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ToggleEleições: povo precisa se reerguer e ir às urnas contra projetos de Aliaga e Fujimori – 07/04
No Peru, a poucos dias de 12 de abril, e quando começam a “aquecer os motores” para as eleições presidenciais e parlamentares que se aproximam, pode-se perceber claramente no cenário a existência de duas mensagens claras e definidas.
A primeira que surge, desde a base social, é a visão de preocupação sobre o que está por acontecer. A camada popular vê com desconfiança a atuação da “classe política” e prefere manter distância inclusive do próprio processo de sufrágio. Acredita que o anseio de contar com um governo eficiente e honesto está a uma distância sideral do que ocorre hoje. Por isso, demonstra ceticismo até mesmo em relação à consulta eleitoral que se aproxima — muitos são os que acreditam que ela não servirá para enfrentar com precisão os problemas do país e que, seja qual for o governo que emerja das urnas, as coisas continuarão como estão.

Há, no entanto, quem abrigue uma tênue esperança: a ilusão de que algo poderia avançar se as urnas produzissem um resultado positivo, isto é, se a votação desse as costas à Máfia que corrói as próprias bases da sociedade peruana. A cidadania sabe que isso não apenas seria possível, mas também natural, porque esse é o estado de ânimo que flui todos os dias nos campos e cidades do nosso país. A recente “recepção” [nada calorosa] dada ao direitista López Aliaga pelo povo de Puno, e de outras localidades próximas, confirma isso.
O que acontece é que, como a desconfiança é profunda, há o temor de que inclusive os organismos eleitorais tenham sido contaminados pela máfia, que há bastante tempo vem capturando, tanto quanto pôde, os mecanismos dessa engrenagem. Como agora se computam os votos nulos e anulados e eles se acumulam em benefício dos que “saem na frente”, existe o temor de que desta vez sejam somados aos de Keiko Fujimori e López Aliaga para torná-los “finalistas” na busca de um segundo turno, certamente fraudado.
Na realidade, essa é uma boa advertência que poderia servir para que todos compareçam a votar e o façam corretamente, já que a cédula de votação é tão complexa que muitas pessoas podem marcar mal suas preferências, de modo que seus votos sejam considerados nulos ou anulados e, assim, somados como descrito acima.
É preciso superar essa eventualidade. É preciso escolher entre os candidatos que representem alguma tendência dentro do campo popular, ainda que não satisfaçam plenamente nossas expectativas, mas que reúnam alguns requisitos que os tornem minimamente aceitáveis. Em outras palavras, é preciso apoiar quem encarne um programa de caráter patriótico, popular e democrático, procurando — com a luta social em marcha — fazê-lo avançar para que assuma os desafios do nosso tempo e cumpra as tarefas mais urgentes.
A outra mensagem, por sua vez, empunhada pela classe dominante, flui com uma linguagem de ódio. Sustenta que o país não precisa de democracia, mas de “ordem”; que o que se deve fazer não é governar, mas “impor”, já que, como se sustentava falsamente outrora — “o país caiu nas mãos do terrorismo” —, afirma-se hoje que a “criminalidade” é imbatível, porque foi tolerada e acobertada por eles mesmos a partir do Legislativo. Cinicamente, autodenominam-se “a força da ordem”.
Não propõem programas contra o subdesenvolvimento, a pobreza e a discriminação, ou em prol da defesa do meio ambiente, da luta pela educação, da saúde ou dos direitos dos trabalhadores. Não. Seu programa se limita a dizer: é preciso construir prisões; instituir a pena de morte; generalizar a prisão perpétua; realizar julgamentos sumários; dispor de Juízes sem Rosto; privar os presos de comida, roupas e visitas. Em outras palavras, tornar suas vidas impossíveis. E, para que ninguém reclame, retirar-nos dos organismos internacionais que protegem os Direitos Humanos.
Seus principais expoentes — Keiko e López Aliaga —, incentivados por pesquisas “fraudulentas”, se proclamam “vencedores” do primeiro turno e procuram se aproximar ainda mais. O fato é que compartilham interesses, mas também formas de atuação.
