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ToggleCada bote que chega às Canárias transporta algo mais do que corpos exaustos. Traz consigo a história de um saque, de uma violência disfarçada de acordos comerciais, de uma colonização renovada que impõe sua lei nas águas do Atlântico africano.
O recente informe da ONG Environmental Justice Foundation sobre a pesca no Senegal volta a pôr em evidência uma realidade que sofrem na carne milhares de pessoas: os oceanos, que um dia sustentaram comunidades inteiras, hoje são botim de interesses forâneos.
Este espólio sistemático, amparado por governos locais, cúmplices e multinacionais, leva milhares de africanos a arriscar sua vida em uma das rotas migratórias mais mortais do mundo.
Superexploração e miséria: o caso senegalês
O Senegal, com uma das frotas pesqueiras artesanais mais ativas da África Ocidental, enfrenta uma situação crítica. A pesca industrial, especialmente a que se realiza segundo acordos pouco transparentes com países como a China e a Espanha, esvaziaram suas águas.
Não se trata de uma consequência fortuita nem de uma má gestão inocente: falamos de uma lógica capitalista de extração a serviço do lucro privado, onde os meios de vida de milhões se subordinam ao afã de lucro de uns poucos.
O informe da EJF revela que cerca da metade dos navios industriais que labutam em águas senegalesas estão em mãos de interesses estrangeiros. Estas embarcações empregam métodos devastadores, como o arrasto de fundo, que arrasam com tudo a sua passagem.
Como resultado, espécies demersais e pelágicas — chaves para o consumo popular — estão sendo devastadas, reduzindo o acesso ao pescado a níveis alarmantes. Em 2021, o consumo per capita no Senegal caiu para 17,8 quilos, frente à média histórica de 29. A escassez fez os preços dispararem e devastou atividades como a transformação artesanal do pescado.
A situação não é casual: a penetração de interesses forâneos responde a uma estrutura de domínio econômico. A União Europeia, com a Espanha na frente, é o principal destino das exportações pesqueiras do Senegal. Assim, os consumidores europeus se beneficiam da desnutrição e do desemprego das comunidades costeiras africanas.

Migrar ou morrer: a expulsão forçada
A migração senegalesa para as Canárias não responde ao mito da “busca de oportunidades” e sim à violência de um sistema que expulsa os jovens deste país africano onde lhes arrebatam seus meios de subsistência.
Em 2024, mais de 46.800 pessoas chegaram às Ilhas Canárias por mar, o dobro do que em 2022. Esta rota, de mais de 2.000 quilômetros em mar aberto, ceifou mais de 3.000 vidas em um único ano, tornando-se a mais letal do mundo.
Os jovens senegaleses, privados de trabalho, alimento e futuro, não escapam de uma genérica “pobreza”: escapam do saque. Não é uma escolha livre, é a expressão mais crua do “direito a migrar” no capitalismo global, em que os direitos se subordinam às necessidades do capital. Cada viagem é um testemunho do fracasso das estruturas que prometiam desenvolvimento em troca de abertura econômica.
Um espólio neocolonial
Mas a sobrepesca no Senegal é só uma manifestação mais de um padrão generalizado de relações neocoloniais. As multinacionais — protegidas por tratados de livre comércio e governos corruptos — extraem recursos naturais, destroem ecossistemas e aniquilam economias locais, perpetuando o subdesenvolvimento. Trata-se de um intercâmbio desigual em que os países periféricos exportam matéria prima e miséria, enquanto importam dependência e morte.
A lógica do capital, que persegue o lucro acima da vida, transforma os oceanos em minas flutuantes. O acesso a licenças pesqueiras, longe de estar regulamentado por critérios de sustentabilidade ou de equidade, é negociado em salas fechadas, à margem da população. E quando os peixes desaparecem, as únicas rotas que permanecem abertas são as da emigração, do tráfico e da morte.
Canárias, a fronteira exterior da Europa
Desde 1994, quando chegou a primeira embarcação às Ilhas Canárias, o arquipélago se transformou em uma fronteira militarizada. Nas Ilhas, os fluxos migratórios africanos são administrados com uma lógica securitária, em que se prioriza o controle sobre a proteção. Centros de internamento saturados, menores não acompanhados, sem tutela efetiva, corpos na praia: esta é a resposta da Europa a uma crise que ela própria provocou.
Tanto os discursos governamentais como as ONGs tratam de ocultar a contradição fundamental: enquanto a Europa financia projetos para frear a migração, suas empresas saqueiam os recursos que alimentavam estas mesmas comunidades. A esquerda institucionalizada, que assumiu as bases do capitalismo global, torna-se cúmplice do sistema que expulsa a juventude africana de sua terra.
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Frente às explicações moralistas ou tecnocráticas, é imprescindível adotar uma análise de conjunto. A migração forçada da África para a Europa, como resultado direto da ação do capitalismo global, não pode ser combatida com remendos, nem com discursos vazios de empatia.
Necessita-se de uma transformação radical das relações econômicas internacionais, uma luta pela soberania, pelo controle democrático dos recursos naturais e pela abolição das estruturas que permitem a uns poucos acumular capital às custas do trabalho alheio.





