Conteúdo da página
Toggle#23: Caracas-Teerã – novo eixo de intervenção dos EUA
Em discurso anual do Estado da União no Congresso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrou a invasão à Venezuela, ameaçou o Irã e praticamente não mencionou a China, sinalizando prioridades externas concentradas no Oriente Médio e na América Latina. A fala, em horário nobre, ocorreu em meio a desgaste interno: pesquisa da CNN/SSRS aponta que 68% dos norte-americanos avaliam que o presidente não tem dado atenção suficiente aos principais problemas do país. No pronunciamento, Trump reafirmou o intervencionismo regional e exaltou resultados econômicos em tom pré-eleitoral. Disse que “jamais permitirá” que o Irã possua arma nuclear, mencionou negociações em curso, mas voltou a ameaçar ação militar caso não haja um acordo “justo”, afirmando ter enviado uma “grande frota” à região, incluindo o porta-aviões USS Abraham Lincoln e caças F-35.
Teerã rejeitou negociar sob ameaça. O chanceler Abbas Araghchi declarou que qualquer diálogo exige a retirada de pressões e advertiu que as Forças Armadas iranianas estão preparadas para responder “imediata e poderosamente” a qualquer agressão. Em contraponto à escalada retórica de Washington, o governo venezuelano voltou a denunciar o sequestro do presidente Nicolás Maduro e reafirmou, como signatário do Tratado de Proibição Completa de Armas Nucleares, que a segurança coletiva deve se basear na cooperação e não em mecanismos de coerção que perpetuam a hegemonia de potências ocidentais.
Nesse contexto, o secretário de Estado Marco Rubio viajou a São Cristóvão para a reunião da Comunidade do Caribe (CARICOM). A visita, breve, busca reafirmar a centralidade do Caribe na estratégia da Casa Branca, embora os Estados Unidos não integrem formalmente o bloco. Especialistas apontam incerteza entre os governos caribenhos quanto às intenções do segundo mandato de Trump, sobretudo após operações militares na região e o embargo de petróleo contra Cuba. A CARICOM já havia declarado o Caribe como “zona de paz”, em contraposição a intervenções externas. Rubio, considerado peça-chave dessa estratégia, liderou articulações que resultaram na transferência de Maduro para Nova York, em uma releitura da doutrina formulada em 1823 por James Monroe, hoje evocada para justificar ações que vão do apoio a aliados regionais a pressões diretas sobre governos considerados adversários.
Paralelamente, a Casa Branca prorrogou por mais um ano as sanções econômicas contra a Venezuela, mantendo o bloqueio, embora tenha autorizado licenças específicas para petrolíferas, abrindo espaço para o retorno de grandes empresas do setor. Em Nova York, a segunda audiência de Maduro no Tribunal Federal do Distrito Sul foi adiada para 26 de março, a pedido da promotoria por “questões de planejamento e logística”. O caso está sob responsabilidade do juiz Alvin Hellerstein e tem gerado questionamentos sobre possíveis violações ao direito internacional e à imunidade de um chefe de Estado em exercício.
Em Caracas, o Parlamento aprovou lei de anistia para casos de violência política. A presidente interina Delcy Rodríguez defendeu “paz e tolerância” e promoveu libertações e ajustes na política petrolífera como parte de um movimento de normalização. Após a medida, a Espanha instou a União Europeia a suspender sanções contra Rodríguez. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, afirmou que a Venezuela deu “passos concretos de aproximação” com a Europa e indicou que a suspensão das sanções está entre as opções em debate no bloco.
Para saber mais:
Artigo – A decapitação que falhou: a Venezuela após o sequestro do presidente Maduro
Vídeo – Resistência venezuelana continua e chavismo segue vivo, diz Breno Altman
#22: Vocação de paz
O governo interino da Venezuela intensificou nesta semana o discurso em defesa de um modelo econômico nacional baseado na economia popular e comunal. A presidenta encarregada, Delcy Rodríguez, afirmou que o país deve fortalecer um sistema “endógeno, sem dependência externa”, como eixo para o desenvolvimento e a superação das sanções.
No campo político, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, reiterou a “vocação de paz” do governo após a ofensiva dos Estados Unidos e o sequestro de Nicolás Maduro. Em entrevista à emissora norte-americana Newsmax, declarou que não há previsão de eleições presidenciais no curto prazo, argumentando que a prioridade do momento é a estabilidade institucional.
A relação com Washington segue marcada por ambivalências. O Departamento do Tesouro dos EUA flexibilizou sanções e autorizou a manutenção de serviços ligados ao setor petrolífero venezuelano. Paralelamente, segundo a Reuters, o secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, planeja visitar Caracas para discutir a futura liderança da PDVSA, estatal estratégica para a economia do país.
No plano internacional, persistem tensões. A Venezuela negou informações divulgadas pela Bloomberg sobre suposto envio de petróleo a Israel, classificando a notícia como falsa e parte de uma campanha para desgastar sua imagem externa. Em Moscou, o Kremlin informou que utilizará canais diplomáticos para tratar com os EUA sobre o futuro de projetos petrolíferos russos em território venezuelano.
No entorno regional, Cuba denunciou uma escalada de pressão dos Estados Unidos contra seu abastecimento de combustível. A ilha enfrenta racionamento, restrições no transporte público e medidas emergenciais para conter o agravamento da crise energética, que Havana atribui ao endurecimento das sanções e ameaças tarifárias de Washington.
Em paralelo, os EUA ampliaram operações militares no Pacífico sob a justificativa de combate ao narcotráfico. Novo bombardeio contra embarcação resultou em duas mortes, elevando para pelo menos 130 o número de mortos em 38 ataques recentes, segundo levantamento divulgado pela imprensa. Não foram apresentadas provas públicas de vínculo das embarcações atingidas com atividades ilícitas.
Para saber mais:
Entrevista – Pedido de eleições na Venezuela ‘não é democrático; é tumulto’, avalia professor de relações internacionais
Vídeo – Delcy Rodríguez: As receitas da agenda petrolífera com os EUA e outros países pertencem exclusivamente ao povo
Vídeo – Frei Betto: Como os cubanos estão enfrentando o cerco dos EUA?
#21: ‘Ajoelhados, jamais’
Lideranças chavistas relembraram o levante de 4 de fevereiro de 1992, liderado por Hugo Chávez, reafirmando a rejeição a qualquer forma de submissão externa. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, destacou a lealdade e a resiliência da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), apresentando o espírito daquele episódio como fundamento da defesa atual da soberania nacional. O anúncio ocorreu durante no 34.° aniversario da Rebelião Civil-Militar, no último dia 4 de fevereiro.
No plano interno, o governo interino ampliou a aposta no diálogo e na reorganização política. Delcy Rodríguez anunciou a criação de uma Comissão de Convivência Democrática, com o objetivo de pactuar regras de participação política e reduzir tensões. Em paralelo, determinou que todo o gabinete econômico passe a se dedicar à economia comunal, fortalecendo cadeias produtivas lideradas pelo poder popular. Já as comunas assumem papel central na produção em larga escala de alimentos básicos — como milho, arroz, café, soja e feijão — com foco na substituição de importações e na soberania alimentar.

A mobilização popular segue como eixo estruturante. Manifestações massivas voltaram a exigir a libertação e o retorno de Nicolás Maduro e Cilia Flores, enquanto protestos internacionais denunciaram o sequestro do presidente e o avanço dos Estados Unidos sobre decisões estratégicas do Estado venezuelano. No Brasil, o MST realizou ações simbólicas em solidariedade à Venezuela e a Cuba, reforçando a dimensão regional da resistência. Ação realizada no dia 3 de fevereiro relembrou e denunciou um mês da agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela.
No campo diplomático, Delcy Rodríguez manteve conversas diretas com Donald Trump e com representantes do governo norte-americano, em meio a sinais ambíguos de distensão e pressão. Washington devolveu à Venezuela o valor restante da primeira venda de petróleo realizada após o sequestro de Maduro, ao mesmo tempo em que empresas internacionais retomam compras e negociações.
Segundo reportagem da Reuters, a empresa indiana Reliance Industries (RELI.NS) adquiriu dois milhões de barris de petróleo venezuelano, enquanto Rodríguez se reuniu com executivos da Repsol e da Maurel & Prom para consolidar alianças após a reforma da Lei de Hidrocarbonetos. A Rússia voltou a denunciar novas sanções como tentativa de expulsar empresas russas do setor energético venezuelano.
O petróleo permanece no centro da disputa geopolítica. A retomada de exportações, o interesse de multinacionais e as articulações entre governos contrastam com a permanência de sanções e com a presença militar dos EUA no entorno do Caribe.
Em paralelo, o tema da Venezuela também foi pauta da reunião entre o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o presidente norte-americano Donald Trump. O encontro ocorreu para aliviar tensões diplomáticas após ameaças dos EUA contra colombianos e críticas de Petro à política imperialista Trumpista.
Para saber mais:
ANÁLISES:
Artigo – Será que a Índia pode trocar o petróleo russo pelo venezuelano, como Trump deseja? (Al Jazeera)
Vídeo – Manifestantes vão às ruas pela libertação do líder da Venezuela (Uol)
Vídeo – Esto no va a cesar (Almaplus.Tv)
Vídeo – Sur vs. Donroe: Venezuela entre la guerra psicológica y la organización popular (Barricada TV e ARG Medios)
Vídeo – As mentiras da grande mídia sobre a Venezuela (FNDC)
#20: Anistia e alívio de tensões na Venezuela
O governo interino da Venezuela anunciou a elaboração de uma lei de anistia com o objetivo declarado de “curar feridas” e reduzir tensões políticas internas. A presidenta interina Delcy Rodríguez afirmou que a medida busca promover a reconciliação nacional e defendeu a conversão do presídio Helicoide, conhecido internacionalmente como centro de repressão, em um espaço de uso social.
