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Montagem criada pela IA Germini / Lenin, Putin e Schwarzenegger representando o imaginario popular do que é ser russo

Quem fala pela esquerda russa? A tentativa de importar um socialismo sob medida para o Ocidente

Em Porto Alegre, redes do exílio russo financiadas por fundações europeias tentaram impor uma narrativa alinhada à OTAN, apagando o histórico anti-imperialista da América Latina sob a fachada humanitária

Igor Gorbunov, Cíntia Xavier, Hector Schpree
Diálogos do Sul Global
Moscou

Tradução:

Porto Alegre como terreno de disputa

Porto Alegre ocupa um lugar simbólico na imaginação política da esquerda internacional. A memória do Fórum Social Mundial faz da cidade um ponto de encontro entre tradições anti-imperialistas forjadas, no Sul Global, pela experiência de ditaduras, sanções, pressões externas e imposição de agendas neoliberais. Foi nesse cenário que ocorreu, em março de 2026, a Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos.

O fórum reuniu PSOL, PT, PCdoB, sindicatos e movimentos sociais em debates sobre neofascismo, imperialismo, solidariedade à Palestina e à América Latina sob pressão dos Estados Unidos, com destaque para Cuba, Venezuela e Irã [1][2]. Esse dado é decisivo para entender o que estava em disputa: Porto Alegre não era um palco “neutro”, mas um espaço marcado por uma tradição latino-americana com leitura própria do imperialismo.

Este texto não busca idealizar o Estado russo, que acumula contradições e problemas sociais e políticos. No entanto, criticar o Kremlin, por si só, não basta para caracterizar uma posição anti-imperialista. Do mesmo modo, falar em abstrato sobre direitos, paz e solidariedade não transforma automaticamente uma rede política na voz natural, nem exclusiva, da esquerda russa.

Nos últimos anos, em torno da Freedom Zone, da plataforma de mídia Rabkor e de figuras da emigração russa, consolidou-se um circuito que procura apresentar uma interpretação particular da guerra e da política russa como se ela representasse todo o conjunto da esquerda russa. É nesse quadro que a presença da ativista russa no exílio Kseniia Kagarlitskaya, ligada à Freedom Zone, no Brasil merece ser examinada.

Kseniia Kagarlitskaya chegou ao Brasil não como mera participante, mas como representante da Freedom Zone e de uma articulação política já organizada. Na página da arrecadação no GoFundMe, sua viagem a Porto Alegre, entre 26 e 29 de março de 2026, aparece como iniciativa da Boris Kagarlitsky International Solidarity Campaign e da Freedom Zone.

No mesmo texto, ela é apresentada como fundadora da Freedom Zone e como alguém que levaria ao fórum a “voz da esquerda russa anti-guerra” [3]. No site Free Boris, o apelo pedia apoio para que ela pudesse relatar, em Porto Alegre, a situação dos presos políticos na Rússia e a guerra na Ucrânia [4]. Em outras palavras, sua presença foi preparada desde o início como uma intervenção política voltada a uma audiência internacional.

A arrecadação em si não é o centro da crítica. O dado relevante é que a viagem vinculava a pauta dos presos políticos russos a uma estratégia de reconhecimento externo de uma fração específica da emigração russa [3][4]. O sentido dessa intervenção ficou ainda mais claro fora do espaço formal da conferência.

Em postagens de março de 2026, Kagarlitskaya relatou uma palestra para estudantes brasileiros e escreveu: “Eles realmente achavam que Putin está lutando contra a expansão da OTAN, e que essa é a verdadeira causa da guerra. Tentei convencê-los do contrário… Parece que consegui! E eles prometeram começar a escrever cartas para os presos políticos” [5]. Em outra postagem, anunciou que falaria na UNICAMP e, em outra, definiu-se como alguém no quarto ano de exílio[5].

O peso dessas falas não está em sugerir uma conspiração, mas em revelar um modo de intervenção: tratar uma audiência latino-americana politicamente formada como público a convencer, disputar sua leitura da guerra e converter eventual concordância em apoio a uma campanha específica. Estudantes, militantes e organizações brasileiras, porém, não são uma audiência vazia à espera de uma explicação correta vinda do exílio russo ou europeu. A esquerda latino-americana tem sua própria memória histórica de Washington, da OTAN, da Doutrina Monroe, das sanções e da pressão econômica.

Quando se leva a esse público uma moldura em que a Rússia aparece como centro do imperialismo contemporâneo, enquanto o papel do Ocidente é deslocado para segundo plano, vê-se uma tentativa clara de transplantar para o Brasil uma leitura produzida em outro contexto político, dentro de um fórum que os organizadores apresentam como espaço de luta contra o neofascismo e o imperialismo em sentido amplo [1][2].

O relato posterior de Kagarlitskaya reforça essa lógica de convencimento. Ali, afirmou ter recebido a tarefa de representar a questão dos presos políticos russos. Na mesma publicação, disse que procurou desfazer, entre estudantes brasileiros, a ideia de que a expansão da OTAN é a causa central da guerra, percepção que, segundo ela, circula amplamente na América Latina [6].

Ao resumir o conflito sobretudo como “instrumento do Kremlin” para aprofundar a “repressão interna” e “cortar investimentos sociais”, Kagarlitskaya não oferecia apenas um testemunho, mas uma moldura política já pronta, pensada para dialogar com uma audiência que possui sua própria experiência histórica com a OTAN e com a intervenção ocidental [6].

Essa tensão ajuda a explicar por que ativistas do mesmo campo político em que Kagarlitskaya circula consideraram insatisfatório o resultado político do encontro em Porto Alegre. Em texto publicado pela Europe Solidaire, Alfons Bech, porta-voz da European Network for Solidarity with Ukraine, descreve a declaração final do fórum como “fraca” por não nomear explicitamente a Rússia como uma das potências imperialistas mais agressivas. Para esses setores, o documento reflete a persistência do chamado “campismo” na esquerda latino-americana, isto é, a prioridade dada ao enfrentamento do imperialismo estadunidense e a recusa em reorganizar toda a leitura da conjuntura internacional a partir da condenação prioritária de Moscou [7].

A insatisfação desses ativistas com a declaração final revela, portanto, um limite político importante. A tentativa de deslocar o centro do debate anti-imperialista para uma condenação prioritária de Moscou encontrou resistência em um espaço cuja tradição foi formada por outra experiência histórica: a das intervenções dos Estados Unidos, da pressão econômica, das sanções e da presença da OTAN como instrumento de poder ocidental. O resultado não foi a simples vitória de uma posição sobre outra, mas a recusa de transformar Porto Alegre em caixa de ressonância de uma leitura externa já pronta.

Esse descompasso ajuda a entender o sentido político do episódio. Nos materiais do PCdoB, a conferência foi apresentada como espaço para discutir a ultradireita, o imperialismo norte-americano, a solidariedade com a Palestina, Cuba e Venezuela, e a defesa dos direitos sociais, da ciência, da cultura e da soberania dos povos. Também ocorreram mesas específicas sobre socialismo e alternativas ao imperialismo [2]. Nesse contexto, a passagem de representantes da emigração russa pelo Brasil não pode ser lida apenas como intercâmbio solidário. Ela também expressa a tentativa de inserir, em um espaço moldado pela tradição anti-imperialista latino-americana, uma leitura da guerra centrada na condenação prioritária de Moscou. É essa operação política que o restante deste texto pretende examinar.

A infraestrutura da rede: Freedom Zone, FBK e mídia emigrada

Nessa configuração, Kseniia Kagarlitskaya aparece sobretudo como rosto público de uma rede. Nas fontes abertas consultadas, ela não aparece como ré em processo criminal amplamente divulgado nem como pessoa oficialmente classificada como “agente estrangeira” na Federação Russa. Esse ponto precisa ser registrado com precisão. Seu papel, porém, é outro: o de organizadora e figura visível de uma infraestrutura transnacional de mobilização e arrecadação.

