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Foto: Luis Arce e Evo Morales juntos em 27 de janeiro de 2020 (Foto: Divulgação - Brasil de Fato / Fickr)

Reconciliação entre Evo e Arce é impossível, aponta ex-ministro da Bolívia após ato golpista

Segundo Hugo Moldiz, ministro de Evo em 2015, denúncia de autogolpe feita pelo ex-presidente contra Arce ampliou ainda mais a crise entre os líderes
Aldo Anfossi
La Jornada
La Paz

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Após os atos golpistas de 26 de junho, o presidente Luis Arce, por enquanto, tem a iniciativa política, mas persistem os problemas econômicos conjunturais que afetam o país e penalizam seu governo, causando greves e mobilizações sociais, e todos exigem respostas rápidas, estimam analistas.

Uma manifestação sobre por onde vão os problemas pôde-se ler a partir de que, quando ocorreu o levante, os bolivianos correram aos caixas eletrônicos para sacar seu dinheiro, aos postos de gasolina e aos supermercados para se abastecer, esvaziando as prateleiras, embora o golpe tenha fracassado três horas após seu início.

Basicamente, a economia sofre com a escassez de divisas em moeda estrangeira devido à queda nas exportações de gás natural, e há também falta de combustíveis, especialmente óleo diesel, o que causou recentemente uma paralisação dos caminhoneiros.

“Não é uma crise econômica, mas há problemas graves. Na minha opinião, o presidente está obrigado a tomar decisões no curto prazo para não desperdiçar o impulso dado a ele por derrotar o golpe”, diz o ex-ministro de Governo, economista e professor Hugo Moldiz.

Ele menciona que “urge tomar medidas que garantam a entrada e a saída de recursos da agroindústria e do setor cooperativo de mineração, que movimentam suas divisas pelo Banco Central”, e também acelerar um acordo swap alcançado com a China para o uso do yuan como moeda de troca, “com o que, diferentemente do que diz a oposição, os empresários estão de acordo”.

Outro observador, Esteban Morales, especialista em políticas públicas, diz que Arce ganhou tempo, “mas muito pouco, apenas em termos de assumir algum controle da narrativa no debate público, o que não é desprezível, mas seu maior problema é a economia e a governabilidade na Assembleia Legislativa, isso se aprofunda”.

Segundo Morales, um elemento é que a crise reside no fato de que os grupos de poder, beneficiados pelo Estado, já não estão contentes e começam a cobrar a fatura.

“As forças armadas, enquanto recebem brinquedos novos, sendo bem tratadas e bem pagas, evitam se meter muito na política; mas se veem que apertam seu sapato, que há certo maltrato em termos de quantidade de oficiais que estão em prisão preventiva pelos acontecimentos de 2019, que os processos judiciais não avançam, que seu orçamento foi reduzido e que os privilégios que obtêm ao se aposentarem estão em risco, então pode surgir um clima de descontentamento e desconforto”.

Para Evo Morales, foi autogolpe

Arce terá também que seguir lidando com seu antigo aliado, hoje convertido em seu maior detrator, o três vezes mandatário Evo Morales, que questiona os acontecimentos e insinua uma farsa.

Em 28 de junho, ao mesmo tempo que a Procuradoria-Geral do Estado da Bolívia continuava com a audiência cautelar de 21 militares e civis detidos por sua participação na tentativa de golpe do dia 26, Evo afirmava estar “convencido” de que se tratou de um autogolpe promovido pelo governo do presidente Luis Arce.

“Lucho nos enganou, mentiu para nós, mentiu aos bolivianos e ao mundo inteiro. Se foi golpe ou autogolpe, está em debate, (mas) estou mais convencido de que é um autogolpe para levantar sua imagem ou deixar a Presidência para (uma) junta militar”, afirmou o ex-governante em uma assembleia da Federação de Zonas Tradicionais de cultivo de coca, segundo publicado pelo jornal La Razón.

“Que tipo de golpe é esse? Começa o golpe, ministros felizes passeando na Praça Murillo, tocando tanques; um golpe de Estado com zero feridos, zero tiros, zero mortos”, acrescentou.

A intenção foi, disse, “tapar a má gestão” do Governo e a “falta” de dólares e de combustíveis. Um dia antes, Evo afirmou que ele era o alvo do golpe de Estado.

Ele também desafiou a alegação de que houvesse 14 feridos por disparos de balas de borracha feitos pelos militares insurgentes quando irromperam com blindados a Praça Murillo, onde está a sede do governo. “Golpe de Estado por acaso se faz com balas de borracha? Que investiguem, cedo ou tarde a investigação dirá”, lançou.

O dirigente deu assim crédito às afirmações feitas pelo general Juan José Zúñiga, ex-chefe do exército e líder da insurreição, segundo o qual o levante foi acordado com o presidente Arce para que o governo recuperasse popularidade, versão que o atual presidente rechaçou rotundamente.

Zúñiga, o vice-almirante Juan Arnez, ex-chefe da Marinha, e Alejandro Irahola, ex-chefe da brigada mecanizada do exército, foram transferidos ainda em 28 de junho para o presídio de Chonchocoro, onde cumprirão seis meses de prisão preventiva enquanto são investigados por acusações de terrorismo e levante armado, com risco de até 20 anos de prisão.

