Reprodução: Flickr - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por US$ 5 bilhões do FMI, Rodrigo Paz aprofunda ajuste e abre Bolívia ao capital estrangeiro

Sob estado de exceção, governo prepara leis para hidrocarbonetos, energia e investimentos, ataca fundos sindicais e planeja reduzir a presença estatal em setores estratégicos.

Nathanael Hastie
Esquerda Diário
Quito

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

Para impor estas medidas de ajuste o Governo de Rodrigo Paz busca conter, tanto por via burocrática como com repressão seletiva, uma nova explosão de mobilizações populares contra o ajuste, apoiando-se no estado de exceção. Nesse sentido, com o Decreto Supremo (D.S.) 5654, o Governo ataca de forma direta as contribuições sindicais que sustentam o funcionamento dessas organizações e inclusive arremete contra os fundos próprios das e dos trabalhadores na educação como é a Mutualidade do Magistério Nacional (MUMANAL).

O pacote de medidas econômicas não é um simples ajuste administrativo, mas sim peças-chave do projeto de ajuste estrutural. Há duas semanas, mediante a Resolução Ministerial 245/26 do ministério de Economia e Finanças Públicas, estabeleceu-se um tipo de câmbio flutuante da moeda nacional frente ao dólar estadunidense.

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Luis Arce – wikipedia

A desvalorização inicial tomou como ponto de partida o tipo de câmbio oficial de 6,96 Bs por dólar, e estabeleceu um novo tipo oficial fixado em 9,73 Bs; na quarta-feira, 15 de julho, o tipo oficial estava fixado em 10,70 Bs. Não se trata de “sincerar” com o tipo de câmbio referencial ou paralelo que desde meados da gestão do anterior presidente, Luis Arce Catacora, já era uma realidade objetiva na rua. Mas de cumprir com a política prioritária que o FMI estabeleceu para a Bolívia em seu último informe (Consulta do Artigo IV, 2025).

O impacto da desvalorização não é igual para todos. Enquanto milhões de famílias vivem os impactos diretos da inflação da UFV (índice de referência calculado sobre o aumento dos preços ao consumidor), da “atualização” dos preços de serviços básicos indexados ao dólar ou à UFV, dos créditos bancários indexados, dos produtos importados, entre outros, sobe o custo da vida, enquanto lucram os grandes exportadores e banqueiros, que agora de forma legal obtêm 49% mais em moeda nacional por cada dólar exportado.

Em janeiro, a direção da COB traiu a luta contra o gasolinaço e o DS 5503 e deu sua aprovação ao DS 5516, que manteve o essencial da quitação parcial de subvenção estatal aos combustíveis, estabelecendo ainda as fórmulas e o cronograma de atualização dos preços.

O DS 5652 modifica o regulamento vigente para estender o período transitório de estabilização de preços a um total de 12 meses (até janeiro de 2027). Ao acabar este prazo, finalizará a aplicação do Fator de Ajuste (fixado em 10,4003) que neutraliza o tipo de câmbio, voltando a determinar-se os preços na base do tipo de câmbio oficial (flutuante) do Banco Central e dos preços internacionais de referência.

Desde que assumiram o governo Paz e Lara puseram o peso da crise no ombro das famílias trabalhadoras: o salário mínimo nacional baixou de 395 USD (4225 Bs) a 308 USD (3295 Bs), ou seja, perdeu 20% de seu poder aquisitivo.

Já em janeiro com o D.S. 5516 o preço da gasolina especial passou de 3,79 Bs o litro até 6,96 Bs, na gasolina premium passou de 7,22 Bs o litro para 11 Bs, e o custo por litro de diesel passou de 3,72 Bs a 9,80 Bs. Isso sem mencionar o impacto econômico do dano ao parque automotor pela gasolina lixo, e os dias de espera em longas filas para poder comprar combustível.

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Neste cenário, os fatos objetivos da desvalorização superam muitas vezes os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) em junho de 2026, que tentam suavizar a situação relatando uma inflação acumulada de apenas 5,85% desde o início da gestão governamental em novembro passado.

A realidade nas ruas é muito mais severa; o próprio INE relata um aumento de 8,9% em alimentos básicos e de 27,5% no transporte; no entanto, mesmo estes dados são insuficientes para refletir o impacto real da crise, já que não contemplam plenamente a distorção de preços provocada pelo encarecimento dos combustíveis nem o impacto do tipo de câmbio real sobre a importação de peças de reposição.

Ao mesmo tempo, o custo desta crise se distribui de maneira desigual devido a políticas que favorecem o grande empresariado, tais como a aprovação do “alívio tributário” e a eliminação de impostos-chave, como o Imposto sobre Transações Financeiras (ITF) e o imposto sobre os jogos.

Enquanto a maioria da população enfrenta a perda de seu poder aquisitivo, o setor exportador registra um crescimento extraordinário: entre janeiro e maio deste ano, o valor de suas exportações aumentou 63% em comparação com o ano passado, alcançando os 5.490 milhões de dólares.

O pacote econômico decretado nas últimas semanas não resolve os problemas de fundo, por um lado os grandes empresários e banqueiros continuam enviando capitais para paraísos fiscais, e por outro lado o Estado continua necessitando de dólares para poder comprar combustível. Sem o monopólio estatal sobre o comércio exterior, sob controle operário coletivo, um punhado de grandes empresas continuarão levando os dólares para o Panamá ou as Ilhas Caimã.

Paz e seu ministro da Economia, Espinoza, buscam salvar a situação usando parte da mesma receita que Arce aplicou, mais dívida externa. Mas, diferentemente de Arce, cujos créditos se encontravam “bloqueados” pelos blocos parlamentares de direita e do evismo, Paz tem o caminho livre com um amplo consenso neoliberal no parlamento a favor de mais dívidas externas.

Ainda faltam medidas-chave que o Fundo Monetário “sugere” ao governo boliviano em troca dos 5 mil milhões de dólares que o ministro Espinoza vem anunciando: devem avançar para um modelo “fast-track” para facilitar investimentos estrangeiros em setores estratégicos da economia e devem reduzir ao mínimo a presença de empresas estatais.

O plano econômico do governo está traçado, é cada vez mais urgente avançar na auto-organização, não só para resistir ao ajuste como para construir uma alternativa em que a crise seja paga pelos empresários.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Nathanael Hastie Sociólogo, militante da LOR-CI e colaborador do portal La Ezquierda Diario.

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