Em seu site, a Freedom Zone se apresenta como uma série de eventos internacionais voltados a dar visibilidade à situação dos presos políticos na Federação Russa e a arrecadar recursos para suas famílias, com atividades em catorze países entre 2024 e 2025[8]. Na seção de apoio, o projeto divulga carteiras de criptomoedas, Patreon, Boosty e outros mecanismos permanentes de financiamento [9]. Trata-se, portanto, de uma rede estável de solidariedade, visibilidade e captação de recursos, mais do que de uma campanha pontual.

Para o leitor brasileiro, é importante esclarecer também o que é o FBK, sigla em russo da Fundação de Combate à Corrupção, ligada a Alexei Navalny. O FBK não é uma organização de esquerda nem uma plataforma anti-imperialista, mas um dos principais polos da oposição liberal russa. Sua projeção pública veio de investigações anticorrupção realizadas por uma estrutura privada de oposição política, e não por órgãos públicos de controle. Essas investigações se combinaram, ao longo dos anos, com a mobilização política direta contra o governo russo.

Na Rússia, sua situação jurídica é especialmente rígida: em junho de 2021, o Tribunal da Cidade de Moscou determinou a liquidação do FBK e do Fundo de Proteção dos Direitos dos Cidadãos, conhecido pela sigla FZPG, além de proibir a atividade dos chamados “Quartéis de Navalny” [10]. Em agosto de 2021, a Procuradoria-Geral informou que a decisão foi mantida em instância superior [11].

Já em novembro de 2025, a Procuradoria-Geral da Federação Russa classificou como terrorista a Anti-Corruption Foundation, Inc., sediada nos Estados Unidos, apresentada pelas autoridades russas como continuidade externa das estruturas anteriormente dissolvidas [12]. O caráter político dessas decisões pode e deve ser debatido, mas elas não alteram um dado central para este artigo: o FBK é um ator político específico, com identidade liberal própria, e não uma entidade neutra de defesa de direitos.

A passagem para estruturas sediadas fora da Rússia ajuda a entender a dimensão internacional do FBK. A Anti Corruption Foundation Inc. não aparece apenas na decisão das autoridades russas: em bases públicas de declarações fiscais dos Estados Unidos, a entidade consta como organização sem fins lucrativos registrada em Nova York; em 2022, declarou receita de US$ 2,455 milhões, quase integralmente formada por contribuições [13]. Uma investigação da SOTA, baseada nesses relatórios fiscais, apontou que a entidade repassou quase US$ 1,4 milhão em 2022 à organização lituana Posterum, em operações descritas como ligadas à produção de conteúdo[14]   [15].

Essa internacionalização não se limita à captação de recursos e à produção midiática. Figuras associadas ao FBK também atuam diretamente no debate político norte-americano. Anna Veduta, então vice-presidente da Anti-Corruption Foundation International, participou da audiência da U.S. Helsinki Commission defendendo a ampliação de sanções contra políticos, oligarcas e apoiadores do Estado russo [16].

Em maio de 2022, a Radio Free Europe/Radio Liberty registrou ainda a ida de aliados de Navalny a Washington para pressionar parlamentares norte-americanos por uma nova rodada de sanções [17]. Esses dados indicam que o FBK não funciona apenas como uma marca oposicionista russa, mas como uma estrutura política transnacional, com captação de recursos, produção midiática e atuação junto a instituições ocidentais.

A sensibilidade jurídica dessa aproximação aparece também no modo como o Estado russo enquadra doações ao FBK. Em março de 2026, veículos russos noticiaram que um morador do Primorie foi condenado a 14 anos de colônia de regime estrito por transferências que, segundo a acusação, teriam financiado o FBK e as Forças Armadas da Ucrânia, em valor total superior a 13 mil rublos [18]. O episódio não deve ser lido como detalhe isolado: na conjuntura russa, o ecossistema do FBK é tratado pelo Estado como parte de uma disputa que envolve segurança, guerra e oposição internacional.

Essa dimensão internacional também ajuda a ler a agenda pública da Freedom Zone. Nos eventos divulgados pelo projeto, aparecem de forma recorrente, ao lado de Kagarlitskaya e de outros organizadores, nomes da oposição liberal russa e de meios de comunicação associados a esse campo. No festival realizado em Toronto, em 14 de junho de 2025, figurava entre os participantes Georgii Alburov, investigador do FBK [19].

Na programação do evento de Nova York, em 22 de novembro de 2025, apareciam a própria Kagarlitskaya, Maria Pevchikh, então chefe do departamento de investigações do FBK, além de representantes da American Russian-speaking Association for Civil & Human Right e da Russian Refugee Foundation [20].  Mais recentemente, em Paris, 11 de abril de 2026, a programação incluía Kseniia Kagarlitskaya, Andrei Rudoy, blogueiro político ligado ao projeto midiático Vestnik Buri, e Mikhail Lobanov, matemático e ativista que também produz conteúdo para o Rabkor, em uma atividade que combinava falas públicas, leilão beneficente, apresentação de projetos e arrecadação para presos políticos e seus familiares [21].

Em Riga, em janeiro de 2026, a Freedom Zone anunciava a participação de Galina Timchenko, diretora-geral da Meduza, veículo de mídia liberal russo sediado fora da Rússia, do apresentador da Radio Free Europe/Radio Liberty Ivan Voronin e do editor-chefe da Novaya Gazeta Europe, Kirill Martynov][22].

A presença de um nome ligado à Radio Free Europe/Radio Liberty merece atenção. A RFE/RL é financiada pelo Congresso dos Estados Unidos por meio da U.S. Agency for Global Media [23]. Sua própria página histórica registra que, nos anos 1950 e 1960, a Radio Free Europe e a Radio Liberty foram financiadas principalmente pelo Congresso norte-americano por meio da CIA [24]. Esse histórico reforça a necessidade de examinar com cuidado o ecossistema político-midiático em que a Freedom Zone circula.

Em Varsóvia, em fevereiro de 2026, foi divulgada uma reunião pública com Ivan Zhdanov, ex-diretor do FBK e outra figura do campo político ligado ao entorno de Navalny [25]. O padrão é claro: a Freedom Zone opera não apenas como iniciativa humanitária, mas também como ponto de encontro entre campanhas de solidariedade, ativismo de direitos humanos e o ecossistema liberal da emigração russa.

A escala desses eventos também levanta uma questão de transparência. A Freedom Zone divulga mecanismos permanentes de apoio, como Patreon, Boosty e carteiras de criptomoedas[9], e organiza atividades em cidades como Toronto, Nova York, Paris, Riga e Varsóvia [19] [20] [21] [22] [25]. Nas páginas consultadas, porém, não aparecem relatórios financeiros consolidados que permitam compreender como se financia a estrutura internacional desses encontros, incluindo aluguel de espaços, produção técnica, deslocamentos e eventuais remunerações. Para uma rede que busca reconhecimento em espaços anti-imperialistas do Sul Global, essa ausência de clareza importa: o público brasileiro tem o direito de saber não apenas quem fala, mas também quais meios materiais tornam possível essa circulação política.

Essa presença recorrente de atores da mídia liberal emigrada, de organizações de direitos humanos e de estruturas ligadas à política externa ocidental deve ser lida dentro de um ambiente mais amplo de disputa internacional sobre a Rússia. O National Endowment for Democracy, por exemplo, foi criado por ato do Congresso dos Estados Unidos em 1983 como fundação privada dedicada à promoção de instituições democráticas fora do país e opera com recursos públicos norte-americanos [26]. A relação entre esse tipo de estrutura e a política externa dos Estados Unidos é objeto de crítica antiga: o próprio cofundador do NED, Allen Weinstein, afirmou em 1991 que muito do que a entidade fazia abertamente havia sido feito antes de forma encoberta pela CIA [27].