Lei medida busca promover a reconciliação nacional e defendeu a conversão do presídio Helicoide, conhecido internacionalmente como centro de repressão, em um espaço de uso social.
No campo institucional, Delcy Rodríguez recebeu respaldo público da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB). O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, afirmou que a presidenta interina conquistou “legitimidade indiscutível” ao preservar a paz interna, e a FANB passou a reconhecê-la formalmente como Comandante e Chefe.
As relações entre Caracas e Washington avançam em meio a contradições. A chegada de uma nova embaixadora dos Estados Unidos à capital venezuelana marcou a retomada do diálogo bilateral a menos de um mês após o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Autoridades venezuelanas reiteraram que eventuais divergências devem ser resolvidas por meio do diálogo político, sem ingerência externa.
No setor energético, a Venezuela realizou sua primeira exportação de gás liquefeito de petróleo, considerada um marco para a diversificação da matriz energética e para a recuperação econômica. O país também aprovou uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos que flexibiliza impostos e royalties, com o objetivo de atrair investimentos internacionais. A medida coincidiu com a emissão, por parte do governo Trump, de uma nova isenção parcial de sanções, facilitando negócios no setor petrolífero.
Ao mesmo tempo, declarações do presidente dos Estados Unidos elevaram o tom de tensão geopolítica. Trump afirmou publicamente que gostaria de transformar Canadá, Groenlândia e Venezuela em estados norte-americanos e anunciou que a Índia passaria a comprar petróleo venezuelano em substituição ao iraniano. Moscou reagiu duramente: o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, classificou o sequestro de Maduro como uma violação grave do direito internacional e alertou que o episódio abalou as relações globais.
A Venezuela também condenou um decreto dos EUA que prevê tarifas contra países que comercializem petróleo com Cuba, classificando a medida como ataque às relações comerciais regionais e à soberania dos povos. Em movimento ambíguo, Trump sugeriu um possível acordo com Havana e declarou que investimentos chineses na Venezuela seriam “bem-vindos”, reforçando o cenário de disputa estratégica sobre energia, soberania e influência na América Latina.
Para saber mais:
Artigo – Os Estados Unidos e a nova desordem imperial, por Atul Chandra (Jornal GGN)
Vídeo – Mujeres venezolanas ante la agresión (Almaplus.TV)
#19: Soberania energética na Venezuela
A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou nesta quinta-feira (29), a reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, definida pelo governo como um passo histórico para reafirmar a soberania energética do país. A nova legislação reorganiza o marco jurídico do setor, amplia mecanismos de investimento e busca converter as vastas reservas de petróleo e gás em base para desenvolvimento econômico e bem-estar social. Em movimento semelhante, o Tesouro dos Estados Unidos autorizou transações de entidades norte-americanas com o petróleo venezuelano, inclusive com a estatal PDVSA.
Rodríguez destacou que a lei reafirma o controle soberano sobre os recursos naturais e afirmou que a agenda de trabalho entre Caracas e Washington segue avançando, com “passos importantes” no plano diplomático e econômico.

Em paralelo, a presidenta interina Delcy Rodríguez anunciou que a Venezuela iniciará, nas próximas horas, sua primeira exportação da molécula de gás, marco simbólico da nova etapa energética.
Apesar disso, permanecem tensões. Reportagem do Financial Times aponta que os EUA pretendem controlar o orçamento mensal venezuelano com recursos das vendas de petróleo depositados em contas no Catar, proposta que gera críticas e dúvidas legais no Senado norte-americano. Ao mesmo tempo, Washington realizou uma demonstração de força no Caribe com o porta-aviões USS Gerald R. Ford operando próximo à Venezuela.
No cenário internacional, Caracas anunciou o relançamento de uma aliança estratégica com a Índia nas áreas de energia, tecnologia e desenvolvimento, mirando este ano de 2026, e celebrou sinais de normalização logística: a companhia aérea portuguesa TAP confirmou a retomada de voos para a Venezuela a partir de março, após a reabertura do espaço aéreo.
No campo social, chegou ao país mais um voo do Plano Vuelta a la Patria, com venezuelanos repatriados dos Estados Unidos, reforçando a política de retorno assistido.
O conjunto dos acontecimentos revela um momento de reacomodação: avanço institucional no setor energético, maior circulação econômica e diplomática, mas ainda sob forte pressão geopolítica e militar no entorno regional.
Para saber mais:
Artigo – Para onde aponta a reforma parcial da Lei de Hidrocarbonetos (Mísión Verdad)
Vídeo – EUA pressionam e Venezuela reforma lei do petróleo (TV Diálogos do Sul Global)
#18: A importância da união latino-americana
Em discurso no Fórum Econômico Internacional da América Latina, nesta quarta-feira (28), no Panamá, o presidente Lula defendeu a união dos países latino-americanos contra intervenções militares ilegais, em uma crítica direta à ação dos Estados Unidos, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro. A posição brasileira reforça o debate sobre a soberania e legalidade internacional diante da ofensiva norte-americana.
No plano militar, reportagens internacionais apontam que os EUA teriam utilizado uma tecnologia inédita e invisível durante a agressão à Venezuela, com relatos de sintomas físicos extremos entre militares, reacendendo alertas sobre o uso de armas não convencionais. Paralelamente, Caracas levou uma denúncia contra Washington à Organização Mundial do Comércio (OMC), acusando os EUA de fragmentar o comércio global e enfraquecer o direito internacional ao bloquear instâncias centrais da OMC.

No campo diplomático, a presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez afirmou que os Estados Unidos iniciaram a liberação de recursos venezuelanos antes bloqueados por sanções e enquanto o país norte-americano deu sinais de reabertura da embaixada em Caracas, ao mesmo tempo em que confirmou a existência de canais de comunicação com a Casa Branca e o Departamento de Estado. As declarações contrastam com o tom adotado por Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, que no Senado voltou a ameaçar novas ações militares caso a Venezuela não coopere, embora depois tenha recuado parcialmente e destacado avanços na cooperação.
A política norte-americana para a Venezuela foi debatida no Senado dos EUA, onde Rubio detalhou a estratégia pós-sequestro de Maduro, ressaltando o papel central do petróleo venezuelano, e chegou a citar Lula e Bolsonaro ao tratar da situação política regional. No tabuleiro energético, a crise também impacta aliados históricos: o México reafirmou a solidariedade a Cuba e defendeu como soberana sua decisão de vender ou doar petróleo por razões humanitárias, em meio a pressões de Washington.
Enquanto isso, a mobilização popular cresce. No Brasil, movimentos sociais organizaram atos em dez capitais exigindo a libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores e denunciando a intervenção militar dos EUA. Os atos acontecem nesta quarta-feira (28).
Para saber mais:
Artigo – “Hoje é a Venezuela. Amanhã será a África do Sul”, alerta o sindicato NUMSA (Venezuelanalysis)
Vídeo – La otra cara del “Trump pacificador”: guerras afuera, caos adentro (Almaplus.TV)
#17: Gigante produtor de Petróleo
A Venezuela prepara um novo impulso estratégico para se afirmar como potência produtora de petróleo. A presidenta interina Delcy Rodríguez liderou uma consulta pública decisiva para a reforma parcial da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, apresentada à Assembleia Nacional em 15 de janeiro, com o objetivo de consolidar um marco jurídico capaz de ampliar a produção, atrair investimentos e transformar o país em um “gigante produtor” de energia.
Rodríguez destacou que a reforma busca equilibrar abertura a contratos de participação produtiva e respeito à soberania, reforçando que a Venezuela não aceitará ordens externas sobre sua política energética.

A reforma ocorre em um contexto de expectativas de investimento substanciais: o governo projetou que o setor de hidrocarbonetos poderá receber cerca de US$ 1,4 bilhões em 2026.
O executivo Matthew Goitia, diretor da Pelorus Terminals, relatou os planos iniciais de reformar e construir terminais marítimos na Venezuela capazes de misturar e exportar petróleo bruto, além de embarcar produtos químicos, sinalizando o apetite crescente da indústria estadunidense pela infraestrutura energética venezuelana.
No plano diplomático, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para tratar da situação na Venezuela e combinou uma visita a Washington. A ligação de 50 minutos abordou a crise venezuelana, a proposta de um “Conselho da Paz” promovido por Trump e questões regionais.
Movimentos políticos e sociais articulados na América Latina reforçam a crítica à intervenção externa. Ativistas progressistas e autoridades reunidos na cúpula “Nuestra América”, em Bogotá condenaram os ataques à Venezuela e chamaram à ação conjunta contra o que classificaram como retorno da Doutrina Monroe. A China também reiterou apoio à Venezuela na defesa de sua soberania, destacando a importância do respeito ao direito internacional e à autodeterminação dos povos.
No campo simbólico e narrativo, continua em circulação a declaração de Trump sobre o uso de uma “arma secreta” durante a operação que resultou no sequestro de Maduro, referida por ele como um dispositivo que desativou equipamentos — uma afirmação que intensifica o debate sobre as tecnologias empregadas e a natureza das ações militares dos EUA.
O impacto das sanções ao longo da última década também compõe o cenário energético atual: a produção de petróleo da Venezuela, que alcançou 2,5 milhões de barris por dia em 2015, sofreu um declínio profundo nos anos seguintes, chegando a patamares muito menores em 2020, em razão da política de “pressão máxima”.
No meio desse contexto, o Partido Socialista Unido da Venezuela reafirma que a libertação de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, a paz nacional e a retomada do desenvolvimento econômico permanecem como prioridades políticas centrais. O filho de Maduro em diálogo com organizações aliadas e lideranças internas reafirmou a mensagem de que a Venezuela não “claudicará nunca”, refletindo uma determinação sustentada mesmo diante de pressões externas persistentes.
