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Foto: Vladimir Smirnov / TASS

Putin: Aliança com Coreia do Norte não deve preocupar, a menos que um de nós seja atacado

Nesta quarta-feira (19), Putin e Kim Jong-un selaram o Acordo Integral de Parceria Estratégica, que fortalece os vínculos da Rússia e da Coreia do Norte em vários aspectos
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Beatriz Cannabrava

O presidente Vladimir Putin comentou o acordo de associação estratégica que selou com a Coreia do Norte e que gerou preocupação em muitas capitais, Seul em primeiro lugar. A declaração foi feita antes de o líder russo tomar o avião em Hanói para regressar a Moscou ao término de sua viagem asiática na noite desta quinta-feira (20).

“A República da Coreia (do Sul) não tem nada com que se preocupar, porque nossa ajuda no âmbito militar, segundo o acordo que firmamos, aplica-se apenas se ocorrer uma agressão contra um dos signatários”.

Indicou que a Coreia do Sul não está planejando uma agressão contra seu vizinho e, nesse sentido, “não há necessidade de temer nossa cooperação nesse âmbito”, afirmou diante do grupo de repórteres russos que o acompanharam à Coreia do Norte e ao Vietnã.

Em contrapartida, Putin disse que seria um erro grave se Seul fornecesse armamento letal à Ucrânia e, se o fizer, “a Rússia se verá obrigada a tomar decisões adequadas que não agradarão às autoridades da Coreia do Sul”. Insistiu: “Seria um enorme erro, espero que não aconteça”.

O Kremlin não publicou o texto completo do acordo, mas a agência central de notícias norte-coreana divulgou nesta quinta a cláusula de defesa mútua que diz: “Se uma das duas partes se vir submetida a uma situação de guerra, devido a alguma invasão armada de um país individual ou de várias nações, a outra parte fornecerá sem demora ajuda militar e de outro tipo, mobilizando todos os meios em seu poder em conformidade com o Artigo 51 da Carta Magna da ONU e as leis respectivas da República Popular Democrática da Coreia e da Federação da Rússia”.

Considerando que os Estados Unidos e seus aliados cometem o que denominou uma ação “próxima” à agressão ao fornecer armas à Ucrânia, que esta “usa contra nosso território, embora acreditem que não estão em guerra conosco”, Putin não descarta entregar armamento à Coreia do Norte.

Enfatizou: “Isso é o que já disse, inclusive em Pyongyang: reservamo-nos o direito de fornecer armas a outras partes do mundo. Tendo em conta nossos acordos com a Coreia do Norte, não o excluo”.

O mandatário russo espera que o referido acordo “seja, em certa medida, um elemento dissuasório” para evitar que a crise coreana, que tem um caráter latente, derive em um conflito armado. Quanto ao que afirmou em Pyongyang de que “seria necessário revisar” as sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra a Coreia do Norte, é “consciente de que na situação atual será praticamente impossível fazê-lo por meios convencionais”.

No entanto, afirmou: “é necessário trabalhar nisso, e demonstrar, por exemplo, como com a migração laboral, que certos instrumentos propostos e pactuados na época, claro, sob a disposição dos Estados Unidos, perdem toda força, significado e origem humanitária para o que foram introduzidos”.

Detalhes sobre a assinatura do acordo

Considerando que enfrentam um mesmo inimigo, os Estados Unidos, os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da Coreia do Norte, Kim Jong-un, assinaram nesta quarta-feira (19), em Pyongyang, o Acordo Integral de Parceria Estratégica, em uma cerimônia transmitida ao vivo pela televisão local no segundo e último dia da visita oficial do presidente russo ao país asiático, a primeira em quase 25 anos. Embora o Kremlin não tenha distribuído o texto completo do documento, Putin especificou que inclui uma cláusula que prevê assistência mútua em caso de agressão contra qualquer um deles.

Isto – na opinião de analistas – deixa aberta a porta para duas situações eventuais: uma, além de conseguir o direito de fornecer armas à Rússia, poder incorporar soldados norte-coreanos ao exército russo na operação na Ucrânia e, a outra, em caso de guerra entre as Coreias, a Rússia teria as mãos livres para prestar a ajuda militar que melhor lhe convier. Moscou e Pyongyang não confirmam nem desmentem nenhum desses extremos e enfatizam, em vez disso, que seu acordo estratégico tem um caráter essencialmente “pacífico e defensivo”.

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Para o anfitrião, “as relações entre nossos dois países estão orientadas para um maior desenvolvimento promissor e próspero para alcançar o progresso de ambos os países e aumentar o bem-estar de nossos povos através da cooperação ativa em diversos âmbitos, incluindo a política, a economia, a cultura e os assuntos militares”.