Quando perguntam a Keiko o que ela detesta, responde prontamente: “a esquerda”. Para ela, a Esquerda são os trabalhadores e o povo, o pensamento avançado e a luta, a vontade de progresso e a defesa das conquistas sociais. Isso é o que ela detesta. Nem sequer percebe que é precisamente por isso que a detestam. Até seu irmão Kenji pede para não votarem nela.
López Aliaga, por sua vez, afirma que busca ensinar o que aprendeu. E o que aprendeu é muito simples: conjugar o verbo matar em todos os seus tempos. Assim quis matar Pedro Castillo e Cerrón em 2021. Depois, Gustavo Gorriti. Em seguida, Páez, o jornalista do La República. E agora Croveto, o mais antigo funcionário eleitoral do país. Aliaga também gosta de usar o verbo no plural. Em determinado momento, quis que colocassem o dólar em órbita, para que os pobres morressem de fome. Lembram-se disso?
Recentemente, foi expulso de Ayacucho e de Puno. Também em Apurímac encontrou forte resistência. Por isso, dirigindo-se aos moradores que não compartilhavam suas opiniões, disse-lhes: “Gente de merda”. Depois, os ameaçou dizendo que tem filmados seus rostos e registradas suas identidades com a ajuda da polícia, e que fará com que “paguem pelo que lhe fizeram”. É assim que pretende governar os peruanos? Alguém acredita que pode ser Presidente eleito alguém que não consegue entrar em cidades do Peru porque ali as pessoas sequer o querem vê-lo?
Por isso se diz, não sem razão, que quando as deformações de personalidade se misturam com o álcool, os sintomas de demência se tornam evidentes. Trata-se, então, de expressões de loucura incompatíveis com a governabilidade. Deveria ter sido exigida uma perícia psiquiátrica dos candidatos, para evitar esse perigo.
Objetivamente, na serra central, nos contrafortes cordilheiranos e no sul andino — isto é, em grande parte do território nacional —, Keiko e López Aliaga têm recebido a rejeição massiva da população. Eles chamaram de “terroristas” os abatidos nas jornadas de protesto passadas e voltaram a dizer o mesmo ao se referirem aos familiares das vítimas da política assassina de Dina Boluarte. O que esperavam?
Em Lima e outras cidades, as manifestações de Keiko e López Aliaga foram fracas e pouco numerosas. Por isso, seus seguidores tiveram que fazer malabarismos para apresentá-las como minimamente “bem-sucedidas”.
A linguagem do ódio, essa que utilizam cotidianamente quando se referem ao cenário nacional e à população, simplesmente não tem futuro.
(Des)respeito à soberania peruana – 19/02
Na medida em que a crise política no continente americano vem se agravando, cresce nos círculos da classe dominante do Peru um servilismo abjeto que teve, ao menos, a virtude de mostrar em todo o seu esplendor o rosto repulsivo daqueles que exercem funções de poder e se entrincheiram como se encarnassem o verdadeiro sentimento nacional.
Recentemente, o chanceler peruano fez uma viagem relâmpago aos Estados Unidos. A resolução que autorizou tal medida afirmou que o titular de Torre Tagle se ausentaria do Peru para manter um encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, a fim de trocar opiniões sobre o cenário continental. Era uma forma sutil de esconder a realidade: o chanceler ia a Washington para ser posto em dia e para que lhe explicassem qual política externa o Peru deveria aplicar na conjuntura atual.
Ocorreu, porém, que nosso ilustre diplomata não foi recebido por Marco Rubio. Talvez estivesse ocupado com outras tarefas ou compromissos; ainda assim, por uma questão elementar de cortesia, poderia ter delegado sua representação a outro funcionário de seu gabinete. Mas isso também não aconteceu.
Nosso benemérito funcionário fez então o que tinha mais à mão: encontrou-se com Corina Machado, a quem — claro está — rendeu uma pleitesia desmedida. A senhora Machado não representa ninguém. Nem sequer o governo que mais admira, que já lhe disse sem rodeios que ela não desempenhará nenhum papel na Venezuela, porque ali ninguém a quer e ninguém a respeita, reconhecendo, assim, que em julho de 2024 não venceu eleição alguma.