No caso ucraniano, essa relação entre promoção de democracia, guerra e política externa aparece de forma particularmente sensível. Em relatório próprio, o NED apresenta sua atuação na Ucrânia como parte do fortalecimento da “resiliência democrática” do país e do enfrentamento à “agressão russa”. O mesmo relatório afirma que parceiros da fundação contribuíram para mecanismos de supervisão de compras não letais durante a guerra, com economia estimada pela própria entidade em cerca de 300 milhões de dólares em 2024 [28]. Separadamente, a USAID, uma das principais agências da política externa norte-americana, informou apoio bilionário ao Estado ucraniano entre 2022 e 2024, inclusive por meio de assistência orçamentária direta [29].

Para uma esquerda latino-americana anti-imperialista, esse ambiente institucional não pode ser tratado como neutro. O que se observa, nesse caso, é justamente a convergência política em torno da Freedom Zone: estruturas ocidentais de financiamento, mídia e direitos humanos atuam simultaneamente na sustentação internacional da Ucrânia em guerra e na produção de narrativas oposicionistas sobre a Rússia. Trata-se de um campo institucional com prioridades, linguagem e alianças próprias, não apenas de solidariedade humanitária dispersa. Para quem vem de uma tradição marcada por intervenções dos Estados Unidos, essa convergência exige cautela, não adesão automática.

Já a Freedom House, organização norte-americana de direitos humanos com forte dependência de recursos públicos dos Estados Unidos, também foi declarada “organização indesejável” na Rússia em 2024, sob a acusação de promover interesses estratégicos de Washington e apoiar sanções contra Moscou [30] [31]. Ainda que essa seja a formulação das autoridades russas, o dado ajuda a situar o ambiente institucional em que parte da oposição emigrada russa circula.

No mesmo ambiente histórico de financiamento externo à sociedade civil russa aparecem também as fundações Open Society, associadas a George Soros, reconhecidas na Rússia como “organizações indesejáveis” [32]. Em quase três décadas de atuação no país, essas estruturas investiram cerca de um bilhão de dólares em “ciência, educação e organizações da sociedade civil”[33].

Esse histórico dificulta apresentar esse tipo de financiamento como mera cooperação desinteressada: fundações privadas ocidentais não raro participam da formação de elites intelectuais, redes cívicas e linguagens políticas alinhadas ao repertório liberal internacional. Não por acaso, em diferentes disputas pós-soviéticas, as fundações de Soros aparecem de modo recorrente em controvérsias sobre “revoluções coloridas”, promoção da democracia e influência externa [34].

Portanto, essa convergência de agendas não se vê apenas nos eventos. Ela também aparece na infraestrutura compartilhada das campanhas em torno dos presos políticos. Em junho de 2024, a Meduza noticiou a maratona “Você não está sozinho”, realizada por Meduza, Dozhd, Mediazona, Sluzhba Podderzhki e pelos veículos do FBK (Popularnaia Politika e Navalny Live) [35]. Isso não significa que todos os participantes desse circuito estejam subordinados ao FBK. Mostra, contudo, que, no meio emigrado em que Kagarlitskaya ganha projeção, as fronteiras entre linguagem de direitos humanos, mobilização liberal e ativismo midiático já se tornaram bastante porosas.

Outro exemplo dessa circulação aparece no encontro realizado em Belgrado, em 7 de dezembro de 2025, pelo Fundo de Apoio aos Presos Políticos de Esquerda. A atividade reuniu novamente nomes desse mesmo circuito, entre eles Andrei Rudoy e Kseniia Kagarlitskaya, além de familiares de pessoas presas; segundo os organizadores, foram arrecadados cerca de 70 mil rublos, e o encontro também serviu para anunciar o lançamento de um site do fundo [36]. O episódio reforça a presença de um circuito transnacional em que se repetem nomes, causas, mecanismos de arrecadação e formas de legitimação pública.

É nesse ponto que o Rabkor ajuda a fechar o quadro. Identificada com setores da esquerda russa, a plataforma aparece como um espaço midiático em que se cruzam comentaristas, emigrantes políticos, campanhas de solidariedade e pautas de direitos humanos. Sua importância está em mostrar que a circulação dessas figuras não se dá apenas por festivais da Freedom Zone ou por estruturas liberais do entorno do FBK, mas também por meios que reivindicam uma linguagem supostamente de “esquerda”.

Kagarlitskaya se insere nesse circuito por meio da Freedom Zone, enquanto Rudoy e Lobanov aparecem em eventos e projetos de mídia relacionados ao mesmo ambiente. O interesse analítico está justamente nessa rede heterogênea e relativamente estável, capaz de articular um tema moralmente forte, o dos presos políticos, à difusão de uma leitura bastante determinada da guerra e da política russa. Para isso, as trajetórias de Boris Kagarlitsky, Lobanov e Rudoy ajudam a entender como esse circuito ganha densidade política.

Kagarlitsky, Lobanov e Rudoy: capital simbólico, exílio e redes europeias

É preciso falar separadamente de Boris Kagarlitsky, porque sem ele não se entende o capital simbólico mobilizado por essa rede. Durante décadas, Boris foi uma figura visível do pensamento de esquerda russo. Depois de 2022, sua projeção pública passou a ser marcada por suas posições sobre a guerra e pela resposta do Estado russo a elas. Segundo a TASS, Kagarlitsky foi incluído no registro de “agentes estrangeiros” e na lista de terroristas e extremistas [37].

Em material da própria agência, o Ministério da Justiça russo associou a classificação como “agente estrangeiro” à participação em projetos conjuntos com o escritório russo da Fundação Rosa Luxemburgo[38]. Em fevereiro de 2024, um tribunal de apelação o condenou a cinco anos de colônia penal por justificação do terrorismo, e, em junho do mesmo ano, a sentença foi mantida [39] [40]. As autoridades russas apresentam esse percurso como resultado de vínculos com estruturas financiadas no exterior. Seus apoiadores internacionais, por sua vez, o descrevem como perseguição política.

A dimensão relevante, aqui, não é apenas o processo judicial, mas também o tipo de inserção institucional que acompanhou sua trajetória. Segundo o Ministério da Justiça russo, o instituto ligado a Kagarlitsky cooperava com a filial russa da Fundação Rosa Luxemburgo, financiada com recursos públicos alemães. Entre os parceiros do instituto apareciam ainda a Fundação Friedrich Ebert e a Fundação Heinrich Böll.

A crítica não recai sobre a simples existência de financiamento externo, algo relativamente comum em circuitos acadêmicos, intelectuais e militantes transnacionais. O aspecto decisivo é que a crítica à política externa da Rússia associada a esse campo intelectual e militante passou a circular em conexão estreita com fundações políticas europeias, vínculo que raramente é explicitado quando essa corrente é apresentada como voz independente e exclusiva da esquerda russa.

Esse enquadramento ganhou novo peso em julho de 2025, quando a Procuradoria-Geral da Federação Russa declarou a Fundação Rosa Luxemburgo uma “organização indesejável”. A justificativa oficial acusou a fundação de difundir materiais produzidos por “agentes estrangeiros”, fomentar sentimentos de protesto entre jovens, incentivar formas de mobilização juvenil contra o Estado e desacreditar os órgãos do poder estatal russo [41].

A decisão também se insere em um movimento mais amplo contra fundações políticas alemãs: desde 2022, as estruturas ligadas a partidos alemães, como Heinrich Böll, Friedrich Ebert, Friedrich Naumann, Konrad Adenauer, Hanns Seidel e Rosa Luxemburgo, foram progressivamente atingidas por esse tipo de enquadramento [42]. Para os fins deste artigo, o dado deve ser lido como sinal da centralidade que essas fundações passaram a ocupar na disputa entre Estado russo, oposição emigrada e redes políticas europeias.

