Tarifas, Pix e urnas: por que o Brasil entrou no centro da disputa entre EUA e China

O avanço dos investimentos chineses transformou o Brasil em peça estratégica da rivalidade entre Washington e Pequim. A análise mostra como comércio, finanças, segurança e eleições passaram a integrar essa disputa

Maurício Alfredo
Diálogos do Sul Global
Sorocaba (SP)

Tradução:

Em política internacional, as relações entre os países não são guiadas por afinidades morais ou princípios abstratos, mas por interesses estratégicos de poder, economia e segurança. Sob essa lógica, a recente onda de pressões exercidas pelos Estados Unidos sobre o Brasil que, desde julho de 2025, assume a forma de medidas simultâneas de natureza comercial, financeira, penal e diplomático-eleitoral, dificilmente pode ser interpretada como resposta a preocupações pontuais ou técnicas.

Mesmo na ausência de evidência pública de um plano unificado, o efeito cumulativo dessas ações revela um padrão de atuação articulado, incidindo sobre engrenagens centrais do Estado brasileiro, como a regulação econômica (tarifas), a jurisdição criminal (segurança), as normas sociais (trabalho escravo) e a legitimidade do processo eleitoral.

O que se observa, portanto, é a configuração de uma ofensiva multidimensional que, inserida em um contexto mais amplo de reorganização do sistema internacional e intensificação da disputa geopolítica global, transforma o Brasil não apenas em alvo dessas medidas, mas em espaço de projeção dessa disputa, ao mesmo tempo em que produz um constrangimento à sua soberania institucional e impõe limites ao seu projeto de desenvolvimento autônomo.

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China e Brasil – Reprodução:: Twitter X

Essa engrenagem reflete a reorganização do poder internacional, marcada pela intensificação da rivalidade entre Estados Unidos e China. Nesse cenário, o Brasil deixa de ocupar uma posição periférica e passa a figurar como território estratégico, especialmente diante da ampliação dos investimentos chineses no país e na América Latina.

É sob esse prisma que se deve compreender a escalada recente: não como episódios isolados, mas como parte de uma disputa geopolítica mais profunda.

No interior dessa dinâmica, instrumentos tradicionalmente associados ao comércio e ao investimento passam a operar como vetores de poder, configurando o que se convencionou chamar de Geoeconomia.

Na inserção brasileira nos fluxos globais de capital e na reconfiguração das cadeias sino-internacionais, o Brasil ocupa uma posição particularmente sensível nesse arranjo: além de sua relevância como fornecedor de commodities estratégicas, o país se consolidou como o principal destino do capital chinês em 2025, com cerca de US$ 6,1 bilhões recebidos.

Esses fluxos devem ser interpretados à luz de transformações estruturais mais amplas, marcadas pela ascensão chinesa como ator central na redefinição da ordem internacional.

No contexto da Belt and Road Initiative, lançada em 2013, Pequim tem ampliado sua presença no Sul Global por meio do financiamento de infraestrutura, da aquisição de ativos estratégicos e da consolidação de parcerias energéticas e tecnológicas.

Paralelamente, a intensificação do uso de tarifas e outras barreiras como instrumentos de disputa evidencia que a política comercial dos Estados Unidos não pode ser dissociada de uma lógica mais ampla de contenção geopolítica.

Nesse cruzamento entre centralidade econômica e pressão estratégica, o Brasil deixa de ser apenas um ator relevante e passa a constituir um espaço privilegiado de incidência dessas disputas.

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A pressão sobre o Brasil manifesta-se por meio de instrumentos distintos que incidem sobre múltiplas engrenagens do Estado e torna-se mais clara quando analisada em perspectiva temporal, na qual esses mecanismos são mobilizados de forma progressiva, ampliando o alcance das intervenções

Nesse encadeamento, o marco inicial dessa ofensiva consolida-se com a imposição de tarifas, como a elevação de 25% sobre determinados produtos da pauta exportadora brasileira. Essa medida comercial insere-se no campo da Geoeconomia, por meio do qual fluxos de comércio, cadeias produtivas e parcerias estratégicas são reconfigurados em função de objetivos de poder.

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Reprodução: Flickr

Tais ações integram um movimento mais amplo de instrumentalização do comércio internacional, no qual tarifas e barreiras regulatórias deixam de operar exclusivamente como mecanismos de proteção industrial e passam a atuar como ferramentas de coerção política no contexto da competição entre grandes potências.

