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A luta de Golias contra o pequeno Davi centro-americano ou o Império volta a atacar a Nicarágua revolucionária

Ofuscados, quando não confusos pelas fake news, asseguram que “Ortega é pior que Somoza”. Confirmam, assim, que não têm a menor ideia do que foi Somoza
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global
Lima

Tradução:

Golias, de acordo com a narração bíblica, um gigante nascido na cidade de Gata, foi porta-bandeira do exército filisteu, que durante quarenta dias assediou os israelitas. Era muito forte e extraordinariamente alto. Media quase três metros; sua malha protetora pesava 57 quilos e a folha de sua lança, quase sete. 

Não obstante, foi vencido por um pequeno guerreiro, Davi, que usou um estilingue para golpeá-lo na testa, à distância. 

Algo parecido ocorre hoje em Nossa América. Os Estados Unidos, o gigante do continente, busca esmagar os povos pequenos. E a Nicarágua é um deles, na América Central. Do seu solo, um Davi chamado Augusto Sandino lançou seu estilingue e derrubou Golias em fins dos anos 20 do século passado. 

Quase cem anos mais tarde, a história se repete. O gigante recuperado volta à carga e um novo Davi se enfrenta a ele. Desta vez, no entanto, o mundo não pode ser apenas espectador. 

Recentemente, o governo dos Estados Unidos da América do Norte decidiu “sancionar” funcionários do Governo da Nicarágua, como antes havia feito com outros, dos governos de Cuba e da Venezuela. Tem direito a isso? O que aconteceria se alguns governos da América Latina resolvessem “sancionar” funcionários do governo dos Estados Unidos?

Como se transtornaria a ordem mundial se os governos de um país optassem por sancionar indistintamente funcionários de outro país? Algum organismo internacional se sentiria com capacidade de convalidar essa conduta? Recentemente, na ONU, 134 países se negaram a convalidar essa afronta.

Ofuscados, quando não confusos pelas fake news, asseguram que “Ortega é pior que Somoza”. Confirmam, assim, que não têm a menor ideia do que foi Somoza

Wikipédia
Um David chamado Augusto Sandino

Novo assédio à Nicarágua

Ocorre, adicionalmente, que o assédio estadunidense à Nicarágua tem propósitos eleitorais. Washington está mortificado pela possibilidade de que Nicarágua confirme seu governo em novembro. A Casa Branca quer outro, um que lhe seja `’atraente”, embora não conte com o respaldo do próprio povo. 

Não fala então de respeitar a vontade da cidadania nicaraguense. Ela não está em seus afãs imperiais. E, por isso, se aventura a “condenar” a detenção disposta por autoridades judiciais da Nicarágua e que afeta algumas pessoas de fragmentada “oposição” ao governo pelo cometimento de delitos.

Recentemente, efetivamente, o sistema judicial da Nicarágua – e não o Governo – resolveu deter e processar algumas pessoas envolvidas em diversos delitos. Estas pessoas foram acusadas de organizar ações sediciosas financiadas pelos organismos de Segurança e Inteligência dos Estados Unidos. Cristina Chamorro, Antonio Cruz, Félix Madariaga, e alguns mais se viram afetados por essa ação judicial e não política.

Candidatos auto proclamados

Alguns deles se auto proclamaram “candidatos presidenciais”, como um modo de procurar uma espécie de “imunidade”; e todos se consideraram “perseguidos políticos” para obter apoio da OEA e do governo dos Estados Unidos.

E todos também pretenderam negar a evidência de que estão financiados por Washington e formam parte da estratégia imperial para deslegitimar o governo sandinista, pretendendo derrotá-lo. 

Embora não fosse o governo de Daniel Ortega o que dispôs as detenções, é bom que nos perguntemos sempre se um governo revolucionários tem, ou não, o direito a se defender quando se enfrenta ao assédio da oligarquia tradicional e ao acosso incessante do Império; ou se deve permanecer com as mãos amarradas, para não ser “desacreditado” no exterior sob o argumento de que “viola os direitos humanos”. 

Pesos e medidas

Em outros países — El Salvador, por exemplo — foram presos o ex-presidente Antonio Sacasa; sua esposa, Ana Ligia Mixco Sal de Sacasa, e seu irmão, além de outros políticos e empresários. O governo dos Estados Unidos ou a OEA disseram alguma coisa sobre isso?

E a propósito da OEA, é bom lembrar, não disse uma só palavra quando foram perseguidos e encarcerados altos funcionários do governo de Evo Morales após o golpe fascista de novembro de 2019. Também ficou calado diante da brutal repressão fascista na Colômbia e no Chile. Para seu chefe, Almagro, essas são ações de “defesa da democracia”. 

É bom recordar isso porque, de acordo com o governo dos Estados Unidos, a grande imprensa peruana e certos organismos internacionais — como a Sociedade Interamericana de imprensa (SIP) — arremetem com força contra o Davi centro-americano. E o fazem outros que não percebem a campanha realizada hoje contra a pátria de Ruben Dario.

Ofuscados, quando não confusos pelas fake news de moda, asseguram que “Ortega é pior que Somoza”. Confirmam, assim, que não têm a menor ideia do que foi Somoza; mas se alegram porque então Somoza, de quem sentem saudades, foi “melhor” que Daniel Ortega. Isso “tranquiliza” sua consciência.

Constitui já quase um fato natural reconhecer que a atitude diante de Cuba serve como referência para diferenciar o comportamento de pessoas e governos na América Latina. Ante à Nicarágua acontece o mesmo: não se pode ser realmente democrata, nem progressista e muito menos revolucionário se se convalida, justifica ou  cala quando se trata de enfrentar o assédio de Golias contra esse pequeno Davi centro-americano.

Gustavo Espinoza M., colaborador da Diálogos do Sul desde Lima

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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