Pesquisar
Pesquisar

Projeto de região criado pela Unasul não deve ser abandonado, diz ex-presidente do bloco

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

A Unasul (União das Nações Sul-americanas) atravessa uma profunda crise após a Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru decidirem não participar mais das reuniões do organismo, o que consiste num desmonte. Este é um dos principais órgãos de integração latino-americana e, para Ernesto Samper, ex-secretário-geral do organismo, trata-se do pior momento para retroagir neste sentido.

Por Augusto Taglioni, em Resumen del Sur*

Ernesto Samper.

Em entrevista, Samper, que é ex-presidente da Colômbia e foi o último secretário-geral da Unasul — atualmente o organismo está com este cargo em aberto — analisa a atual conjuntura latino-americana. Ele avalia os desafios do campo progressista após a onda conservadora que vem crescendo e diz ver com preocupação a prisão de Lula, que considera ser “um preso político — com todo respeito à justiça brasileira”.

 

Leia a entrevista na íntegra:

 

Resumen del Sur: Qual sua opinião sobre a decisão dos seis países que abandonaram a Unasul?

Ernesto Samper: Poderia ser uma atitude construtiva se o desejo deles, como têm manifestado, fosse resolver de forma imediata a crise que a Unasul vive há vários meses. Falamos da impossibilidade de os países chegarem a um acordo para eleger quem deveria ser meu sucessor. Se, pelo contrário, esta for uma questão ideológica, se trataria uma crise muito mais profunda. Ou seja, se o que estão buscando é gerar uma crise no sistema de integração, isso seria lamentável e inoportuno.

O que a região ganha ou perde com esta situação?

Ernesto Samper: Na verdade não ganha muito, a menos que isso contribua para solucionar a crise institucional, que se explica com a regra que tornou possível a conformação da Unasul e que hoje é a que está causando danos. A regra é que todas as decisões devem ser tomadas por consenso. Neste sentido, seria necessário pensar em uma fórmula intermediária para o caso concreto de a eleição do próximo secretário-geral, como a expressão de uma maioria relativa, se não houver consenso.

Nunca foi tão importante que existisse uma voz como a da Unasul que, em nível estritamente político, enfrente ameaças e riscos que a região está passando. Me refiro concretamente às políticas contra a América Latina do senhor Donald Trump, que sequer teve o trabalho de vir à Cúpula [das Américas]de Lima, mas segue expulsando imigrantes, propondo a construção de muros, subindo tarifas, deixando de cumprir acordos da mudança climática que são vitais para a América Latina ou manifestando sua vontade de sair do Tratado do pacífico que, de alguma forma, integraria todos os esforços que o continente fez para construir uma frente comum do Pacífico. De toda forma, não deixa de ser uma situação paradoxal esta de não existir uma voz presente neste contexto justamente quando é mais necessária.

Considera que a Unasul integra um projeto de região que já não existe?

Ernesto Samper: Obviamente não. A Unasul nasceu como uma resposta às dificuldades encontradas ao fim do século passado com um modelo de desenvolvimento que não havia gerado crescimento nem bem-estar, com uma situação crescente de pobreza e desigualdade em momentos em que o sistema interamericano estava começando a ruir. Creio que nenhum destes fatores que motivaram a Unasul diminuíram, pelo contrário, o que temos visto é que sua atuação tem permitido que a região ofereça resultados como os 120 milhões de pessoas que saíram da pobreza e que tudo isso tenha sido feito sem considerações ideológicas.

Todos os países, sem distinção, entenderam que ao começar o século, se não fossem feitos esforços significativos para reduzir a pobreza, a legitimidade do sistema democrático seria comprometida. De tal forma, que aí estão os fatores que deram origem à Unasul e que nos permitiram construir um projeto de região que deveria ser abandonado por nenhuma razão neste momento.

O Brasil foi o principal impulsionador da região. A situação brasileira atual pode estar pesando?

