Pesquisar
Pesquisar

4 de julho: com democracia contestada, independência dos Estados Unidos ainda está em disputa

Ao longo dos últimos anos forças direitistas têm buscado limitar e suprimir o voto afro-estadunidense, latino e indígena e dos pobres através de leis estaduais

David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Dia da Independência em um Estados Unidos no qual se batalha por resgatar essa democracia que supostamente nasceu em 4 de julho de 1776, um país onde literalmente se está lutando pelo suposto princípio sagrado de “uma pessoa, um voto”, junto com o que se proclamou na Declaração de Independência de que “todos os homens são criados iguais” e que proclama a “terra da liberdade”. 

Alguns historiadores opinam que a democracia representativa estadunidense nasceu, na verdade, em 1965, com a aprovação da Lei de Direito ao Voto garantindo o sufrágio efetivo de todos os cidadãos ao proibir a discriminação racial pela primeira vez — um triunfo histórico do movimento de direitos civis.

0d640317 7d9a 42fb 9398 91a29f375525

Mas, ao longo dos últimos anos forças direitistas têm buscado limitar e suprimir o voto afro-estadunidense, latino e indígena e dos pobres através de leis estaduais – mais de 20 medidas desse tipo foram aprovadas em 17 estados só neste ano. A Suprema Corte acaba de decidir a favor de um par destas leis no Arizona, ou seja, contra a democracia. 

Ao longo dos últimos anos forças direitistas têm buscado limitar e suprimir o voto afro-estadunidense, latino e indígena e dos pobres através de leis estaduais

Wikimedia Commons
Dia da Independência em um Estados Unidos

Enquanto se celebra a festa patriótica, a maior ameaça à segurança nacional do país, segundo as autoridades federais, são os supremacistas brancos, neonazistas e outros extremistas xenofóbicos, ou seja, inimigos dessa sagrada “liberdade” e “igualdade” que Washington tanto deseja exportar ao resto do mundo, frequentemente à força (através de golpes de Estado, intervenções, guerras etc.).  

58b18feb 8b9f 44fa 86cc 400379ddea11

A ex-veterana militar Brittany Ramos DeBarros comenta esta semana que “a única maneira que consigo aguentar o Quatro de Julho é… porque estou trabalhando com veteranos militares e as pessoas mais impactadas pela guerra… levando a causa às ruas e aos corredores do Congresso para frear o uso do patriotismo cego como justificativa de guerras”, declara a diretora da organização de About Face: Veterans Against the War.

Para Nick Tilsen, diretor do Coletivo NDN, agrupamento indígena, “o 4 de julho é… uma narrativa falsa de democracia… dizem que se trata de dar direitos às pessoas, mas toda esta nação foi construída sobre as terras roubadas de povos indígenas”.

aab9be8f 6a3d 4705 a2f5 d07184a37734

Frederick Douglass, o grande abolicionista, ex-escravo afro-estadunidense e editor do extraordinário jornal North Star, declarou em seu famoso discurso sobre o 4 de julho em 1852: “O que compartilho eu, ou os que represento, com a independência nacional dos senhores? Aqueles grandes princípios de liberdade política e de justiça natural, encarnados nessa Declaração de Independência nos incluem? 

“Este Quatro de julho é dos senhores, não meu… Não duvido em declarar, com toda a minha alma, que o caráter e a conduta desta nação nunca me pareceram mais escuras que neste 4 de julho… Estados Unidos é falso ao passado, falso ao presente e solenemente se ata para ser falso ao futuro… Por barbarismo repugnante e hipocrisia sem vergonha, Estados Unidos reina sem rival”.  [https://www.pbs.org/wgbh/aia/part4/4h2927t.html].].

cf21a13a 882a 43de 885c b995137b7a87

Para Langston Hughes em seu poema de 1955, “Let America be America Again”:

“Sou o pobre branco, enganado e apartado
Sou o negro aguentando as cicatrizes da escravidão
Sou o homem vermelho expulso da terra
Sou o imigrante agarrado da esperança que busco… Mas sou o que sonhou nosso sonho básico… Quem disso isso de liberdade? Os milhões que vivem de assistência (pública) hoje
os milhões baleados quando estamos em greve? Os milhões que não temos nada em pagamento? Por todos os sonhos que temos sonhado
E todas as canções que temos cantado
E todas as esperanças que temos guardados
E todas as bandeiras que temos agitado
Os milhões que temos nada de salário
Exceto o sonho que quase está morto hoje… Oh, que América seja América outra vez
Terra que nunca existiu ainda
E ainda tem que ser terra em que todos estejam livres…”
[https://poets.org/poem/let-america-be-america-again].

O 4 de julho está ainda em disputa nos Estados Unidos, como tem sido desde suas origens.   

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

 

cf21a13a 882a 43de 885c b995137b7a87

   

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

LEIA tAMBÉM

Gaza, Caracas, Florianópolis quando o Direito cede à “lei do mais forte”
Gaza, Caracas, Florianópolis: quando o Direito cede à “lei do mais forte”
Menores nas redes sociais entenda anúncio de Sánchez que gerou nova selvageria de Musk (3)
Proteger crianças na internet: entenda anúncio de Sánchez que gerou ataques de Musk
Xi e Putin reafirmam apoio a Cuba e Venezuela em meio às pressões dos EUA a
Xi e Putin reafirmam apoio a Cuba e Venezuela em meio às pressões dos EUA
Os povos que enfrentaram a Segunda Guerra vencerão novamente o fascismo
Os povos que enfrentaram a Segunda Guerra vencerão novamente o fascismo