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Toggle#9: Negociar sob fogo
A conversa entre Donald Trump e Delcy Rodríguez, confirmada oficialmente pelo governo venezuelano, marca o que pode ser o início formal de um processo de negociação entre os dois países. O diálogo, porém, nasce envolto em contradição: como negociar com um governo responsável por uma operação militar que deixou mortos, desaparecidos e um presidente sequestrado em território estrangeiro? A resposta não passa por afinidades políticas ou concessões morais, mas por uma escolha tática imposta pela correlação de forças e pelas lições da história.
Não há saída possível para a crise que a Casa Branca tenta impor à Venezuela sem algum grau de interlocução. Negociar, neste contexto, não significa legitimar a violência, mas abrir uma janela política capaz de conter a escalada, reorganizar forças e ganhar tempo. Como já observou o jornalista Breno Altman, um paralelo histórico esclarecedor é o Tratado de Brest-Litovsk, firmado em 1918 entre o governo soviético recém-instalado e potências da Europa Central. Cercada por ameaças externas e conflitos internos, a Rússia revolucionária recuou taticamente, tendo que aceitar condições terrivelmente onerosas, que incluíam a perda de parte do território com enormes riquezas.
Enquanto se abrem canais diplomáticos, o governo venezuelano reforça sua articulação interna. Delcy Rodríguez reuniu-se com o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, para revisar planos de defesa nacional e convocar a unidade da classe trabalhadora, com o objetivo de garantir a paz, a continuidade da produção e a resistência frente à agressão externa. A movimentação ocorre em paralelo ao avanço de uma proposta de “Constituinte Laboral”, apresentada como um esforço para construir um novo marco de direitos e proteção social em um país submetido a um bloqueio injusto e prolongado.
As ruas seguem como um espaço importante de resposta política. Em Caracas, trabalhadores e trabalhadoras mais uma vez se mobilizaram nesta quarta (14), para denunciar a ofensiva militar dos Estados Unidos e exigir a libertação do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. As manifestações reforçam a narrativa de resistência popular e conectam a defesa da soberania nacional às reivindicações sociais e laborais.
No campo das investigações, novas informações adicionam camadas de complexidade ao cenário. Um memorando confidencial vindo dos Estados Unidos aponta a participação de setores da extrema direita venezuelana, liderados por María Corina Machado, no ataque de 3 de janeiro, reforçando a leitura de que a operação combinou ação externa e articulação interna. Ao mesmo tempo, no Senado norte-americano, foi barrado um projeto que buscava limitar a ação militar dos EUA na Venezuela, resultado visto como uma vitória para Trump, um sinal de que o presidente mantém espaço de manobra no fronte institucional doméstico.
No âmbito das articulações, Trump declarou apoiar a permanência da Venezuela na Opep, ainda que tenha relativizado se isso seria benéfico para os próprios Estados Unidos. No mercado, grandes empresas de serviços petrolíferos já se movimentam: uma gigante global do setor, a SLB, aposta na reabertura do país sob o novo cenário, com valorização expressiva de suas ações desde o sequestro de Maduro, beneficiada por já possuir equipamentos, contratos e presença no território venezuelano.
Os efeitos regionais da ofensiva também se fazem sentir. Pesquisa Quaest indica que 58% dos brasileiros temem que ações semelhantes às realizadas na Venezuela possam, em algum momento, atingir o Brasil, revelando um impacto direto da crise na percepção de segurança regional. No plano diplomático, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com Vladimir Putin sobre a situação venezuelana e o cenário global, na primeira interlocução entre os dois líderes desde o ataque dos Estados Unidos, com ênfase na defesa da soberania e na estabilidade internacional.
Para saber mais:
Artigo – O pequeno Marco Rubio de Trump tem um grande plano: entregar Cuba para Miami
Artigo – A incondicional lealdade de María Corina Machado a Trump
Artigo – Fique Alerta: a “Doutrina Monroe” Ameaça à Paz e Segurança do Mundo
Vídeo – O Segredo Por Trás da América First: Como a Doutrina Monroe Moldou a Estratégia de Trump
#8: Delcy Rodríguez tem apoio do povo venezuelano
Hoje na Venezuela, Delcy Rodríguez, chavista de longa trajetória política e atual presidente interina do país, conta com amplo respaldo popular. Pesquisa de opinião, realizada por Hinterlaces, indica que 91% da população apoia seu governo.