Nesse sentido, as tarifas deixam de cumprir uma função estritamente econômica e passam a funcionar como mecanismos de contenção estratégica: não se trata mais de proteção comercial, mas de sanção política, mobilizada para disciplinar, constranger e reposicionar países no tabuleiro geopolítico global.

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A investida coercitiva não se limitou ao campo tarifário; em meados de maio e junho de 2026, a pressão desloca-se para o campo da segurança pública, com a tentativa de classificar facções criminosas brasileiras como “organizações terroristas”.

Trata-se de um exemplo claro de securitização, isto é, a construção política de uma ameaça ampliada que permite justificar medidas de exceção. Ao impor o rótulo de terrorismo, fenômeno inexistente no território nacional, Washington desloca a questão da criminalidade comum para a esfera da segurança internacional, criando o pretexto jurídico necessário para legitimar ações extraterritoriais.

Esse enquadramento, além de tensionar a jurisdição criminal brasileira, ainda abre caminho para formas diretas de intervenção sobre setores estratégicos da economia nacional.

Nesse cenário, a questão dos recursos naturais ganha centralidade. A atuação do crime organizado em economias ilegais, especialmente na exploração de recursos ambientais, passa a ser instrumentalizada para associar as cadeias produtivas brasileiras ao financiamento do terrorismo.

Com isso, minerais críticos, essenciais para a transição energética global, são progressivamente incorporados a um regime de vigilância e controle externo, justamente em um momento de acirramento da disputa internacional por esses insumos e de expansão dos investimentos chineses em setores estratégicos no Brasil.

Esse movimento se articula a dispositivos normativos da legislação dos EUA que ampliam a capacidade de intervenção econômica e financeira sobre países considerados problemáticos.

Destacam-se, nesse arranjo, a Seção 301, voltada ao combate de práticas consideradas desleais no comércio internacional, e a Seção 311, que concede ao Departamento do Tesouro o poder de aplicar sanções financeiras contra países, transações ou bancos estrangeiros classificados como de ‘principal preocupação’ em relação à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Desse modo, cria-se a prerrogativa para interferir na governança territorial dessas áreas e controlar ou restringir a exportação desses insumos vitais para a indústria de alta tecnologia chinesa. Trata-se, em suma, do uso da pauta securitária para erguer barreiras regulatórias e territoriais capazes de constranger a livre circulação de ativos e a presença estratégica de Pequim na América Latina.

Ainda dentro dessa arquitetura regulatória que combina sanções comerciais e bancárias, estruturas centrais da economia nacional, como o Pix (que garantiu a soberania financeira ao país e reduziu a dependência das corporações de crédito estadunidenses) e o setor energético do etanol, passam a sofrer impactos diretos sob a justificativa de reequilibrar as condições de concorrência e garantir a reciprocidade de mercado.

O Brasil e o posicionamento entre China e Estados Unidos - Vermelho
O Brasil e o posicionamento entre China e Estados Unidos – Vermelho

Configura-se, assim, um mecanismo ampliado no qual segurança pública, governança financeira e geopolítica dos recursos estratégicos se entrelaçam.

Portanto, sob o pretexto do combate ao terrorismo, estrutura-se o controle sobre fluxos econômicos vitais ao desenvolvimento brasileiro, visando conter a inserção de atores concorrentes, em especial a China.

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Para além da dimensão econômica e da segurança pública, observa-se, a partir de julho de 2026, a incorporação de pautas normativas e trabalhistas como novos vetores de pressão, revelando uma dinâmica mais complexa do que a simples aplicação de padrões internacionais.

Nesse movimento, o tema do trabalho escravo contemporâneo — especialmente mobilizado a partir das denúncias internacionais sobre trabalho forçado na região chinesa de Xinjiang — é deslocado de um campo de reconhecimento institucional, no qual o Brasil figura como referência, para um enquadramento centrado em riscos associados às cadeias globais de suprimento.

Com isso, deixa de operar apenas como questão de direitos humanos e passa a ser securitizado, convertendo-se em justificativa para medidas coercitivas que penalizam países vinculados a cadeias produtivas chinesas e os reposicionam no contexto da disputa geopolítica global.

