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Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Cannabrava | As PECs da Blindagem e da Anistia: ameaças à democracia

Aprovar essas medidas seria repetir a história da impunidade, agora legitimada pelo voto dos próprios beneficiados; frente ao retrocesso, movimentos preparam mobilização para o próximo domingo (21)

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Na última terça-feira (16), a Câmara dos Deputados aprovou a chamada PEC da blindagem. Agora, o texto segue para o Senado, onde será debatido. A proposta ameaça transformar os parlamentares em cidadãos acima da lei, tornando-os imunes a investigações e processos, mesmo em casos de extrema gravidade. Para agravar, o texto ainda prevê voto secreto, permitindo que legisladores escondam sua posição na hora de decidir sobre o perdão de criminosos. Trata-se de um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito.

A repercussão foi imediata. O escândalo foi tão grande que já há deputados pedindo desculpas publicamente por terem votado a favor. Essa reação mostra que a sociedade não está disposta a aceitar passivamente mais um capítulo da impunidade institucionalizada.

Paralelamente, a Câmara aprovou o regime de urgência para a PEC da anistia, cujo relator é Paulinho da Força, sindicalista de longa trajetória. Isso significa que a proposta não precisará passar pelas comissões temáticas e seguirá direto para o plenário. Aqui a questão é ainda mais grave: anistiar quem, afinal? 

O debate expõe a tentativa de apagar crimes contra a democracia, livrando da Justiça aqueles que participaram de atos golpistas. Não se trata de conciliação, mas de uma chantagem legislativa que mina a própria base do Estado de Direito.

Segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo, se a PEC da blindagem for aprovada, ela poderá encerrar 36 inquéritos que envolvem 108 parlamentares. Isso mostra claramente que o objetivo não é fortalecer as instituições, mas sim proteger investigados, consolidando um regime de privilégios.

O Parlamento brasileiro, já marcado pela submissão a interesses corporativos e pela falta de compromisso com a nação, caminha para aprofundar sua crise de legitimidade. Defender a democracia, nesse contexto, significa resistir a esses golpes brancos articulados dentro do próprio Legislativo.

Cannabrava | Anistia como chantagem: o Congresso contra o Judiciário em 2025

O Brasil já foi castigado por uma ditadura militar e por sucessivos ataques às instituições democráticas. Aprovar a PEC da blindagem ou a da anistia seria repetir a história da impunidade, agora legitimada pelo voto dos próprios beneficiados. O que se exige, neste momento, é que a sociedade e os setores democráticos se mobilizem para barrar mais esse retrocesso.

Nesse espírito, movimentos sociais e organizações democráticas estão convocando, para o próximo domingo (21), manifestações contra a impunidade e contra a anistia em todo o Brasil.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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