A própria atuação da Fundação Rosa Luxemburgo na Ucrânia já foi objeto de controvérsia na esquerda alemã. Em 2016, a fundação respondeu a uma reportagem da Junge Welt que acusava parceiros ucranianos da Fundação de estarem próximos de setores pró-OTAN e da direita. A FRL negou vínculos com grupos de extrema direita e afirmou trabalhar com diferentes organizações do campo progressista ucraniano, incluindo sindicatos, grupos juvenis, LGBTI, artistas e setores da esquerda [43]. Essa controvérsia é relevante porque mostra que essas fundações não atuam em terreno neutro. Elas operam em campos políticos disputados, nos quais a linguagem da esquerda, dos direitos humanos e da democracia pode vir a conviver com agendas políticas controversas.

Isso é ainda mais sensível porque a presença de setores de extrema direita na política ucraniana pós-2014 não é uma invenção russa. Em março de 2014, o eurodeputado Fiorello Provera apresentou uma pergunta escrita à Comissão Europeia, dirigida à vice-presidente e alta representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, sobre os vínculos do partido ucraniano Svoboda com ideologias neonazistas e nacionalistas radicais. O documento mencionava o uso da runa wolfsangel e declarações antissemitas atribuídas a Oleh Tyahnybok [44].

O mesmo cuidado vale para o Pravyi Sektor, ou Setor de Direita, agrupamento nacionalista ucraniano pró-Kiev que também atuou como formação voluntária no conflito do Donbass. A Anistia Internacional registrou, em 2015, denúncias de tortura e maus-tratos cometidos por diferentes forças no leste da Ucrânia, tanto separatistas quanto pró-Kiev. No caso do Pravyi Sektor, a organização relatou uma acusação especialmente grave: o uso de um antigo acampamento juvenil como prisão improvisada, onde civis teriam sido mantidos como reféns, torturados e extorquidos [45]. Esse dado reforça a necessidade de cautela quando atores vinculados a fundações e redes políticas ocidentais se apresentam, no Brasil, como portadores naturais de uma agenda antifascista.

Mas, para este artigo, há um elemento ainda mais importante. O caso de Boris Kagarlitsky converteu-se em recurso moral e organizacional em torno do qual se estruturou uma rede internacional de solidariedade, na qual sua filha, Kseniia Kagarlitskaya, atua como mediadora entre a pauta russa e públicos estrangeiros.

Mikhail Lobanov também ocupa, nessa rede, outro lugar relevante. Matemático, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou e ativista político, ele foi incluído no registro de “agentes estrangeiros” em junho de 2023 [46]. No mês anterior, sua casa havia sido alvo de busca, e ele chegou a ser detido em um caso relacionado a Ilia Ponomarev, ex-deputado russo radicado na Ucrânia e figura da oposição no exílio.

Segundo o FSB, Ponomarev participava da atividade da Legião “Liberdade da Rússia”, formação armada que combate ao lado da Ucrânia e é classificada pela Federação Russa como organização terrorista; a mesma versão afirma que ele atuava no apoio informacional e no recrutamento para a organização, que esteve em Azovstal em abril de 2022 e que apareceu na televisão ucraniana com uniforme, emblemas da Legião e armas, apresentando-se como participante de ações de combate contra o Exército russo [47][48].

Veículos russos como NTV e Stoletie também afirmaram que a segurança pessoal de Ponomarev seria composta por funcionários do Serviço de Segurança da Ucrânia, o SBU. Nessas mesmas publicações, o chamado Congresso dos Deputados do Povo, movimento criado por Ponomarev na Polônia, é associado a um “bloco de força” ligado a Maksimilian Andronnikov, vice-comandante da Legião “Liberdade da Rússia” [49]. Lobanov negou qualquer ligação com Ponomarev [47]. Depois de ser declarado “agente estrangeiro” e demitido da universidade, deixou a Rússia.

Esse contexto torna politicamente sensível a forma como Lobanov passou a se reposicionar fora da Rússia. Mesmo negando qualquer ligação com Ponomarev [47], sua trajetória se desloca para um campo emigrado em que oposição liberal, redes partidárias europeias, campanhas midiáticas e guerra na Ucrânia se cruzam de maneira cada vez mais explícita. Por isso, quando Lobanov é recebido como interlocutor da “esquerda russa”, é necessário explicitar também o ambiente político em que sua fala passou a circular.

Em seu canal no Telegram, Lobanov escreveu que, depois de sair do país, precisava “construir relações de longo prazo com forças políticas europeias do flanco democrático”, citando como exemplo sua campanha por Arnaud Le Gall [50]. Deputado da La France Insoumise, partido de Jean-Luc Mélenchon, Le Gall foi secretário da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional francesa em 2024 e 2025 [51]. Lobanov trata a construção desses vínculos como tarefa política e, ao mesmo tempo, divulga formas regulares de financiamento, como Boosty e Patreon [50]. Sua intervenção internacional, portanto, já chega mediada por esse novo pertencimento político.

Andrei Rudoy também ajuda a visualizar esse mesmo processo no terreno da mídia. Em outubro de 2023, ele foi incluído no registro de “agentes estrangeiros”. Segundo o FederalPress, citando o Ministério da Justiça, a medida foi justificada pela participação na criação e difusão de materiais de “agentes estrangeiros”, por declarações contra a operação militar especial e pela divulgação de informações consideradas falsas sobre decisões das autoridades russas [52]. Em 2024, ele foi multado administrativamente por “desacreditar” o Exército [53].

A própria trajetória narrada por Rudoy mostra sua inserção em redes políticas europeias. Segundo ele, depois de deixar Dzerzhinsk e passar pelo Cazaquistão em 2022, contatos ligados ao sindicato francês de professores acionaram Jean-Luc Mélenchon, que teria recorrido a Emmanuel Macron para facilitar a emissão de seu visto francês [54]. Já em Paris, Rudoy foi apresentado publicamente ao lado de Mélenchon e de outros ativistas russos emigrados, num gesto que também servia à política francesa: exibir a capacidade da esquerda parlamentar europeia de acolher opositores russos.

Em entrevista, Rudoy afirmou ter discutido com Mélenchon perspectivas de cooperação internacional e possíveis projetos com apoio da La France Insoumise [54]. A partir daí, sua fala pública sobre a Rússia passa a circular em um espaço mediado por partidos, lideranças e estruturas políticas da Europa Ocidental.

A organização de sua prática midiática reforça esse quadro. Em seu canal no Telegram, Rudoy divulga formas de apoio por cartão, YooMoney, PayPal, Boosty, Patreon e criptomoedas [55]. No mesmo espaço, promoveu em seu projeto midiático Vestnik Buri uma longa conversa com Maria Pevchikh, dirigente do FBK, e publicou materiais sobre atores centrais da oposição russa no exterior, como o próprio FBK, Maksim Kats, comentarista liberal, e Mikhail Khodorkovsky, ex-oligarca e uma das figuras mais conhecidas da oposição no exílio [56].

Em conjunto, esses cruzamentos mostram uma copresença recorrente no mesmo campo discursivo e político. Quando a mesma figura mantém um projeto de mídia, arrecada recursos, dialoga com nomes do entorno de Navalny, participa de eventos com Lobanov e Kagarlitskaya e se associa a campanhas em torno dos presos políticos de esquerda, o que se destaca não é a trajetória individual de um blogueiro, mas seu papel como ponto de conexão em uma comunicação emigrada mais ampla [21][57].

