Barrancas

"Trump minimiza gravidade da crise, não temos ideia de quantos casos existem", diz Chomsky

"A reação do governo foi terrível. É quase impossível até mesmo testar as pessoas, enquanto as camas dos hospitais foram suprimidas em nome da eficiência”

Em casa como todos, ou ao menos como os afortunados, decido escrever a Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) para saber, em primeiro lugar, como está e depois lhe perguntar o que pensa da crise gerada pelo coronavírus e a reação da opinião pública.

A reportagem é de Valentina Nicodi, publicada por Ctxt, 20-03-2020. A tradução é do Cepat.

Barrancas
“As camas dos hospitais foram suprimidas em nome da eficiência”, afirma Noam Chomsky

Ultimamente, há quem dê crédito à ideia de que o vírus pode ter sido propagado deliberadamente, por interesses econômicos e geopolíticos. O professor Chomsky, cujos livros tive o privilégio de traduzir durante alguns anos, responde-me em algumas horas com sua habitual amabilidade.

Disse-me que está bem. Ele, assim como nós, permanece em casa, em Tucson [Estados Unidos], com sua esposa Valeria. Não é que isto o detenha, é impossível.

Informa-me que está inundado de centenas de solicitações de entrevistas todos os dias, agora mais do que nunca, e que tem uma “agenda torrencial, uma agenda incandescente”. Teria feito mais perguntas, sei que me responderia se pudesse.

“A situação é muito grave”, disse. “E não há credibilidade na afirmação de que o vírus se propagou deliberadamente”.

Em relação à atitude dos diferentes governos: “Os países asiáticos parecem ter conseguido conter o contágio, ao passo que a União Europeia atua com atraso”.

O que há de seu próprio país? “A reação dos Estados Unidos foi terrível. Era quase impossível até mesmo testar as pessoas, sendo assim, não temos nem ideia de quantos casos há realmente”.

Em suas respostas - que minimiza dizendo “não sei se há algo que valha a pena publicar” - encontramos em pequenas pílulas o que necessitamos para entender o núcleo da verdade: “O assalto neoliberal deixou os hospitais sem preparação. Um exemplo entre todos: as camas dos hospitais foram suprimidas em nome da ‘eficiência’”.

Para piorar as coisas, o Furacão Trump. Só agora parece que as coisas estão mudando nos Estados Unidos, mas “até agora, tanto Trump como Kushner [Jared, o genro de Trump e assessor próximo] minimizaram a gravidade da crise. Esta atitude se viu amplificada pelos meios de comunicação da direita, razão pela qual muitas pessoas deixaram de tomar as precauções mais básicas”.

Chomsky resume em algumas palavras o que necessitamos saber sobre o sistema em que vivemos: “Esta crise é o enésimo exemplo do fracasso do mercado, assim como é a ameaça de uma catástrofe ambiental. O governo e as multinacionais farmacêuticas sabem, há anos, que existe uma grande probabilidade de que se produza uma grave pandemia, mas como não é bom para os lucros se preparar para isso, não se fez nada”.

Obrigado professor, espero vê-lo logo.

“Cuide-se, fique em casa”.


Valentina Nicodi, publicada por Ctxt

Tradução: Cepat.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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