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A lógica do mercado é o povo transformado em mero consumidor

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Paulo Cannabrava Filho*

Paulo Cannabrava Filho. Perfil DiálogosA chamada abertura econômica está permitindo a entrada de grandes monopólios também na área editorial. Isso é muito perigoso posto que invade a cultura, prejudicando a esfera de conteúdo em favor do lucro. Imposição do pensamento único no lugar do pluralismo cultural e do espírito crítico, a lógica do mercado contra a dialética da vida, do processo cultura, do desenvolvimento.

a_globalizacao_e_boa_02 A globalização do mercado editorial é a imposição do pensamento único no lugar do pluralismo cultural e do espírito crítico

Mondatori, Hachette, Vivendi, Planeta, Betersman e outros mega-conglomerados controladores de grandes editoras e de meios de comunicação de massa na Europa e nos Estados Unidos estão entrando com forte investimento em marketing no mercado latino-americano. No Brasil as maiores editoras já estão em mãos de transnacionais.

Seguindo a lógica do mercado, o que interessa para essas editoras são obras e autores que vendem, geralmente ficção e auto-ajuda, obras lançadas com grandes tiragens e estardalhaço nos países de origem, reduzindo o custo de produção nos países periféricos e reduzindo mais ainda o já parco espaço para as obras de reflexão sobre a realidade no campo da história, da sociologia, da filosofia, a reflexão dos intelectuais nacionais.

Não há uma política voltada a proteger a produção editorial nacional, privilegiando o autor nacional, protegendo os direitos autorais. As poucas bibliotecas que temos não têm recursos para oferecer um acervo atualizado para a população e temos poucas editoras que se preocupam com as obras de reflexão. Como consequência essas obras têm pequenas tiragens que mal dá para remunerar autor e editora.

Falta uma política para o livro, que obrigasse, por exemplo, que o governo comprasse parte da edição de um livro, para distribuir às bibliotecas. Isso garantiria uma edição mínima de 5 mil até 10 mil exemplares para as bibliotecas e outro tanto para as livrarias, propiciando remuneração razoável para autor e editora.

O mesmo com os meios

O poder econômico, principalmente os bancos, e o governo pautam a mídia e a mídia pauta a própria mídia
O poder econômico, principalmente os bancos, e o governo pautam a mídia e a mídia pauta a própria mídia

Com os meios de comunicação, o problema maior é que a concentração de capital que se dá na economia reflete no seu conteúdo. A mídia escrita, onde mais se exerce o jornalismo, tornou-se uníssona. O poder econômico, principalmente os bancos, e o governo pautam a mídia e a mídia pauta a própria mídia. A crítica, quando permitida, é no sentido oportunista de proteger privilégios ameaçados, garantir espaços conquistados. Nenhuma palavra contra o sistema, contra a ditadura do capital financeiro. Essa ausência crítica contribui para o fortalecimento do pensamento único, a alienação e consumismo.

A lógica do mercado é o povo transformado em mero consumidor – um dado estatístico para balizar o lucro – quando o que o país requer é o povo criador e produtor.

Perdeu totalmente o sentido de que comunicação é serviço público, para atender ao direito humano de informar e ser informado, serviço com fim social e que, portanto, tem o dever de contribuir para o fortalecimento da soberania e ao desenvolvimento da cultura nacionais.

A sedução da “Vênus Platinada” é o padrão que domina a televisão. O que vale é a emoção. A velocidade e a quantidade de informações, acima de nossa capacidade de acompanhar e compreender. Além disso, a pasteurização da informação misturando o bom com o ruim, a guerra com o esporte, o crime e o voyerismo. Tudo num mesmo tom, como se tivessem a mesma importância, e, o que é pior, fora do contexto em que os fatos foram produzidos, sem os antecedentes, sem elementos para uma reflexão. A equação dada pela estetização do consumo, a ahistoricidade e o consumismo dá como resultado o hedonismo, a alienação.

Por um Estado servil

Assiste-se a crítica ao Estado e a exaltação do livre mercado. O Estado detratado pelos arautos da globalização liberalizante não é o Estado que tememos. Porque o Estado que intervém na economia, que dita as prioridades para os investimentos, que controla o câmbio e freia a evasão de divisas é o único instrumento que pode conduzir à mudança de rumo e impor um modelo de desenvolvimento com justiça social.

No entanto, há um estado do qual nos devemos cuidar. É aquele implantado há 500 anos. É a tremenda máquina burocrática que se desenvolveu nesses séculos para servir exclusivamente aos interesses de elites dominantes. Elites que sempre estiveram a serviço de interesses que não coincidem com os de nosso povo.

Um dos sintomas mais visíveis desses efeitos é o tratamento que a mídia escrita vem dando à política econômica que serve ao capital especulativo, à desmontagem do patrimônio produtivo nacional, a rapinagem das riquezas nacionais. O Brasil de hoje é semelhante ao de D. João VI: país de produtos primários, monocultivares para exportação, minérios. Como dizia a canção do CPC da UNE, “vender minério, comprar navio… pra nossa vela, comprar o pavio”. Hoje exportamos minérios e já não fabricamos trilhos, compramos da China.

