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Mural com fotos de vítimas do genocídio em Ruanda - Centro Memorial do Genocídio (Foto: Adam Jones / Flickr)

30 anos do genocídio em Ruanda: símbolo do fracasso da França, dos EUA e da ONU

A longo prazo, a potência que ficou mais danificada pela matança foi a França, mas vale apontar a responsabilidade dos EUA, que foram alertados sobre o massacre e se abstiveram
JUAN ANTONIO SACALUGA
Nueva Tribuna
Madrid

Tradução:

Ana Corbisier

Em abril rememorou-se o trigésimo aniversário do genocídio em Ruanda. Os testemunhos dos sobreviventes, a impunidade de alguns responsáveis pela matança e a recriação daqueles dias terríveis ocuparam a maior parte do relato. Na surdina, as responsabilidades das potências europeias e da ONU por sua passividade, cumplicidade voluntária ou involuntária e seu desdém dissimulado pelo sofrimento evitável daqueles que não são brancos.

Os Estados Unidos saíram muito mal desse episódio vergonhoso, e as elites políticas ainda o lamentam. O discurso oficial garante que depois do “fracasso” de Ruanda, a administração Clinton se convenceu de que não podia tolerar o massacre indiscriminado de populações por sua raça ou pertencimento nacional. E esse “arrependimento” precipitou as intervenções militares na Bósnia (1995) e na Sérvia (1999). Na realidade, e à parte dos crimes cometidos pela Sérvia no Kosovo e por seus protegidos na Bósnia, o certo é que as chamadas “intervenções humanitárias” responderam a interesses geoestratégicos menos cândidos.

“Macron estendeu a mão ao novo Presidente, mas a credibilidade do Eliseu na África está muito baixa”

No entanto, a longo prazo, a potência que ficou mais danificada pela matança de Ruanda foi a França. Na rivalidade étnica entre os hutus e os tutsis, Paris jogou sempre a favor dos primeiros, por serem os aliados naturais em um projeto de reforço neocolonial. Os tutsis eram minoria, mas ocupavam postos de responsabilidade no Estado. Eram, em geral, mais instruídos e seus traços físicos eram mais destacados, segundo a narrativa racial imperante. Eram maioria na vizinha Burundi e o que era mais inquietante para a França, tinham boas relações com os países anglo-saxões e com os estados africanos afins (Uganda, Tanzânia…).

Um horrível banho de sangue

Quando no começo dos anos 1990 instalou-se um novo governo extremista hutu em Kigali, sob a liderança do Presidente Habyarimana (que se dizia moderado), Paris não evidenciou mal-estar algum. Nos primeiros dias de abril de 1994 desencadeou-se a tragédia. O Presidente faleceu em um estranho acidente de avião quando regressava do Burundi. Os hutus acusaram os rebeldes tutsis da Frente Patriótica de ter derrubado o avião com um míssil. No evento ou atentado morreu também o presidente do Burundi e o chefe do exército ruandês.

Os hutus extremistas aproveitaram o magnicídio para iniciar uma furiosa campanha de represálias. Depois de liquidar os hutus moderados, encheram as ondas da Rádio das Mil Colinas com mensagens de ódio, instigando milicianos e gente a pé para matar todos os tutsis que encontrassem em seu caminho. A maioria é acabada a golpes de facão. As imagens do massacre podem ser vistas no mundo todo. Poucas vezes se tinha podido contemplar um desencadear de crueldade semelhante. Em apenas umas poucas semanas, foram assassinados cerca de 800 mil tutsis.

Washington foi alertado do que ocorria desde os momentos iniciais. Mas absteve-se de intervir e até de evacuar os ameaçados. O mesmo fez a ONU, com o argumento de não querer envolver-se em um “conflito interno”. A França assistiu ao horror com a frieza da razão de Estado. Mitterrand logo se deu conta de que o assunto escapara de suas mãos, mas pensava assegurar Ruanda entre os estados africanos “amigos”.

