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Rafael López Aliaga e Keiko Fujimori, candidatos à presidência no Peru. (Montagem: DSG*)

Eleições no Peru: desesperança e apatia política conduzem país à extrema-direita

Rafael López Aliaga — próximo a Trump — e Keiko Fujimori lideram as pesquisas, ainda que não superem 20%; uma surpresa na esquerda é possível, mas pouco provável

Adolfo Cuicas Castillo
Russia Today
Lima

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

Quase cinco anos após eleger o esquerdista Pedro Castillo como presidente, o Peru se aproxima de novas eleições gerais, depois de ter passado por três sucessores — Dina Boluarte (2022–2025), José Jerí (2025–2026) e José María Balcázarum (2026–), um número rocambolesco que já não surpreende no país andino. A instabilidade política virou regra.

Praticamente todas as pesquisas apontam na mesma direção: nenhum candidato alcança sequer 20% de apoio, enquanto o voto branco ou nulo cresce e a opção “não escolher ninguém” lidera. É o que mostra, por exemplo, o levantamento de opinião de fevereiro do Instituto de Estudos Peruanos (IEP).

A sondagem, realizada nos 24 departamentos do país, entrevistou 1.201 pessoas por telefone. Segundo os dados, 14,6% apoiam Rafael López Aliaga; 10,3%, Keiko Fujimori; e 5,3%, Alfonso López Chau.

Tradicionalmente, nesta altura da disputa, algum candidato já despontaria com vantagem significativa. Mas, nos últimos anos, a tendência no Peru é de queda, impulsionada pelo descrédito da classe política e pela rejeição à corrupção.

“Há um sentimento de aversão”, afirma o diretor-geral do IEP, Jorge Morel, em entrevista à RT. “Há apatia. As pessoas não estão interessadas nem esperançosas com nenhuma dessas candidaturas. Isso também reflete o padrão da política peruana, marcado pela desafeição com o regime atual e com os partidos que o representam”, explica.

A apatia atinge todos os estratos sociais do país, que terá o primeiro turno em 12 de abril. “Apesar de liderarem as pesquisas, esses candidatos representam uma minoria. A repugnância está presente”, ressalta.

Apenas à direita

López Aliaga, ex-prefeito de Lima, ultraconservador e membro do Opus Dei, tenta pela segunda vez superar a candidatura recorrente de Fujimori. Diferentemente de 2021, ele agora encabeça as pesquisas.

No entanto, a diferença vem diminuindo. Levantamento da Datum Internacional, divulgado em 8 de março no programa “Cuarto Poder”, indicou empate técnico, com Fujimori ligeiramente à frente (10,7%) de López Aliaga (10%).

Uma simulação de votação divulgada em 6 de março pela Ipsos colocou López Aliaga na liderança com 17,2% dos votos válidos, seguido por Fujimori com 14,2%. Em terceiro lugar aparece o comediante Carlos Álvarez, com 8,9%.

Na última eleição, Fujimori avançou ao segundo turno com 13,4%, seguida de perto por López Aliaga (11,7%). “Ela está estagnada nesses 10%”, observa Morel.

Ainda assim, ele relativiza o número no contexto atual, em que também será renovado o Congresso, que voltará a ser bicameral. “Esses 10%, nesta conjuntura, são fundamentais para superar a cláusula de barreira, o que é decisivo para garantir deputados e senadores”, afirma.

“Mas sabemos que, no segundo turno, as coisas não têm funcionado bem para ela — e seria surpreendente que desta vez fosse diferente, ainda mais considerando que vários setores da direita se afastaram após a derrota em 2021”, acrescenta.

Era de Trump

Nas últimas semanas, o partido Renovação Popular, de López Aliaga, e o Força Popular, de Fujimori, trocaram ataques e críticas públicas. A divisão ficou evidente, sobretudo, quando o Parlamento nomeou José María Balcázar como presidente interino.

Até agora, porém, nenhum dos lados conseguiu um golpe decisivo. Esse movimento pode vir de fora. López Aliaga, ativo na rede social X, tem exaltado sua proximidade com o governo de Donald Trump.

No âmbito do Fórum de Madri, o ex-prefeito celebrou o retorno de Trump à Casa Branca e buscou estreitar vínculos com seu entorno. Já se reuniu com o secretário de Estado, Marco Rubio, e agora conta com o respaldo de aliados próximos do líder republicano.

“O Peru tem uma verdadeira opção com Rafael López Aliaga, e os EUA terão um aliado forte em Lima”, afirmou no mês passado o ex-assessor principal de Trump, Steve Cortes. “Façamos o Peru voltar a ser grande!”, respondeu o candidato no X, em uma adaptação do slogan original MAGA (Make America Great Again – Fazer a América Grande de Novo).

Até agora, o republicano não se manifestou, mas, diante dos precedentes de Argentina e Honduras, não se descarta que ele venha a declarar, em sua rede Truth Social, a quem apoia nessas eleições.

“No segundo turno, pode acontecer que, diante de um candidato conservador e outro percebido como de esquerda, haja um posicionamento a favor (…). Isso já funcionou em outros países”, avalia Morel.

O pesquisador do IEP, um dos principais think tanks do Peru, vislumbra inclusive uma possível surpresa. “Pode ser López Aliaga, mas também pode ser Keiko Fujimori. Não acho que haja necessariamente um alinhamento apenas com López Aliaga”, afirma.

E a esquerda?

Caso Trump faça uma de suas apostas, Morel não prevê uma mudança substancial. “Os temas geopolíticos nunca estiveram na agenda peruana”, explica. “Não creio que haja esse tipo de interferência, mas isso pode se tornar um tema que os peruanos terão de avaliar: se a ameaça de Trump de cortar vínculos comerciais seria suficiente para impulsionar um desses candidatos alinhados ao MAGA”, acrescenta.

“Esses temas nunca tiveram peso decisivo nos debates eleitorais. Tudo sempre esteve centrado na insegurança, na economia e até em questões de valores (…) a tradição nunca foi discutir alinhamentos com os EUA ou com a China. Acho que não é por aí”, insiste.

Enquanto isso, a esquerda permanece na expectativa. Com base nas pesquisas, López Chau surge como sua principal aposta — ex-reitor da Universidade Nacional de Engenharia (UNI), ele vem atraindo o voto jovem e ganhando cada vez mais projeção midiática.

“Sou cristão e sou socialista. Qual é o problema?”, questionou no fim de 2025, quando repórteres tentavam enquadrá-lo ideologicamente. Desde então, críticos o rotulam de “comunista”, enquanto até setores próximos o acusam de “infiltrado”.

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Outras candidaturas, como as de Ronald Atencio e Roberto Sánchez, não decolaram, enquanto Yohny Lescano — que também concorreu há cinco anos — permanece abaixo de 4% nas intenções de voto.

“É imprevisível. Qualquer coisa pode acontecer — e isso já virou um clichê na política peruana (…) ainda não sabemos quem será a figura. Nem López Chau, nem Sánchez, nem Lescano podem dar como certo que chegarão ao segundo turno”, afirma Morel.

Em 2021, Castillo começou a crescer nas pesquisas apenas nas últimas semanas — um cenário ainda muito presente no país. “É uma tendência no Peru: é nas semanas finais que a disputa realmente se define”, conclui o especialista.


*Imagens na capa:
– Rafael López Aliaga: Vox Espanha / Wikimedia Commons
– Keiko Fujimori: Congresso do Peru / Wikimedia Commons


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Adolfo Cuicas Castillo Jornalista peruano, escreve para a Russia Today.

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