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Jason Stadel/ U.S. Army

Trump declara guerra interna e promete usar cidades como campos de treinamento

Ao falar em guerra interna, Trump transforma opositores em inimigos do Estado e coloca militares no centro de um conflito político, acendendo alertas de autoritarismo.

David Brooks, Jim Cason
La Jornada
Nova York

Tradução:

Tradução: Beatriz Cannabrava

O comandante em chefe Donald Trump declarou que seu país enfrenta uma guerra interna e recomendou usar cidades estadunidenses como “campos de treinamento” para os militares. Ao mesmo tempo, a Casa Branca emitiu um comunicado informando que o presidente enviará tropas para esmagar a “esquerda radical terrorista” na cidade de Portland, Oregon.

Trump aponta guerra interna e convoca generais

Cerca de 800 generais e almirantes — a cúpula uniformizada da maior potência armada do mundo — foram convocados, sem explicação, para a base dos Marines em Quantico, Virgínia, onde ouviram seu comandante supremo afirmar:

“Estamos sob uma invasão interna, não diferente de um inimigo estrangeiro, mas mais difícil de muitas maneiras, porque não usam uniformes”.

Ele detalhou que o inimigo interno fazia parte do que chama de “esquerda radical” do país, que governaria cidades perigosas.

“Aquelas governadas por democratas de esquerda radical… o que fizeram em San Francisco, Chicago, Nova York, Los Angeles, são lugares muito inseguros. Vamos corrigir isso uma por uma, e alguns aqui nesta sala terão um grande papel nisso. Essa também é uma guerra. É uma guerra interna”.

Esquerda “radical” é alvo do discurso

Em sua fala confusa de mais de uma hora, Trump propôs, em referência ao envio de tropas a cidades sob governos democratas — até agora em Los Angeles e Washington, e com promessa de mais — que

“deveríamos usar algumas dessas cidades perigosas como campos de treinamento para nossos militares… porque vamos a Chicago em breve, é uma grande cidade com um governador incompetente” (em referência ao democrata JB Pritzker, de Illinois).

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Trump também anunciou que havia emitido uma ordem para criar “forças de reação rápida” militares, destinadas a “ajudar a conter distúrbios civis”. Especialistas jurídicos afirmam que isso violaria uma antiga lei que proíbe o uso de tropas militares em segurança pública dentro dos Estados Unidos.

Reação militar contida e alerta jurídico

Durante seu discurso de tom eleitoral, no qual zombou de antecessores e opositores, os mais altos oficiais presentes na reunião — inusitada e talvez sem precedentes — não demonstraram reação alguma, mantendo a disciplina de se manter apolíticos.

No entanto, a mensagem de uma “guerra interna” certamente gerou preocupação entre chefes militares historicamente treinados para enfrentar inimigos externos, e não seus próprios concidadãos.

Ao mesmo tempo, após anunciar no sábado passado (27) que havia ordenado o envio de tropas a Portland e autorizado o uso da chamada “força plena” se necessário, a Casa Branca divulgou nesta terça-feira (30) um boletim com o título: “O presidente Trump mobiliza recursos federais para esmagar o terrorismo violento da esquerda radical em Portland”.

O texto acrescenta: “O reino de terror da Esquerda Radical em Portland acaba agora”. Alega ainda que o que ocorre na cidade não são protestos, mas sim “anarquia premeditada que deixará cicatrizes por anos”.

Entre os acusados de compor o “inimigo da esquerda radical” — categoria ampla que inclui desde governadores, prefeitos e legisladores democratas até manifestantes e ativistas — a Casa Branca voltou a apontar algo chamado “Antifa” como responsável por liderar as “guerras” urbanas.

Embora não exista como organização formal, o termo é usado por alguns ativistas que se identificam como anarquistas para descrever um mosaico de grupos que se proclamam “antifascistas” ou “antifas”.

No comunicado, a Casa Branca acusa o grupo de chefiar protestos violentos em Portland, inclusive impondo “um cerco” a escritórios da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) na cidade, além de listar incidentes violentos atribuídos ao movimento desde maio.

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Resistência em Oregon

Tanto o prefeito de Portland, Keith Wilson, quanto a governadora de Oregon, Tina Kotek, junto a uma coalizão de mais de 12 prefeitos da região, manifestaram oposição ao envio de tropas e às medidas anti-imigrantes da Casa Branca. “Não há insurreição, não há ameaça à segurança nacional e não há necessidade de tropas militares em nossa principal cidade”, declarou Kotek no sábado.

A cidade, como tantas outras, expressou oposição às medidas de Trump em marchas e protestos, com alguns incidentes violentos em confronto com autoridades.

No entanto, no mesmo sábado (27) em que o presidente anunciou as medidas, imagens e reportagens de Portland mostravam apenas quatro manifestantes diante de um escritório federal, um deles vestido de galinha.

Enquanto isso, moradores divulgaram nas redes sociais inúmeras imagens de sua cidade supostamente “sob cerco” de radicais violentos, incluindo filas diante de cafés, um mercado urbano ao ar livre lotado e cenas de parques e do centro sem sinais de conflito.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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