O hóspede coincidiu que este documento “é verdadeiramente revolucionário e reflete o desejo dos dois países de não se acomodar, mas de elevar nossas relações a um novo nível qualitativo ao estabelecer objetivos e diretrizes de grande escala para aprofundar os laços russo-coreanos a longo prazo”.

Fortalecimento dos vínculos entre Rússia e Coreia do Norte

Putin e Kim selaram com este pacto o fortalecimento dos vínculos da Rússia e da Coreia do Norte, que começaram a adquirir especial dinamismo nos últimos dois anos e meio a partir do apoio que os norte-coreanos estão dando ao se posicionarem ao lado russo no conflito da Ucrânia, apoio que o chefe do Kremlin agradeceu assim que chegou a Pyongyang, capital que visita pela segunda vez após sua primeira viagem em julho de 2000, recém-empossado como presidente da Rússia, quando se encontrou com Kim Jong-il, pai do atual líder norte-coreano.

“A Rússia aprecia o apoio constante e inabalável da República Popular Democrática da Coréia às políticas russas, incluindo no que se refere a uma solução negociada na Ucrânia”, sublinhou Putin, citado pela agência de notícias oficial Tass, e destacou: “os amigos coreanos adotaram uma posição objetiva e equilibrada sobre como resolver o problema ucraniano e compreendem as verdadeiras causas iniciais da crise, o que confirma que a política das autoridades coreanas é verdadeiramente independente, autônoma e soberana”.

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Por sua vez, na versão divulgada pela agência central de notícias da Coreia (KCNA, na sigla em inglês), Kim expressou o “pleno apoio e solidariedade ao governo, ao exército e ao povo russos quanto à sua operação militar especial na Ucrânia para proteger sua soberania, seus interesses em matéria de segurança e sua integridade territorial”. Em seguida, Putin apontou: “hoje lutamos juntos contra o hegemonizo e as práticas neocoloniais dos Estados Unidos e seus satélites, opondo-nos às tentativas de impor modelos de desenvolvimento e valores que são alheios a nós”.

Essas frases deixaram ver a boa sintonia que existe entre Putin e Kim, que em setembro passado, durante a visita do segundo ao extremo oriente russo, alcançaram um acordo que – segundo a Ucrânia, os Estados Unidos e a Coreia do Sul – permite ao exército russo adquirir mísseis balísticos, projéteis de artilharia e munições do vasto arsenal soviético da Coreia do Norte.

Parceria em múltiplas áreas

Moscou e Pyongyang não reconhecem oficialmente esses suprimentos, que poderiam constituir uma violação da proibição de comercializar armas imposta à Coreia do Norte pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, sanções que “precisariam ser reconsideradas”, disse Putin durante suas conversações na capital norte-coreana.

Ao término da reunião em formato ampliado, com membros das respectivas comitivas, especialmente os chanceleres e os ministros da Defesa de ambos os países, na qual durante uma hora e meia se discutiram diferentes projetos nas áreas em que a Coreia do Norte está mais interessada, como alimentos, combustíveis, tecnologias, saúde e turismo russos, Putin e Kim realizaram um encontro a sós, com intérpretes, para tratar por um período de duas horas os assuntos mais delicados que ambos os países mantêm em segredo.

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Uma vez afinados os últimos detalhes, os mandatários russo e norte-coreano procederam a assinar o acordo de parceria estratégica, que substitui os tratados de amizade e cooperação assinados em 1961, 2000 e 2001.

A visita de Putin ao Vietnã

Rússia e Vietnã deram mostras de proximidade nesta quinta-feira (20) durante a visita oficial do presidente Vladimir Putin a Hanói, na qual foram assinados 11 acordos e um memorando de entendimento em áreas como energia, educação e ciência, além de uma declaração conjunta onde expressam o compromisso de aprofundar sua relação bilateral, incluindo a cooperação em matéria de defesa.

Putin chegou à capital do Vietnã na madrugada de quinta e se entrevistou tanto com seu colega, o presidente To Lam, quanto com o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Nguyen Phu Trong, a máxima autoridade do país asiático.

Diferente da Coreia do Norte, o Vietnã mantém ascendentes relações com os Estados Unidos e a China, e adota uma posição neutra em relação ao conflito na Ucrânia e pratica uma política exterior que se tem chamado de diplomacia do bambu, que busca agradar todas as potências sem se comprometer com nenhuma.

Por isso, esta visita de Putin – primeira em 10 anos e um ano após as viagens ao Vietnã dos presidentes estadunidense, Joe Biden, e chinês, Xi Jinping – se interpreta como uma tentativa de propiciar uma aproximação entre Moscou e Hanói e, na opinião de observadores locais, cumpriu seu propósito ao receber um tratamento cordial, embora sem a pompa norte-coreana, e com uma dezena de acordos, embora mais modestos.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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