Para saber mais:
Artigo – A Groenlândia no tabuleiro de xadrez do imperialismo norte-americano, por Lotte Rørtoft-Madsen (Jornal GGN)
Entrevista – Ataque à Venezuela foi uma operação tecnologicamente baseada em dados, diz Sérgio Amadeu (Brasil de Fato)
Vídeo – Cuba e Venezuela: qual o futuro das experiências anti-capitalistas? (Brasil de Fato)
Vídeo – Quem é Laura Dogu? Trump nomeia “embaixadora do golpe” (TV Diálogos do Sul Global)
#16: Chega de ordens de Washington
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, elevou o tom contra a ingerência externa e afirmou estar “farta” das pressões exercidas pelos Estados Unidos. Em declaração pública, defendeu que os conflitos venezuelanos sejam resolvidos internamente, sem interferência estrangeira, ao mesmo tempo em que convocou um diálogo político nacional amplo, envolvendo todos os setores do país, com foco em resultados concretos e estabilidade institucional.
No plano econômico, Delcy reforçou que a reforma da Lei de Hidrocarbonetos é estratégica para transformar a exploração de petróleo e gás em soberania, bem-estar social e desenvolvimento, em um contexto marcado por sanções que impactaram profundamente a economia venezuelana. Nesse cenário, foi confirmado o envio do primeiro navio carregado com cerca de um milhão de barris de petróleo bruto pesado venezuelano aos Estados Unidos após acordo recente, sinalizando uma reconfiguração pragmática das relações energéticas.
Enquanto isso, Washington amplia a pressão regional. A nova Estratégia de Defesa Nacional dos EUA prevê controle militar de áreas estratégicas como a Groenlândia e o Canal do Panamá e condiciona o apoio a aliados à fidelidade política, utilizando o “destino de Maduro” como instrumento de ameaça. A postura norte-americana provocou reações na América Latina, que articula uma resposta coletiva em uma cúpula de emergência realizada em Bogotá, com participação de forças progressistas e defesa da soberania regional.
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou indignação com a operação militar dos EUA que levou ao sequestro de Nicolás Maduro. Em discurso durante atividades do MST, Lula criticou a agressão à Venezuela e relacionou o episódio a outras crises internacionais, como o genocídio em Gaza, reafirmando a defesa do multilateralismo e do respeito ao direito internacional.
Do exterior, Maduro enviou uma mensagem pedindo união e orações para que a Venezuela reencontre o caminho da paz. A Rússia voltou a insistir que a libertação do presidente venezuelano e de Cilia Flores é condição central para qualquer avanço diplomático, reforçando a pressão internacional pela reversão do sequestro e pela normalização institucional no país.
Para saber mais:
Galeria de imagens – O povo venezuelano se mobilizou em 23 de janeiro para exigir, mais uma vez, o fim do sequestro do presidente Maduro e da deputada Cilia Flores
Vídeo – Lula diz que Conselho de Paz, criado por Trump, presidente dos EUA ‘quer ser, sozinho, dono da ONU’
Vídeo – Presidenta interina Delcy Rodríguez confirma 626 pessoas libertadas
Vídeo – Discurso de Trump em Davos: a verdade escondida
#15: Novo nome na diplomacia dos EUA amplia ameaças à soberania da Venezuela
Washington nomeou a diplomata Laura Dogu como nova responsável pelos assuntos venezuelanos, um movimento que sinaliza a intenção de conduzir diretamente a transição política desejada pelo governo Donald Trump. Com passagens por Honduras e Nicarágua, Dogu construiu uma trajetória marcada por atuação abertamente injerencista, alinhada aos interesses estratégicos norte-americanos na América Central, o que reforça a leitura de que sua designação está menos associada à mediação e mais à contenção e ao controle político da crise venezuelana.

Um editorial do jornal chinês Global Times destacou o retorno de uma Nova Doutrina Monroe, apontando que a ação contra a Venezuela e a retórica agressiva em relação a outros países da região indicam a consolidação de uma política externa baseada na força, na intimidação e no desprezo às normas multilaterais.
No campo militar, novas informações aprofundam a gravidade da agressão de 3 de janeiro. O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, confirmou que o ataque utilizou armamentos de nova geração e sistemas de Inteligência Artificial, empregados em larga escala, transformando o território venezuelano em um verdadeiro laboratório de guerra. Embora tenha reconhecido a assimetria tecnológica, Padrino afirmou que a supremacia militar encontra limites políticos diante da coesão das Forças Armadas e da resistência do país, reforçando a ideia de que a tecnologia, por si só, não garante controle político duradouro.
Paralelamente à ofensiva militar, a chamada guerra cognitiva segue como um eixo central do conflito. O governo venezuelano desmentiu reportagens de veículos ocidentais que disseminaram acusações contra a presidenta interina Delcy Rodríguez sem apresentar provas, classificando o conteúdo como parte de uma estratégia sistemática de desinformação.
Enquanto isso, a resposta política e social se articula dentro e fora do país. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel manteve conversa com Delcy Rodríguez e reafirmou a solidariedade histórica de Cuba com a Venezuela, destacando os laços de cooperação e fraternidade entre os dois povos em um momento de forte pressão externa. Em Caracas, organizações e movimentos sociais protocolaram uma carta na sede da ONU exigindo a libertação do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, sequestrados após a agressão dos Estados Unidos, reforçando a dimensão internacional da denúncia.
No Brasil, a solidariedade também ganhou novamente as ruas. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou uma marcha em Salvador em apoio à Venezuela e anunciou o envio de uma nova brigada internacionalista a Caracas, prevista para fevereiro, ampliando a rede de apoio popular ao povo venezuelano.
Desde a Venezuela, o governo convocou uma mobilização global pela libertação de Maduro e Cilia marcada para o dia 3 de fevereiro, articulando atos internacionais como parte da estratégia de pressão política e diplomática contra o sequestro.
No plano humanitário, o retorno de 183 venezuelanos por meio do Plano Vuelta a la Patria reafirma o esforço do Estado em garantir o direito de seus cidadãos regressarem ao país, mesmo sob bloqueio, sanções e agressões externas.
Para saber mais:
Vídeo – A guerra simbólica se intensifica a duas semanas do dia 3 de janeiro (La Iguana TV – Espanhol)
Artigo – A multipolaridade: um novo ordenamento mundial? (Correo del Alba – Espanhol)
Artigo – Fidel tomou Caracas (Granma – Espanhol)
#14: Comunas ao centro
O governo venezuelano convocou a primeira consulta popular das comunas após os ataques dos Estados Unidos. A iniciativa reafirma o papel do poder comunal como eixo da organização popular e da soberania nacional em um contexto de ingerência imperialista, além de dar continuidade a uma política iniciada ainda no tempo de Hugo Chávez.

A consulta permite que as comunidades escolham diretamente os projetos a serem executados, fortalecendo a participação popular como instrumento de continuidade institucional. Em meio ao cerco, a aposta nas comunas indica que a resposta venezuelana não se limita aos campos militar e diplomático, mas se ancora na mobilização do povo organizado. O foco dos projetos é a transformação econômica para geração de renda e infraestrutura. A votação está marcada para 8 de março, em celebração ao Dia Internacional da Mulher.
Na mesma linha, a atual presidente interina do país, Delcy Rodríguez afirmou que “nos toca hoje a batalha por Venezuela”, ressaltando que Nicolás Maduro carrega a história do país e a legitimidade popular para seguir na luta. A declaração dialoga com a centralidade atribuída às comunas, apontando para uma estratégia de resistência baseada na organização interna e na coesão social.
Do lado dos Estados Unidos, o discurso belicista do governo norte-americano ganhou novos contornos com declarações de Donald Trump, ao afirmar que os Estados Unidos utilizaram uma “arma secreta” durante a operação que culminou no sequestro de Nicolás Maduro. Segundo o próprio presidente, trata-se de um armamento exclusivo, inexistente em outros países, que teria incapacitado as forças venezuelanas.
Trump também voltou a admitir que havia uma “segunda onda” de ataques prevista contra a Venezuela, afirmando que não foi necessária após o bombardeio e o sequestro de Maduro. A declaração reforça que a agressão não foi um episódio isolado, mas parte de uma política deliberada de intimidação e intervenção ilegal.
No Brasil, o MST anunciou o envio de brigadas para a Venezuela e à Faixa de Gaza, com foco na reconstrução e no apoio direto às populações afetadas pela guerra.
A agressão à Venezuela também repercute nas relações internacionais. O ministro do Interior da Rússia tratou do ataque dos EUA em reunião com Raúl Castro, em Havana, evidenciando o impacto regional e global da escalada militar. Analistas alertam que a postura de Washington aprofunda uma lógica de força à margem do direito internacional.
Para saber mais:
Artigo – Venezuela 2026: pulverizar corpos, matriz de traição e resistências (Argmedios – Espanhol)
#13: Resistir e reorganizar
A resposta política ao sequestro de Nicolás Maduro e de Cilia Flores segue ganhando corpo dentro e fora da Venezuela. Ao anunciar a mobilização nacional para 23 de janeiro, em Caracas, com um chamado direto pela libertação e retorno do presidente e da primeira-dama, o ministro do Interior Diosdado Cabello reafirma que a Revolução Bolivariana permanece ativa e que a pressão popular segue como eixo central da resistência diante da ofensiva externa.
A mobilização interna mais uma vez se conecta a iniciativas no plano internacional. O Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel enviou carta formal à Organização das Nações Unidas solicitando a criação de uma comissão especial para verificar as condições de vida e o tratamento dispensado a Maduro e Cilia Flores. O pedido reforça a dimensão humanitária e jurídica do caso, ampliando o debate para além da disputa política e diplomática.
No interior do Estado venezuelano, o governo encarregado busca consolidar uma linha de continuidade institucional. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, voltou a afirmar que, diante da ameaça militar persistente, a Venezuela deve seguir seu próprio caminho, com a Força Armada Nacional Bolivariana comprometida com a garantia da paz social e da estabilidade.