Para que, então, nosso chanceler foi “dialogar” com ela? Apenas para preencher sua agenda. E para poder dizer, ao voltar, que havia falado com alguém — e que não tinha se limitado a ver o pôr do sol nos parques vizinhos à Casa Branca.
Enquanto isso acontecia em Washington, chegava a Lima o novo embaixador dos Estados Unidos, Mr. Bernie Navarro, um cidadão de origem hispânica enviado precisamente por Marco Rubio para organizar sua próxima visita a Lima, prevista para março. Diferentemente de outros embaixadores, que precisam esperar até semanas para apresentar suas credenciais, o diplomata norte-americano não teve que fazer antesala.
Mr. Navarro apresentou suas credenciais no dia seguinte à sua chegada e, poucas horas depois, deu a Jerí suas primeiras instruções: de agora em diante não haverá mais chifa, mas hambúrgueres ao estilo norte-americano — isto é, comida chatarra. A cozinha do Palácio já sabe disso.
O senhor Navarro — ou mister Navarro, como certamente passarão a chamá-lo — foi recebido em um país em que seus anfitriões estão todos acusados por diversos delitos. Para não ser diferente, ele também responde a um processo por peculato. Estão, portanto, no mesmo nível.
Mas, para que isso não incomode ninguém, o governo dos Estados Unidos anunciou uma decisão que já era esperada: concedeu ao Peru a categoria de “melhor amigo fora da Otan” em solo americano. Em outras palavras, principal cúmplice para suas ações militares contra outros países da região.
É bom que isso seja levado em conta: o melhor amigo para tarefas militares. Não para educação, nem para saúde. Tampouco para enfrentar problemas de alimentação, emprego, desenvolvimento ou trabalho. Não. Para temas militares — isto é, para a guerra, para a morte, para o choque armado contra outros países irmãos. Para isso Washington nos quer. Não para a paz.
O ministro da Defesa e o presidente do Conselho de Ministros coincidiram em uma declaração insólita: asseguraram que o Peru comprará aviões de guerra, mas que essa aquisição ocorrerá “dentro dos parâmetros da estratégia de defesa dos Estados Unidos”.
Uma maneira prática de dizer que não serão comprados aviões nem da Rússia nem da China. Apenas dos estadunidenses. Estamos, então, obrigados a subordinar nossa política de defesa à política de defesa dos Estados Unidos? Somos uma colônia ou, talvez, um “Estado Livre Associado”, como Porto Rico?
Mas o inaudito — e o mais vergonhoso — aparece como pano de fundo de tudo: desde o início de 2026, dois países da América Latina foram violentamente agredidos. A Venezuela sofreu um ataque militar contra Caracas e outros pontos do país. Bombardearam edifícios, atacaram unidades e instalações militares; sequestraram o presidente da República e sua esposa e os levaram como quem os rouba, para mostrá-los “algemados” ao mundo.
Alguns países protestaram contra esse fato porque condenaram a violação da soberania de um Estado, a independência de um país e o direito de um povo de ter seu próprio governo. Assim se pronunciaram México, Brasil, Colômbia, Espanha, Chile, Uruguai e outros. Mas o Peru não disse uma palavra. Como se nada tivesse ocorrido, como se esse fato tivesse acontecido em outro planeta.
Mas há mais: os Estados Unidos “descobriram” que a principal ameaça à sua segurança nacional vem… de Cuba!
Essa pequena ilha do mar das Antilhas é o inimigo mais perigoso dos Estados Unidos. Não possui ogivas nucleares, mas tem infinita dignidade — uma arma muito perigosa para a Casa Branca. Por isso decidiu sancionar os países que lhe fornecem petróleo, em uma decisão que tem nomes próprios: México e Venezuela. O objetivo é impedir que Cuba funcione. Querem estrangulá-la para que morra por inanição.