Ernesto Samper: Assim é, entre os fatores que mais têm dificultado a consolidação do projeto [de integração], está o quase nulo protagonismo internacional que o Brasil está tendo neste momento. Quando cheguei [à presidência do bloco], o papel do Brasil era de servir de uma espécie de transatlântico em meio a diferentes opiniões para conseguir um consenso. Era o articulador de todas as posturas. Lamentavelmente este empenho do Brasil em busca da integração sul-americana não tem mais sido visto. Pelo contrário, tem complicado ainda mais as possibilidades de que haja um ator neutro e decisivo para lidar com as diferenças.

Qual sua opinião sobre a detenção do Lula?

Ernesto Samper: Me parece, com o devido respeito à Justiça brasileira, que Lula é um preso político. Eu digo porque seus direitos fundamentais como a presunção de inocência, o direito à apresentação de provas, o respeito à sua intimidade própria do direito de defesa e todas estas normas universais — que formam parte do que se denomina o devido processo — foram desdobradas por uma decisão que tem mais de oportunidade política do que de reafirmação de uma decisão judicial. Lamentavelmente, pelas circunstâncias em que se fez esta detenção, e o que aconteceu com a ex-presidenta Dilma Rousseff, temos que concluir que na região estão operando poderes de fato que chegaram à justiça. Isso que chamamos de judicialização da política, que se converteu em politização da justiça, é uma das maiores enfermidades que podem afetar uma democracia.

O senhor vê uma mudança de ciclo na América do Sul diante da chegada dos governos de direita?

Ernesto Samper: Na medida em que estes governos foram eleitos por meio de processos democráticos e resultam da vontade das maiorias, merecem todo o respeito. Espero que justamente a origem democrática os comprometa a respeitar os direitos da oposição de se converter em alternativa e que os temas que formem parte de um projeto progressista sejam valorizados com aporte para a realização das três metas fundamentais da Unasul, que são a preservação da paz como um patrimônio valioso, a vigência dos direitos humanos e que a região, em sua totalidade, possa melhorar seus níveis de competitividade.

Se estes valores são alcançados e consolidados, não importam as bandeiras ideológicas que cada governo professe, pois isso vai resultar em benefícios para a integração. A integração é um projeto de larga escala e não somente interno, mas também externo. Espero que os governos entendam que este não é o momento para se desintegrar este projeto, mas pelo contrário, temos que nos integrarmos cada vez mais.

Se vive na região uma democracia de baixa intensidade?

Ernesto Samper: Permita-me fazer a seguinte consideração: o projeto político da Unasul nasceu a partir de três valores fundamentais: preservar a paz da região como um oásis de paz no mundo; dar continuidade aos processos democráticos que foram severamente afetados durante as ditaduras militares e assegurar a vigência de todos os direitos humanos, não somente os políticos, mas também os econômicos e sociais.

Resisto a pensar que os países que começaram esta crise estejam renunciando à busca destes três eixos fundamentais; que estão se opondo a que haja um continente em paz como está confirmado com os Acordos de Paz de Havana na Colômbia, ou o rechaço da presença de bases militares; ou que não estejam de acordo com que se mantenha em vigência os direitos humanos começando por aqueles que favorecem a inclusão social; ou que queiram regressar às épocas autoritárias do passado. Por isso, para entender a importância de preservar a Unasul, é preciso recordar qual sua origem e a história que levou seus fundadores a definir este projeto de integração que não é um projeto de livre comércio, nem uma união aduaneira, mas é realmente uma tentativa de coincidências de vontades que giram em torno de propostas fundamentais.

* Tradução: Mariana Serafini, no Portal Vermelho


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

LEIA tAMBÉM

Presidente colombiano Gustavo Petro enfrenta escândalo de corrupção envolvendo altos funcionários
Presidente colombiano Gustavo Petro enfrenta escândalo de corrupção envolvendo altos funcionários
Milei
Javier Milei acusa FMI de sabotagem e enfrenta divisões internas no governo
FOTO ADRIAN PEREZ     evo morales
Evo Morales denuncia "autogolpe" de Arce e mantém ambições políticas na Bolívia
Disputa por Esequibo e interferência de Argentina, EUA e Grã-Bretanha ameaçam eleições na Venezuela
Disputa por Esequibo e interferência de Argentina, EUA e Grã-Bretanha ameaçam eleições na Venezuela