A declaração ocorre enquanto seguem as investigações sobre os bombardeios dos Estados Unidos, que deixaram pessoas desaparecidas e corpos fragmentados, aprofundando o impacto humano da agressão. Os efeitos da ofensiva também atingem a população civil mais vulnerável. Em La Guaira, uma das regiões mais impactadas pelos bombardeios, crianças e adolescentes da rede escolar passaram a receber apoio psicológico e emocional após relatarem episódios de pânico, medo intenso e trauma provocados pelas explosões.
Nesse contexto, Delcy Rodríguez tem promovido uma reforma administrativa no governo, com fusões de pastas, mudanças de chefias e deslocamentos internos. A reorganização é apresentada como uma resposta prática ao novo cenário político, buscando agilidade na gestão e maior capacidade de coordenação diante do cerco externo e das pressões internas.
No campo econômico, o petróleo segue no centro das disputas. O governo venezuelano anunciou o repasse de US$ 300 milhões provenientes da venda de petróleo aos Estados Unidos, o primeiro desde que Washington passou a controlar a comercialização da commodity. Segundo Delcy Rodríguez, os recursos serão utilizados para estabilizar o mercado cambial do país, em um movimento que combina negociação pontual com a tentativa de reduzir vulnerabilidades internas.
Paralelamente, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, defendeu a reforma parcial da Lei Orgânica de Hidrocarburos como um pilar estratégico para garantir o crescimento econômico, fortalecer a capacidade produtiva e blindar a soberania energética da Venezuela. A iniciativa busca criar um marco legal mais funcional em meio a um ambiente de bloqueios, sanções e interferências externas constantes.
Por outro lado, a pressão dos Estados Unidos não dá sinais de recuo. Washington apoderou-se do sétimo navio petroleiro ligado à Venezuela desde o início da ofensiva, desta vez localizado nas águas proximidades da costa venezuelana, no marco da operação denominada “Lança do Sul”. A apreensão reforça a estratégia de estrangulamento logístico e comercial, mesmo enquanto se mantêm canais seletivos de negociação.
O cenário internacional segue marcado por fissuras e realinhamentos. Em meio às disputas geopolíticas envolvendo a Groenlândia, a Noruega anunciou que não participará de um chamado “Conselho de Paz” para Gaza liderado por Donald Trump, sinalizando desconfiança em relação às iniciativas diplomáticas conduzidas por Washington e à lógica unilateral que as acompanha.
No tabuleiro mais amplo, o Irã advertiu que responderá “com toda a força” caso volte a ser agredido, reafirmando que defende a paz, mas não aceitará novas ações militares. A declaração ecoa um clima global de tensão crescente, no qual a força volta a se impor como linguagem recorrente nas relações internacionais.
Para saber mais:
Vídeo – Vozes do Mundo: Como um evento na Venezuela mudou o tabuleiro mundial? – Episódio 8 (Caleb Radio Digital – Espanhol)
Vídeo – TV Sem Terra | INTERNACIONALIZEMOS A LUTA (21.01)
Vídeo – A Venezuela está em crescimento econômico e se consolidando ao longo de 2025 (Señal en vivo Sur – Espanhol)
#12: O precedente venezuelano na Groenlândia
Com novas declarações de Trump, crescem os riscos de imposição da força sobre o direito internacional e avanço sobre territórios estratégicos do Atlântico Norte
Um novo-velho padrão para os Estados Unidos. O governo brasileiro passou a enxergar na Groenlândia sinais claros de repetição do “roteiro Venezuela”: pressão política, retórica expansionista e desprezo por normas de soberania. A avaliação, tornada pública por autoridades em Brasília, aponta para riscos concretos de que a lógica da força se imponha sobre o direito internacional, agora extrapolando o Sul Global e avançando sobre territórios estratégicos do Atlântico Norte.
A percepção ganhou força após novas manifestações públicas de Donald Trump. O presidente estadunidense divulgou montagens produzidas por inteligência artificial em que aparece fincando a bandeira dos Estados Unidos na Groenlândia e exibindo mapas do Canadá, da Venezuela e da própria Groenlândia pintados com as cores americanas. A simbologia não passou despercebida por diplomatas e analistas, que a leem como parte de uma narrativa de domínio territorial e naturalização da intervenção, já testada de forma brutal na Venezuela, com o sequestro de Nicolás Maduro.
Em artigo publicado na The Economist, o assessor especial do governo brasileiro Celso Amorim afirmou que o mundo caminha para uma ordem “sem regras”, na qual princípios básicos do multilateralismo são corroídos pela primazia da força. Para Amorim, a ação dos Estados Unidos na Venezuela marca uma inflexão perigosa, ao legitimar intervenções unilaterais e enfraquecer os mecanismos coletivos de resolução de conflitos.
Na América do Sul, o clima de tensão também se reflete no campo político. O governo venezuelano reagiu duramente a declarações do presidente argentino Javier Milei, classificadas como “delirantes” e contrárias ao direito internacional. Caracas acusou Milei de atacar a soberania venezuelana e de contribuir para a instabilidade regional, num momento em que a escalada retórica se soma a pressões militares e econômicas externas.
Internamente, o governo encarregado, liderado por Delcy Rodríguez avança em uma reorganização do Estado em meio à crise. Após o sequestro de Maduro, Delcy promoveu uma reforma administrativa que inclui fusões de ministérios, mudanças de comando e redistribuição de funções, para garantir governabilidade e resposta rápida em um cenário de cerco. Em paralelo, a presidenta impulsionou a recuperação do complexo siderúrgico nacional, com o anúncio da reativação da aciaria de Barquisimeto, reforçando o discurso de que os recursos estratégicos do país devem servir ao povo, e não a interesses oligárquicos ou estrangeiros.
As ruas seguem como um termômetro político central. O Partido Socialista Unido da Venezuela convocou uma grande mobilização em Caracas para o dia 23 de janeiro, com o lema de que a Revolução Bolivariana segue viva. A manifestação exige a libertação de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, reafirmando que a resposta ao sequestro passa também pela pressão popular organizada.
Enquanto isso, Washington aprofunda uma estratégia híbrida para tornar a Venezuela “investível” sob sua ótica. Autoridades norte-americanas avaliam o envio de empresas privadas de segurança para proteger ativos de gigantes do petróleo, como a ExxonMobil, substituindo tropas regulares por forças terceirizadas. A iniciativa evidencia a combinação entre militarização indireta e interesses corporativos no redesenho do setor energético venezuelano.
A mudança de postura do próprio Trump é reconhecida até por aliados históricos. Elliot Abrams, ex-assessor republicano com passagens por dossiês sensíveis como Irã e Venezuela, afirmou que o presidente abandonou a cautela militar em favor do uso direto da força, apostando em uma estratégia que, até agora, não encontrou freios internos significativos.
As repercussões internacionais continuam a se acumular. Moscou cobrou oficialmente a libertação da tripulação russa de um petroleiro ligado à Venezuela, apreendido pelos Estados Unidos no Atlântico. A demanda russa adiciona um novo elemento à já complexa teia diplomática em torno da crise, reforçando que o conflito extrapola a relação bilateral entre Washington e Caracas.
Ao olhar para a Groenlândia e para a Venezuela, o Brasil e outros atores internacionais passam a identificar o mesmo fio condutor: a normalização da imposição pela força. Em um mundo onde precedentes se acumulam rapidamente, o caso venezuelano deixa de ser exceção e passa a funcionar como aviso.
Para saber mais:
Artigo – Do “quintal” ao laboratório: a Venezuela na estratégia de poder dos EUA (Portal Terra)
Vídeo – Ativista presa por protestar contra as ações dos EUA na Venezuela (AlJazeera)
#11: Soberania nacional x interesses externos
Entre discursos de soberania, movimentos diplomáticos contraditórios e a corrida pelo petróleo, a Venezuela segue no centro de uma disputa que combina pressão externa, rearranjos internos e a permanente tensão entre autodeterminação e intervenção.
Em artigo publicado neste domingo no New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma crítica direta aos bombardeios dos Estados Unidos contra a Venezuela e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, ocorrida em 3 de janeiro. Ao afirmar que “esse hemisfério nos pertence”, Lula sinalizou desconforto com a reedição de uma política intervencionista na América Latina e defendeu a soberania regional como princípio inegociável.
Enquanto isso, em Washington, Donald Trump atua em múltiplas frentes. Após se reunir com o presidente norte-americano, a líder oposicionista de extrema-direita María Corina Machado declarou que será presidente da Venezuela “quando o momento chegar” e afirmou ter entregue a Trump uma medalha do Prêmio Nobel da Paz. O Instituto Nobel, no entanto, reafirmou que a honraria é intransferível.
Analistas ouvidos pela imprensa venezuelana interpretam o encontro como parte de uma estratégia paralela do governo dos EUA, que busca manter canais simultâneos com a oposição e com setores do atual governo venezuelano para garantir interesses estratégicos, especialmente no campo energético.
Reportagem da Reuters alegou que negociações entre autoridades dos Estados Unidos e o ministro venezuelano Diosdado Cabello teriam começado meses antes da operação que resultou no sequestro de Maduro, incluindo conversas sobre sanções e advertências para que não houvesse ataques à oposição. O governo venezuelano, no entanto, reagiu duramente e desmentiu qualquer diálogo secreto de caráter conspirativo, classificando as informações como tentativas de gerar divisão no alto comando político do país.
