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O discurso do presidente Donald Trump perante o Congresso Estadunidense

Donald Trump insiste no muro diante da crise na fronteira com México e a intervenção na Venezuela
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Donald Trump, em seu informe à nação no Congresso, na terça-feira 5 de fevereiro, declarou ser o melhor presidente e insistiu em que a chamada “crise” na fronteira com o México só pode ser enfrentada com um muro; justificou sua intervenção na Venezuela como um grande resgate da democracia, e por alguma razão decidiu ser necessário reafirmar que “Estados Unidos nunca será um país socialista”.

O segundo Informe anual sobre o Estado e a Nação ao Congresso, antes mesmo de começar já era uma paródia, posto que anunciou que sua mensagem seria, uma, promovendo “a unidade” e o “bipartidarismo”, isso dito pelo presidente mais divisionista na história moderna do país. Vale recordar que essa manifestação foi postergada por um semana enquanto Trump provocou a mais longa paralisação da história do governo por insistir na aprovação pelo Congresso de verbas para seu muro fronteiriço.

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Declarou que desejava apresentar não uma agenda partidária, mas sim “a agenda do povo estadunidense”. De imediato se auto-elogiou afirmando que com dois anos de seu governo o país desfruta de um auge econômico “sem precedentes” , tem as forças militares mais poderosas do planeta e “América (EUA) está ganhando a cada dia todos os dias”.

Não obstante advertiu que para construir sobre essas conquistas no bipartidarismo não poderia haver “investigações ridículas partidárias”, aparentemente referindo-se às múltiplas investigações sobre sua eleição e seu governo desencadeadas desde o dia em que tomou posse na Casa Branca.

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Dedicou amplo espaço ao tema migratório que qualificou como uma “crise nacional urgente” na fronteira sul. Advertiu que mais caravanas organizadas estão vindo em direção aos Estados Unidos e que, para não tê-las no território as cidades mexicanas ajudam transportá-las à fronteira norte. Por causa disso ordenou o deslocamento de mais 3.750 soldados à fronteira.

“Temos o dever moral de criar um sistema de imigração que proteja as vidas e os empregos de nossos cidadãos… Esta noite, peço a todos que, por amor e devoção a nossos cidadãos e a nosso país, defendam nossa fronteira sul, muito perigosa”. 

Reiterou suas frases sobre a violência e as ameaças que significam os migrantes criminosos e as drogas lícitas que cruzam a fronteira, das “incontáveis” vítimas estadunidenses e solicitou a aprovação de série de medidas, incluindo o projeto para o muro. Insistiu que “simplesmente, os muros funcionam, os muros salvam vidas”.

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Sobre política exterior, destacou que seu governo reconheceu “o governo legítimo de Venezuela” de Juan Guaidó em apoio ao “povo” venezuelano em sua “busca pela liberdade e condenou a brutalidade do regime de Maduro, cujas políticas socialistas transformou essa nação que era a mais rica da América do Sul num estado de pobreza abjeta e desesperadora”.

Foi nesse ponto que Trump, com visível saudades da guerra fria, afirmou que nos Estados Unidos “estamos alarmados pelas novas manifestações para adotar o socialismo em nosso país. América (EUA) foi fundada sobre liberdade e independência, não coerção, dominação e controle governamental. Nascemos livres e permaneceremos livres. Esta noite renovamos nossa determinação de que Estados Unidos nunca será um país socialista”. Isso fez com que vários legisladores republicanos se levantassem a gritar “USA, USA”.

Mudando o foco destacou os êxitos em promover conversações com a Coreia do Norte e anunciou uma nova reunião de cúpula ainda neste mês de fevereiro. Disse que está cumprindo com o compromisso que terminar com as “guerras sem fim”, reiterou fidelidade absoluta para com Israel, ao mesmo tempo em que ameaçou de novo o “regime radical” do Irã e celebrou ter liquidado com o tratado com a Rússia de limitação de mísseis intermediários. Também exaltou a substituição do tratado de livre comércio com o agora chamado USMC (Estados Unidos, México e Canadá).

Para o pública interno convocou para um maior esforço para controlar os preços no sistema de saúde e dos medicamentos, promover mais projetos de infraestrutura e outros temas em que será preciso buscar o consenso bipartidário.

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“Optemos pela grandeza” apelou no discurso transmitido ao vivo à toda nação, que soe ser mais um espetáculo político que um informe. Como é o maior do ano e de grande projeção, a coreografia também corresponde ao show midiático-político.

Apesar disso, muitas legisladoras do partido Democrata estavam vestidas de branco, homenagem ao movimento pelo direito de voto das mulheres diante dos esforços por limitar esse direito e de suprimir outras conquistas das mulheres como a da livre opção pelo aborto.

Pela primeira vez o presidente pronunciou seu discurso com uma mulher, a democrata Nancy Pelosi, na presidência da Câmara de Deputados, e diante de uma plenária mais diversa e progressista na história contemporânea, integrada por gente jovem eleitos pelos movimentos de oposição e resistência detonados pela posse de Trump na presidência.

Os democratas tinham como convidados especiais a jovens indocumentados e outros migrantes diretamente afetados pelas políticas anti migratórias de Trump, jovens ativistas a favor do controle de armas que foram vítimas de tiroteio e defensores de direitos LGBT e das mulheres.

Como de costume o presidente também tinha seus convidados: heróis de guerras, vítimas de criminosos indocumentados e Joshua Trump, um menino que tinha sofrido assédio por seu sobrenome, entre outros, sentados ao lado da primeira dama Melania Trump, que se propõe ser arauto da campanha contra o assédio.

Ainda não se tem o número exato para aquela noite para saber se Trump bateu seu recorde de afirmações falsas ou enganosas em seus dois anos de presidência. Segundo o Washington Post, da posse até aquele dia foram mais de 8.459 falácias, uma média de 16,5 pronunciamentos por dia enganando o povo com mentiras.

*Do correspondente de La Jornada em Nova York – Direitos exclusivos.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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