Reprodução: Flickr

Não são só militantes: sob rótulo de “terrorismo político”, Trump quer investigar quem doa, dirige e financia esquerda

Governo dos EUA mobiliza inteligência, polícia e órgãos de controle financeiro para identificar doadores, dirigentes, funcionários e organizações classificados como ligados ao chamado “terrorismo de extrema esquerda”

David Brooks, Jim Cason
Washington, DC

Tradução:

O secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, e outros altos funcionários dos Estados Unidos instaram representantes de cerca de 60 governos a adotar medidas de segurança pública contra o que classificaram como “terrorismo político de extrema esquerda”. O governo do México foi convidado, mas um porta-voz do Departamento de Estado informou ao La Jornada que o país não participou.

250px Official portrait of Secretary Marco Rubio%2C January 2025
Marco Rubio – wikipedia

“Por tempo demais, nossa doutrina antiterrorista teve um ponto cego… a violência extremista proveniente da esquerda política”, declarou Rubio em um discurso de boas-vindas aos governos convidados, entre os quais estavam representantes da Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e Uruguai, no hemisfério americano, além de vários governos europeus e asiáticos. Além do México, Brasil e Colômbia foram as outras ausências notáveis.

Rubio lamentou que “ainda hoje, a simples ideia de que o terrorismo de extrema esquerda possa constituir uma ameaça grave seja tratada como um delírio da direita ou, pior ainda, como uma perigosa conspiração fascista”, e afirmou que essa é a forma como o tema é abordado pela imprensa, pelo meio acadêmico e por outros setores.

Rubio insistiu que o terrorismo de extrema esquerda foi “a forma dominante da violência política” durante grande parte da era moderna.

“Todos e cada um dos nossos amigos aqui presentes, vindos das nações do Hemisfério Ocidental, lembram… lembram-se das décadas de sequestros, atentados a bomba, assassinatos e execuções, do terror violento dos Tupamaros, dos Montoneros, das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN).

Lembram da barbárie desumana do Sendero Luminoso, no Peru… Lembram das dezenas de milhares de guerrilheiros marxistas treinados para matar nos campos terroristas de Castro.” Também fez referência às Brigadas Vermelhas, na Itália, ao grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, e ao 17N, da Grécia, entre outros exemplos.

“Trata-se de um mal distintivo e único. Sempre foi impulsionado por um ódio acima de qualquer outra coisa, um ódio contra a própria civilização… Isso é o que é a esquerda radical. Ela pode adotar diferentes lemas e ideologias conforme o lugar e a época. Podem se autodenominar anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas.

Mas seu caráter fundamental é sempre o mesmo. É sempre o mesmo.” Acusou que, por trás de um discurso de igualdade e libertação, existe apenas ressentimento e que seu objetivo “é destruir o que é belo e o que é justo em nome de pessoas que estão apenas cheias de feiura e nada mais têm a oferecer ao mundo”.

O secretário de Estado apresentou aos participantes exemplos da violência da “extrema esquerda” nos anos 1970 e afirmou que “entre 1970 e 1980, 93% dos atentados terroristas no Ocidente foram cometidos pela extrema esquerda”, embora não tenha citado a fonte desses dados.

Por outro lado, um relatório oficial do Departamento de Justiça dos Estados Unidos concluiu que “desde 1990, extremistas de direita cometeram muito mais homicídios motivados por ideologia do que a extrema esquerda ou extremistas islâmicos radicais”. Esse relatório foi retirado do site do Departamento de Justiça em setembro do ano passado.

Na quarta-feira, o deputado democrata de maior posição no Comitê de Relações Exteriores enviou uma carta, assinada por outros dez deputados federais, a Rubio para expressar preocupação com o que consideram uma tentativa de politizar os esforços antiterroristas dos Estados Unidos.

“O enfoque relatado do Departamento sobre o extremismo de esquerda em detrimento de outros tipos de extremismo violento é preocupante”, escreveram, acrescentando que “a ausência de dados básicos ou provas nessa estratégia para justificar” as prioridades em torno desse tema “é profundamente preocupante”.

Cannabrava | Trumpaço nas tarifas e a reação do Brasil

250px Stephen Miller July 2025
Stephen Miller – wikipedia

Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, discursou na reunião ministerial depois de Rubio e deixou claro que, embora o encontro tenha contado com outros países, seu governo busca apoio internacional para perseguir dissidentes de esquerda dentro dos Estados Unidos.

“Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, todas as nossas agências de segurança pública e de inteligência trabalham juntas para invadir, identificar, cortar o financiamento… prender e processar esses terroristas políticos que estão operando em nosso país. É muito importante entender que o terrorismo de esquerda tem como objetivo final derrubar nosso sistema e nossa forma de governo”, declarou Miller aos participantes.

Miller identificou, em particular, grupos que, segundo ele, se identificam como “antifa”. Como o La Jornada informou, em setembro do ano passado a Casa Branca emitiu uma ordem executiva identificando grupos dissidentes ou ativistas de esquerda como parte da “antifa”, organização oficialmente designada como “uma organização terrorista doméstica”. O problema é que tal entidade não existe, embora haja redes informais e descentralizadas de grupos que se identificam como “antifascistas” ou “antifa”.

O vice-chefe de gabinete e influente assessor do presidente, além de arquiteto das políticas antimigração deste governo, acusou especialmente “organizações de esquerda” de organizar ataques contra agentes da agência de controle migratório conhecida como ICE, alegando que esses agentes sofreram um aumento superior a 8.000% nos ataques violentos contra eles.

Afirmou que não se trata de incidentes isolados, mas de “uma insurreição repetida, sistêmica, organizada e financiada, além de uma resistência armada contra o governo federal”. Miller alertou que a esquerda é “um câncer letal para a civilização” e que o maior risco é que “nossas instituições” sejam fracas demais e “covardes para conseguir se defender dessa ameaça mortal”.

Somente quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, subiu ao púlpito é que o público foi lembrado de que o povo estadunidense possui direitos constitucionais. “Devemos respeitar os direitos constitucionais, a liberdade de expressão, de associação e de reunião de todos os norte-americanos. Portanto, é importante enfatizar que o Tesouro atuará com base na conduta ilegal suspeita dessas organizações terroristas, e não em suas crenças ou ideologia.”

Mas esse foi um ponto secundário em um evento convocado para marcar uma mudança de foco: do combate ao “terrorismo islâmico” no período pós-11 de Setembro para o combate ao que foi declarado como uma ameaça maior: a esquerda, dentro e fora dos Estados Unidos. Foi anunciado que, sob o governo de Donald Trump, pela primeira vez, “os Estados Unidos estão construindo a infraestrutura, as parcerias e a estratégia para derrotar o flagelo do terrorismo de extrema esquerda”.

Uma das medidas anunciadas ao término do evento foi uma nova restrição de vistos para estrangeiros classificados como “terroristas de extrema esquerda e [de] outros grupos alinhados”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

LEIA tAMBÉM

Irã
Guerra contra o Irã custa US$ 37,5 bilhões, desgasta Trump e expõe derrota estratégica dos EUA
Venezuela
Desmentido: Documentos da CIA expõem manipulação de Trump sobre fraude eleitoral na Venezuela
ONU
“Robôs assassinos”: ONU pede proibição de armas que decidem quem vive ou morre
Gaza
Em Gaza, fome, sede e bombas transformaram a morte em um sistema cotidiano