O Peru deve muitíssimo a Cuba. Cuba nos deu seu sangue em maio de 1970; também nos ajudou em agosto de 2007; prestou assistência durante a pandemia da Covid. Enviou brigadas médicas em diversas ocasiões e formou mais de dois mil profissionais de medicina. Quanto custou isso ao Estado peruano? Absolutamente nada. Cuba nos deu tudo isso porque seu povo e seu governo compreenderam o sentido de uma palavra maravilhosa: solidariedade.
Pois bem: o governo peruano protestou contra o que os Estados Unidos estão fazendo com Cuba? Enviou alguma ajuda a Cuba nesta dramática circunstância? Pronunciou ao menos uma palavra de apoio a esse povo irmão tão cruelmente agredido? Não. Nada. Para eles, Cuba não existe. Tampouco existe a palavra solidariedade. O senhor Jerí apagou essa palavra de seu dicionário.
O que surgiu, isso sim, foi a “séria preocupação” de Washington com nossa soberania, “ameaçada” — segundo dizem — pelo governo chinês e pelo porto de Chancay. Como uma amante abandonada ao esquecimento, a Casa Branca morre de ciúmes e nos chama com angústia.
Não se deve esquecer que, aqui, durante muitos anos, a International Petroleum Company não permitiu que a bandeira peruana tremulasse em “seu” acampamento. Ali só ondulava a bandeira dos Estados Unidos, até que foi arriada no Dia da Dignidade, em 9 de outubro de 1968. Isso, sim, foi respeito à nossa soberania.
Promessas eleitorais – 09/02
A quase 60 dias das eleições de abril, no Peru vivemos uma etapa em que se multiplicam e se intensificam as promessas eleitorais. Algumas se orientam a seduzir o eleitor, procurando persuadi-lo e convencê-lo da generosidade do candidato que as faz. Outras, em contrapartida, mostram o caráter de quem as oferece, sua personalidade e os traços distintivos de sua conduta social.
Das primeiras é fácil se defender, porque giram em torno de temas inalcançáveis. Encontramo-nos, nesses casos, em uma espécie de avalanche midiática, com candidatos que prometem construir uma ponte e, quando lhes informam que ela não é necessária porque ali não há rio, prometem construir um rio para melhorar sua oferta.
Interessa-nos mais o segundo tipo: aqueles que revelam seu perfil quando fazem promessas e se mostram como realmente são; expõem, em carne viva, sua personalidade errática e obscena. Esses também fazem promessas, mas elas acabam se transformando em ameaças que refletem o ódio escondido e a impotência que domina quem as formula.
Keiko Fujimori, por exemplo, anunciou recentemente que, em “seu governo”, acabaria com a delinquência. E, quando lhe pediram que explicasse sua ideia e dissesse de que maneira atuaria, afirmou com total desenvoltura: “faria operações de rastreio, bairro por bairro e casa por casa, como nos tempos do meu pai”.
Esqueceu que a detenção massiva de pessoas não é legal e que tampouco é legal invadir residências de forma inesperada. Para colocar isso em prática, seria indispensável um regime de exceção, no qual não se levassem em conta as garantias constitucionais; vale dizer, um regime em que se eliminassem os direitos dos cidadãos e as garantias públicas. Em outras palavras, uma ditadura. Então, para que falar em democracia?
Valeria a pena perguntar onde seriam realizadas esses rastreios e quais casas seriam invadidas uma a uma. Tais operações ocorreriam em Chacarilla del Estanque, em La Molina, em Rinconada del Lago ou em Las Casuarinas?
O mais provável é que acontecessem em San Juan de Lurigancho, San Martín de Porras, Comas, Bayóvar, Villa El Salvador ou na infinidade de bairros populares e assentamentos humanos onde vive o povo, a gente humilde, não é verdade?
Assim aconteceu antes. Por isso houve 15 mil desaparecidos. E por isso Abimael Guzmán mudou-se para um bairro exclusivo, para não ser detectado nem capturado — situação que lhe permitiu “operar” durante anos. Ali deixou até seus óculos. Lembram?
Está claro que Keiko oferece uma ditadura contra o povo para que “os de cima” vivam sem medo. Assim foi nos anos de seu pai, Alberto Fujimori, e assim deverá ser sempre, sob a sombra dos Fujimori.