“Em algum momento a verdade será revelada!”, exclamou Zúñiga no momento de sua transferência. “Os demais são inocentes, há inocentes”, acrescentou, provavelmente referindo-se aos outros detidos, 18 militares ativos, aposentados e civis.

Em Chonchocoro, uma prisão de segurança máxima a 50 minutos por estrada na vizinha cidade de El Alto, também está detido preventivamente há um ano e meio o governador de Santa Cruz e líder opositor Luis Fernando Camacho, responsável pela crise política de 2019 que precipitou a renúncia do então presidente Evo Morales.

Diante dos acontecimentos, a ruptura entre Morales e Arce se amplia e qualquer ideia de reconciliação se torna impossível. “Vejo isso muito difícil pela posição de Evo”, diz Hugo Moldiz, que em 2015, no terceiro governo de Evo, foi ministro por quatro meses. “Primeiro ele diz que é preciso defender a democracia e depois ele e todos os seus colaboradores saem com a tese do autogolpe”.

“E ele faz isso para que o presidente não saia fortalecido desta situação, porque, diferentemente do que ocorreu em 2019 (quando Morales renunciou e deixou o país), Luis Arce decide ficar e enfrentar, isso lhe dá uma vantagem que claramente incomoda Evo Morales, que em vez de responder pelo lado positivo, utiliza a ideia do autogolpe”, agrega.

Moldiz diz que Luis Arce, de quem é muito próximo, mantém “coerência com sua origem socialista e leva adiante acordos mais profundos com China, Rússia e Irã, mas tem as dificuldades de não ter a flexibilidade necessária em momentos como estes, sua atitude principista é uma vantagem, mas também uma camisa de força. Por outro lado, está Evo, que embora tenha declinado sua hegemonia e controle das organizações sociais, não significa que deixe de ser um fator de poder”.

Contato com Evo

Em 28 de junho, questionado se nas últimas horas da ofensiva havia tido alguma comunicação com o ex-presidente Evo Morales, com quem mantém uma profunda inimizade política, Arce disse que o chamou brevemente para informá-lo do que estava acontecendo e que tomasse precauções.

“Podemos ter diferenças, a principal é que nós acreditamos que o instrumento político pertence às organizações sociais e não a uma pessoa em particular, é uma grande diferença que temos com o companheiro Evo; isso quer dizer que, nesses momentos, quando vimos que vinha o golpe, eu instruí que me colocassem em contato com o companheiro Evo e o preveni que isso estava acontecendo para que ele tomasse suas precauções, porque estava claro que vinham por mim, mas para mim estava claro que depois iriam atrás de Evo Morales. Por isso, como companheiro, porque no final é isso que somos. Eu o chamei para preveni-lo e que tomasse seus cuidados”, explicou.

Tentando entender

O dia seguinte à intentona golpista transcorreu com uma Bolívia tentando entender o que havia acontecido, em um ambiente dominado por especulações e teorias sobre quem motivou e/ou induziu o general Juan José Zúñiga a sua temerária aventura.

No denso ar de La Paz, situada a 3.650 metros de altura sobre o nível do mar, seguiam sensíveis interrogações que se pronunciavam com força: que papel poderia ter tido no episódio a ruptura total entre Arce e o ex-presidente Evo Morales, outrora aliados íntimos, hoje envolvidos em uma disputa política feroz a ponto de romper o partido Movimento ao Socialismo (MAS) e de proclamar que não há possibilidade de reconciliação; alguns veículos e analistas não hesitavam – na mesma linha de Evo Morales – em acusar o atual governante de lançar um “autogolpe” para assim supostamente recuperar apoio popular a seu debilitado governo, pelas más circunstâncias econômicas que geraram múltiplos protestos.

Aqueles que rechaçam essa teoria destacam que, um, Arce destituiu o general Zúñiga na véspera do levante, o que não condiz com lançar uma tentativa golpista induzida pelo presidente; e, dois, foi ele pessoalmente quem saiu do Palácio Queimado para confrontá-lo, fazendo-o recuar.

Fragilidade democrática

Seria possível acreditar, a propósito dos acontecimentos, que a fragilidade da democracia boliviana é evidente; há cinco anos houve uma experiência traumática, com dezenas de mortos, e agora ocorreu esta tentativa.

“Há coisas a levar em conta – diz Esteban Morales –, pode-se ver, a partir da fragilidade da democracia, que os critérios de seleção do comando do exército não foram os corretos, um sujeito que era o número 48 de sua promoção terminou sendo comandante. Isso em si mostra uma fragilidade institucional importante no manejo das forças armadas. Mas, ao mesmo tempo, o fato de que o golpe fracassou em cinco minutos, mostra certa solidez e solvência de ter a capacidade de apagar uma tentativa como essa”.

“Esse é o problema de analisar a Bolívia, sempre cheia de contradições; há um contraponto para tudo”, acrescenta.