Essas trajetórias também ajudam a precisar a natureza política desse exílio. Nas apresentações públicas de Kagarlitskaya, Lobanov e Rudoy, e nas campanhas construídas em torno deles, aparecem frequentemente termos como “exílio”, “missão política”, “campanhas internacionais”, “obtenção de vistos”, “arrecadação” e “organização de redes de apoio fora da Rússia” [3][50][54]. O ponto não é discutir o estatuto jurídico individual de cada um, mas constatar que se trata de uma emigração rapidamente integrada a circuitos midiáticos, partidários e institucionais do Ocidente. Essa fração política não pode ser tomada, sem contestação, como representação natural de toda a Rússia e, menos ainda, de toda a esquerda russa.

A esquerda russa não cabe na vitrine emigrada

Tomar a rede emigrada como sinônimo da esquerda russa produz uma simplificação enganosa. Um contraste basta. Em entrevista ao portal russo de opinião política APN Severo-Zapad, o anarquista de codinome Djurab, que combate ao lado da Rússia, apresenta a guerra como parte de um confronto com o imperialismo ocidental e critica correntes anarquistas alinhadas à Ucrânia [58]. Essa voz evidencia que o campo da esquerda russa está longe de formar um bloco único: é um espaço fraturado, atravessado por disputas profundas sobre guerra, imperialismo e estratégia.

Essa fratura também aparece no campo anarquista. A BOAK, Organização de Combate dos Anarcocomunistas, apresenta-se como uma estrutura militante anarquista russa envolvida em luta contra o Estado russo. Em textos públicos, seus militantes defendem a luta partidária dentro da Rússia e reconhecem a participação de militantes associados à organização em unidades armadas do lado ucraniano, como o Batalhão Siberiano das Forças Armadas da Ucrânia [59].

A esse quadro se soma o Livro Negro do Capitalismo, projeto midiático da esquerda russa emigrada que circula no mesmo ambiente de debates, campanhas e redes de solidariedade. Ao republicar apelos da BOAK ou oferecer apoio informativo a esse campo [60], o projeto torna ainda menos sustentável apresentar esse ambiente ao público brasileiro apenas como uma “rede humanitária” de apoio a presos. Há ali também disputas sobre luta armada, guerra, sabotagem e alinhamento militar, temas que dificilmente aparecem quando essas vozes são apresentadas como simples “esquerda russa anti-guerra”.

O relato de Alfons Bech sobre o fórum em Porto Alegre confirma, por outro ângulo, que essa disputa atravessou o próprio evento. Ele menciona que, em algumas seções, houve falas abertamente favoráveis à posição russa na guerra, protagonizadas por dois veteranos do meio político e sindical, autores de um livro em defesa dessa leitura do conflito [7].

Esse episódio mostra como a pluralidade da esquerda russa e de seus interlocutores acaba filtrada por vozes mais reconhecíveis para o público externo. A visibilidade se concentra em posições que já chegam prontas para o consumo internacional, enquanto correntes socialistas, sindicais e anti-imperialistas que não se confundem nem com a narrativa estatal russa nem com a moldura liberal dominante do exílio, ficam fora de cena.

É nesse ponto que entra a legitimação humanitária. A ajuda às famílias dos presos, aos advogados, aos pacotes e às cartas enviadas às colônias penais pode ser real e produzir efeitos concretos. Justamente por isso, a força moral da pauta dos presos políticos ajuda a explicar a eficácia dessa rede. Quando quase toda a imagem exportável da Rússia passa a ser organizada em torno desse tema, a atividade humanitária ganha uma segunda função: converte-se em credencial política diante do público internacional e, muitas vezes, suspende de antemão perguntas sobre a linha política dos próprios mediadores.

Essa seletividade também precisa ser observada. A rede de Kagarlitskaya convoca estudantes, militantes e públicos estrangeiros a escrever cartas para presos políticos russos, gesto que pode ter valor humano concreto. Mas, quando essa prática é apresentada como eixo exclusivo de uma ética internacional de direitos humanos, chama atenção a ausência de campanhas equivalentes, no mesmo circuito, em torno de presos palestinos, de Guantánamo ou de outras vítimas de Estados aliados ao Ocidente.

A pauta humanitária passa a cumprir outra função quando se converte em porta de entrada para uma leitura unilateral: a repressão e a violência política atribuídas ao Estado russo ocupam todo o primeiro plano, enquanto a violência produzida ou sustentada por potências ocidentais desaparece do enquadramento.

Essa seletividade também aparece na geografia da rede. Nas páginas públicas da Freedom Zone e de iniciativas associadas, os festivais e ações de solidariedade aparecem sobretudo em cidades e países da Europa, da América do Norte e de espaços politicamente próximos ao Ocidente.

Esse dado é revelador, ao evidenciar que uma rede que busca reconhecimento em ambientes anti-imperialistas do Sul Global se restringe principalmente aos lugares onde a crítica à Rússia se encaixa com mais facilidade no senso comum político local. Para o público latino-americano, marcado pela experiência de golpes, sanções, bloqueios, endividamento externo e intervenções dos Estados Unidos, essa geografia da solidariedade não pode ser vista como neutra.

Na prática, isso produz uma seleção não apenas de temas, mas também de interlocutores. A Rússia que circula para o público externo passa a ser organizada em camadas. Primeiro aparecem os presos políticos russos e seus familiares. Depois entram os mediadores que traduzem essa experiência para uma linguagem política internacional e decidem com quem dividir o palco, quais alianças privilegiar, em que festivais circular e quem terá voz.

Por isso, avaliar Kagarlitskaya, Lobanov e Rudoy apenas pela pergunta “ajudam ou não ajudam os presos?” empobrece a análise. O mais importante é entender como, por meio deles, vai sendo desenhado um mapa da Rússia aceitável para a audiência externa, sobretudo ocidental. E, nesse mapa, com frequência se destaca um corredor emigrado que leva ao FBK, à Meduza, à Radio Free Europe/Radio Liberty, a partidos europeus e a campanhas anglófonas de arrecadação [20][22][25][35][50][56].

Convém fazer uma precisão metodológica. Este artigo não pretende imputar crimes ou vínculos sem base documental suficiente. O que interessa, nas fontes abertas disponíveis, é algo mais visível e demonstrável: a existência de uma rede que, por meio de festivais, palestras, financiamento coletivo e colaborações midiáticas, oferece ao público estrangeiro uma interpretação bastante limitada da Rússia e da guerra, muitas vezes apresentada como se fosse a expressão natural da esquerda russa.

A passagem de Kagarlitskaya por Porto Alegre e pela Unicamp deve ser lida, portanto, pelo tipo de interpretação da guerra que levou ao Brasil. O que chegou aqui não foi apenas um pedido de solidariedade a presos políticos. Veio junto uma interpretação da Rússia e do conflito em que o Estado russo ocupa quase sozinho o centro da denúncia, enquanto a hegemonia ocidental aparece enfraquecida no quadro geral, e a esquerda brasileira é convidada a se vincular a uma rede de mobilização ocidental já estruturada fora do país. A crítica, portanto, não se dirige à solidariedade em si, mas à tentativa de associá-la a um enquadramento liberal pré-definido. É esse pacote que precisa ser lido com olhos críticos.

O Brasil não é plateia

Para a imprensa de esquerda brasileira, o contato com a esquerda europeia não é, em si, objeto de crítica. Relações com a La France Insoumise, simpatia por Mélenchon ou participação em protestos sociais na Europa fazem parte da circulação normal de militantes, intelectuais e exilados políticos. A dificuldade começa quando esses vínculos deixam de ser um elemento entre outros e passam a funcionar como principal horizonte externo de quem se apresenta no Brasil como intérprete privilegiado da realidade russa.

Nesse deslocamento, o Sul Global deixa de ser referência e passa a ocupar o lugar de receptor de uma agenda formulada nos circuitos parlamentares e midiáticos do Ocidente. No caso de Lobanov, isso aparece em suas próprias palavras sobre a necessidade de construir relações com forças europeias do “flanco democrático” [50]. No caso de Rudoy, isso se expressa tanto na mediação política que marcou sua chegada à França quanto em sua circulação contínua por um circuito midiático transnacional [54][56].

