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Modi afirmou que Índia e China devem ser “parceiros, não rivais”, e sinalizou disposição para negociar solução para a disputa de fronteira. (Foto: Reprodução / X - Narendra Modi)

“Pragmatismo necessário”: unidade entre Xi, Putin e Modi na OCX é recado direto a Washington

Cena dos três líderes de mãos dadas pode até parecer mero teatro, mas revela fissuras no sistema internacional; se EUA insistirem em tarifas, Índia, China e Rússia buscarão alternativas próprias

Esmael Morais
Blog do Esmael
Curitiba (PR)

Tradução:

Os líderes de China, Rússia e Índia — Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi, respectivamente — aproveitaram a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), em Tianjin, nesta segunda-feira (1º), para exibir sinais de unidade política e geopolítica. O encontro, marcado por sorrisos, mãos entrelaçadas e declarações públicas, teve como objetivo mostrar ao mundo que os países do Brics podem oferecer um contrapeso à hegemonia ocidental.

Na abertura, Modi e Putin chegaram de mãos dadas, dirigindo-se a Xi Jinping. O gesto foi interpretado como recado direto à Casa Branca: se os Estados Unidos insistirem em políticas de tarifas e isolamento, Índia, China e Rússia buscarão alternativas próprias.

Analistas lembram que, apesar de divergências históricas, como disputas de fronteira entre Índia e China, a encenação de proximidade reforça a ideia de que os três gigantes asiáticos querem maior protagonismo global, sobretudo em um momento em que o presidente Donald Trump elevou tarifas contra Nova Délhi em 50%.

Participaram do encontro mais de 20 líderes de Ásia Central e do Sul, incluindo Irã, Cazaquistão, Quirguistão, Belarus e Paquistão. O evento resultou na Declaração de Tianjin, que condena ataques dos EUA e de Israel ao Irã e reafirma compromissos contra terrorismo e proliferação nuclear.

Xi Jinping anunciou a criação do Banco de Desenvolvimento da OCX e um pacote de US$ 1,4 bilhão em crédito para os membros. Defendeu ainda uma nova governança global “mais justa e equitativa”. Putin, por sua vez, destacou que a ordem mundial centrada no Ocidente está obsoleta. Modi classificou a cooperação no bloco como essencial para combater o terrorismo e impulsionar o crescimento econômico.

O movimento de Modi chama atenção. Desde 2018 ele não visitava a China. As tarifas impostas por Trump, que desestruturaram a estratégia “China Plus One” (atrair fábricas americanas para a Índia como alternativa a Pequim), empurraram Nova Délhi para a aproximação com Xi.

Modi afirmou que Índia e China devem ser “parceiros, não rivais”, e sinalizou disposição para negociar solução para a disputa de fronteira. A imprensa indiana classificou a reaproximação como um “pragmatismo necessário” diante da crise comercial com os EUA.

Nos bastidores, o Kremlin destacou a acolhida calorosa dada a Putin, que chegou em carro oficial Aurus com placas chinesas e foi recebido ao som da canção russa Kalinka-Malinka. Já a diplomacia chinesa comemorou o tom amistoso de Modi, visto como passo importante para conter tensões militares na fronteira.

O Quirguistão assumiu a presidência rotativa da OCX e deve organizar a próxima cúpula em 2026. Até lá, o desafio será transformar a encenação de Tianjin em cooperação real, sobretudo em infraestrutura, energia e segurança.

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A cena dos três líderes de mãos dadas pode até parecer mero teatro, mas revela fissuras no sistema internacional. Ao contrário do que os EUA desejam, Índia, China e Rússia buscam afirmar uma multipolaridade pragmática. O risco, porém, é que interesses divergentes e velhas disputas voltem a minar essa aproximação.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Esmael Morais

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