Os governos aliados foram caindo, ante a persistência da insurgência e o empobrecimento das populações

Uma das suspeitas de instigação da matança é a chamada viúva do Presidente, Agatha Habyarimana. Paris conseguiu evacuá-la nos primeiros dias do espanto, sem que isso pudesse calar suas acaloradas proclamações. Sua fuga do país foi o começo de um périplo de 30 anos em que tentou branquear sua imagem. 

Os sucessivos governos franceses tentaram afastar-se de Agatha e de outros matadouros que encontraram em solo francês um refúgio. Mitterrand, que favoreceu sua chegada à França, disse depois sobre ela “que tinha o demônio no corpo”. A viúva não conseguiu o status de “refugiado político”. O Escritório francês de Proteção a Refugiados considera que os indícios de responsabilidade no genocídio são esmagadores. Mas seus advogados conseguiram que não fosse extraditada a Ruanda. Hoje, com 82 anos, vive em um limbo jurídico e político. Impune, em todo caso.

A revanche dos Tutsis

Depois da matança, os rebeldes da Frente Patriótica (FPR), organizada no exílio ugandês e integrada por tutsis e membros da oposição hutu, penetraram em território ruandês e conseguiram derrubar o governo extremista hutu. Começou então uma campanha de vingança. Milicianos tutsis perseguiram centenas de milhares de hutus quando fugiam para a República do Congo (antigo Zaire). O líder do FPR, Paul Kagame, tornou-se o novo Presidente. Anglófilo e anti-francês, imprimiu a Ruanda um rumo muito diferente daquele que Paris desejava.

Nestas três décadas, Ruanda prosperou economicamente. Reduziu-se a pobreza, atraiu-se capital estrangeiro e os serviços melhoraram. Mas o governo se fez cada vez mais autoritário e a oposição é consentida a duras penas. Com o argumento de perseguir os genocidas hutus fugidos para o Congo, Ruanda interveio continuamente na crise endêmica do vizinho, um país muito maior, mas corroído pelas rivalidades étnicas, a corrupção e os senhores da guerra. 

Nos últimos anos, Kagame, para desgosto de Paris, apoiou abertamente a guerrilha do M-23, que quer derrubar o governo da República Democrática do Congo. No ato de homenagem às vítimas do genocídio, Kagame não deixou de dirigir seu dedo acusador para a França por considerar que seus lamentos são hipócritas, já que continua protegendo os verdugos.

O arrependimento cênico da França

Refugiados ruandeses após eclosão da guerra civil no país (3 de agosto de 1994 – Foto: Arquivo Nacional dos EUA)

O presidente francês foi um pouco mais longe que seus antecessores, admitindo a responsabilidade da França na matança, dizendo que poderia tê-la evitado, “mas não teve a vontade”. Com sua viagem a Kigali, em maio de 2021, quis selar a “reconciliação”. Viu-se depois que se tratava de uma operação de relações públicas. Não admitiu a “culpabilidade” e ainda menos a “cumplicidade” da França e pretexto motivos de agenda para não participar dos atos do 30º aniversário em Kigali.

Quando se trata da África, o peso na consciência da França é muito leve. Como ocorre com qualquer potência, em quase todas as tragédias que ocorrem nas antigas colônias pode-se rastrear com clareza as pegadas ocidentais. Ruanda não é um caso isolado.

Em Burkina Faso e no Mali assumiram o poder Juntas militares hostis à França. Em 2022, caía o Níger, o principal bastião da França na região. Só restou o Chade como local seguro. Até quando?”

A responsabilidade francesa (e ocidental) prolongou-se além do período colonial. Nas primeiras décadas das independências na África, a mão comprida de Paris condicionou o desenvolvimento das novas nações. As elites governantes agiam em não poucas ocasiões seguindo a diretriz do Eliseu, mesmo quando usavam uma linguagem africanista e libertadora. Os mecanismos de dependência tornavam muito difícil outra política.

A matança de Ruanda marcou o início de um novo ciclo, lento e contraditório, não pela brutalidade espantosa do ocorrido, e sim pelo tempo em que ocorreu. O fim da rivalidade Leste-Oeste liberou a África das dinâmicas da guerra fria. Durante alguns anos, pareceu haver uma despreocupação ocidental com o continente, ainda que os interesses fundamentais, como a exploração das riquezas fósseis e minerais, as redes de penetração de produtos ocidentais e outros fatores da dependência se mantivessem ferreamente.

