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Venerar um ditador, ter saudades de épocas passadas de ditaduras cruéis, racistas e cujo legado real foi de mortes e desaparecimentos, nada mais é senão uma patologia.
Carolina Vásquez Araya*
Não é necessário indagar por que quando é necessário tomar decisões importantes como, por exemplo, a eleição de um presidente da República, a maioria se inclina por aquelas propostas abertamente patriarcais: mão dura, governo forte, figura masculina. São os ressentimentos de uma colonização não apenas operada pelos poderes político e econômico, mas também pela própria atitude de sociedades acostumadas a uma estrutura vertical de ordem que não admite exceções, nem a abertura de espaços autenticamente democráticos. A resposta está em uma trajetória histórica cuja principal característica é a concentração de poder, e também em uma ideia errônea do conceito de liderança.
Talvez por essa razão seja praticamente impossível romper as estruturas já estabelecidas desde a época colonial, quando as levas de imigrantes vindos da Espanha, com o respaldo da coroa e pré munidos de um indubitável halo de superioridade, arrasaram as culturas autóctones, escravizaram os habitantes destas terras — quando não os exterminaram de uma vez — e se apoderaram da riqueza deste continente. Essa sensação de pertencer a uma classe superior não desapareceu com os séculos. Pelo contrário, foi se afiançando apesar das misturas étnicas e à medida que os colonizados perderam toda possibilidade de equiparar-se aos seus colonizadores.
O presidente Jimmy Morales recebe o bastão de mando das Forças Armadas das mãos do Ministro da Defesa. Foto Carlos SebastiánÉ preciso ter as ideias muito confusas para falar na Guatemala de um bom governo, de um “legado”, de liderança ou de grandes qualidades de estadista quando mais de 60% da população do país sobrevive abaixo da linha da pobreza e os indicadores de desenvolvimento humanos estão pelo chão. É preciso ser muito cínico para afirmar que algum ex-presidente ou atual governante tem ou teve a menor intenção de fazer da Guatemala uma nação em pleno desenvolvimento. É preciso estar cego — de cegueira absoluta — para não ver a miséria em torno dos palácios de governo, nacional e municipal, com vizinhanças carentes de serviços básicos, água contaminada, redes de esgoto que afundam por falta de manutenção, pontes que tremem ameaçadoramente à passagem de veículos, ruas em ruínas e montanhas de lixo sem sistema de tratamento.

Um líder verdadeiro não é aquele que tem a mão dura e a capacidade operativa para fazer “limpeza social” mediante o uso de esquadrões da morte.
Um autêntico líder é aquele que organiza uma sociedade para torná-la partícipe de suas políticas de desenvolvimento, para empoderá-la e pô-la a trabalhar ao seu lado em perfeita sintonia com seus ideais. Um líder não é aquele que grita e ameaça, mas aquele que ama seu povo e o respeita. Venerar um ditador, ter saudades de épocas passadas de ditaduras cruéis, racistas e cujo legado real foi de mortes e desaparecimentos, nada mais é senão uma patologia. Uma sociedade saudável não tem saudades dos regimes autoritários. Pelo contrário, aspira viver em um sistema aberto à sua participação cidadã na construção de um país melhor, mas sobretudo na integração real de todos os seus cidadãos sem distinção de classes nem etnias…
Talvez seja o momento de compreender que as mudanças urgentes vão além da confrontação entre irmãos; as mudanças devem começar de dentro, do exame de atitudes e aspirações, dos preconceitos e estereótipos que impedem o desenvolvimento humano e condenam uma grande parte da comunidade a viver na pobreza mais degradante. Talvez seja o momento de aceitar que a Colônia ficou no passado e se requer o concurso de todos para construir uma verdadeira democracia.
*Colaboradora de Diálogos do Sul, da Cidade da Guatemala