Com relação à política externa, nossos meios de comunicação apoiam o belicismo dos Estados Unidos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Apoiam Israel (“os democráticos”) e criticam os palestinos (“os terroristas”). Apoiam a política exterior dos Estados Unidos e criticam a posição do Estado brasileiro, executada pelo Itamarati, e outras coisas que caracterizam a atual conjuntura.

Poder-se-ia citar aqui mais de uma centena de vezes que os Estados Unidos intervieram direta ou indiretamente ou promoveram campanhas para interromper processos democráticos na América Latina. O que está ocorrendo hoje na Venezuela, por exemplo, não passa de uma refilmagem de um velho e conhecido tema. Isso já ocorreu mais de uma vez no Brasil, em Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Salvador, Guatemala, Panamá, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador e por todo o planeta.

Golpismo comprovado

Em entrevista ao jornal Lê Monde, o presidente Hugo Chávez disse que o grande fator de intolerância que hoje se vê na Venezuela é a mídia. Salvador Allende, se vivo fosse, certamente diria que o grande fator da desestabilização da sociedade chilena que culminou no pinochetazo foi a mídia. Não demorou muito para se ter a confirmação que mídia e políticos da oposição foram regiamente remunerados com dinheiro da Cia para o golpe no Chile. Só o Mercúrio, durante a campanha de Allende recebeu 15 milhões de dólares (dólares de 1973, quando com mil dólares comprava-se um apartamento de dois dormitórios)

Deve estar fresco ainda na memória de todos aqui o papel da mídia para derrubar o governo democrático de João Goulart. Quanto teriam a Folha, Estadão, Globo, recebido da Cia para aderir ao golpe? A mobilização midiática se repete para eleger Fernando Collor presidente, e, logo depois, o papel dessa mesma mídia para mobilizar a população em favor do impeachment. Essa mesma mídia torna a mobilizar-se para eleger Fernando Henrique Cardoso (quem pagou a conta?), logo em seguida para reelege-lo e dar sustentação a sua política entreguista, desnacionalizante, a alienação das empresas.

A Europa que viveu os pesadelos das décadas de 30 e 40 do século XX, não tem como deixar de fazer comparações com o que está ocorrendo na atualidade. Tal como no passado, o império de hoje se crê onipotente e atua com a mesma arrogância e prepotência em relação ao resto do mundo. A Europa não encontrou ainda o caminho para livrar-se do invasor que a título de salvar colonizou.

No passado, a Hitler não faltou apoio entusiástico de um Franco, um Mussolini, das multis estadunidenses como a ITT, da mesma forma que a Bush não faltou apoio de um Berlusconi, um Blair, um Sharon. Não se pode esquecer que em todo o mundo de ontem houve entusiasmo com as façanhas de Hitler como hoje há ainda certo entusiasmo com as de Bush pai e filho (Iraque, Afeganistão, El Salvador, Nicarágua), com as façanhas de Obama Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria). Afinal, um país em guerra compra, seus aliados vendem. Essa é a lógica do sistema fundado no capital.

Quem governa?

Quem governa os Estados Unidos? A Constituição ou o capital monopolista? Existe liberdade de imprensa naquele país ou submissão ao capital monopolista? O governo serve às grandes corporações ou as grandes corporações se servem do governo? Isso é democracia ou é liberdade democrática para bendizer o way of life?

Como dizia Georg Lukács no início dos anos 1960 sobre a ditadura do capital monopolista: o que Hitler conseguiu com a força bruta, a classe dominante estadunidense conseguiu através de uma fachada democrática. Mas, terá sido democrática uma sociedade que protagonizou o massacre de 1º de maio em Chicago? A chacina das mulheres no 8 de março de Nova York? Foi e tem sido democrático o macarthismo? Quando os sindicatos operários naquele país puderam atuar com liberdade? No entanto, é essa a sociedade que nos impingem como paradigma de democracia.

Os paralelismos históricos são importantes ainda que não determinantes. Ajudam a entender o momento atual e reforçam a idéia de que outro mundo não só é possível como é imperativo.

A democracia participativa ou seja qual for o caminho para se criar esse outro mundo é inviável sem a democratização da informação e comunicação. No Fórum Cultural Regional do Rio de Janeiro, preparatório para o Fórum Cultural Mundial, em 2005, a constatação dessa realidade levou os participantes a aprovar recomendação para que em todos os municípios se formem Conselhos Comunitários para o Desenvolvimento da Cidadania, Conselhos Comunitários para Análise da Mídia, e outros fóruns para que a sociedade debata as questões relacionadas com a ética – ética na política, ética na comunicação.

*Paulo Cannabrava Filho, jornalista desde 1957, editor de Diálogos do Sul é presidente honorário da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas, membro do conselho da Associação Brasileira de Anistiados Políticos e do Fórum de ex Presos e Perseguidos Políticos de SP


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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