No plano interno, a presidenta encarregada Delcy Rodríguez tem buscado projetar estabilidade e horizonte econômico. Em reuniões recentes com o empresariado, ela apresentou diretrizes de crescimento com inclusão, defesa da produção nacional e fortalecimento da indústria de hidrocarbonetos, combinadas com uma administração mais rigorosa das divisas. Em paralelo, o governo encaminhou à Assembleia Nacional uma proposta de reforma do setor petroleiro, que prevê o uso de mecanismos da lei antibloqueio para facilitar investimentos. Delcy também afirmou não temer relações com os Estados Unidos, desde que qualquer acordo esteja “a serviço do povo venezuelano”.
O pano de fundo dessa reconfiguração é um país profundamente marcado pelas sanções. Entre 2013 e 2022, a recessão econômica consumiu cerca de 75% do PIB venezuelano, segundo dados oficiais, em um colapso diretamente associado às medidas coercitivas impostas por Washington. Ainda assim, o novo cenário desperta o apetite de grandes grupos econômicos: empresários brasileiros ligados aos irmãos Batista miram projetos bilionários no setor petrolífero venezuelano, que podem se beneficiar do plano energético defendido por Trump.
A repercussão da crise ultrapassa fronteiras. No Brasil, o MST realiza nesta semana seu Encontro Nacional, em Salvador, com um ato público de solidariedade à Venezuela previsto para sexta-feira (23), com a presença de representantes da embaixada venezuelana. A data, porém mudou para esta quinta-feira (22) e ocorrerá no Pelourinho, na capital baiana. O gesto reforça que, além das negociações de alto nível e dos interesses econômicos em jogo, a disputa em torno da Venezuela também mobiliza atores sociais e políticos na região.
Entre discursos de soberania, movimentos diplomáticos contraditórios e a corrida pelo petróleo, a Venezuela segue no centro de uma disputa que combina pressão externa, rearranjos internos e a permanente tensão entre autodeterminação e intervenção.
Para saber mais:
Artigo – O império exposto: o terror dos EUA na Venezuela
Vídeo – La batalla por la conciencia en la Venezuela post-invasión
Análise– Pepe Escobar denuncia saque de petróleo na Venezuela e uso de IA como arma contra analistas geopolíticos
#10: A humilhação rastejante e a glória eterna
No mesmo dia em que María Corina Machado se reuniu com Donald Trump em um encontro descrito pela imprensa internacional como humilhante, realizado a portas fechadas e sem pronunciamento conjunto, como é de praxe nas visitas públicas à Casa Branca, Cuba prestava homenagem aos 32 combatentes da ilha socialista mortos no atentado dos Estados Unidos contra a Venezuela. Na reunião com Trump, Corina entregou a honraria recebida em nome do Prêmio Nobel da Paz, gesto interpretado como submissão política, sem qualquer sinal público de reciprocidade diplomática. Ao contrário, desde que sequestrou Maduro, Trump, em sua pretensiosa condição de liderança imperialista, sequer cogitou apoiar Corina para o comando da Venezuela.
Enquanto isso, em Caracas, a presidente interina Delcy Rodríguez convocou um minuto de aplausos em memória dos cubanos assassinados no ataque contra seu país e, no mesmo discurso, afirmou que, se tiver de ir a Washington, o fará de pé, e não rastejando — uma referência direta ao encontro vexatório de Corina com o presidente norte-americano. O contraste entre as duas cenas, quase simultâneas, expôs de forma crua as distintas posturas diante do poder imperial: de um lado, a reverência silenciosa; de outro, a afirmação pública de dignidade e soberania.
Apesar desse cenário de tensões abertas, a relação entre Venezuela e Estados Unidos parece atravessar um momento de relativa distensão no plano formal. Desde a conversa entre Trump e Delcy Rodríguez, sinais de retomada diplomática começaram a emergir. Segundo o New York Times, a presidente interina recebeu o diretor da CIA, gesto interpretado como parte de um processo cauteloso de reaproximação entre os dois governos.
As hostilidades, no entanto, não cessaram. Elas apenas mudaram de forma. Enquanto avançam as negociações diplomáticas, seguem as ações de pressão no terreno. Nesta semana, um novo navio petroleiro venezuelano foi apreendido por forças norte-americanas no Mar do Caribe, o quarto desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, evidenciando que o cerco econômico permanece ativo.
Nesse contexto, a primeira venda de petróleo venezuelano aos Estados Unidos desde os ataques e invasões ocorridos há quase duas semanas foi realizada com uma empresa cujo principal negociador do setor é um financiador direto da campanha de reeleição de Donald Trump. John Addison, comerciante sênior da Vitol, doou cerca de 6 milhões de dólares a comitês de ação política alinhados ao presidente norte-americano e participou, na semana passada, de uma reunião na Casa Branca. Ele esteve diretamente envolvido na negociação de um acordo estimado em 250 milhões de dólares para a compra de petróleo venezuelano.
Entre gestos de submissão e afirmações de soberania, homenagens aos mortos e negociações bilionárias, o tabuleiro se reorganiza. A glória evocada nos aplausos de Caracas contrasta com a humilhação silenciosa dos salões fechados de Washington, revelando que, na disputa em curso, não está em jogo apenas petróleo ou diplomacia, mas a própria noção de dignidade política.
Para saber mais:
Artigo – Protagonistas de um processo revolucionário
#9: Negociar sob fogo
A conversa entre Donald Trump e Delcy Rodríguez, confirmada oficialmente pelo governo venezuelano, marca o que pode ser o início formal de um processo de negociação entre os dois países. O diálogo, porém, nasce envolto em contradição: como negociar com um governo responsável por uma operação militar que deixou mortos, desaparecidos e um presidente sequestrado em território estrangeiro? A resposta não passa por afinidades políticas ou concessões morais, mas por uma escolha tática imposta pela correlação de forças e pelas lições da história.
Não há saída possível para a crise que a Casa Branca tenta impor à Venezuela sem algum grau de interlocução. Negociar, neste contexto, não significa legitimar a violência, mas abrir uma janela política capaz de conter a escalada, reorganizar forças e ganhar tempo. Como já observou o jornalista Breno Altman, um paralelo histórico esclarecedor é o Tratado de Brest-Litovsk, firmado em 1918 entre o governo soviético recém-instalado e potências da Europa Central. Cercada por ameaças externas e conflitos internos, a Rússia revolucionária recuou taticamente, tendo que aceitar condições terrivelmente onerosas, que incluíam a perda de parte do território com enormes riquezas.
Enquanto se abrem canais diplomáticos, o governo venezuelano reforça sua articulação interna. Delcy Rodríguez reuniu-se com o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, para revisar planos de defesa nacional e convocar a unidade da classe trabalhadora, com o objetivo de garantir a paz, a continuidade da produção e a resistência frente à agressão externa. A movimentação ocorre em paralelo ao avanço de uma proposta de “Constituinte Laboral”, apresentada como um esforço para construir um novo marco de direitos e proteção social em um país submetido a um bloqueio injusto e prolongado.
As ruas seguem como um espaço importante de resposta política. Em Caracas, trabalhadores e trabalhadoras mais uma vez se mobilizaram nesta quarta (14), para denunciar a ofensiva militar dos Estados Unidos e exigir a libertação do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. As manifestações reforçam a narrativa de resistência popular e conectam a defesa da soberania nacional às reivindicações sociais e laborais.
No campo das investigações, novas informações adicionam camadas de complexidade ao cenário. Um memorando confidencial vindo dos Estados Unidos aponta a participação de setores da extrema direita venezuelana, liderados por María Corina Machado, no ataque de 3 de janeiro, reforçando a leitura de que a operação combinou ação externa e articulação interna. Ao mesmo tempo, no Senado norte-americano, foi barrado um projeto que buscava limitar a ação militar dos EUA na Venezuela, resultado visto como uma vitória para Trump, um sinal de que o presidente mantém espaço de manobra no fronte institucional doméstico.
No âmbito das articulações, Trump declarou apoiar a permanência da Venezuela na Opep, ainda que tenha relativizado se isso seria benéfico para os próprios Estados Unidos. No mercado, grandes empresas de serviços petrolíferos já se movimentam: uma gigante global do setor, a SLB, aposta na reabertura do país sob o novo cenário, com valorização expressiva de suas ações desde o sequestro de Maduro, beneficiada por já possuir equipamentos, contratos e presença no território venezuelano.
Os efeitos regionais da ofensiva também se fazem sentir. Pesquisa Quaest indica que 58% dos brasileiros temem que ações semelhantes às realizadas na Venezuela possam, em algum momento, atingir o Brasil, revelando um impacto direto da crise na percepção de segurança regional. No plano diplomático, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com Vladimir Putin sobre a situação venezuelana e o cenário global, na primeira interlocução entre os dois líderes desde o ataque dos Estados Unidos, com ênfase na defesa da soberania e na estabilidade internacional.
Para saber mais:
Artigo – O pequeno Marco Rubio de Trump tem um grande plano: entregar Cuba para Miami
Artigo – A incondicional lealdade de María Corina Machado a Trump
Artigo – Fique Alerta: a “Doutrina Monroe” Ameaça à Paz e Segurança do Mundo
Vídeo – O Segredo Por Trás da América First: Como a Doutrina Monroe Moldou a Estratégia de Trump
#8: Delcy Rodríguez tem apoio do povo venezuelano
Hoje na Venezuela, Delcy Rodríguez, chavista de longa trajetória política e atual presidente interina do país, conta com amplo respaldo popular. Pesquisa de opinião, realizada por Hinterlaces, indica que 91% da população apoia seu governo.
Rodríguez assumiu interinamente o país após o sequestro do presidente Nicolás Maduro durante o ataque realizado pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro. A data marcou o 10° dia consecutivo de protestos nas ruas de Caracas e de outras cidades do país, com manifestantes exigindo o retorno de Maduro e da deputada e primeira-dama Cilia Flores, também sequestrada na ação.
À medida que avançam as investigações sobre a dimensão da agressão militar dos Estados Unidos, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, informou que há pessoas desaparecidas e corpos fragmentados ainda não identificados. Segundo dados oficiais do governo venezuelano, 100 pessoas foram assassinadas durante a agressão e outras centenas ficaram feridas.