Depoimentos e investigações

Em 28 de junho, Arce confirmou que os três ramos das forças armadas – exército, marinha e aviação – estiveram implicadas e participaram da tentativa de golpe de Estado que, segundo ele, deixou pelo menos 14 pessoas feridas, algumas a bala.

A exceção foi o comandante da polícia, que informou a Arce que ele havia sido convocado pelos comandantes do exército para se juntar à tentativa golpista, e que sua decisão foi não acompanhar essas ações.

O governante, em uma entrevista coletiva, fez uma longa narrativa dos acontecimentos vividos no país, detalhando como quando o complô estava em marcha e tanto ele como o ministro da Defesa, Edmundo Novillo, tratavam de se comunicar com os comandos militares, estes se recusaram a responder às chamadas.

“Quando vimos que ao redor da Praça Murillo, onde o povo se concentrava e estava em enfrentamento com as forças armadas que usavam armas de fogo, descemos e enfrentamos aqueles que estavam à frente, os encaramos. Lá, instruí os três comandantes que depusessem essas atitudes e ao general Zúñiga que recolhesse as forças militares. Ele me respondeu que não iria acatar minhas ordens, também enfrentei o vice-almirante Arnez (Naval), perguntei se ele estava nessa atitude, ele me disse que não iria acatar, encarei o general Zagala da força aérea. Nesse momento estava evidente que quem estava à frente era o general Zúñiga e os três comandantes das forças”, narrou.

O presidente boliviano relatou também que “a cadeia de comando foi rompida porque a informação (do que estava acontecendo) não chegou mais acima, nem o comando em chefe tinha conhecimento disso, muito menos o Ministério da Defesa, claramente toda a informação foi retida nas três cabeças dos comandantes das três forças; é preciso dizer com clareza, de maneira inconsulta, as três forças foram aquarteladas, houve infrações de todo tipo”.

Quanto à colocação em marcha do plano sedicioso, narrou que “houve duas reuniões, uma na terça (25) e outra na quarta-feira (26) no Estado-Maior, com a participação daqueles que tomaram a decisão de levar adiante e executar o plano; não apenas militares estavam envolvidos, mas também aposentados das forças armadas e civis”.

“Não pode ser que civis estejam metidos nisso, que pessoal que está na reserva esteja provocando os comandantes e planejando com eles golpes de Estado, isso é inconcebível e a justiça tomará suas determinações”, continuou.

Outro aspecto relevante de suas declarações foi quando admitiu os enganos aos quais seu governo foi submetido por parte de Zúñiga e as falhas da contrainteligência militar, o que explicaria por que o governo estava totalmente desinformado sobre os movimentos e preparativos castrenses que foram gestados durante meses, mas se precipitaram na quarta-feira, quando os outros altos comandos entraram na tentativa de golpe.

“A inteligência militar trabalhava para o comandante do exército e nunca passava informações nem ao ministério da Defesa e muito menos ao Presidente do Estado, portanto, um dos temas centrais do porquê isso estava sendo encoberto e não veio à tona até ontem (quarta-feira), é porque a área de inteligência que deveria estar alertando, não teve nenhuma ação; além disso, por isso temos mais de 17 detidos no exército, porque há muita gente envolvida que ocultou e não reportou a informação correta”, explicou.

O governante disse ainda que a situação está normalizada e sob controle e que os novos comandantes das três forças castrenses estão assumindo suas tarefas: “queremos informar à população que tudo voltou à normalidade”.

17 detenções

Em 27 de junho, foi anunciada a prisão de 17 pessoas, a maioria militares, por sua implicação na tentativa de derrubar o governo constitucional, identificadas pelo trabalho de inteligência e operação da polícia após o levante.

O ministro de Governo, Eduardo del Castillo, compareceu para assinalar que “temos um informe de inteligência apresentado ao Ministério Público, que relata de maneira sucinta e resumida o que ocorreu e desde quando se planejava esse golpe de Estado falido”.

“Podemos evidenciar que existe um ideólogo da tentativa de interromper a democracia, e que de acordo com as declarações à polícia, isso foi planejado desde maio”, continuou.

Del Castillo apresentou um organograma – “onde não estão todas as pessoas que participaram” – detalhando o papel e a função dos 17 detidos e de algum foragido. Explicou que os conspiradores se distribuíram em grupos de “preparação e planejamento”, a cargo do agora preso general Zúñiga junto com o civil Aníbal Abel Aguilar Gómez, “uma das peças mais importantes que teria colaborado na comissão dos delitos, quando se encontrava (no dia da ofensiva) na Praça Murillo” – em frente à sede do governo – incitando a sedição.

Outros grupos seriam os de “organização e coordenação”, “exercício da força”, composto por aqueles que tripulavam os blindados, entre eles os comandantes de dois regimentos da capital, de quem dependia a consolidação do golpe.

Um por um os detidos foram exibidos à imprensa, algemados e com coletes à prova de balas, alguns com olhar desafiador, outro vociferando, mas a maioria cabisbaixos enquanto se detalhava a missão de cada um no levante.

Soube-se que outros 13 militares da reserva estão sendo procurados.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Aldo Anfossi

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