Nos anos bisagra da mudança de século, surge a “ameaça” islamista. A África se torna um espaço de retaguarda; depois, em plataforma de reserva; e, mais tarde, com as derrotas parciais da Al Qaeda e do Daesh, um dos núcleos mais ativos da insurgência.

A França assume o papel de gendarme ocidental frente ao islamismo radical no continente. Em sucessivas operações militares (Serval, Barkhane), fortalecidas por missões da ONU (MINUSMA), as forças armadas francesas estenderam seu aparente controle sobre o coração árido da África conhecido como Sahel. No auge de sua atividade, o dispositivo militar contou com mais de 5.000 soldados.

Apesar de uma tal utilização de forças (não só militar, mas também diplomática, política e econômica), a França não conseguiu fazer-se aceitar. Os governos aliados foram caindo, ante a persistência da insurgência e o empobrecimento das populações. Em Burkina Faso e no Mali chegaram ao poder Juntas militares hostis à França. Em 2022, caía o Níger, o principal bastião da França na região. Só resta o Chade como local seguro. Até quando?

Agitação na costa ocidental

O enfraquecimento das posições políticas francesas não ocorreu só no Sahel. Detectam-se focos de instabilidade na costa ocidental do continente. O caso mais recente foi o do Senegal, talvez o país mais importante para Paris em seu universo pós-colonial.

Após uma crise prolongada em que os equilíbrios políticos da independência foram pelos ares, uma opção populista, confusa, mas desacostumadamente crítica em relação à França venceu as recentes eleições. O anterior Chefe do Estado, Sacky Mall, já não podia ser candidato, apesar de ter tentado com uma manobra manipuladora da Constituição que não deu certo. Escolheu seu primeiro-ministro como opção B, mas nunca o apoiou decididamente, enquanto seu partido se desmanchava em querelas internas.

Mall tentou então suspender as eleições, alegando perigo de desestabilização social. Na realidade, temia a força do movimento populista, cujos líderes tinham encarcerado, alegando motivos obscuros, o que desencadeou uma onda de protestos de rua que provocaram dezenas de mortes. O Tribunal Superior, apesar de sua tradicional conivência com o poder político, discrepou da medida extrema do Presidente, obrigando-o a restabelecer o processo eleitoral. Por temor a uma revolta geral ou por um cálculo equivocado, Mall decretou uma anistia que pôs os dois opositores na rua, dez dias antes das eleições.

O líder do movimento populista PASTEF (Patriotas africanos do Senegal pelo Trabalho, a Ética e a Fraternidade) Ousman Sonko, um modesto fiscal de impostos. Em chave predicadora, arrastou milhões de senegaleses em manifestações contra uma elite governante corrupta e servil. O ex-presidente Mall quis acabar definitivamente com sua carreira política ao promover sua inabilitação. Sonko delegou sua candidatura presidencial a seu “delfim”, Bassirou Diomaye Faye, um jovem sem experiência política.

Os populistas conseguiram um apoio popular inaudito em apenas poucos anos. Com 56% dos votos, superaram em mais de doze pontos o partido oficialista. Seu programa é ambíguo e confuso. Baseia-se mais nas rejeições (da corrupção, da repressão, da servidão ao exterior) do que nas propostas.

Ignora-se o que vai fazer Faye. No momento, pôs seu mentor, Sonko, como primeiro-ministro. Em seu discurso de posse no cargo, o jovem presidente quis soar conciliador, mas sabe que não pode decepcionar uma população que reclama mudanças radicais, e muitos deles renegociam contratos minerários e petroleiros que não favoreceram o bem-estar da população.

Macron estendeu a mão ao novo Presidente, mas a credibilidade do Eliseu na África está muito baixa. E tudo isso enquanto a China se firma como grande potência no continente, apesar de que seus planos de penetração econômica tenham tido menos êxito do que se esperava. A Rússia também pisa forte, com uma estratégia distinta: como provedor de segurança frente ao islamismo. O realinhamento neocolonial na África está em construção.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

JUAN ANTONIO SACALUGA

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