A trégua de 60 dias na Faixa de Gaza deixou de ser uma opção de negociação ou uma proposta humanitária passageira, tornando-se uma necessidade nacional e moral urgente diante da continuidade dos massacres coletivos, do incremento das políticas de extermínio, da fome e da sede, e da destruição sistemática que atingiu tudo o que remete à vida neste setor sitiado há anos.
Desde 7 de outubro de 2023, Israel trava uma guerra aberta contra a Faixa de Gaza que resultou no martírio de mais de 57.338 palestinos, em mais de 135.957 feridos e no desaparecimento de cerca de 15 mil civis – um balanço inédito na história das sucessivas Nakbas que devastaram nosso povo. Essa guerra ultrapassa os limites de uma agressão militar para se configurar como um projeto de limpeza étnica em massa contra o corpo, os direitos e a identidade do povo palestino.
Ao longo de mais de 20 meses consecutivos, a máquina de guerra israelense não se limitou a matar inocentes; destruiu residências, aniquilou bairros inteiros, atacou abrigos, hospitais, universidades e escolas, e cortou todos os meios de subsistência – água, alimentos, eletricidade e remédios – em uma política sistemática de genocídio e cerco até a morte.
Nesse contexto, a trégua de 60 dias não deve ser vista apenas como um breve intervalo nas hostilidades, mas sim como a porta de entrada indispensável para deter o derramamento de sangue, frear o holocausto em curso, abrir caminho para um acordo que conduza ao término completo da guerra, assegurar o fluxo de ajuda humanitária, iniciar um processo sério de reconstrução do que foi destruído pela agressão e enfrentar uma catástrofe sem precedentes desde a Nakba de 1948.
Ciente de sua responsabilidade nacional, a Frente Democrática para a Libertação da Palestina assumiu suas obrigações para com o povo, realizando uma série de consultas políticas com as lideranças do Hamas e da Jihad Islâmica durante a visita de sua delegação ao Cairo, sob a presidência do secretário-geral Fahd Suleiman, na busca de unificar esforços nacionais, proteger direitos e consolidar o mais amplo consenso palestino, baseado na salvaguarda do nosso povo e na cessação da guerra de extermínio em curso.
A Frente também manteve suas iniciativas políticas e contatos com diversas forças, partidos políticos e segmentos da sociedade palestina, partindo da convicção de que qualquer trégua humanitária não pode ser meramente uma pausa entre ciclos de combate, mas deve constituir um instrumento eficaz para deter a agressão, romper o cerco e restaurar o direito palestino a uma vida livre e digna.
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Hoje, já não é aceitável apenas gerir a catástrofe; torna-se imperioso agir com urgência para pôr fim a ela, migrar da reação ao ato político nacional organizado, do ativismo sazonal à construção de uma frente política e diplomática unida, capaz de impor a vontade palestina no terreno e levar a voz do nosso povo às mesas de decisão regionais e internacionais.
A trégua de 60 dias não é um favor concedido a ninguém, mas um direito de um povo exaurido pela guerra, pela fome e pelo cerco. É a oportunidade de salvar o que resta de vida nesta terra devastada e uma janela de esperança no muro do bloqueio que deve ser aberta para um horizonte político novo, capaz de pôr fim à guerra, estabelecer a justiça e restituir ao povo palestino seu pleno direito à vida, à liberdade e à dignidade.
Edição de texto: Alexandre Rocha





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