Convém ter em mente uma proporção básica. A Rússia contemporânea não ocupa, para a América Latina, o mesmo lugar histórico dos Estados Unidos. Isso não impede críticas ao Estado russo, à sua política interna ou à sua organização social. Mas, quando uma leitura da guerra apaga a OTAN, o regime global de sanções, a arquitetura financeira do Ocidente, os monopólios midiáticos e a longa tradição de intervenção sobre o Sul Global, a crítica formulada por essa fração da emigração russa passa a operar numa escala geopolítica que não corresponde à experiência latino-americana. A divergência com Kagarlitskaya, Lobanov e Rudoy, portanto, não passa por simpatia ou antipatia pela Rússia, mas pelo enquadramento da análise.

Esse ponto é especialmente sensível para a tradição da esquerda brasileira. Na América Latina, o imperialismo não aparece como abstração, mas como golpe, endividamento, privatização imposta, sanção e intervenção direta. A Rússia não é um Estado socialista e não deve ser blindada de crítica. Ainda assim, quando circulam em fóruns, universidades e espaços públicos do Brasil vozes cujas campanhas se articulam com o FBK, com plataformas ocidentais de doação, com redes partidárias europeias e com a linguagem do movimento liberal russo “anti-guerra” voltada ao público internacional, é legítimo perguntar o que está sendo oferecido ao país: a experiência plural da esquerda russa ou uma leitura já filtrada pelos circuitos liberais do exílio? [3][4][19][20][25].

Quando figuras desse circuito são apresentadas como porta-vozes da esquerda russa, não basta observar apenas o conteúdo de suas falas. Também é preciso olhar para a rede em que circulam: com quem dividem o palco, por quais plataformas arrecadam recursos [9] e quais meios de comunicação lhes dão legitimidade. Os programas da Freedom Zone mostram a presença recorrente de nomes do entorno do FBK, como Pevchikh, Zhdanov e Alburov, ao lado de veículos da oposição liberal, organizações emigradas e entidades vinculadas à pauta dos direitos humanos [19][20][22][25].

Ao mesmo tempo, a própria fala de Kagarlitskaya a estudantes brasileiros foi apresentada como tentativa de convencimento, não como intercâmbio entre experiências anti-imperialistas distintas [5]. A pergunta decisiva é por que, nessa representação da Rússia, quase não aparecem correntes que não se reconhecem nem na narrativa estatal russa nem na moldura liberal dominante do exílio.

A consequência prática é clara. Não se trata de fechar espaço a ninguém, mas de recusar que a fração emigrada mais visível baste, por si só, para representar a complexidade da realidade russa. Quando representantes da Freedom Zone, do Rabkor, do entorno do FBK e de meios a eles ligados tentam ocupar um espaço exclusivo nesse debate no Brasil, torna-se ainda mais importante ouvir também outras vozes russas, sindicais, comunistas e anti-imperialistas, que não se reconhecem nem no capitalismo russo nem no patrocínio ocidental como horizonte político.

O que chega ao Brasil, portanto, não é apenas o testemunho espontâneo de militantes russos perseguidos, mas uma fala reorganizada no interior de redes partidárias, midiáticas e institucionais do Ocidente europeu. Caso contrário, um país complexo acaba reduzido a um conjunto muito limitado de porta-vozes, e o Sul Global é empurrado para a posição de plateia, chamada apenas a confirmar, doar e aderir, e não a pensar por si próprio.

Para que o debate aberto no Brasil sobre a esquerda russa seja de fato plural e consistente, o caminho não passa apenas por uma voz única, mas por um espectro mais amplo de interlocutores. Sem isso, a conversa sobre paz, soberania e imperialismo pode se transformar em um caso de importação político-cultural, em que se pede ao Brasil não que reflita, mas que ratifique uma moldura produzida em outro lugar. O próprio desfecho da conferência aponta nessa direção: a frustração dos ativistas liberais com a declaração final produzida pelo Fórum em Porto Alegre, por eles considerada insuficiente em relação à Rússia, mostra que o Sul Global não é uma tela em branco [7].

A conclusão, portanto, é política: o Brasil não precisa importar sem mediação a moldura oferecida por Kagarlitskaya, Rudoy, Lobanov ou outros nomes desse circuito. Sob uma linguagem de esquerda, essa rede passa a exportar ao Sul Global uma leitura pronta da Rússia e da guerra, filtrada pela oposição liberal emigrada, por plataformas ocidentais, por estruturas de financiamento transnacional e pelo campo partidário europeu.

Nessa construção, a Freedom Zone deixa de ser apenas uma iniciativa solidária e passa a funcionar também como mecanismo de legitimação internacional de uma fração específica da emigração russa. A resposta brasileira não passa pela interdição, mas pela autonomia crítica. Reconhecer a existência de conflitos internos e disputas políticas na Rússia não obriga o Brasil a aceitar a moldura de quem traduz esses temas para o público externo.

Terceirizar o pensamento anti-imperialista brasileiro para uma rede alheia à experiência histórica do Sul Global seria aceitar exatamente a relação política que este texto critica. O diálogo real começa quando se reconhece que o Brasil e a América Latina têm sua própria história, sua própria memória de intervenção externa e suas próprias razões para desconfiar de quem chega oferecendo uma visão geopolítica já pronta.

Bibliografia:

  1. PCDOB. “1ª Conferência Internacional Antifascista terá forte presença do PCdoB”. 24 mar. 2026. Disponível em: https://pcdob.org.br/noticias/1a-conferencia-internacional-antifascista-tera-forte-presenca-do-pcdob/
  2. PCDOB. “Conferência Internacional Antifascista lança programação nesta quarta”. 10 mar. 2026; e “PCdoB mobiliza militantes para a 1ª Conferência Internacional Antifascista e Anti-imperialista”. 25 fev. 2026. Disponíveis em: https://pcdob.org.br/2026/03/conferencia-internacional-antifascista-lanca-programacao-nesta-quarta/; https://pcdob.org.br/noticias/pcdob-mobiliza-participacao-na-conferencia-internacional-antifascista-e-anti-imperialista/
  3. GOFUNDME. “Apoie a turnê de março de Kseniia Kagarlitskaia no Brasil”. Organizadora: Susan Weissman. Disponível em: https://www.gofundme.com/f/support-ksenias-tour-for-russian-political-prisoners
  4. FREE BORIS. Campanha emergencial para a participação de Kseniia Kagarlitskaya na conferência de Porto Alegre. Disponível em: https://freeboris.info/
  5. CANAL DE TELEGRAM “KSENIIA. DOROGA NEDOVOLSTVA” (prueshenka). Postagens com menções à aula para estudantes brasileiros, à promessa de escrever para presos políticos e à fórmula “no quarto ano de emigração”. Disponíveis em: https://t.me/prueshenka/4195?single; https://t.me/prueshenka/4192
  6. CANAL DE TELEGRAM “ZONA SVOBODY”. Postagem sobre a conferência em Porto Alegre. Disponível em: https://t.me/the_zona_svobody/1107
  7. BECH, Alfons. “Notes on the First International Antifascist Conference of Porto Alegre: A Step Forward for Anti-Campist Solidarity with Ukraine”. Europe Solidaire Sans Frontières, 3 abr. 2026. Disponível em: https://www.europe-solidaire.org/spip.php?article78468
  8. FREEDOM ZONE. Seção “Festival”: apresentação do projeto como uma série de eventos internacionais em apoio a presos políticos na Federação Russa, com agenda em 2024-2025. Disponível em: https://freedom-zone.com/festival
  9. FREEDOM ZONE. Seção “Support / Patron”: formas de doação, incluindo carteiras de criptomoedas, Patreon e Boosty. Disponível em: https://freedom-zone.com/patron
  10. TRIBUNAL DA CIDADE DE MOSCOU. Comunicado de 9 jun. 2021 sobre a liquidação da FBK e da FZPG e a proibição do movimento “Shtaby Navalnogo”. Disponível em: https://mos-gorsud.ru/mgs/news/mosgorsud-likvidiroval-nko-fond-borby-s-korruptsiej-nko-fond-zashhity-prav-grazhdan
  11. PROCURADORIA-GERAL DA FEDERAÇÃO RUSSA. Comunicado de 4 ago. 2021: os recursos da FBK e da FZPG foram rejeitados e a decisão entrou em vigor. Disponível em: https://epp.genproc.gov.ru/ru/gprf/mass-media/news/archive/e489342/
  12. PROCURADORIA-GERAL DA FEDERAÇÃO RUSSA. Comunicado de 27 nov. 2025 sobre o reconhecimento da Anti-Corruption Foundation, Inc. como organização terrorista. Disponível em: https://epp.genproc.gov.ru/ru/gprf/mass-media/news/main/e6871863/
  13. PROPUBLICA NONPROFIT EXPLORER. Registro da Anti Corruption Foundation Inc. Disponível em: https://projects.propublica.org/nonprofits/organizations/850774334
  14. SOTA. Investigação sobre a Anti Corruption Foundation Inc. e a Posterum. Disponível em: https://sotaproject.com/investigation/two-questions-for-acf-fbk
  15. RT. “A Receita dos EUA publicou o relatório financeiro da FBK com receita de US$ 2,45 milhões”. 24 maio 2024. Disponível em: https://russiatoday.ru/world/news/1319154-fbk-vyruchka-ssha-navalny-hodorkovsky
  16. U.S. HELSINKI COMMISSION / CSCE. Audiência com Anna Veduta. Disponível em: https://www.csce.gov/hearings/countering-oligarchs-enablers-and-lawfare/
  17. RADIO FREE EUROPE/RADIO LIBERTY. Matéria sobre aliados de Navalny pressionando legisladores dos EUA por sanções. Disponível em: https://www.rferl.org/a/navalny-russia-ukraine-war-sanctions/31859339.html
  18. KOMMERSANT. “Житель Приморья получил 14 лет за перевод денег ВСУ и экстремистской организации”. 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.kommersant.ru/doc/8512916

