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A Islândia volta ao passado

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

islandia
Partido da direita de Bjarni Benediktsson ganhou as eleições da Islândia

Ernesto Carmona*

Com 38 dos 63 lugares (60%) do parlamento unicameral, a direita islandesa derrotou em 28 de abril o governo progressista que estava tirando o país do crash em que o submergiu em 2008 a direção dos mesmos neoconservadores que ganharam sábado e que governarão por 4 anos: o Partido da Independência (PI), 19 lugares e 26,7% dos votos (3 pontos mais do que nas eleições anteriores) e o Partido Progressista (PP), outros 19 lugares e 24,4% dos votos (9,6 pontos mais do que no enfrentamento precedente), segundo a contagem final, nesta nação insular do Atlântico norte, que tem apenas 103.000 km² e um pouco mais de 331 mil habitantes.

Em outras palavras, os votantes tiraram do poder aqueles que enfrentaram a crise, a coalisão da Aliança Social Democrata e Movimento Esquerda-Verde, e repuseram no poder aqueles que mergulharam a ilha no crash de 2008: o eurocético PI, que se faz chamar de “centro direita”, e o PP, que se define como de “centro esquerda”, de acordo com os novos significados da linguagem, em voga na política mundial, onde as direitas de todo o mundo disfarçam sua ideologia e as esquerdas tampouco são hoje o que foram ontem.

Curiosamente, esta boa notícia para os propagandistas do neoliberalismo também foi bastante ignorada pelos grandes meios de comunicação, assim como foram ocultadas as medidas e reformas implantadas silenciosamente pelo governo que está saindo, de socialdemocratas e esquerdistas verdes. Por exemplo, em outubro de 2012, 81% dos islandeses aprovou um plebiscito para reformar a Constituição de 1944 e declarar de propriedade pública os recursos naturais. Frente à pergunta “Na nova Constituição o Sr. deseja que os recursos naturais não sejam de donos privados e sejam declarados de propriedade nacional?”, 81% dos votantes votou que sim, que queria seus recursos naturais de propriedade pública. Com os socialdemocratas e ecologistas a economia  cresceu 1,6% em 2012 e o desemprego baixou de 12% para 5%, em dois anos. Estas e outras notícias ocultadas foram mencionadas pelo Projeto Censurado 2013-2014, da Universidade Sonoma State da Califórnia, cujo ranking das 25 notícias mais censuradas tornar-se-á público em setembro.

“Até gente que perdeu sua casa votou nos partidos de antes da crise”, comentou para a imprensa Sturla Jónsson, de 47 anos, desempregado que enfrentou a crise na Noruega e postulou um lugar no Parlamento no confronto de 28 de abril. Para Thora Kristin Thorsdottir, professora de Sociologia na Universidade da Islândia, entrevistada em Reykiavik por Oscar Gutiérrez Garrido, de El País, da Espanha, a maioria dos votantes tem a expectativa de voltar ao que “eram as expectativas que a gente tinha antes”: ter três automóveis é melhor que dois, uma casa de 100 m² e, se se puder, celebrar casamentos com 200 convidados. “As pessoas culpam o atual Governo de não protegê-las”, disse Thora. Os socialdemocratas despencaram para 12,9%, dois pontos acima da Esquerda Verde.

A dívida das famílias corresponde a 100% do PIB. Todos os habitantes têm um empréstimo. 90% das hipotecas estão indexadas de acordo com a inflação, que ronda os 4%. Como Berlusconi na Itália, a campanha do PP tocou as sensíveis fibras eleitorais de conservação da casa própria, com promessas de renegociar com os credores do banco o pagamento de parte da dívida familiar. “Os bancos que quebraram têm a responsabilidade da crise da dívida, e acreditamos que as famílias têm direito a reclamar pelo menos uma parte do prejuízo”, escreveu em publicidade por e-mail Eygló Thora Hardardóttir, secretária do PP.

Mas os bancos não dão sinais de quererem negociar. “Não é correto prometer algo que não está em suas mãos”, escreveu Kolbeinn Óttarsson, do jornal conservador Frettabladid. “Mas as pessoas precisam ouvir boas notícias e sempre acreditam nas soluções mágicas”. A varinha de Bjarni Benediktsson (PI) prometeu baixar impostos e reduzir a carga da dívida associada aos preços.

Com mão larga, os bancos islandeses outorgaram generosos empréstimos vinculados à moeda estrangeira mais fraca, para que os islandeses fossem às compras e acumulassem uma dívida 10 vezes maior que o PIB. A coroa, a unidade monetária local, despencou, e um país inteiro se desesperou em 2008. Mas a crise foi rapidamente esquecida. “A Islândia não é um país em crise, mas as pessoas sentem-se traídas, prometeram-lhes segurança e bem estar”, disse Kolbeinn Stefansson, pesquisador em Ciências Políticas.

Gente como Jon Svan Sverrisson, pequeno empresário do ramo gráfico, entrevistado por El País, disse que “as pessoas acham que nada mudou neste período, que a coalisão de esquerda não fez o suficiente com a dívida”. “Os partidos tradicionais [PP e PI] não perderam muito com o colapso e foram capazes de convencer os islandeses de que podem resolver seus problemas”.

“As pessoas querem saber quem está levando o dinheiro”, pensa Elena Martínez, espanhola que trabalha em uma granja islandesa de pessoas portadoras de necessidades especiais. “A crise é política e continua: por isso existem agora 15 partidos”. Ainda que apenas dois, o Partido Pirata (5,1%) e Futuro Brilhante (8,3%) tenham conseguido um lugar no parlamento.

As notícias sobre a Islândia foram censuradas em grande parte porque o governo que acaba de perder as eleições estava disposto a prender os responsáveis dos bancos que estimularam a crise. Hoje, apenas dois banqueiros continuam atrás das grades: Ragnar Z. Gudjónsson e Jón Thorsteinn Jónsson, ex altos dirigentes do banco Byr, condenados a quatro anos e meio de prisão, a sentença mais dura pronunciada pelo supremo tribunal desde a criação da promotoria especial que persegue os culpados pelo crash financeiro de 2008.

“Há muitos que não estão na cadeia”, disse a El País Andri Thor Sturluson, jornalista que acompanha de perto a redada judicial nos bancos. O ex primeiro ministro Geir Haarde foi o primeiro político sentado no banco dos réus acusado por sua responsabilidade na crise, em abril de 2012; mas foi declarado inocente em três das quatro acusações de que foi objeto. O tribunal só considerou-o culpado por não convocar o governo para analisar a grave situação que o país vivia.

*Ernesto Carmona, jornalista e escritor chileno. MAPOCHO PRESS Santiago – Chile. Reprodução permitida / Citar fonte


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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