Rodríguez assumiu interinamente o país após o sequestro do presidente Nicolás Maduro durante o ataque realizado pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro. A data marcou o 10° dia consecutivo de protestos nas ruas de Caracas e de outras cidades do país, com manifestantes exigindo o retorno de Maduro e da deputada e primeira-dama Cilia Flores, também sequestrada na ação.
À medida que avançam as investigações sobre a dimensão da agressão militar dos Estados Unidos, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, informou que há pessoas desaparecidas e corpos fragmentados ainda não identificados. Segundo dados oficiais do governo venezuelano, 100 pessoas foram assassinadas durante a agressão e outras centenas ficaram feridas.
No plano interno, o governo anunciou a libertação de pessoas detidas sob a acusação de “perturbar a ordem constitucional e ameaçar a estabilidade da nação”. Mais de 400 detidos já foram liberados, em uma medida apresentada como parte de um esforço para consolidar a paz nacional. De acordo com o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, as solturas foram decididas de forma unilateral pelo Estado venezuelano.
O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, afirmou que, apesar da nova realidade imposta pela ofensiva externa e da persistência da ameaça militar, a Venezuela deve seguir seu caminho, reafirmando o compromisso com a ordem, a paz social e a estabilidade política. Ele reiterou o papel das Forças Armadas Nacional Bolivariana na garantia da soberania e da tranquilidade interna.
No setor energético, o país busca reverter dificuldades para manter o ritmo de produção. A Venezuela está produzindo cerca de 880 mil barris de petróleo por dia, uma queda significativa em relação aos 1,6 milhão de barris diários registrados no final de novembro. O governo busca retomar as exportações e recuperar os sistemas da estatal PDVSA, afetados pelo ataque cibernético dos Estados Unidos que paralisou parte das operações e reduziu o ritmo dos embarques e da distribuição de combustível no mercado interno.
Segundo Delcy Rodríguez, os recursos obtidos com a exportação de petróleo serão destinados ao setor de saúde, com a previsão de abertura de 75 novos hospitais em todo o país. Em contraste, o plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o petróleo venezuelano enfrenta obstáculos econômicos e insegurança jurídica, uma vez que o petróleo extrapesado do país exige tecnologia específica e altos custos para ser explorado de forma viável.
No campo diplomático, a crise venezuelana mobiliza lideranças internacionais. Diversos dirigentes europeus e latino-americanos buscam contato telefônico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, interessado em compreender a posição do Brasil diante do sequestro de Maduro. Entre eles estão o presidente da França, Emmanuel Macron, e o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Já o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que a operação dos Estados Unidos na Venezuela evidencia a fragmentação da liderança global e sinaliza que Washington estaria destruindo o próprio sistema internacional que ajudou a construir.
Para saber mais:
Artigo – Venezuela y la brutal ejecución de la nueva doctrina imperial (Misiòn Verdad);
Artigo – Existem drogas e gangues na Venezuela, mas não se engane. Trump prendeu Nicolás Maduro para saquear nossa riqueza (The Guardian);
Artigo – Sob Donald Trump, as contorções da estratégia militar americana (Le Monde);
Video – Depois da Venezuela, Trump parte com tudo contra o Irã (14.1.26) (Bom Dia 247);
Vídeo – Mídia contra-hegemônica: Boletim Venezuela em Foco (Brasil de Fato);
Vídeo – O MST articula uma brigada de apoiadores para ser enviada à Venezuela (CNN Brasil).
#7: Mais um crime contra a humanidade
Mais de duzentos juristas, parlamentares e organizações de direitos humanos apresentaram ao Tribunal Penal Internacional um pedido formal para que sejam investigadas as responsabilidades de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e de outras autoridades norte-americanas por crimes de guerra no ataque contra o território venezuelano, em 3 de janeiro. O grupo sustenta que o atentado, que resultou no sequestro do presidente Maduro, configura violação do direito internacional e crime contra a humanidade, sobretudo pelos impactos sobre a soberania nacional e pela ameaça direta à população civil.
Diante da escalada de desinformação e das provocações de Trump, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, reafirmou a existência de um governo em exercício no país, denunciando campanhas que mascaram ou geram confusão sobre isso.
Em discurso na comunidade venezuelana de Catia La Mar, região afetada pela agressão militar dos Estados Unidos, ela destacou que a chave para a resistência venezuelana reside na união cívico-militar e no fortalecimento do Poder Popular.
