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Política anti-inflacionária de Javier Milei baseada em um dólar barato gera custos ocultos que costumam ser subestimados (Foto: Gage Skidmore / Flickr)

Sal 500% mais caro: o que comparação de preços Brasil x Argentina revela sobre Milei

Dados confirmam o que muitos argentinos percebem no dia a dia: viver no país está cada vez mais insustentável; em média, Argentina é 85% mais cara que Brasil em dólares

Guillermo Oglietti
Celag
Buenos Aires

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

Manter o tipo de câmbio baixo como instrumento para combater a inflação na Argentina tem um custo: os preços em dólares de bens e serviços sobem, e a economia perde competitividade frente aos vizinhos e parceiros comerciais¹. Estamos realmente diante de um dólar artificialmente barato que encarece a produção e coloca em xeque as contas externas e a produção interna? A comparação de preços entre Argentina e Brasil não deixa dúvidas.

Nossa análise, comparando preços entre Argentina e Brasil, é contundente: em média, a Argentina é 85% mais cara que o Brasil em dólares, e seria necessário um dólar a 1.671 pesos para igualar os preços dos dois países. Esse desajuste explica, em grande parte, o colapso do comércio exterior. Em janeiro de 2025, as exportações argentinas para o país vizinho caíram 10%, enquanto as importações do Brasil aumentaram 40%. O déficit comercial com o Brasil quintuplicou em um mês, passando de -87 milhões de dólares em dezembro para -441 milhões em janeiro. E isso não afeta apenas o Brasil: o superávit comercial com o mundo despencou de 1,66 bilhões de dólares em dezembro para apenas 142 milhões em janeiro.

Quais produtos são mais caros?

O estudo comparou 36 bens e serviços entre ambos os países, e as diferenças de preços são impactantes (tabela 1):

Alimentos: na Argentina, o sal custa 500% mais do que no Brasil. Outros produtos com diferenças abismais são os ovos, o frango, a cebola e o feijão, com preços quase o dobro. No outro extremo, a farinha de trigo é apenas 15% mais cara.
Bebidas: este é o setor com as diferenças mais notáveis. Uma garrafa de Pepsi custa 4 vezes mais na Argentina, a água engarrafada o dobro e a cerveja quase triplica de preço.
Eletrônicos: a diferença é menor, embora ainda significativa. Uma câmera GoPro custa quase o dobro na Argentina, enquanto um iPad é apenas 2% mais caro.
Construção: o cimento custa mais que o dobro na Argentina, enquanto a areia mantém preços semelhantes em ambos os países.
Entretenimento: uma assinatura da Netflix é 50% mais cara para os argentinos, e um console PlayStation, 70% mais.
Combustíveis: a gasolina e o diesel são entre 22% e 26% mais caros na Argentina.

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Fonte: elaboração Celag Data a partir de dados em GlobalProductPrices, Coto, ML, B.King e McDonalds.

Quanto o peso deveria ser desvalorizado para igualar os preços com o Brasil?

Se o objetivo fosse equilibrar os preços em dólares com o Brasil, o tipo de câmbio deveria ser muito mais alto. Segundo a média dos 36 produtos analisados, a Argentina necessitaria de uma desvalorização de 59%, levando o dólar a 1.671 pesos (tabela 2).

Considerando as diferenças de preços por setor, as desvalorizações necessárias para equiparar os preços com o Brasil seriam as seguintes:

Os alimentos são 89% mais caros na Argentina, e seria necessária uma desvalorização de 63%, levando o tipo de câmbio a 1.718 pesos por dólar.
Em bebidas, os argentinos pagam 162% a mais, e seria necessária uma desvalorização de 144%, elevando o tipo de câmbio a 2.572 pesos por dólar.
Nos eletrônicos, os valores são 35% mais caros na Argentina, e seria necessário desvalorizar 26% para que o tipo de câmbio chegue a 1.326 pesos.
Em hambúrgueres, a desvalorização deveria ser de 71%, e o tipo de câmbio que equipararia os preços com o Brasil deveria ser de 1.803 pesos por dólar.
Em combustíveis líquidos, a desvalorização deveria ser de 24%, sendo necessário um tipo de câmbio de 1.310 pesos.

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Fonte: elaboração Celag Data.

Reflexões finais

A comparação com o Brasil é fundamental, pois os dois países têm economias industrializadas e um comércio bilateral intenso, facilitado pela integração alfandegária e pela proximidade geográfica. Quando os preços divergem significativamente, geram-se fluxos comerciais que podem resultar na deslocalização da produção, no fechamento de empresas e na perda de empregos.

Esses dados confirmam o que muitos argentinos percebem no dia a dia: viver no país está cada vez mais caro em dólares. Enquanto o governo insiste em manter um tipo de câmbio baixo para conter a inflação, os efeitos colaterais são inegáveis: a produção nacional perde competitividade, as empresas encolhem, os empregos desaparecem e o comércio exterior se desequilibra.

O problema de fundo é que essa política anti-inflacionária baseada em um dólar barato gera custos ocultos que costumam ser subestimados. A estabilidade momentânea pode parecer atraente, mas, a longo prazo, a perda de capacidade produtiva e a deterioração do emprego acabam sendo um preço alto demais a pagar. Em suma, combater a inflação sacrificando a produção é uma estratégia que não se sustenta, porque até um estudante do ensino médio sabe que os preços não caem com a redução da oferta.

Nota

1. Para visualizar a relação entre o dólar barato e os valores na Argentina, é útil mostrar que os preços argentinos internacionais Pi são iguais aos preços em pesos P$ divididos pelo tipo de câmbio nominal TCN, ou seja, Pi = P$/TCN. Portanto, quanto mais baixo for o denominador TCN, maior será o preço internacional Pi.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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