Donald Trump voltou a apertar o cerco contra Cuba. Não se trata de um episódio isolado nem de uma simples divergência diplomática. A nova ofensiva faz parte de uma estratégia de reafirmação da hegemonia dos Estados Unidos sobre a América Latina e o Caribe, retomando a velha política de sufocar qualquer país que insista em trilhar um caminho independente.
Ao mesmo tempo em que recrudesce o bloqueio econômico, Trump anunciou a criação de uma força-tarefa da CIA dedicada a Cuba. A iniciativa remete imediatamente aos primeiros anos da Revolução Cubana, quando Washington organizou operações destinadas a derrubar o novo governo, culminando na fracassada invasão mercenária da Praia Girón, em 1961. Mudam os métodos, muda a linguagem, mas permanece o objetivo: impor uma mudança de regime em Havana.

Paralelamente, a Casa Branca anunciou um novo pacote de sanções contra Cuba, atingindo oito generais e cinco entidades estatais. Entre os sancionados está o general Álvaro López Miera, ministro das Forças Armadas Revolucionárias.
Também foram incluídos o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, os responsáveis pelos departamentos de Relações Exteriores e de Economia do Exército, além dos adidos militares cubanos na Rússia e na China.
O pretexto é a cooperação militar de Cuba com Rússia e China e a aquisição de equipamentos militares. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, acusa Havana de utilizar suas Forças Armadas e seus serviços de inteligência para espionar os Estados Unidos e servir de plataforma para operações da Rússia, da China e do Irã.
Enquanto os EUA impõem um genocídio contra Cuba, países socorridos pela ilha viram as costas
As sanções seguem o relatório do Departamento de Estado, divulgado em 20 de julho, intitulado Cuba: a capital do comunismo do século XXI, que procura justificar o endurecimento das medidas ao alegar que a ilha mantém parcerias estratégicas com Rússia e China para obtenção de equipamentos militares, tecnologia de vigilância e outras capacidades de defesa.
Mas é inevitável perguntar: de que ameaça estamos falando?
Cuba mal consegue enfrentar seus próprios problemas econômicos. Convive com apagões frequentes, escassez de combustíveis, dificuldades no transporte público e enormes limitações para importar alimentos, medicamentos e matérias-primas. O próprio bloqueio imposto pelos Estados Unidos impede a chegada de petróleo para abastecer e movimentar a economia cubana.
Fica evidente que a suposta ameaça cubana não é militar. Trata-se de uma ameaça ideológica. O que Washington não aceita é a existência, a poucas milhas de seu território, de um país que insiste em preservar sua soberania e seu sistema político apesar de mais de seis décadas de bloqueio.
Sem condições políticas ou militares para uma invasão direta — que teria consequências imprevisíveis e elevado custo internacional —, a estratégia passa a ser outra: estrangular economicamente a ilha até provocar o colapso de sua economia e forçar uma mudança de regime.
Esse bloqueio ultrapassa, há muito tempo, qualquer justificativa política. Ele pune indiscriminadamente toda a população cubana. Ao impedir transações financeiras, intimidar empresas e ameaçar qualquer país que mantenha relações comerciais com Cuba, transforma alimentos, medicamentos, combustíveis e equipamentos essenciais em instrumentos de pressão política.
Trata-se de uma política que atinge diretamente milhões de pessoas e que, por seus efeitos sobre a população civil, pode ser caracterizada como uma grave violação dos direitos humanos. É uma forma de punição coletiva incompatível com os princípios do direito internacional e reiteradamente condenada pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Diante dessa nova escalada, cabe aos povos do mundo reforçar a solidariedade internacional com Cuba. Da voz de Silvio Rodríguez ao cidadão comum, a resistência do povo cubano continua sendo um símbolo de dignidade.
É hora de ampliar a mobilização internacional para exigir o fim desse bloqueio implacável. As Nações Unidas já condenaram essa política inúmeras vezes. Falta transformar essa condenação moral em ação política efetiva. O bloqueio deve terminar. Não apenas em defesa de Cuba, mas em defesa do direito dos povos à soberania, à autodeterminação e à paz.