Em uma videoconferência com o chamado “exército de comunicadores”, Rodríguez expôs os objetivos estratégicos do governo venezuelano neste momento de crise: preservar a paz interna, buscar o resgate de Nicolás Maduro e de Cilia Flores e manter o controle político. A mensagem central é a de continuidade institucional e de enfrentamento prolongado frente às pressões externas, rejeitando qualquer leitura falsa de “colapso do Estado venezuelano”.
A disputa simbólica ganhou novos contornos após Donald Trump compartilhar, em redes sociais, uma montagem que o apresentava como “presidente interino da Venezuela”, notícia veiculada na edição n.6 do boletim Venezuela Em Foco. Rodríguez classificou a publicação como falsa e acusou o presidente norte-americano de disseminar desinformação com o objetivo de confundir a opinião pública internacional. Para o governo venezuelano, esse tipo de ação faz parte de uma ofensiva política mais ampla para fragilizar a legitimidade das autoridades em exercício.
Paralelamente, Caracas sinalizou disposição para abrir uma “nova agenda” de diálogo com países europeus. Reunião com diplomatas da União Europeia, do Reino Unido e da Suíça indica que, apesar do isolamento imposto por Washington, há canais em discussão em aberto.
Enquanto isso, Maduro, sequestrado nos Estados Unidos, enviou uma mensagem à população venezuelana por meio de seus advogados, transmitida a seu filho, Nicolás Maduro Guerra. No recado, afirmou estar bem e reafirmou se manter na resistência, descrevendo-se como um lutador diante da situação de prisão, sem sinais de rendição política.
Cuba, por sua vez, se prepara para uma nova fase no asfixiamento político-econômico imposto pelos Estados Unidos há mais de 60 anos, desde a vitória da revolução. Trump prometeu cortar o fornecimento vital de petróleo venezuelano para Cuba, criando um cenário de cerco para uma ilha já abalada por apagões e escassez debilitantes.
A Venezuela, que já foi o principal fornecedor da ilha, não envia petróleo bruto ou combustível para Cuba há cerca de um mês, de acordo com dados de transporte marítimo e documentos internos da estatal PDVSA, com as cargas diminuindo devido ao bloqueio dos EUA, mesmo antes do sequestro do líder venezuelano.
Em resposta à pressão estadunidense, Pequim voltou a exortar os Estados Unidos a cessar imediatamente qualquer forma de sanção, coerção ou bloqueio contra Cuba. No plano internacional, Moscou também contestou publicamente as alegações de Trump sobre controle estadunidense das reservas petrolíferas venezuelanas, afirmando que os ativos russos na Venezuela pertencem legalmente ao Estado russo e continuarão a operar em conformidade com as normas vigentes.
Nas ruas, movimentos de solidariedade e protestos seguem se espalhando: em Pretória, sul-africanos reuniram-se diante da embaixada dos Estados Unidos para denunciar a intervenção e exigir a libertação de Maduro, enquanto milhares marcharam pelas avenidas do México contra o que definem como agressão imperialista dos EUA e em defesa da liberdade do presidente deposto.
A articulação do campo popular no nível do continente americano convoca marcha para o dia 28 de janeiro, data que marca o aniversário da proclamação da América Latina e Caribe como zona de Paz pela CELAC.
Para saber mais:
Artigo – Trump usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo
Artigo – A Venezuela e o desespero do império em ruínas: a geopolítica da luta pelo controle das fontes de energia
Artigo – A Geopolítica do Petrodólar: Irã, Venezuela e a Disputa pela Ordem Mundial, por Luís Nassif.
Entrevista – Secuestro de Maduro es ilegal incluso para EEUU.
#6: O cerco a Cuba
A Venezuela ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de países com as maiores reservas de petróleo do mundo — fator que, como já destacamos em edições anteriores do Boletim Venezuela em Foco, figura entre as principais motivações para os ataques e a ofensiva política dos Estados Unidos contra o país, intensificados no início de janeiro. Na sequência da lista aparecem Emirados Árabes Unidos, Irã e Canadá. O Brasil ocupa a 15ª posição e Cuba, por sua vez, não aparece no ranking.
Apesar disso, a ilha socialista mantém uma relação histórica de solidariedade com a Revolução Bolivariana e com os governos chavistas. Severamente afetada pelo longo embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, Cuba conta com o apoio da Venezuela, que envia recursos e combustível ao país caribenho.