No plano interno, o governo anunciou a libertação de pessoas detidas sob a acusação de “perturbar a ordem constitucional e ameaçar a estabilidade da nação”. Mais de 400 detidos já foram liberados, em uma medida apresentada como parte de um esforço para consolidar a paz nacional. De acordo com o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, as solturas foram decididas de forma unilateral pelo Estado venezuelano.
O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, afirmou que, apesar da nova realidade imposta pela ofensiva externa e da persistência da ameaça militar, a Venezuela deve seguir seu caminho, reafirmando o compromisso com a ordem, a paz social e a estabilidade política. Ele reiterou o papel das Forças Armadas Nacional Bolivariana na garantia da soberania e da tranquilidade interna.
No setor energético, o país busca reverter dificuldades para manter o ritmo de produção. A Venezuela está produzindo cerca de 880 mil barris de petróleo por dia, uma queda significativa em relação aos 1,6 milhão de barris diários registrados no final de novembro. O governo busca retomar as exportações e recuperar os sistemas da estatal PDVSA, afetados pelo ataque cibernético dos Estados Unidos que paralisou parte das operações e reduziu o ritmo dos embarques e da distribuição de combustível no mercado interno.
Segundo Delcy Rodríguez, os recursos obtidos com a exportação de petróleo serão destinados ao setor de saúde, com a previsão de abertura de 75 novos hospitais em todo o país. Em contraste, o plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o petróleo venezuelano enfrenta obstáculos econômicos e insegurança jurídica, uma vez que o petróleo extrapesado do país exige tecnologia específica e altos custos para ser explorado de forma viável.
No campo diplomático, a crise venezuelana mobiliza lideranças internacionais. Diversos dirigentes europeus e latino-americanos buscam contato telefônico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, interessado em compreender a posição do Brasil diante do sequestro de Maduro. Entre eles estão o presidente da França, Emmanuel Macron, e o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Já o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que a operação dos Estados Unidos na Venezuela evidencia a fragmentação da liderança global e sinaliza que Washington estaria destruindo o próprio sistema internacional que ajudou a construir.
Para saber mais:
Artigo – Venezuela y la brutal ejecución de la nueva doctrina imperial (Misiòn Verdad)
Artigo – Existem drogas e gangues na Venezuela, mas não se engane. Trump prendeu Nicolás Maduro para saquear nossa riqueza (The Guardian)
Artigo – Sob Donald Trump, as contorções da estratégia militar americana (Le Monde)
Vídeo – Depois da Venezuela, Trump parte com tudo contra o Irã (14.1.26) (Bom Dia 247)
Vídeo – Mídia contra-hegemônica: Boletim Venezuela em Foco (Brasil de Fato)
Vídeo – O MST articula uma brigada de apoiadores para ser enviada à Venezuela (CNN Brasil)
#7: Mais um crime contra a humanidade
Mais de duzentos juristas, parlamentares e organizações de direitos humanos apresentaram ao Tribunal Penal Internacional um pedido formal para que sejam investigadas as responsabilidades de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e de outras autoridades norte-americanas por crimes de guerra no ataque contra o território venezuelano, em 3 de janeiro. O grupo sustenta que o atentado, que resultou no sequestro do presidente Maduro, configura violação do direito internacional e crime contra a humanidade, sobretudo pelos impactos sobre a soberania nacional e pela ameaça direta à população civil.
Diante da escalada de desinformação e das provocações de Trump, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, reafirmou a existência de um governo em exercício no país, denunciando campanhas que mascaram ou geram confusão sobre isso.
Em discurso na comunidade venezuelana de Catia La Mar, região afetada pela agressão militar dos Estados Unidos, ela destacou que a chave para a resistência venezuelana reside na união cívico-militar e no fortalecimento do Poder Popular.
Em uma videoconferência com o chamado “exército de comunicadores”, Rodríguez expôs os objetivos estratégicos do governo venezuelano neste momento de crise: preservar a paz interna, buscar o resgate de Nicolás Maduro e de Cilia Flores e manter o controle político. A mensagem central é a de continuidade institucional e de enfrentamento prolongado frente às pressões externas, rejeitando qualquer leitura falsa de “colapso do Estado venezuelano”.
A disputa simbólica ganhou novos contornos após Donald Trump compartilhar, em redes sociais, uma montagem que o apresentava como “presidente interino da Venezuela”, notícia veiculada na edição n.6 do boletim Venezuela Em Foco. Rodríguez classificou a publicação como falsa e acusou o presidente norte-americano de disseminar desinformação com o objetivo de confundir a opinião pública internacional. Para o governo venezuelano, esse tipo de ação faz parte de uma ofensiva política mais ampla para fragilizar a legitimidade das autoridades em exercício.
Paralelamente, Caracas sinalizou disposição para abrir uma “nova agenda” de diálogo com países europeus. Reunião com diplomatas da União Europeia, do Reino Unido e da Suíça indica que, apesar do isolamento imposto por Washington, há canais em discussão em aberto.
Enquanto isso, Maduro, sequestrado nos Estados Unidos, enviou uma mensagem à população venezuelana por meio de seus advogados, transmitida a seu filho, Nicolás Maduro Guerra. No recado, afirmou estar bem e reafirmou se manter na resistência, descrevendo-se como um lutador diante da situação de prisão, sem sinais de rendição política.
Cuba, por sua vez, se prepara para uma nova fase no asfixiamento político-econômico imposto pelos Estados Unidos há mais de 60 anos, desde a vitória da revolução. Trump prometeu cortar o fornecimento vital de petróleo venezuelano para Cuba, criando um cenário de cerco para uma ilha já abalada por apagões e escassez debilitantes.
A Venezuela, que já foi o principal fornecedor da ilha, não envia petróleo bruto ou combustível para Cuba há cerca de um mês, de acordo com dados de transporte marítimo e documentos internos da estatal PDVSA, com as cargas diminuindo devido ao bloqueio dos EUA, mesmo antes do sequestro do líder venezuelano.
Em resposta à pressão estadunidense, Pequim voltou a exortar os Estados Unidos a cessar imediatamente qualquer forma de sanção, coerção ou bloqueio contra Cuba. No plano internacional, Moscou também contestou publicamente as alegações de Trump sobre controle estadunidense das reservas petrolíferas venezuelanas, afirmando que os ativos russos na Venezuela pertencem legalmente ao Estado russo e continuarão a operar em conformidade com as normas vigentes.
Nas ruas, movimentos de solidariedade e protestos seguem se espalhando: em Pretória, sul-africanos reuniram-se diante da embaixada dos Estados Unidos para denunciar a intervenção e exigir a libertação de Maduro, enquanto milhares marcharam pelas avenidas do México contra o que definem como agressão imperialista dos EUA e em defesa da liberdade do presidente deposto.
A articulação do campo popular no nível do continente americano convoca marcha para o dia 28 de janeiro, data que marca o aniversário da proclamação da América Latina e Caribe como zona de Paz pela CELAC.
Para saber mais:
Artigo – Trump usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo
Artigo – A Venezuela e o desespero do império em ruínas: a geopolítica da luta pelo controle das fontes de energia
Artigo – A Geopolítica do Petrodólar: Irã, Venezuela e a Disputa pela Ordem Mundial, por Luís Nassif
Entrevista – Secuestro de Maduro es ilegal incluso para EEUU
#6: O cerco a Cuba
A Venezuela ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de países com as maiores reservas de petróleo do mundo — fator que, como já destacamos em edições anteriores do Boletim Venezuela em Foco, figura entre as principais motivações para os ataques e a ofensiva política dos Estados Unidos contra o país, intensificados no início de janeiro. Na sequência da lista aparecem Emirados Árabes Unidos, Irã e Canadá. O Brasil ocupa a 15ª posição e Cuba, por sua vez, não aparece no ranking.
Apesar disso, a ilha socialista mantém uma relação histórica de solidariedade com a Revolução Bolivariana e com os governos chavistas. Severamente afetada pelo longo embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, Cuba conta com o apoio da Venezuela, que envia recursos e combustível ao país caribenho.
No ano passado, por exemplo, a Venezuela foi o maior fornecedor de petróleo e combustíveis de Cuba, com cerca de 26.500 barris diários de petróleo bruto e derivados. No entanto, nenhum carregamento saiu de portos venezuelanos com destino à ilha desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças norte-americanas, ocorrido em 3 de janeiro.
Cuba parece despontar como o próximo alvo mais direto da versão reciclada da Doutrina Monroe na América Latina do século XXI. Em um de seus discursos de caráter desestabilizador para a região, Donald Trump afirmou que a cooperação entre Cuba e Venezuela não mais aconteceria, instando o governo cubano a firmar um acordo com Washington “antes que seja tarde demais”.
O líder da extrema-direita norte-americana também endossou, na rede X, um comentário que sugere seu secretário de Estado, o golpista Marco Rubio, como futuro presidente de Cuba. Rubio é filho de imigrantes cubanos. A ameaça recebeu resposta à altura. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou de forma categórica que “ninguém dita o que fazemos”.
Apesar do impasse, a Venezuela reafirmou publicamente os laços de fraternidade, solidariedade e cooperação que historicamente orientam sua relação com Cuba.
No âmbito de possíveis negociações — e eventuais concessões — que o governo bolivariano possa vir a realizar para ganhar tempo frente à ofensiva estadunidense, Trump sinalizou simpatia por um diálogo com Caracas e afirmou que poderá se encontrar com a presidente interina chavista, Delcy Rodríguez.
Enquanto busca suavizar o caráter criminoso e imperialista da ofensiva contra a Venezuela com discursos sobre diálogo, o mandatário dos Estados Unidos eleva deliberadamente o tom da provocação ao publicar uma imagem montada em que aparece como “presidente interino da Venezuela”, evidenciando o desprezo pela soberania do país e pelas normas do direito internacional.
