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Povo argentino reage à brutalidade do neoliberalismo de Milei

Apesar da ostensiva força de segurança, pessoas lotaram as ruas e conseguiram mostrar que não se intimidam com as ameaças do governo
Verbena Córdula
Diálogos do Sul Global
Salvador (BA)

Tradução:

Era dezembro de 2001. Naquele momento, governava o presidente Fernando De la Rúa. E a Argentina “explodiu”, com mobilização que marcou um momento crucial na história política daquele país vizinho. A Argentina é um exemplo marcante da força da mobilização popular em tempos de crise econômica e instabilidade política. E foi por isso que logo após o atual presidente da República, Javier Milei, anunciar um pacote de medidas que, entre outras coisas, retira direitos históricos e arduamente conquistados pela classe trabalhadora, o povo foi às ruas mostrar sua indignação na noite de 20 de dezembro de 2023.

No final do século 20, a Argentinz enfrentou uma profunda crise econômica, caracterizada por altos níveis de desemprego, crescente desigualdade social, instabilidade financeira e políticas de ajustes, que atingiu de cheio a classe trabalhadora, e também a classe média acomodada. O governo do então presidente Fernando de la Rúa, eleito em 1999 com a promessa de estabilidade e reformas, viu sua popularidade despencar à medida que a crise se agravava. A situação atingiu o ápice em dezembro de 2001, quando uma série de protestos e manifestações eclodiram por todo o país. Milhões de argentinos e argentinas saíram às ruas para expressar sua indignação com a situação econômica, exigindo mudanças imediatas. Os protestos, conhecidos como o “Argentinazo”, foram marcados por uma variedade de manifestações pacíficas, mas também por episódios de violência e saques, refletindo a intensidade do descontentamento e desespero da população.

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A resposta do governo à crise foi incapaz de conter a agitação social, o que acabou desembocando na renúncia de Fernando De la Rúa, no dia 20 de dezembro daquele mesmo ano. A renúncia do mandatário foi vista como um momento histórico, resultado da pressão popular exercida pelas massivas mobilizações nas ruas. No entanto, a queda de De la Rúa não trouxe estabilidade imediata ao país vizinho.  Pelo contrário. Trouxe um período de turbulência política, com uma sucessão rápida de presidentes interinos e uma crise institucional profunda, que marcou a história daquele país. 

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A Argentina se destaca em vários aspectos quando se trata de mobilização social e política. Uma das características distintivas é a tradição de um forte movimento sindical e operário, que historicamente desempenhou um papel fundamental na mobilização daquela sociedade. Os sindicatos argentinos têm sido ativos na defesa dos direitos trabalhistas e sociais, exercendo influência considerável na política nacional, embora haja críticas relacionadas ao atrelamento político das centrais sindicais sobretudo ao peronismo. Mas, uma coisa é certa: na América Latina não há sindicalismo mais forte que o argentino, capaz de assegurar salários dignos para profissões como motorista de transporte coletivo, porteiros, entre outras.   

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Apesar da ostensiva força de segurança, pessoas lotaram as ruas e conseguiram mostrar que não se intimidam com as ameaças do governo

Foto: Alfredo Luna
Povo saiu às ruas contra o que classificam como “massacre” ao povo, pois conforme mencionado, aniquila direitos historicamente conquistado




Supressão de direitos no governo de Milei

Mas, independentemente do movimento sindical, é fato que o povo argentino se manifesta frequentemente a respeito de questões sociais, políticas e econômicas, de modo a ocupar as ruas com a finalidade de protestar, de reivindicar direitos e expressar sua insatisfação. Os argentinos e argentinas têm sido notáveis por sua disposição em se envolver ativamente na esfera pública, seja por meio de manifestações, movimentos sociais organizados ou debates políticos. 

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Com relação específica ao governo atual, a coisa começou a ficar feia sobretudo porque, à frente do Ministério de Segurança da Argentina, Patricia Bullrich pôs em prática ações controversas que levantaram preocupações sobre a abordagem autoritária do governo em relação ao direito a protestar. Como acontece todos os anos, a população argentina realizou uma mobilização no último dia 20 de dezembro, para recordar os acontecimentos de 2001, mas foi duramente hostilizada pela ministra em questão, que implementou protocolo que autorizava o uso de força caso as pessoas que se manifestassem obstruíssem vias públicas. No entanto, apesar da ostensiva força de segurança dirigida para fazer valer o protocolo em questão, as pessoas manifestaram-se e, se não obstruíram completamente as principais vias da capital bonaerense, conseguiram mostrar que não se intimidariam com as ameaças do governo. 

As políticas em relação aos protestos sociais e manifestações implementadas por Patricia Bullrich levantaram críticas, obviamente, porque restringem o direito legítimo dos cidadãos de se expressarem livremente. Essa abordagem, no entanto, não é nova, pois a ministra em sua gestão anterior (no governo de Maurício Macri) foi repressiva, levando a confrontos e detenções que questionaram os limites do exercício da liberdade de expressão, e dos direitos humanos. Sua anterior gestão esteve envolvida em casos que geraram polêmicas, como a morte do ativista Santiago Maldonado, que ocorreu durante uma operação policial em uma comunidade de indígenas Mapuche, em 2017. O jovem “desapareceu” após um confronto com a polícia e seu corpo foi encontrado mais tarde em um rio, fato que levantou profundas críticas sobre o uso da força por parte das autoridades, bem como críticas acerca de como foi investigado o ocorrido.

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Mas “a gota que encheu o copo”, nesta quarta-feira (20), foi o pronunciamento do Presidente Javier Milei, gravado e transmitido em cadeia nacional, dando conta que, por Decreto, derrubou centenas de Leis consagradas naquele país. Transmitida às 21 horas, a mensagem de Milei levou, logo após finalizada, milhares (talvez milhões, pois se deu em todo o país, e não somente na capital Buenos Aires) de pessoas às ruas, a protestar contra o que classificam como “massacre” ao povo, pois conforme mencionado, aniquila direitos historicamente conquistados.

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O objetivo deste texto é homenagear o povo argentino, que, como costumo dizer, tem no seu DNA nucleotídeos formados por uma Base nitrogenada (Adenina, Timina, Guanina ou Citosina), uma Desoxirribose (um açúcar por cinco carbonos) e um grupamento fosfato, mas tem, ainda, uma dose muito significativa de “não mexa com meus direito”. Fiquei consternada ao ver que Milei foi eleito com quase 56% dos votos válidos, mas, no fundo, tinha a esperança de que esse vacilo (como o que ocorreu aqui no Brasil em 2018) logo, logo se transformaria em uma reação. E foi rápido. E espero que tenha sido só o começo, de uma onda de mobilizações pelo país afora. E que o helicóptero já esteja a postos, à espera de Milei, que, como Fernando De la Rúa, não aguente a pressão e renuncie.    

Verbena Córdula | Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporâneo pela Universidad Complutense de Madrid. Professora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, Bahia.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Verbena Córdula Graduada em História, Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporânea pela Universidad Complutense de Madrid e Professora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA.

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