No ano passado, por exemplo, a Venezuela foi o maior fornecedor de petróleo e combustíveis de Cuba, com cerca de 26.500 barris diários de petróleo bruto e derivados. No entanto, nenhum carregamento saiu de portos venezuelanos com destino à ilha desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças norte-americanas, ocorrido em 3 de janeiro.
Cuba parece despontar como o próximo alvo mais direto da versão reciclada da Doutrina Monroe na América Latina do século XXI. Em um de seus discursos de caráter desestabilizador para a região, Donald Trump afirmou que a cooperação entre Cuba e Venezuela não mais aconteceria, instando o governo cubano a firmar um acordo com Washington “antes que seja tarde demais”.
O líder da extrema-direita norte-americana também endossou, na rede X, um comentário que sugere seu secretário de Estado, o golpista Marco Rubio, como futuro presidente de Cuba. Rubio é filho de imigrantes cubanos. A ameaça recebeu resposta à altura. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou de forma categórica que “ninguém dita o que fazemos”.
Apesar do impasse, a Venezuela reafirmou publicamente os laços de fraternidade, solidariedade e cooperação que historicamente orientam sua relação com Cuba.
No âmbito de possíveis negociações — e eventuais concessões — que o governo bolivariano possa vir a realizar para ganhar tempo frente à ofensiva estadunidense, Trump sinalizou simpatia por um diálogo com Caracas e afirmou que poderá se encontrar com a presidente interina chavista, Delcy Rodríguez.
Enquanto busca suavizar o caráter criminoso e imperialista da ofensiva contra a Venezuela com discursos sobre diálogo, o mandatário dos Estados Unidos eleva deliberadamente o tom da provocação ao publicar uma imagem montada em que aparece como “presidente interino da Venezuela”, evidenciando o desprezo pela soberania do país e pelas normas do direito internacional.
Além do petróleo, os Estados Unidos também demonstram interesse nas terras raras venezuelanas, ricas em matérias-primas estratégicas para setores como defesa, tecnologia e transição energética.
Trump segue demonstrando desprezo pelos limites do direito internacional e chegou a afirmar que o único freio ao seu poder global seria a sua própria moralidade. Ainda assim, executivos das grandes petrolíferas têm reagido com cautela à pressão do ex-presidente para investir na exploração de recursos venezuelanos. As gigantes do setor aguardam mudanças estruturais profundas nas regras comerciais e no arcabouço jurídico do país, que assegurem a elas maiores garantias de lucro, antes de assumir “riscos” financeiros.
Embora o governo Trump sustente que a ampliação da exploração petrolífera beneficiaria a população venezuelana, experiências semelhantes em diversos países revelam, na prática, aumento da concentração de renda, além de graves impactos sociais e ambientais. A própria história da exploração de petróleo na Venezuela, quando feita por gigantes petroleiras, sem caráter estatal ou nacional, é de miséria e exploração sobre a população.
Nas ruas de Caracas e de outras cidades do país, o respaldo popular ao governo segue se manifestando por meio de marchas e atos públicos, simbolizando a unidade política frente às ameaças externas. As comunas, experiência de organização popular característica do chavismo, permanecem na linha de frente da defesa do povo, garantindo a continuidade da produção de alimentos e o abastecimento interno.
No Brasil, a solidariedade com o povo venezuelanos também segue na ordem do dia e se insere em um esforço internacional de denúncia da ofensiva imperialista contra a Venezuela. Movimentos populares, organizações políticas e sociais convocam uma mobilização unitária para o dia 28 de janeiro. Entre os principais motes dos atos estão “Liberdade para Maduro e Cília” e “Fora Trump da América Latina — somos Zona de Paz”.
Para saber mais:
Artigo – El turno es de los pueblos (Medium).
Artigo – ¿Cuántas leyes internacionales puede violar Estados Unidos contra Venezuela y aun así salir impune? (Boletín 2 (2026) – Tri Continental).
Entrevista – Ação contra Maduro é recado de Trump para China, diz autora de livro sobre Doutrina Monroe (BBC).
Vídeo – Venezuela: colonialismo e questão agrária com João Pedro Stedile Vídeo – Verdades e Mentiras Sobre Traição CONTRA Nicolás Maduro | Análise de Breno Altman (De Olho nos Ruralistas).