Esse enquadramento abre espaço para a instrumentalização jurídica dessas pautas. Normas originalmente voltadas à proteção social passam a operar como vetores de pressão externa, expandindo o seu alcance para além do plano doméstico e evidenciando um uso estratégico do direito que se aproxima do que a literatura define como lawfare.

A agenda ética e socioambiental, nesse sentido, deixa de ser apenas justificativa discursiva e converte-se no motor de um protecionismo seletivo e estratégico, mobilizado para encarecer as exportações do Sul Global e conter a expansão da infraestrutura produtiva chinesa na América Latina. Assim, sanções comerciais e alíquotas adicionais alinham, de forma intencional, discursos normativos e disputas de poder, operando como mecanismo de contenção geopolítica de potências rivais

Essa dinâmica ganha contornos práticos quando articulada a dispositivos como a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. Embora não haja uma acusação direta de utilização de trabalho escravo por parte do Brasil, a ausência de mecanismos legais que proíbam explicitamente a importação de produtos associados a trabalho forçado abre margem para o enquadramento do país como vulnerável a esse tipo de prática.

Com isso, cria-se uma base normativa unilateral que autoriza restrições indiretas, ampliando o alcance da pressão sobre setores exportadores brasileiros.

Dessa forma, uma agenda legítima de proteção social é reconfigurada como tecnologia de disputa econômica. O mecanismo incide diretamente sobre a inserção internacional do Brasil e limita sua competitividade, em um momento de reorganização das cadeias globais de valor e de forte expansão de investimentos estratégicos chineses na economia brasileira.

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Por fim, a escalada multidimensional atinge um dos núcleos fundamentais da democracia: o processo eleitoral. A iniciativa da Casa Branca de enviar supostos emissários para tutelar o funcionamento do sistema eletrônico de votação introduz um elemento externo direto no coração da soberania popular. 

Esse movimento ganhou contornos explícitos em julho de 2026, quando Flávio Bolsonaro, em reunião com o corpo diplomático estrangeiro, levantou suspeitas sem lastro sobre a integridade das urnas eletrônicas. Ao sinalizar para a presença de observadores internacionais, sob o pretexto de requerer uma ‘auditoria externa’, busca-se transferir o critério de validação do pleito para fora das instituições nacionais, abrindo espaço para a internacionalização de um processo que constitui a base da autodeterminação política.

Não obstante, o contraponto institucional é robusto. O sistema de votação brasileiro é integralmente gerido pela Justiça Eleitoral e submetido a rigorosos e sucessivos ciclos de auditoria pública, abertos à fiscalização de partidos políticos, Forças Armadas, universidades, peritos independentes e entidades da sociedade civil, além de contar com verificações consolidadas pelos próprios órgãos de controle do Estado (TCU, 2022).

Diferentemente das missões multilaterais de observação institucionalizadas, a tentativa de fomento à ingerência e à tutela externa revela um profundo desequilíbrio de poder. Trata-se, assim, do uso estratégico do questionamento eleitoral para constranger a legitimidade do resultado e limitar, desde a origem, a margem de manobra geopolítica e a autonomia do Estado brasileiro no cenário internacional.

É nesse contexto que se delineia uma verdadeira arquitetura do assujeitamento. Essas ações não representam episódios isolados; ao contrário, configuram uma estratégia multifacetada de desestabilização que alcança as engrenagens centrais do Estado democrático de Direito.

As diferentes frentes de pressão — econômica, securitária, normativa e político-eleitoral — articulam-se em um mesmo arranjo, combinando coerção material, enquadramento jurídico e deslegitimação institucional. Ao mobilizar tarifas como instrumentos de contenção, normas sociais como vetores de pressão externa e o questionamento eleitoral como mecanismo de constrangimento político, esse conjunto de ações reorganiza, de maneira assimétrica, as condições de inserção internacional do Brasil.

Mais do que respostas a problemas específicos, tais medidas configuram um dispositivo de poder que busca limitar a autonomia decisória do país e condicionar suas escolhas estratégicas em um cenário de intensificação da disputa geopolítica global.

O que está em jogo, nesse cenário, não é apenas a regulação de fluxos comerciais ou a integridade de processos internos, mas a própria capacidade do Estado brasileiro de sustentar um projeto de desenvolvimento soberano.  


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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