. Ver também MEDIAZONA. “Жителя Приморского края приговорили к 14 годам колонии по делу о донатах ФБК и ВСУ”. 16 mar. 2026. Disponível em: https://zona.media/news/2026/03/16/vladivostok

; SOVA CENTER. “Жителя Приморского края осудили за финансирование ФБК и ВСУ”. 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.sova-center.ru/misuse/news/persecution/2026/03/d53301/

  1. FREEDOM ZONE. Programa do festival em Toronto, 14 jun. 2025, no DROM Taberna Bar; entre os convidados está Georgy Alburov. Disponível em: https://freedom-zone.com/festival
  2. FREEDOM ZONE. Programa do festival em Nova York, 22 nov. 2025; entre os participantes estão Kseniia Kagarlitskaya, Maria Pevchikh, representantes da American Russian-speaking Association for Civil & Human Right e da Russian Refugee Foundation. Disponível em: https://freedom-zone.com/festival
  3. FREEDOM ZONE. Programa do festival em Paris, 11 abr. 2026; entre os participantes aparecem Kseniia Kagarlitskaya, Andrei Rudoy e Mikhail Lobanov, em atividade com falas públicas, leilão beneficente e arrecadação para presos políticos e seus familiares. Disponível em: https://freedom-zone.com/festival
  4. FREEDOM ZONE. Programa em Riga, jan. 2026; entre os participantes estão Galina Timchenko, Ivan Voronin, Kirill Martynov e outros. Disponível em: https://freedom-zone.com/festival
  5. RADIO FREE EUROPE/RADIO LIBERTY. “About RFE/RL”. Disponível em: https://about.rferl.org/about-rfe-rl/
  6. RADIO FREE EUROPE/RADIO LIBERTY. “Our History”. Disponível em: https://about.rferl.org/our-history/
  7. FREEDOM ZONE. Programa em Varsóvia, 22 fev. 2026; encontro público com Ivan Zhdanov. Disponível em: https://freedom-zone.com/festival
  8. NATIONAL ENDOWMENT FOR DEMOCRACY. “History”. Disponível em: https://www.ned.org/about/history/
  9. WASHINGTON POST. IGNATIUS, David. “Innocence Abroad: The New World of Spyless Coups”. 22 set. 1991. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/archive/opinions/1991/09/22/innocence-abroad-the-new-world-of-spyless-coups/92bb989a-de6e-4bb8-99b9-462c76b59a16/
  10. NATIONAL ENDOWMENT FOR DEMOCRACY. “Impact Report: Strengthening Ukraine’s Democratic Resilience and Countering Russia’s Aggression”. 30 set. 2025. Disponível em: https://www.ned.org/impact-report-strengthening-ukraines-democratic-resilience-and-countering-russias-aggression/
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  13. REUTERS. “Russia declares US NGO Freedom House an undesirable organisation”. 7 maio 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/russia-declares-us-ngo-freedom-house-an-undesirable-organisation-2024-05-07/. Ver também INTERFAX. “Американская НПО Freedom House признана нежелательной в РФ”. 7 maio 2024. Disponível em: https://www.interfax.ru/russia/959415
  14. MEDUZA. “O que a Fundação Soros fez na Rússia”. 1 dez. 2015. Disponível em: https://amp.meduza.io/feature/2015/12/01/chto-sdelal-fond-sorosa-v-rossii
  15. MEDUZA. “O que a Fundação Soros fez na Rússia”. 1 dez. 2015. Disponível em: https://amp.meduza.io/feature/2015/12/01/chto-sdelal-fond-sorosa-v-rossii
  16. THE GUARDIAN. “Russia bans two Soros foundations from disbursing grants”. 30 nov. 2015. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2015/nov/30/russia-bans-two-george-soros-foundations-from-giving-grants

. Ver também SUSSMAN, Gerald; KRADER, Sascha. “Template Revolutions: Marketing U.S. Regime Change in Eastern Europe”. Westminster Papers in Communication and Culture, 2008. Disponível em: https://www.westminsterpapers.org/article/115/galley/3512/download/