#5: Ninguém escapa
A chamada “tensa calma” que paira sobre a Venezuela desde o ataque de 3 de janeiro está longe de ser um fenômeno isolado. Ao contrário: o episódio sinaliza uma escalada que pode atingir toda a América Latina caso os Estados Unidos avancem em uma estratégia mais ampla de intervenções diretas ou indiretas na região. Sob a justificativa de combater o narcotráfico e o “colapso institucional”, a narrativa do governo Donald Trump volta a reeditar um roteiro conhecido no continente: o da criminalização de governos soberanos para viabilizar ações de força e o controle de recursos estratégicos.
Depois da Venezuela, o discurso beligerante da Casa Branca passa a mirar com mais intensidade o México, acusado de ser corredor do narcotráfico internacional com complacência estatal. Cuba e Colômbia também aparecem no radar da retórica trumpista, reforçando a percepção de que se trata não de segurança regional e sim de um projeto geopolítico de expropriação de riquezas naturais e submissão de soberanias nacionais. Uma releitura, em pleno século XXI, das “veias abertas da América Latina”.
Nesse tabuleiro em movimento, lideranças regionais tentam conter o avanço ofensiva. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva voltou a condenar o ataque contra a Venezuela em conversas com a presidente do México Claudia Sheinbaum com o primeiro-ministro do Canadá Mark Carney e com o presidente colombiano Gustavo Petro. A articulação diplomática busca construir uma saída política que evite a generalização do conflito e reafirme o respeito ao direito internacional e à autodeterminação dos povos.
Em Caracas, a presidenta interina Delcy Rodríguez classificou a ação dos Estados Unidos como uma “agressão vil” e reiterou que a Venezuela “não merecia” o ataque sofrido. Em pronunciamento oficial, ela homenageou cubanos e venezuelanos mortos na ofensiva e afirmou que o país responderá com firmeza, mas também com diplomacia, evocando o legado do libertador Simón Bolívar na defesa dos direitos humanos e do direito humanitário internacional.
Paralelamente ao discurso duro, o governo venezuelano anunciou novas libertações de detidos por crimes comuns ou atos de violência, em uma atividade descrita como um “gesto pela paz”.
Apesar de sinalizar supostos recuos pontuais, Donald Trump mantém um discurso explícito de interesse econômico. O presidente afirmou ter cancelado novos ataques após “cooperação” do governo venezuelano, citando a libertação dos presos como sinal positivo. Ao mesmo tempo, anunciou que petrolíferas norte-americanas investirão até US$ 100 bilhões na Venezuela, com a promessa de reconstrução da infraestrutura energética do país.
A apreensão do petroleiro Marinera, de bandeira russa, levou Moscou a reagir com dureza. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a ação dos EUA como ilegal e alertou para o risco de aumento da tensão militar e política no espaço euro-atlântico. Apesar da posterior libertação de dois tripulantes russos, o episódio elevou o grau de preocupação do Kremlin quanto à redução do “limiar do uso da força” contra a navegação civil.
O bloqueio total imposto por Washington às exportações venezuelanas de petróleo começa a produzir efeitos concretos. A tentativa de apreensão do petroleiro Olina, no Caribe, marca a quinta interceptação em poucas semanas. Navios carregados com milhões de barris permanecem parados em águas venezuelanas para evitar confisco, provocando uma queda acentuada nas exportações e aprofundando o estrangulamento econômico do país.
A ofensiva dos Estados Unidos também gerou repercussão no Vaticano. Em discurso inflamado, o papa Leão XIII criticou a “diplomacia baseada na força” e denunciou o enfraquecimento das instituições multilaterais diante da escalada militar global, citando explicitamente a situação venezuelana.
Nas ruas, a solidariedade à Venezuela se espalha. Manifestações com o lema “Mãos fora da Venezuela” foram registradas na Austrália e em países do Sudeste Asiático, como Indonésia, Filipinas e Malásia, evidenciando que, apesar do cerco político e econômico, a Revolução Bolivariana ainda encontra apoio entre movimentos populares ao redor do mundo.
