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650 crianças separadas dos pais pelo governo Trump ainda não reencontraram suas famílias

Organização Families Belong Together colocou mas de 650 ursinhos de pelúcia em uma jaula perto do Capitólio para recordar a situação aos legisladores
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Me asseguraram que este era um país de primeiro mundo. Me enganaram. Recordo a velha piada de que aqui não havia golpes de estado porque não havia uma embaixada estadunidense. Agora só falta que Luis Almagro chegue com a OEA para anular a eleição e resgatar o país dos “comunistas”, como alegam Trump e sua gente. 

Aqui nos últimos dias há imagens e declarações que põem em dúvida isso de “primeiro mundo” e mais ainda, isso de “farol da democracia”. O que mais assombra é que depois destes quatro anos, e sobretudo depois deste processo eleitoral, que ainda haja neste país aqueles que seguem oferecendo proclamações, julgamentos e recomendações a outros países sobre democracia, eleições, processos democráticos, direitos humanos e outras coisas mais. Seria bom que guardassem um pouquinho de silêncio enquanto aplicam tudo isso ao seu próprio país, para começar – inclusive solicitar umas recomendações de outros países que sabem de tudo isso.     

Na semana passada havia imagens de intermináveis filas de autos em Dallas – anteriormente símbolo de riqueza – à espera de receber assistência alimentar para suas famílias. Em El Paso, presos foram recrutados para ajudar as autoridades a trasladar corpos dos hospitais abrumados por casos de Covid. Estas cenas não são exclusivas do Texas, se repetem ao longo de um país onde há cada vez mais fome em meio da devastação econômica e social provocada pelo manejo político irresponsável e criminoso da pior crise de saúde pública em um século.  

Milhões estão à beira de ser tirados de suas casas por não poder pagar aluguéis ou hipotecas, milhões mais se encontrarão sem assistência ao desemprego nas próximas semanas – ou seja, como presente de Natal – se o governo não aprovar mais fundos e não estender as moratórias de pagamento de dívidas e alugueis. Sem falar dos imigrantes – entre eles os chamados “trabalhadores essenciais” que estão resgatando o país em meio destas crises – aqueles que não têm direito a nenhuma assistência, e só o direito de ser explorados e descartados. 

Organização Families Belong Together colocou mas de 650 ursinhos de pelúcia em uma jaula perto do Capitólio para recordar a situação aos legisladores

U.S. Border Patrol and Customs
Além do descaso com os direitos humanos, milhões estão à beira de ser tirados de suas casas por não poder pagar aluguéis ou hipotecas.

Na semana passada, o organização Families Belong Together colocou mas de 650 ursinhos de pelúcia em uma jaula perto do Capitólio para recordar aos legisladores que mais de 650 crianças imigrantes arrancados dos braços de suas famílias pelo governo de Trump ainda não foram reunificados. 

Enquanto Trump saudava manifestações de supremacistas brancos e neonazistas que se manifestavam em apoio ao presidente, o FBI reportou que os crimes de ódio neste país chegaram ao seu nível mais alto em uma década (7.314), entre os quais se registrou o número mais alto de homicídios motivados por ódio desde que o FBI começou a divulgar essa cifra. Dos 51 homicídios por ódio em 2019, 22 deles em El Paso, assassinados por um jovem motivado pelas palavras de Trump e cujo objetivo era matar “mexicanos”.

Sem falar sobre a eleição e o que parece ser uma tentativa, embora muito mal feita até agora, de autogolpe de estado por Trump e sua equipe. Ao declarar a existência de uma magna fraude desde antes da eleição e cumprindo agora sua promessa de não reconhecer o resultado se não fosse o ganhador, as acusações chegaram a níveis espetaculares. Em uma das entrevistas coletivas mais estranhas da história do país, Rudy Giuliani e outros advogados encarregados de demonstrar a fraude, acusaram Hugo Chávez – que morreu em 2013 – de ser um dos responsáveis, junto com George Soros, os cubanos e talvez os chineses. Mais tarde sugeriram que no estado da Georgia, o governador republicano foi subornado por venezuelanos e pela CIA para entregar a eleição – com o triunfo do democrata Joe Biden – a “comunistas”. 

Entre golpes de Estado e chavistas tomando por assalto a Georgia, no meio do epicentro mundial da pandemia, a imagem do fim de semana foi Trump jogando golfe, igual que Nero com seu violino. 

E me dizem que estou em algum lugar do primeiro mundo.  

“Quando os universos chocam” Gogol Bordello

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As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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