Além do petróleo, os Estados Unidos também demonstram interesse nas terras raras venezuelanas, ricas em matérias-primas estratégicas para setores como defesa, tecnologia e transição energética.
Trump segue demonstrando desprezo pelos limites do direito internacional e chegou a afirmar que o único freio ao seu poder global seria a sua própria moralidade. Ainda assim, executivos das grandes petrolíferas têm reagido com cautela à pressão do ex-presidente para investir na exploração de recursos venezuelanos. As gigantes do setor aguardam mudanças estruturais profundas nas regras comerciais e no arcabouço jurídico do país, que assegurem a elas maiores garantias de lucro, antes de assumir “riscos” financeiros.
Embora o governo Trump sustente que a ampliação da exploração petrolífera beneficiaria a população venezuelana, experiências semelhantes em diversos países revelam, na prática, aumento da concentração de renda, além de graves impactos sociais e ambientais. A própria história da exploração de petróleo na Venezuela, quando feita por gigantes petroleiras, sem caráter estatal ou nacional, é de miséria e exploração sobre a população.
Nas ruas de Caracas e de outras cidades do país, o respaldo popular ao governo segue se manifestando por meio de marchas e atos públicos, simbolizando a unidade política frente às ameaças externas. As comunas, experiência de organização popular característica do chavismo, permanecem na linha de frente da defesa do povo, garantindo a continuidade da produção de alimentos e o abastecimento interno.
No Brasil, a solidariedade com o povo venezuelanos também segue na ordem do dia e se insere em um esforço internacional de denúncia da ofensiva imperialista contra a Venezuela. Movimentos populares, organizações políticas e sociais convocam uma mobilização unitária para o dia 28 de janeiro. Entre os principais motes dos atos estão “Liberdade para Maduro e Cília” e “Fora Trump da América Latina — somos Zona de Paz”.
Para saber mais:
Artigo – El turno es de los pueblos (Medium)
Artigo – ¿Cuántas leyes internacionales puede violar Estados Unidos contra Venezuela y aun así salir impune? (Boletín 2 (2026) – Tri Continental)
Entrevista – Ação contra Maduro é recado de Trump para China, diz autora de livro sobre Doutrina Monroe (BBC)
Vídeo – Venezuela: colonialismo e questão agrária com João Pedro Stedile Vídeo – Verdades e Mentiras Sobre Traição CONTRA Nicolás Maduro | Análise de Breno Altman (De Olho nos Ruralistas)
#5: Ninguém escapa
A chamada “tensa calma” que paira sobre a Venezuela desde o ataque de 3 de janeiro está longe de ser um fenômeno isolado. Ao contrário: o episódio sinaliza uma escalada que pode atingir toda a América Latina caso os Estados Unidos avancem em uma estratégia mais ampla de intervenções diretas ou indiretas na região. Sob a justificativa de combater o narcotráfico e o “colapso institucional”, a narrativa do governo Donald Trump volta a reeditar um roteiro conhecido no continente: o da criminalização de governos soberanos para viabilizar ações de força e o controle de recursos estratégicos.
Depois da Venezuela, o discurso beligerante da Casa Branca passa a mirar com mais intensidade o México, acusado de ser corredor do narcotráfico internacional com complacência estatal. Cuba e Colômbia também aparecem no radar da retórica trumpista, reforçando a percepção de que se trata não de segurança regional e sim de um projeto geopolítico de expropriação de riquezas naturais e submissão de soberanias nacionais. Uma releitura, em pleno século XXI, das “veias abertas da América Latina”.
Nesse tabuleiro em movimento, lideranças regionais tentam conter o avanço ofensiva. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva voltou a condenar o ataque contra a Venezuela em conversas com a presidente do México Claudia Sheinbaum com o primeiro-ministro do Canadá Mark Carney e com o presidente colombiano Gustavo Petro. A articulação diplomática busca construir uma saída política que evite a generalização do conflito e reafirme o respeito ao direito internacional e à autodeterminação dos povos.
Em Caracas, a presidenta interina Delcy Rodríguez classificou a ação dos Estados Unidos como uma “agressão vil” e reiterou que a Venezuela “não merecia” o ataque sofrido. Em pronunciamento oficial, ela homenageou cubanos e venezuelanos mortos na ofensiva e afirmou que o país responderá com firmeza, mas também com diplomacia, evocando o legado do libertador Simón Bolívar na defesa dos direitos humanos e do direito humanitário internacional.
Paralelamente ao discurso duro, o governo venezuelano anunciou novas libertações de detidos por crimes comuns ou atos de violência, em uma atividade descrita como um “gesto pela paz”.
Apesar de sinalizar supostos recuos pontuais, Donald Trump mantém um discurso explícito de interesse econômico. O presidente afirmou ter cancelado novos ataques após “cooperação” do governo venezuelano, citando a libertação dos presos como sinal positivo. Ao mesmo tempo, anunciou que petrolíferas norte-americanas investirão até US$ 100 bilhões na Venezuela, com a promessa de reconstrução da infraestrutura energética do país.
A apreensão do petroleiro Marinera, de bandeira russa, levou Moscou a reagir com dureza. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a ação dos EUA como ilegal e alertou para o risco de aumento da tensão militar e política no espaço euro-atlântico. Apesar da posterior libertação de dois tripulantes russos, o episódio elevou o grau de preocupação do Kremlin quanto à redução do “limiar do uso da força” contra a navegação civil.
O bloqueio total imposto por Washington às exportações venezuelanas de petróleo começa a produzir efeitos concretos. A tentativa de apreensão do petroleiro Olina, no Caribe, marca a quinta interceptação em poucas semanas. Navios carregados com milhões de barris permanecem parados em águas venezuelanas para evitar confisco, provocando uma queda acentuada nas exportações e aprofundando o estrangulamento econômico do país.
A ofensiva dos Estados Unidos também gerou repercussão no Vaticano. Em discurso inflamado, o papa Leão XIII criticou a “diplomacia baseada na força” e denunciou o enfraquecimento das instituições multilaterais diante da escalada militar global, citando explicitamente a situação venezuelana.
Nas ruas, a solidariedade à Venezuela se espalha. Manifestações com o lema “Mãos fora da Venezuela” foram registradas na Austrália e em países do Sudeste Asiático, como Indonésia, Filipinas e Malásia, evidenciando que, apesar do cerco político e econômico, a Revolução Bolivariana ainda encontra apoio entre movimentos populares ao redor do mundo.
Para saber mais:
Artigo – Análisis geopolítico del ataque contra Venezuela
Artigo – Venezuela: o Império ameaça — e está nu
Artigo – O chavismo em sua hora mais dramática
Vídeo – Do petróleo venezuelano às terras raras: o plano imperialista de Trump
#4: 100 mortos em combate
As consequências humanas e diplomáticas do ataque contra a Venezuela começaram a ser oficialmente dimensionadas pelo governo, com a divulgação de números, medidas de luto e declarações que aprofundam a crise bilateral com os Estados Unidos.
Grande parte do contingente de segurança de Maduro foi morta a sangue frio por resistir ao atentado e defender a revolução bolivariana. O número oficial de mortos foi divulgado pelo ministro do interior Diosdado Cabello: 100 pessoas assassinadas no ataque estadunidense.
Frente a essa contagem, a presidente interina Delcy Rodríguez, decretou sete dias de luto nacional em homenagem aos que tombaram. A mesma Delcy afirmou que relações entre seu país e os Estados Unidos agora têm uma “mancha” sem precedentes na história das relações bilaterais.
O Senado norte-americano não ficou feliz com Trump por não ter sido consultado sobre o uso das Forças Armadas no ataque contra a Venezuela, e votou para proibir que a ação volte a se repetir sem autorização.
Por outro lado, Donald Trump segue com suas ameaças e exige que o governo chavista renuncie à cooperação com a Rússia, China, Irã e Cuba. Há indícios de que a China por sua vez avalie recalcular a rota para manter a parceria com o governo chavista.
Enquanto isso, o blefe trumpista segue. E a sede para beber petróleo de canudinho também. O extremista mantém o discurso de que pode manter o controle da Venezuela e de seu petróleo por vários anos. E os comerciantes europeus do hidrocarboneto, Vitol e Trafigura, já estão na lista da Casa Branca para negociação.
O petróleo venezuelano é considerado do tipo mais poluente – chamado de bruto pesado e ácido, e sua exploração em massa deve gerar grandes impactos ao meio ambiente, indo na contramão de um futuro focado no desenvolvimento de energias renováveis. Não que o mandatário norte-americano e porta-voz do negacionismo climático se importe com isso.
Alinhado à política da devastação ambiental, o presidente estadunidense determinou a retirada de seu país de mais de 60 organizações internacionais. Segundo a administração, grande parte dessas entidades está ligada à ONU e atua em áreas como mudanças climáticas, relações trabalhistas e outras pautas woke.
Neste cenário, tentativas diplomáticas tentam amenizar à violenta retomada da Doutrina Monroe nas Américas, enquanto nas ruas as mobilizações massivas na Venezuela e na Colômbia crescem contra as contínuas ofensivas norte-americanas.
Para saber mais:
Artigo – EUA e Rússia se encaram pela 1ª vez na crise venezuelana
Artigo – La operación en Venezuela para capturar a Maduro amenaza con ensanchar el cisma en el movimiento MAGA
Artigo – A situação atual na Venezuela: um governo no comando, um povo resiliente
Artigo – O que não te contaram sobre o governo de Maduro e a economia venezuelana
Vídeo – Venezuela: el pueblo salió a las calles en defensa de la soberanía y contra el imperialismo
#3: O lobista do petróleo
Qualquer análise sobre o atentado do último 3 de janeiro contra a Venezuela que ignore o apetite histórico dos Estados Unidos pelo petróleo do país simplesmente não se sustenta. É como fechar os olhos para o óbvio, já que por trás da retórica agressiva e do desprezo explícito pelo povo venezuelano — a quem Trump chegou a se referir como o povo mais feio do mundo — está a velha obsessão do país imperialista pelo controle do petróleo.
