Brasil continua excessivamente dependente do transporte rodoviário de cargas - wikimedia

Cannabrava | Rodovias dominam o transporte, mas o Brasil precisa diversificar sua logística

A excessiva dependência do transporte rodoviário encarece a produção, dificulta a integração nacional e revela décadas de falta de planejamento estratégico para o desenvolvimento do país

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O Brasil continua excessivamente dependente do transporte rodoviário de cargas. Segundo o novo Panorama do Transporte Rodoviário de Cargas, os caminhões respondem por 68,5% de toda a carga transportada no país, quando o indicador é tonelada-quilômetro.

Quando se considera o valor das mercadorias transportadas, essa participação sobe para 84,3%, revelando uma concentração extraordinária em um único modal. Essa dependência tornou-se um dos principais gargalos da infraestrutura nacional.

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O problema não está apenas na predominância das rodovias, mas na precariedade da malha viária. Embora o Brasil possua mais de 2,8 milhões de quilômetros de rodovias, apenas cerca de 31 mil quilômetros são administrados pela iniciativa privada.

SP RJ
Rodovia Presidente Dutra – wikipedia

As melhores estradas, como ocorre em São Paulo, encontram-se justamente entre as concedidas, enquanto grande parte da malha pública sofre com o abandono, a falta de manutenção e a conservação deficiente. O resultado são custos elevados de transporte, maior desgaste dos caminhões, aumento do consumo de combustível, mais acidentes e perda de competitividade.

Essa deficiência torna-se ainda mais grave diante da expansão da fronteira agrícola. A produção cresce em ritmo acelerado, mas as obras de infraestrutura não acompanham esse avanço. Em muitas regiões produtoras, especialmente nas novas fronteiras agrícolas, o escoamento das safras depende de estradas precárias, frequentemente intransitáveis durante o período de chuvas.

O país produz cada vez mais, mas continua enfrentando enormes dificuldades para levar sua produção aos portos e aos mercados consumidores.

O Brasil dispõe, entretanto, de alternativas muito mais eficientes. Grande parte da ocupação do território nacional ocorreu pelos rios, que continuam sendo um imenso patrimônio logístico pouco aproveitado. O transporte hidroviário apresenta custos significativamente inferiores aos do transporte rodoviário e causa menor impacto ambiental.

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Da mesma forma, a cabotagem — o transporte marítimo ao longo da costa brasileira — já desempenhou papel relevante na integração econômica do país e hoje permanece subutilizada. A perda da importância da marinha mercante brasileira contribuiu para esse retrocesso.

O problema de fundo, porém, vai além da escolha entre rodovias, hidrovias, ferrovias ou cabotagem. O que falta ao Brasil é um planejamento estratégico nacional, capaz de integrar infraestrutura, produção, logística, preservação ambiental e ocupação racional do território. Ao longo das últimas décadas, decisões fragmentadas e de curto prazo substituíram uma visão de Estado voltada para o desenvolvimento.

Um país com dimensões continentais e enorme potencial produtivo não pode depender quase exclusivamente de caminhões para movimentar sua riqueza. É indispensável um projeto nacional que integre rodovias, ferrovias, hidrovias, cabotagem e portos, explorando as vantagens de cada modal.

Mais do que construir estradas, o Brasil precisa recuperar a capacidade de planejar seu futuro. Somente um planejamento estratégico nacional permitirá promover um desenvolvimento integral, equilibrado e sustentável, reduzir os custos logísticos, fortalecer a competitividade da economia e integrar efetivamente todas as regiões do país.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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