Para saber mais:
Artigo – Análisis geopolítico del ataque contra Venezuela
Artigo – Venezuela: o Império ameaça — e está nu
Artigo – O chavismo em sua hora mais dramática
Vídeo – Do petróleo venezuelano às terras raras: o plano imperialista de Trump
#4: 100 mortos em combate
As consequências humanas e diplomáticas do ataque contra a Venezuela começaram a ser oficialmente dimensionadas pelo governo, com a divulgação de números, medidas de luto e declarações que aprofundam a crise bilateral com os Estados Unidos.
Grande parte do contingente de segurança de Maduro foi morta a sangue frio por resistir ao atentado e defender a revolução bolivariana. O número oficial de mortos foi divulgado pelo ministro do interior Diosdado Cabello: 100 pessoas assassinadas no ataque estadunidense.
Frente a essa contagem, a presidente interina Delcy Rodríguez, decretou sete dias de luto nacional em homenagem aos que tombaram. A mesma Delcy afirmou que relações entre seu país e os Estados Unidos agora têm uma “mancha” sem precedentes na história das relações bilaterais.
O Senado norte-americano não ficou feliz com Trump por não ter sido consultado sobre o uso das Forças Armadas no ataque contra a Venezuela, e votou para proibir que a ação volte a se repetir sem autorização.
Por outro lado, Donald Trump segue com suas ameaças e exige que o governo chavista renuncie à cooperação com a Rússia, China, Irã e Cuba. Há indícios de que a China por sua vez avalie recalcular a rota para manter a parceria com o governo chavista.
Enquanto isso, o blefe trumpista segue. E a sede para beber petróleo de canudinho também. O extremista mantém o discurso de que pode manter o controle da Venezuela e de seu petróleo por vários anos. E os comerciantes europeus do hidrocarboneto, Vitol e Trafigura, já estão na lista da Casa Branca para negociação.

O petróleo venezuelano é considerado do tipo mais poluente – chamado de bruto pesado e ácido, e sua exploração em massa deve gerar grandes impactos ao meio ambiente, indo na contramão de um futuro focado no desenvolvimento de energias renováveis. Não que o mandatário norte-americano e porta-voz do negacionismo climático se importe com isso.
Alinhado à política da devastação ambiental, o presidente estadunidense determinou a retirada de seu país de mais de 60 organizações internacionais. Segundo a administração, grande parte dessas entidades está ligada à ONU e atua em áreas como mudanças climáticas, relações trabalhistas e outras pautas woke.
Neste cenário, tentativas diplomáticas tentam amenizar à violenta retomada da Doutrina Monroe nas Américas, enquanto nas ruas as mobilizações massivas na Venezuela e na Colômbia crescem contra as contínuas ofensivas norte-americanas.
Para saber mais:
Artigo – EUA e Rússia se encaram pela 1ª vez na crise venezuelana
Artigo – La operación en Venezuela para capturar a Maduro amenaza con ensanchar el cisma en el movimiento MAGA
Artigo A situação atual na Venezuela: um governo no comando, um povo resiliente
Artigo – O que não te contaram sobre o governo de Maduro e a economia venezuelana
Vídeo – Venezuela: el pueblo salió a las calles en defensa de la soberanía y contra el imperialismo
#3: O lobista do petróleo
Qualquer análise sobre o atentado do último 3 de janeiro contra a Venezuela que ignore o apetite histórico dos Estados Unidos pelo petróleo do país simplesmente não se sustenta. É como fechar os olhos para o óbvio, já que por trás da retórica agressiva e do desprezo explícito pelo povo venezuelano — a quem Trump chegou a se referir como o povo mais feio do mundo — está a velha obsessão do país imperialista pelo controle do petróleo.
Nos últimos dias, Trump sequer se deu ao trabalho de sustentar os argumentos que antes usava como verniz moral para suas investidas: a suposta falta de democracia ou a alegada ligação do Estado venezuelano com o narcotráfico praticamente desapareceram do discurso. O que ficou foi o blefe nu e cru sobre saquear o petróleo venezuelano. Sem rodeios, sem disfarces.
Não é coincidência. Trump é hoje o principal porta-voz do negacionismo climático no mundo e teve sua campanha presidencial fartamente financiada por gigantes do setor petrolífero dos Estados Unidos, como Energy Transfer, Continental Resources e Hilcorp Energy. A elas se somam pesos-pesados como Exxon Mobil e Chevron, empresas que perderam espaço quando a estatal PDVSA passou a ocupar o centro da política petrolífera venezuelana.