Nos últimos dias, Trump sequer se deu ao trabalho de sustentar os argumentos que antes usava como verniz moral para suas investidas: a suposta falta de democracia ou a alegada ligação do Estado venezuelano com o narcotráfico praticamente desapareceram do discurso. O que ficou foi o blefe nu e cru sobre saquear o petróleo venezuelano. Sem rodeios, sem disfarces.
Não é coincidência. Trump é hoje o principal porta-voz do negacionismo climático no mundo e teve sua campanha presidencial fartamente financiada por gigantes do setor petrolífero dos Estados Unidos, como Energy Transfer, Continental Resources e Hilcorp Energy. A elas se somam pesos-pesados como Exxon Mobil e Chevron, empresas que perderam espaço quando a estatal PDVSA passou a ocupar o centro da política petrolífera venezuelana.

Agora, Trump presta contas a quem bancou sua campanha política. Ao prometer, em tom de ameaça disfarçada de bravata, que a Venezuela entregaria até 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, ele não fala como estadista, mas como lobista. O petróleo, mais uma vez, é o verdadeiro protagonista dessa história.
O secretário de Estado de Trump, Marcos Rubio, entusiasta do golpismo na América Latina, segue afirmando que há um plano de organização do país atacado, na qual haveria uma fase de recuperação onde empresas de seu país teriam acesso ao mercado venezuelano de forma… justa?
A presidente interina de Venezuela Delcy Rodríguez, ameaçada por Trump para cooperar com suas exigências, garante que o controle do país segue na mão do governo chavista e que não há agentes externos nesse processo.
Enquanto isso, no Oceano Atlântico, uma nova embarcação carregando petróleo da Venezuela foi alvo de pirataria dos Estados Unidos. O agravante é que o navio, perseguido por pelo menos duas semanas em rota marítima, havia adotado bandeira e escolta dos russos. Em resposta, a Rússia acusou os Estados Unidos de violar o direito marítimo.
A China voltou a se pronunciar sobre o imbróglio, afirmando que os Estados Unidos atentam contra os interesses do povo venezuelano e contra normas básicas das relações internacionais. Já o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que também está na mira de Trump, disse que voltaria a pegar em armas caso os Estados Unidos invadam seu país, e que camponeses se tornariam milhares de guerrilheiros para defender a soberania nacional.
Os países estão divididos entre defender ou rechaçar o atentado imperialista dos Estados Unidos. E isso ficou claro na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). Enquanto Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador defenderam a intervenção estrangeira, Brasil, Chile, Colômbia, México e Honduras se posicionaram pela soberania nacional venezuelana.
Nas ruas de Caracas, mulheres se reuniram em marcha pedindo a libertação do presidente Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, sequestrados pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro.
Para saber mais:
Artigo – Guerra contra a Venezuela (Opera Mundi)
Artigo – Mídia brasileira omite os motivos dos ataques do governo Trump à Venezuela (Brasil de Fato)
Entrevista – ‘Ataque à Venezuela e tarifaço no Brasil são parte de uma mesma estratégia dos EUA’, afirma Breno Altman, do Opera Mundi
Vídeo: Boa Noite 247 – O assalto à Venezuela e a nova ordem internacional (06.01.26)
* Editado por Solange Engelmann
#2: Desdobramentos do ataque dos EUA contra a Venezuela
A ascensão do trumpismo nos Estados Unidos abalou o consenso em torno do multilateralismo como horizonte geopolítico global, entendimento que havia sido arduamente construído no pós-Segunda Guerra Mundial. O ataque contra a Venezuela, ocorrido no último dia 3, dissipou até mesmo as expectativas dos mais otimistas.
Até a ONU reconheceu o enfraquecimento desse paradigma. Em comunicado, a entidade de Direitos Humanos das Nações Unidas afirmou que o país norte-americano “erodiu” um princípio fundamental do direito internacional e que a população venezuelana merece prestação de contas por meio de um processo “justo” e centrado nas vítimas.
E por falar em vítimas, uma apuração do New York Times apontou que mais de 80 pessoas foram mortas no atentado, das quais 32 eram de cubanos. Por esse motivo, a ilha socialista decretou dois dias de luto nacional.
A narrativa construída para legitimar a desestabilização da Venezuela, que acusava o país de servir como rota do narcotráfico supostamente liderado pelo presidente Nicolás Maduro, também começa a ruir. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que antes afirmava categoricamente que Maduro chefiava uma alegada organização criminosa denominada Cartel de los Soles, agora, em uma nova acusação judicial contra o líder venezuelano, sequer reconhece a existência dessa organização como um ente real. Cartel de los Soles é na verdade uma expressão dos anos 1990, para descrever um sistema de “clientelismo” e de corrupção.

Em meio à turbulência política, as forças armadas da Venezuela ratificaram o apoio à vice Delcy Rodríguez, que assume como presidente interina na ausência de Maduro. Trump apresentou uma lista de exigências para respaldar o novo mandato, entre as quais o fim do apoio à Cuba e abertura do mercado petroleiro para empresas estadunidenses.
Na esteira do ataque ao território sul-americano, o extremista norte-americano segue ameaçando outros países. Em sua mira estão Colômbia, México, Cuba e Groenlândia. Nas ruas, os povos de diversos países do mundo seguem exigindo a libertação de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Novos protestos estão marcados para o próximo dia 10 de janeiro.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que mantém uma relação de solidariedade com a Venezuela, avalia o envio de militantes para reforçar ações em defesa do governo chavista.
Para saber mais:
Artigo – Captura ou sequestro? (Brasil247)
Artigo – Terrorismo global de estado contra a Venezuela (Voces en lucha)
Artigo – Horas decisivas en Venezuela: tensión regional y alerta en Nuestra América (Argmedios)
Artigo – Na partilha do mundo, ou você está sentado à mesa, ou é o menu: lições do ataque militar dos EUA à Venezuela para o Brasil (Brasil de Fato)
* Editado por Solange Engelmann
#1: O império ataca
Eventos geopolíticos de grande impacto, como o ataque dos Estados Unidos ao território venezuelano e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada e primeira-dama Cilia Flores, provocam mudanças profundas na conjuntura internacional. Um dos sinais mais evidentes dessas transformações é a intensificação da chamada “guerra comunicacional”.
Informações contraditórias, desinformação espalhada em diferentes canais, grandes veículos de comunicação reproduzindo o discurso dominante como narrativa oficial. O resultado disso é uma sociedade cada vez mais confusa, sem fontes de confiança. Quando os fatos começam a ser esclarecidos, o estrago informacional já está feito.
É diante desse cenário que forças populares, movimentos sociais e coletivos de comunicação se unem para lançar o boletim Venezuela em Foco. A iniciativa nasce com o objetivo de oferecer um canal comprometido com a divulgação de informações confiáveis, em solidariedade com a Revolução Bolivariana e em defesa da soberania dos povos da América Latina. Nosso compromisso é com os fatos. Vamos a eles.
Após meses de ofensiva contra a Venezuela, com sequestro a navios petroleiros no mar do Caribe no final de 2025, o ano novo começou com péssimas notícias para a América Latina.
Na madrugada do dia 3 de janeiro, por volta das 3h da madrugada, o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado por militares estadunidenses enquanto o país era bombardeado em ao menos 6 locais, entre eles o complexo militar do Forte Tiúna, em Caracas, a sede do Ministério da Defesa e o lugar onde vive o presidente. 32 cubanos que faziam parte da segurança do presidente foram mortos. Outros militares e civis também foram assassinados no ataque, mas o número total de mortos ainda não foi divulgado.
Em resposta, milhares de venezuelanos foram às ruas do país em uma marcha antiimperialista. A capital de Barinas, estado onde o líder da revolução venezuelana Hugo Chávez nasceu, também registrou ato.
O exército e a milícia venezuelana subordinada às Forças Armadas do país, junto com coletivos cidadãos, estão prontos para defender o território, a vice-presidente Delcy Rodriguez assume o governo de forma interina pelos próximos 90 dias. Significa dizer que o comando do país segue nas mãos do chavismo, conforme a vontade do povo que segue elegendo o projeto bolivariano nas ruas e nas urnas, a despeito das intervenções imperialistas.
Nesta segunda-feira, a Assembleia Popular venezuelana empossou parlamentares eleitos no pleito em 2025, conforme rito já previamente agendado, e reelegeu o chavista Jorge Rodriguez à presidência do parlamento. Jorge e Delcy são irmãos criados na tradição chavista e figuras centrais para o governo Maduro.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, submetidos a um tribunal em Nova Iorque, algemados e escoltados por forte aparato policial, Maduro e Cilia se declararam prisioneiros de guerra e inocentes.
Em reunião do Conselho de Segurança da ONU, o embaixador venezuelano Samuel Moncada falou que o ataque foi motivado por “ganância” por petróleo e por uma posição geopolítica mais favorável, denunciando também violação da carta das nações unidas. A Rússia, por sua vez, qualificou o ataque como “bandidagem” e a China se posicionou em defesa o país sul-americano.
Desde o ataque do dia 3, uma onda de protestos vem sendo realizada em diversos países do mundo. No Brasil, o MST junto de outros movimentos populares, coletivos e partidos de esquerda convocam manifestações. O Movimento Sem Terra também lidera uma iniciativa junto com PSOL e PT para a criação de uma frente emergencial de solidariedade à Venezuela que começa a atuar no dia 14.
Para saber mais, assista:
Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.
Confira as últimas notícias sobre a ofensiva dos EUA contra a Venezuela.





