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A agulha no palheiro do desenvolvimento Pós-2015

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Jonathan Rozen*

Moradores de Clara Town, um bairro pobre da Monróvia, na Libéria. A carência de água potável e de saneamento continua sendo problema angustiante para milhares de milhões de pessoas no mundo. Foto: Travis Lupick/IPS Moradores de Clara Town, um bairro pobre da Monróvia, na Libéria. A carência de água potável e de saneamento continua sendo problema angustiante para milhares de milhões de pessoas no mundo. Foto: Travis Lupick/IPS

Quais objetivos terão prioridade na Agenda de Desenvolvimento Pós-2015 da ONU? Quais merecem mais fundos? E quais metas ajudarão uma quantidade maior de pessoas?

Essas são as perguntas que tenta responder o Centro de Consenso de Copenhague (CCC), uma organização de pesquisa que analisa a forma como os governos e filantropos devem gastar seus recursos para ajudar o desenvolvimento mundial.

“Neste momento, o processo pós-2015 da Organização das Nações Unidas (ONU) parece um pouco como ir a um restaurante muito caro, onde lhe entregam o cardápio, mas sem os preços. Não se tem ideia do que nos espera. Não se sabe o que é realmente bom e o que não é”, apontou à IPS o presidente do CCC, o dinamarquês Bjorn Lomborg.

Na medida em que o mundo deixa para trás os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), cujas metas terminam no próximo ano, e se encaminha para a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, os Estados membros deverão decidir em quais objetivos se concentrarão, bem como a melhor maneira de abordá-los. A lista atual contém cerca de 1.400 metas, que vão desde a erradicação da pobreza até a mitigação das enfermidades.

“Gostaríamos de analisar todos estes objetivos e perguntamos, quanto custam, quanto vão fazer?”, pontuou Lomborg. “Se o dinheiro não fosse uma preocupação, deveríamos nos dedicar a todos esses objetivos, mas claramente não temos dinheiro suficiente para lidar com tudo”, acrescentou. Em julho de 2012, Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, designou 27 líderes de governos, da sociedade civil e do setor privado para o Grupo de Alto Nível Sobre a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015. Com base na análise desse organismo, o CCC identificou cerca de 60 objetivos que devem ser avaliados economicamente.

O CCC surgiu em 2004, por iniciativa de Lomborg, para estabelecer as prioridades que levem ao bem-estar da humanidade, e solicitou a alguns dos principais economistas do mundo que avaliassem esses objetivos, segundo a quantidade de dinheiro que custarão e o impacto que terão. “Estamos colocando etiquetas com preços em todas essas coisas”, afirmou durante sua entrevista à IPS. “Assim teremos uma ideia do que acabaremos comprando. Qual é o retorno do investimento?”, acrescentou.

Depois da avaliação dos economistas, os resultados serão divulgados entre as agências da ONU e organizações não governamentais para receber suas contribuições, explicou Lomborg. Esses dados serão apresentados a um grupo de quatro ganhadores de prêmios Nobel para que os categorizem segundo sua capacidade de retorno sobre o investimento. “Creio que isso ajudará imensamente a conversação, não só para os Estados membros, mas para milhares de milhões de pessoas”, acrescentou.

O CCC reconhece que a escolha e a priorização dos objetivos para a agenda posterior a 2015 estão profundamente influenciadas por dinâmicas políticas e interesses nacionais. “Em última instância, esta será uma decisão política que será tomada por muita gente diferente, com numerosos interesses diferentes. Mas vemos a nós mesmos dando incentivo às boas ideias e desestimulando as más”, observou Lomborg.

Durante uma visita a Nova York, os representantes do CCC se reuniram com numerosas missões dos Estados membros e organismos da ONU. Todos expressaram seu apoio à iniciativa. “O ponto de vista econômico é uma perspectiva importante, mas pode haver outros critérios também para determinar quais devem ou não devem ser os objetivos”, argumentou à IPS o diplomata Peter van der Vliet, representante permanente adjunto da Missão Permanente da Holanda junto às Nações Unidas.

Para que as iniciativas tenham seu peso nas decisões da ONU, é importante reconhecer que outros fatores influirão de maneira inevitável nos resultados, destacou Lomborg. “Damos as boas-vindas a essa contribuição do CCC e acreditamos que, junto com todas as ideias e iniciativas semelhantes de representantes da sociedade civil, enriquecerá as deliberações”, declarou Amina Mohamed, assessora especial de Ban Ki-moon para planejamento para o desenvolvimento pós-2015.

O CCC reconhece que os números que surgirem de sua avaliação provavelmente venham a ser “inconvenientes” para alguns setores, e seguramente não serão o único fator na determinação das prioridades, mas também acredita que os custos financeiros das metas individuais devem ser levados em conta. “A evidência econômica ajudará a incentivar as boas ideias e afugentar as más, e a política, inevitavelmente, também fará algo disso. Mas se formos capazes de empurrar na direção correta, isso é tudo o que se necessita”, enfatizou Lomborg.

Embora a magnitude da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015 traga muitos níveis de complexidade ao processo de avaliação das metas, também significa que tem a capacidade de gerar um impacto sério. “Pode-se dizer que a agenda pós-2015 é a maior oportunidade dessa geração”, segundo Lomborg. “Esse processo poderá influir em US$ 700 bilhões de ajuda para o desenvolvimento e em trilhões de dólares de recursos locais que os países em desenvolvimento gastam”, afirmou.

Para o CCC, como a agenda pós-2015 é muito grande, o impacto de uma eficácia um pouco maior na forma de gastar o dinheiro faria uma grande diferença. “Tentamos ajudar as pessoas a se moverem um pouco mais para uma forma mais racional e eficaz de pensar nesses temas. Creio que todo o mundo concorda que existe um consenso em conseguir um pouco mais de informação”, ressaltou Lomborg.

*IPS de Nações Unidas para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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