Agora, Trump presta contas a quem bancou sua campanha política. Ao prometer, em tom de ameaça disfarçada de bravata, que a Venezuela entregaria até 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, ele não fala como estadista, mas como lobista. O petróleo, mais uma vez, é o verdadeiro protagonista dessa história.
O secretário de Estado de Trump, Marcos Rubio, entusiasta do golpismo na América Latina, segue afirmando que há um plano de organização do país atacado, na qual haveria uma fase de recuperação onde empresas de seu país teriam acesso ao mercado venezuelano de forma… justa?
A presidente interina de Venezuela Delcy Rodríguez, ameaçada por Trump para cooperar com suas exigências, garante que o controle do país segue na mão do governo chavista e que não há agentes externos nesse processo.
Enquanto isso, no Oceano Atlântico, uma nova embarcação carregando petróleo da Venezuela foi alvo de pirataria dos Estados Unidos. O agravante é que o navio, perseguido por pelo menos duas semanas em rota marítima, havia adotado bandeira e escolta dos russos. Em resposta, a Rússia acusou os Estados Unidos de violar o direito marítimo.
A China voltou a se pronunciar sobre o imbróglio, afirmando que os Estados Unidos atentam contra os interesses do povo venezuelano e contra normas básicas das relações internacionais. Já o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que também está na mira de Trump, disse que voltaria a pegar em armas caso os Estados Unidos invadam seu país, e que camponeses se tornariam milhares de guerrilheiros para defender a soberania nacional.
Os países estão divididos entre defender ou rechaçar o atentado imperialista dos Estados Unidos. E isso ficou claro na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA). Enquanto Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador defenderam a intervenção estrangeira, Brasil, Chile, Colômbia, México e Honduras se posicionaram pela soberania nacional venezuelana.
Nas ruas de Caracas, mulheres se reuniram em marcha pedindo a libertação do presidente Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, sequestrados pelos Estados Unidos no dia 3 de janeiro.
Para saber mais:
Artigo – Guerra contra a Venezuela (Opera Mundi);
Artigo – Mídia brasileira omite os motivos dos ataques do governo Trump à Venezuela (Brasil de Fato);
Entrevista – ‘Ataque à Venezuela e tarifaço no Brasil são parte de uma mesma estratégia dos EUA’, afirma Breno Altman, do Opera Mundi;
Vídeo: Boa Noite 247 – O assalto à Venezuela e a nova ordem internacional (06.01.26)
* Editado por Solange Engelmann
#2: Desdobramentos do ataque dos EUA contra a Venezuela
A ascensão do trumpismo nos Estados Unidos abalou o consenso em torno do multilateralismo como horizonte geopolítico global, entendimento que havia sido arduamente construído no pós-Segunda Guerra Mundial. O ataque contra a Venezuela, ocorrido no último dia 3, dissipou até mesmo as expectativas dos mais otimistas.
Até a ONU reconheceu o enfraquecimento desse paradigma. Em comunicado, a entidade de Direitos Humanos das Nações Unidas afirmou que o país norte-americano “erodiu” um princípio fundamental do direito internacional e que a população venezuelana merece prestação de contas por meio de um processo “justo” e centrado nas vítimas.
E por falar em vítimas, uma apuração do New York Times apontou que mais de 80 pessoas foram mortas no atentado, das quais 32 eram de cubanos. Por esse motivo, a ilha socialista decretou dois dias de luto nacional.
A narrativa construída para legitimar a desestabilização da Venezuela, que acusava o país de servir como rota do narcotráfico supostamente liderado pelo presidente Nicolás Maduro, também começa a ruir. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que antes afirmava categoricamente que Maduro chefiava uma alegada organização criminosa denominada Cartel de los Soles, agora, em uma nova acusação judicial contra o líder venezuelano, sequer reconhece a existência dessa organização como um ente real. Cartel de los Soles é na verdade uma expressão dos anos 1990, para descrever um sistema de “clientelismo” e de corrupção.

Em meio à turbulência política, as forças armadas da Venezuela ratificaram o apoio à vice Delcy Rodríguez, que assume como presidente interina na ausência de Maduro. Trump apresentou uma lista de exigências para respaldar o novo mandato, entre as quais o fim do apoio à Cuba e abertura do mercado petroleiro para empresas estadunidenses.
