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Listas, vigilância e prisões: Trump quer unir polícias de 60 países para perseguir a esquerda além das fronteiras dos EUA

Cerca de 60 países foram convidados pelo governo Trump a integrar uma ofensiva internacional de inteligência e cooperação policial contra a “extrema esquerda”; críticos temem que opositores políticos sejam transformados em alvos das estruturas de contraterrorismo

David Brooks, Jim Cason
La Jornada
Washington, DC

Tradução:

O secretário de Estado, Marco Rubio, está instando cerca de 60 países, entre eles o México, a participar de uma cúpula em Washington no próximo dia 16 de julho sobre a ameaça do que chama de “terrorismo transnacional de extrema esquerda”.

A iniciativa vem preocupando, de forma reservada, alguns funcionários do governo dos Estados Unidos e analistas independentes, que temem que ela possa fazer parte de uma estratégia política para angariar apoio e justificar a repressão contra opositores políticos progressistas no país.

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Marco Rubio – wikipedia

A reunião, que dará continuidade a outras duas realizadas anteriormente sobre o tema, faz parte dos esforços do presidente Donald Trump para ampliar o rol dos “inimigos” dos Estados Unidos para além de imigrantes e narcotraficantes, incluindo o que denomina — sem definir com precisão — de “esquerda radical”, categoria que abrangeria comunistas, socialistas, anarquistas e, por vezes, até democratas de centro, além de algo chamado “antifa”, que não existe como organização formal, em referência a grupos que se definem como “antifascistas”.

Em declarações recentes, o presidente e sua equipe passaram a se referir aos “socialistas democráticos” — entre os quais estão o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e diversos parlamentares — como “comunistas”, repetindo que muitos deles são e/ou recebem apoio de imigrantes e outros estrangeiros.

O governo Trump apresentou acusações criminais contra manifestantes que protestavam contra as medidas antimigração em diferentes partes do país, enquadrando-os por “terrorismo doméstico”.

Recentemente, também convenceu um tribunal no Texas a impor penas de prisão extremamente severas — incluindo uma condenação de 100 anos — a manifestantes que entraram em confronto com as autoridades em oposição às políticas migratórias e que, segundo o governo, se identificavam ou mantinham vínculos com o que chama de “antifa”.

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Karoline Leavitt – wikipedia

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou no último 10 de julho que a reunião internacional está programada para a semana do dia 12. Segundo ela, a “reunião ministerial sobre a recorrência do terrorismo político” reunirá ministros e altos funcionários de diversos países para aprimorar o compartilhamento de inteligência e a cooperação entre as forças de segurança pública no combate à violência de motivação política.

“Nosso sistema de operações contraterrorismo precisa ser atualizado para enfrentar a realidade dessas ameaças, proteger os cidadãos americanos e resguardar a segurança e os interesses nacionais dos Estados Unidos”, declarou um funcionário do Departamento de Estado à Reuters.

“O secretário convidará mais de 60 países de diferentes regiões, incluindo o hemisfério ocidental, a Europa e a Ásia”, informou um funcionário do Departamento de Estado ao La Jornada. No entanto, o Departamento de Estado não respondeu ao pedido de divulgação da lista de convidados. O La Jornada apurou extraoficialmente que o México está entre os governos convidados a enviar seu chanceler ou outro alto representante.

Diversos governos manifestaram preocupação quanto à participação no encontro. “A iniciativa gerou críticas de alguns funcionários atuais e aposentados, diplomatas europeus e especialistas em terrorismo, muitos dos quais argumentam que o governo [dos Estados Unidos] está exagerando a dimensão da ameaça da extrema esquerda”, informou o site conservador de notícias The Daily Wire.

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“Nós não temos antifa”, afirmou um diplomata europeu ao Washington Post. “Não consigo encontrar nenhuma razão pela qual teríamos interesse em participar de um evento desse tipo”, declarou outro diplomata ao jornal. Um terceiro acrescentou: “Nossas autoridades de segurança pública não têm concentrado atenção no terrorismo de extrema esquerda porque ele não é considerado uma ameaça prioritária em nosso país”.

Pelo menos parte dessa iniciativa está vinculada à campanha interna contra opositores do governo Trump nos Estados Unidos. Em setembro do ano passado, a Casa Branca emitiu uma ordem executiva direcionada a grupos dissidentes ou ativistas de esquerda classificados como parte da “antifa”, que foi designada como “uma organização terrorista doméstica” (vale reiterar que essa entidade não existe formalmente, embora haja redes descentralizadas e nem sempre coordenadas de grupos que se consideram “antifascistas”).

Especialistas afirmam que “antifa” — abreviação de “antifascista” — refere-se àqueles que definem sua atuação política como resistência a um regime fascista e que, na prática, até mesmo veteranos da Segunda Guerra Mundial poderiam ser considerados “antifa”. Há camisetas, por exemplo, com a frase: “Meu avô lutou contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial”.

Dentro do próprio governo dos Estados Unidos também há oposição a essa classificação. “O desconforto com a direção tomada pelo governo é tamanho que, em reuniões de funcionários da segurança nacional de diversas agências, alguns analistas de inteligência se recusaram a tratar da antifa por não considerá-la uma ameaça séria para o contraterrorismo”, informou o Washington Post.

“Alguns funcionários disseram ao Post estar preocupados de que isso faça parte de um esforço do governo Trump para utilizar poderosas ferramentas de contraterrorismo a fim de reprimir ativistas americanos que considera extremistas de esquerda.”

Nas últimas semanas, Trump tem procurado ressuscitar o vocabulário da Guerra Fria, afirmando que as vitórias eleitorais de alguns políticos social-democratas — que se identificam como socialistas democráticos — representam, na verdade, o retorno do comunismo.

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Ataques de 11 de setembro de 2001- wikipedia

“Temos de deter essa terrível ameaça do câncer que está se espalhando por nosso país, chamada comunismo”, advertiu Trump em um discurso para conservadores no fim de junho. “Acho que essa é a maior ameaça que existe contra nossa nação, talvez desde a sua fundação. Isso inclui a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial e o 11 de Setembro….”

Essa mensagem, em diferentes versões, tem sido repetida quase diariamente. No sábado, Trump divulgou uma mensagem acusando os democratas de serem socialistas e reiterando: “A América jamais será um país comunista!”.

Neste domingo, o presidente compartilhou novamente, em suas redes sociais, uma mensagem de um ultraconservador propondo que “o socialismo democrático seja criminalizado e que seus líderes sejam deportados”. Esses líderes incluem o prefeito da principal cidade do país, diversos parlamentares federais e o ex-candidato à Presidência e senador Bernie Sanders, entre outros.

“É engraçado que os republicanos consigam enxergar extremismo em todos os outros, mas fracassem em reconhecê-lo em si mesmos”, escreveu a colunista Sara Pequeño, do USA Today. “Enquanto os DSA [Socialistas Democráticos da América] defendem políticas absolutamente radicais como o Medicare para todos e um sistema universal de cuidados infantis, o movimento Faça a América Grande Novamente [liderado por Trump] invadiu o Capitólio dos Estados Unidos, destruiu a rede de proteção social, passou a aterrorizar imigrantes e a comunidade transgênero e promoveu ‘uma guerra com o Irã que arruinou a economia’.”


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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