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A festa do Zarattini

Paulo Cannabrava Filho

Tradução:

Escrevo isto, na noite de 6 de fevereiro, Ricardo Zarattini seguramente estará exultante na grande festa que lhe ofereceram em comemoração aos 60 anos de militância e 78 de idade.

Paulo Cannabrava Filho*

Foto: Estadão
Foto: Estadão

Conheço o Zara ha 60 anos, desde a gestão do Tabajara na UEE de São Paulo. Nesses da década de 1950 ele já era um líder com grande capacidade de persuasão. Ricardo Zarattini e seu irmão Carlos, o grande artista de teatro, cinema e televisão, estudaram na Escola Politécnica da USP. Carlos dedicou-se à vida artística, Ricardo Zarattini à política. Não qualquer política. Militava com o tesão dos que querem mudar o mundo, dos indignados com as desigualdades e privilégios da sociedade brasileira engajados na luta por um futuro melhor, com os excluídos incluídos e no gozo de todos os direitos que asseguram dignidade à pessoa humana.
Foi preso pela primeira vez aos 17 anos, em plena campanha pelo “Petróleo é Nosso”. Viajou o Brasil todo, militou no nordeste e no sudeste. Revoltado com o agravamento das injustiças sociais e com a submissão aos interesses de Washington após o golpe civil-militar de 1964, radicalizou na luta pela restauração democrática e pelo socialismo.
Militou no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), do Apolônio de Carvalho e posteriormente na Ação Libertadora Nacional (ALN) junto a Carlos Marighella e Câmara Ferreira. Viveu na clandestinidade, foi várias vezes preso e barbaramente torturado. Em 1969 foi salvo da morte certa na tortura por ter sido um entre os 15 prisioneiros trocados pela libertação do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, que havia sido capturado por um grupo revolucionário. Como consequência foi banido. No exílio esteve no México, em Cuba e no Chile.
No Chile, dedicou-se a uma profunda e necessária autocrítica da luta armada. “Engenheiro por formação, subversivo por vocação”, segundo suas próprias palavras, voltou ao Brasil em 1974, foi preso novamente e só libertado com a Lei da Anistia de 1979. A partir de 1980 e se engajou na luta pela redemocratização, nas mobilizações e discussões em torno da Constituinte, na reorganização da luta sindical e na fundação e desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores. Suplente deputado federal assumiu o mandado em 2004 e 2005.

Del Roio autografando a biografia de Ricardo
Del Roio autografando a biografia de Ricardo

A vida fascinante de Zara foi relatada por outro revolucionário brasileiro, que também iniciou a militância no movimento estudantil, quadro da ALN, ex-senador da Republica de Itália, infatigável pesquisador das lutas do povo brasileiro, José Luís Del Royo: “Zarattini, a paixão revolucionária”, Editora Ícone, 2006. Imperdível.
Fica registrada a homenagem de Diálogos do Sul a estes dois eternos amigos, combatentes brasileiros de dimensão mundial.
 
*Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor de Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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