Outro personagem do mesmo tipo, Rafael López Aliaga, propõe usar helicópteros para “transportar os delinquentes” para a selva mais inóspita, onde já não há vida humana e onde apenas vivem as shushupes e outras serpentes venenosas. De lá — diz ele — não poderão fugir; e, se tentarem, morrerão, concluiu sorridente.
Terá esse personagem alguma ideia do que significa a vida humana? Pode dizer algo assim e depois comer e dormir tranquilamente?
O país recorda que esse sinistro personagem exigiu a morte para Vladimir Cerrón e Pedro Castillo em 2021 e, depois, clamou para que o dólar subisse a seis soles “para que morram de fome os índios que votaram em Castillo”. Antes disso, havia ido aos Estados Unidos pedir que viesse a infantaria de marines norte-americana para “acabar com os vermelhos”. Igual a María Corina Machado.
Mais recentemente, esse mesmo personagem aplaudiu o ataque selvagem realizado contra Caracas no último 3 de janeiro e disse, com orgulho, que aqui deveria acontecer o mesmo; que falaria com Donald Trump para que nos enviasse “comandos” como os que atuaram na Venezuela e que “levassem” os “delinquentes e inimigos da pátria”. Seus adversários, evidentemente.
Em paralelo, propôs conceder DNI aos fetos, para que sejam “cidadãos desde a concepção”. Não precisou, no entanto, que foto colocaria nesse documento de identidade. Quando lhe perguntaram, entrou em um mutismo que congelou a cena.
Embora não tenha relação direta com promessas nem com candidaturas, também faz parte do cenário eleitoral o espetáculo que presenciamos quando trouxeram o “Monstro” do Paraguai para encarcerá-lo aqui. E faz parte porque o senhor Jerí Pérez busca “acumular pontos” para uma “carreira política de futuro”, talvez mirando 2031.
O fato é que ele preparou para o delinquente — cuja identidade omitimos de propósito — uma recepção descomunal. Mais de 500 policiais o aguardaram, custodiaram, protegeram, vigiaram, trasladaram e até o transferiram primeiro para uma prisão e depois para outra. Ninguém sabia se era para garantir que nada lhe acontecesse ou para assegurar seu silêncio; mas assim foi.
Nem mesmo uma visita do secretário-geral das Nações Unidas teria merecido tamanho aparato. E, claro, para mostrar sua originalidade, o senhor Jerí acompanhou minuto a minuto o desenrolar dos acontecimentos a partir de um escritório improvisado no Ministério do Interior. Foi um esforço “originalíssimo”, que apenas críticos adversários puderam comparar ao espetáculo ridículo protagonizado por Donald Trump quando acompanhou, na mesma atitude, os acontecimentos de Caracas no último 3 de janeiro.
Mas é preciso advertir sobre o imenso dano coletivo gerado por essa transmissão. Trata-se de uma questão de senso comum, de critério lógico e de conhecimento elementar: um dos traços distintivos de um delinquente “ranqueado” é apresentar-se como vencedor, fazer a comunidade acreditar que é alguém muito importante, que chama atenção e que está no centro de tudo.
Pois bem, o espetáculo exibido nessa ocasião encaixa-se perfeitamente nesses requisitos. O “Monstro” foi o centro de tudo durante todo o dia. Não é difícil imaginar que mais de um, nesse mesmo ofício, tenha assistido com inveja, com desejo de imitação — de chegar ao “mesmo nível”, de “ser como ele”.
Não faz sentido algum montar espetáculos como esses para lidar com criminosos. A psiquiatria e a psicologia aconselham tratar esses temas sob anonimato: julgá-los e condená-los à pena que mereçam, mas em silêncio, sem fanfarra e sem circo, sem permitir que se projetem no cenário social para se credenciar como “figuras do hampa”.
Aqui, ao contrário, parece prevalecer o interesse em desviar a atenção. Para que não se fale de um assunto, levanta-se outro — quanto mais truculento, melhor. Uma “cortina” espetacular para empurrar ao esquecimento as trapalhadas de quem governa. Essa é a lógica que se maneja desde o poder.





