ardiloso da vice-presidente do Congresso, Patricia Juárez, para que se reunissem com os chefes da Dirincri no mesmo horário da marcha, a fim de “coordenar propostas” para fornecer “segurança” aos grupos musicais. Ninguém caiu na armadilha, e todos foram às ruas com uma só voz.
Por isso, a marcha foi grandiosa, a ponto de a televisão não conseguir escondê-la. Só em Lima, as principais avenidas e ruas do Centro Histórico foram tomadas, mas o protesto aconteceu em todo o país. Em todos os lugares, a multidão rugiu vibrante.
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Como último recurso, o governo apostou na mais deplorável de suas “jogadas”: afirmou que a marcha havia se tornado massiva porque era “contra o crime”. No entanto, ninguém conseguiu esconder que os gritos da multidão eram dois: “Dina assassina!” e “Fora Dina!”.
A votação no Congresso foi conclusiva. Como em outras ocasiões, os parlamentares mais fracos se dobraram e optaram pela censura. Alguns resistiram, e outros – como Waldemar Cerrón e “Puka” Bellido – simplesmente fugiram.
Pouco depois, o congressista Cueto sugeriu o desmantelamento de vários ministérios: Cultura, Meio Ambiente e Mulher. Assim, trouxe de volta a tristemente célebre frase de Joseph Goebbels: “Quando ouço a palavra cultura, saco minha pistola”. O fascismo permanece na memória.
No dia 26, o rosto do novo titular da Córpac foi definido. Embora seu nome não tivesse sido cogitado antes, sua nomeação era previsível: tratava-se do segundo em comando, o vice-ministro do gabinete de Santiváñez. Além disso, cumpria o requisito essencial de qualquer alto representante do regime: tinha antecedentes criminais. No caso, foi punido por peculato em 2020 e depois denunciado por pensão alimentícia. Bagagem completa.
Protestos no Peru reafirmam unidade popular e desmontam farsa da grande mídia
Assim que o peso da “mochila” do novo ministro veio à tona, Boluarte colocou em ação mais uma manobra: antecipou a convocação das eleições para 12 de abril de 2026. Foi apenas uma tentativa desesperada de mudar o rumo da corrente, para que se falasse de “outra coisa” e não dos antecedentes do ministro Díaz. Agora, o debate é outro: como serão as eleições. Sem dúvida, as mais questionadas da história.
Está claro que o objetivo nas eleições é fraudar, dispersando votos, dividindo o eleitorado, impedindo possíveis adversários, alterando as regras eleitorais, aumentando a confusão, o caos e o descontrole até o momento da votação, para que ninguém saiba como ou em quem votar.
Enquanto isso, o congressista Alejandro Cavero apresentou uma “iniciativa parlamentar” para suspender os direitos políticos de Pedro Castillo por 10 anos. Não basta uma condenação de 34 anos. Ele quer mais: amarrá-lo enquanto isso. E as pesquisas mostram que Castillo está à frente.

O que o regime tenta esconder é que a procissão vai por dentro. No país, lembra-se da carne podre servida às crianças, do soro defeituoso que causa mortes, das estradas destruídas onde dezenas de peruanos perecem, das escolas “Pitágoras” forçadas a suspender até mesmo aulas virtuais por medo de extorções, das pontes que desabam, dos tetos de centro comerciais que caem, do medo que impera.
E mais: os coletivos musicais que convocaram a marcha do dia 28 suspenderam a coletiva de imprensa do dia anterior porque “receberam ameaças” de extorsão. Será que o Ministério do Interior tem algo a ver com isso?
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Patricia Muriano já apresentou sua declaração ao Ministério Público. Já confirmou as acusações contra Boluarte. A vacância presidencial se aproxima, com muita essência e pouco ruído. E essa será, finalmente, a sequela da crise.
Dina Boluarte disse que demitir um ministro não resolveria o problema da insegurança. E nisso, ela estava certa. Não basta demitir um ministro, mas sim todos – e ela também. Só então poderemos falar em um primeiro passo para combater a criminalidade e recuperar a segurança pública.
* Imagens na montagem:
– Ato por justiça a vítimas no Peru: @WaykaPeru / X
– Paulo Flores: captura de tela – @Armonia10Of / X
– Dina Boluarte: @presidenciaperu / X