Na esteira do ataque ao território sul-americano, o extremista norte-americano segue ameaçando outros países. Em sua mira estão Colômbia, México, Cuba e Groenlândia. Nas ruas, os povos de diversos países do mundo seguem exigindo a libertação de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Novos protestos estão marcados para o próximo dia 10 de janeiro.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que mantém uma relação de solidariedade com a Venezuela, avalia o envio de militantes para reforçar ações em defesa do governo chavista.
Para saber mais:
Artigo: Captura ou sequestro? (Brasil247);
Artigo: Terrorismo global de estado contra a Venezuela (Voces en lucha);
Artigo: Horas decisivas en Venezuela: tensión regional y alerta en Nuestra América (Argmedios);
Artigo: Na partilha do mundo, ou você está sentado à mesa, ou é o menu: lições do ataque militar dos EUA à Venezuela para o Brasil (Brasil de Fato).
* Editado por Solange Engelmann
#1: O império ataca
Eventos geopolíticos de grande impacto, como o ataque dos Estados Unidos ao território venezuelano e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada e primeira-dama Cilia Flores, provocam mudanças profundas na conjuntura internacional. Um dos sinais mais evidentes dessas transformações é a intensificação da chamada “guerra comunicacional”.
Informações contraditórias, desinformação espalhada em diferentes canais, grandes veículos de comunicação reproduzindo o discurso dominante como narrativa oficial. O resultado disso é uma sociedade cada vez mais confusa, sem fontes de confiança. Quando os fatos começam a ser esclarecidos, o estrago informacional já está feito.
É diante desse cenário que forças populares, movimentos sociais e coletivos de comunicação se unem para lançar o boletim Venezuela em Foco. A iniciativa nasce com o objetivo de oferecer um canal comprometido com a divulgação de informações confiáveis, em solidariedade com a Revolução Bolivariana e em defesa da soberania dos povos da América Latina. Nosso compromisso é com os fatos. Vamos a eles.
Após meses de ofensiva contra a Venezuela, com sequestro a navios petroleiros no mar do Caribe no final de 2025, o ano novo começou com péssimas notícias para a América Latina.
Na madrugada do dia 3 de janeiro, por volta das 3h da madrugada, o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado por militares estadunidenses enquanto o país era bombardeado em ao menos 6 locais, entre eles o complexo militar do Forte Tiúna, em Caracas, a sede do Ministério da Defesa e o lugar onde vive o presidente. 32 cubanos que faziam parte da segurança do presidente foram mortos. Outros militares e civis também foram assassinados no ataque, mas o número total de mortos ainda não foi divulgado.
Em resposta, milhares de venezuelanos foram às ruas do país em uma marcha antiimperialista. A capital de Barinas, estado onde o líder da revolução venezuelana Hugo Chávez nasceu, também registrou ato.
O exército e a milícia venezuelana subordinada às Forças Armadas do país, junto com coletivos cidadãos, estão prontos para defender o território, a vice-presidente Delcy Rodriguez assume o governo de forma interina pelos próximos 90 dias. Significa dizer que o comando do país segue nas mãos do chavismo, conforme a vontade do povo que segue elegendo o projeto bolivariano nas ruas e nas urnas, a despeito das intervenções imperialistas.
Nesta segunda-feira, a Assembleia Popular venezuelana empossou parlamentares eleitos no pleito em 2025, conforme rito já previamente agendado, e reelegeu o chavista Jorge Rodriguez à presidência do parlamento. Jorge e Delcy são irmãos criados na tradição chavista e figuras centrais para o governo Maduro.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, submetidos a um tribunal em Nova Iorque, algemados e escoltados por forte aparato policial, Maduro e Cilia se declararam prisioneiros de guerra e inocentes.
Em reunião do Conselho de Segurança da ONU, o embaixador venezuelano Samuel Moncada falou que o ataque foi motivado por “ganância” por petróleo e por uma posição geopolítica mais favorável, denunciando também violação da carta das nações unidas. A Rússia, por sua vez, qualificou o ataque como “bandidagem” e a China se posicionou em defesa o país sul-americano.
Desde o ataque do dia 3, uma onda de protestos vem sendo realizada em diversos países do mundo. No Brasil, o MST junto de outros movimentos populares, coletivos e partidos de esquerda convocam manifestações. O Movimento Sem Terra também lidera uma iniciativa junto com PSOL e PT para a criação de uma frente emergencial de solidariedade à Venezuela que começa a atuar no dia 14.
Para saber mais, assista:
Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.
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