  1. MEDUZA. Matéria de 12 jun. 2024 sobre famílias de presos políticos e a maratona “Você não está sozinho”, realizada em conjunto com recursos midiáticos ligados à FBK. Disponível em: https://meduza.io/feature/2024/06/12/oschuschenie-chto-ya-spravlyus-to-est-to-net-ya-by-pozhelala-sebe-prosto-ne-soyti-s-uma
  2. CANAL DE TELEGRAM DO FUNDO DE APOIO A PRESOS POLÍTICOS DE ESQUERDA. Evento em Belgrado, 7 dez. 2025. Disponível em: https://t.me/leftpltzk/92
  3. TASS. Notícia de 7 ago. 2023 sobre a inclusão de Boris Kagarlitsky na lista de terroristas e extremistas; o texto também informa que ele foi reconhecido como agente estrangeiro. Disponível em: https://tass.ru/obschestvo/18460971
  4. TASS. Notícia de 7 ago. 2023 sobre a inclusão de Boris Kagarlitsky na lista de terroristas e extremistas; o texto informa também que o Ministério da Justiça relacionava a classificação como “agente estrangeiro” a projetos conjuntos com o braço russo da Fundação Rosa Luxemburgo, financiado a partir da Alemanha. Disponível em: https://tass.ru/obschestvo/18460971
  5. TASS. Notícia de 13 fev. 2024 sobre a condenação de Boris Kagarlitsky a cinco anos de colônia penal. Disponível em: https://tass.ru/proisshestviya/19969121
  6. TASS. Notícia de 5 jun. 2024 informando que a sentença de Boris Kagarlitsky foi mantida. Disponível em: https://tass.ru/proisshestviya/20997789
  7. INTERFAX RUSSIA. Notícia sobre o reconhecimento da Fundação Rosa Luxemburgo como organização indesejável na Rússia. Disponível em: https://www.interfax-russia.ru/moscow/news/genprokuratura-rf-priznala-nezhelatelnym-v-rossii-nemeckiy-fond-rozy-lyuksemburg
  8. RUS.ERR.EE. “Na Rússia, a Fundação Rosa Luxemburgo foi reconhecida como indesejável”. 21 jul. 2025. Disponível em: https://rus.err.ee/1609750710/v-rossii-priznali-nezhelatelnym-nemeckij-fond-im-rozy-ljuksemburg
  9. ROSA-LUXEMBURG-STIFTUNG. “Stellungnahme zum Artikel ‘Unheilige Allianz’ in der jungen Welt”. 29 jun. 2016. Disponível em: https://www.rosalux.de/pressemeldung/id/8976/stellungnahme-zum-artikel-unheilige-allianz-in-der-jungen-welt
  10. PARLAMENTO EUROPEU. “VP/HR – Ukrainian Svoboda party links to neo-Nazism”. Pergunta escrita E-003446/2014, apresentada por Fiorello Provera, 21 mar. 2014. Disponível em: https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/E-7-2014-003446_EN.html
  11. AMNESTY INTERNATIONAL. Ukraine: Breaking Bodies: Torture and Summary Killings in Eastern Ukraine. 22 maio 2015. Index: EUR 50/1683/2015. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/documents/eur50/1683/2015/en/ PDF: https://www.amnesty.org/fr/wp-content/uploads/2021/05/EUR5016832015ENGLISH.pdf
  12. TASS; RBC. Matérias sobre a inclusão de Mikhail Lobanov no registro de agentes estrangeiros. Disponíveis em: https://www.rbc.ru/politics/23/06/2023/6495df199a7947bb99525bd9

https://tass.ru/obschestvo/18102461

  1. TASS. Notícia de 18 maio 2023 sobre a detenção de Mikhail Lobanov após buscas no caso de Ilya Ponomarev; ver também matérias sobre a saída de Lobanov da Rússia em jul. 2023. Disponíveis em: https://tass.ru/proisshestviya/17777897 https://meduza.io/news/2023/07/10/matematika-i-politika-mihaila-lobanova-uvolili-iz-mgu-cherez-dve-nedeli-kak-ego-ob-yavili-inoagentom

https://novayagazeta.eu/articles/2023/07/10/politika-mikhaila-lobanova-uvolili-iz-mgu-news

  1. VEDOMOSTI. Matéria sobre a participação de Ilya Ponomarev na atividade da “Legião Liberdade da Rússia”. 4 fev. 2024. Disponível em: https://www.vedomosti.ru/politics/news/2024/02/04/1018349-fsb-uznala-ob-uchastii-ponomareva
  2. NTV. “Террорист-иноагент пытался создать из шайки предателей ‘новое правительство’ РФ”. 19 fev. 2025. Disponível em: https://www.ntv.ru/novosti/2880732/

. Ver também STOLETIE. “ФСБ возбудила дело против Ильи Пономарёва”. 19 fev. 2025. Disponível em: https://www.stoletie.ru/lenta/fsb_vozbudila_delo_protiv_ili_ponomarova_174.htm

  1. CANAL DE TELEGRAM DE MIKHAIL LOBANOV, versão web. Postagens sobre a construção de relações de longo prazo com forças políticas europeias do campo democrático, o apoio a Arnaud Le Gall e arrecadações regulares via Boosty e Patreon. Disponível em: https://t.me/s/mlobanov84?before=1560
  2. ASSEMBLÉE NATIONALE. Página do deputado Arnaud Le Gall, da La France Insoumise, e arquivo de suas funções, incluindo sua atuação na Comissão de Relações Exteriores. Disponíveis em: https://www.assemblee-nationale.fr/dyn/deputes/PA795672, https://www.assemblee-nationale.fr/dyn/deputes/PA795672/fonctions?archive=oui
  3. FEDERALPRESS. “Нижегородского блогера внесли в список иноагентов”. 15 out. 2023. Disponível em: https://fedpress.ru/news/52/society/3273973 Ver também INOTEKA. “Рудой Андрей Владимирович”. Disponível em: https://inoteka.io/ino/rudoy-andrey-vladimirovich
  4. REPORTER-NN. Matéria de 22 maio 2024 sobre a multa aplicada a Andrey Rudoy no caso de “desacreditar” o Exército russo. Disponível em: https://reporter-nn.ru/репортажи/ar22052024_6712
  5. VGORODEN.RU. Matéria de 30 set. 2022 informando que, segundo o próprio Rudoy, a obtenção de seu visto francês foi facilitada por contatos sindicais e por Jean-Luc Mélenchon. Disponível em: https://www.vgoroden.ru/novosti/prezident-francii-pomog-nizhegorodskomu-blogeru-s-pereezdom-id364290
  6. CANAL DE TELEGRAM DE ANDREY RUDOY. Postagem com dados para apoio financeiro, incluindo cartão bancário, YooMoney, PayPal, Boosty e Patreon. Disponível em: https://t.me/ru_doy/4226
  7. CANAL DE TELEGRAM DE ANDREY RUDOY, versão web. Postagens sobre Maria Pevchikh e longas conversas no Vestnik Buri, além de vídeos sobre a FBK e a oposição liberal. Disponível em: https://t.me/s/ru_doy?before=4077
  8. CANAL DE TELEGRAM DE ANDREY RUDOY, versão web. Anúncio e relato do evento em Berlim com Mikhail Lobanov, com arrecadação em favor do Fundo de Apoio a Presos Políticos de Esquerda. Disponível em: https://t.me/s/ru_doy?before=6025
  9. APN SEVERO-ZAPAD. Entrevista com o anarquista “Dzhurab”, apresentada sob o título “O anarquista que destruiu os anarquistas”. Disponível em: http://www.apn-spb.ru/publications/article38197.htm
  10. BOAK. “Três anos de resistência ao imperialismo e de luta pela autonomia: visão de um militante do BOAK”. Syg.ma, cópia arquivada. Disponível em: https://web.archive.org/web/20260119105449/https://syg.ma/@boec-anarhist/tri-goda-soprotivleniya-imperializmu-i-borby-za-avtonomiyu-vzglyad-militanta-boak
  11. CANAL DE TELEGRAM BLACK BOOK OF CAPITALISM. Postagem sobre um apelo dirigido a soldados e ao BOAK. Disponível em: https://t.me/black_book_of_capitalism/8059


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Igor Gorbunov Professor de História na Academia Agrícola de Moscou, uma das universidades mais antigas de Moscou e da Rússia. Bacharel em Pedagogia e mestre em História das Relações Internacionais, com dissertação dedicada à Guerra dos Farrapos. Atua como pesquisador da história e da geopolítica do Brasil na primeira metade do século 19, com foco especial no Sul do país. Seus principais interesses acadêmicos abrangem a América Latina, o Norte da Eurásia e o mundo islâmico. Paralelamente à atividade universitária, escreve por interesse pessoal sobre temas ligados à pedagogia e à formação educacional.
Cíntia Xavier Correspondente do Jornal Toda Palavra em Moscou e graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Russa da Amizade dos Povos (RUDN). Atuou como pesquisadora no Núcleo de Estudos dos Países Brics da UFF e no Brics Observer da FGV, focando a governança do bloco. Seus interesses abrangem a cooperação científico-tecnológica entre os países do Brics, a política externa russa e a dinâmica das relações da Rússia com seus vizinhos.
Hector Schpree

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