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A ONU continua sendo o clube do Bolinha

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Thalif Deen*

Malaias da Força Provisória das Nações Unidas para o Líbano. Foto: UN Photo/Pasqual Gorriz
Malaias da Força Provisória das Nações Unidas para o Líbano. Foto: UN Photo/Pasqual Gorriz

Diante do aumento da violência sexual em zonas de guerra, a ONU – Organização das Nações Unidas começou a designar mulheres encarregadas de algumas das missões de paz mais importantes, além de criar a figura da “assessora de gênero” como segunda linha de defesa. Porém, cresce o ceticismo entre organizações não governamentais de que essas mudanças não sejam apenas cosméticas.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, destacou orgulhoso que cinco mulheres comandam missões de paz em Chipre, Costa do Marfim, Haiti, Libéria e Sudão do Sul. Contudo, Mavic Cabrera-Balleza, coordenadora internacional da Rede Global de Mulheres Construtoras de Paz (GNWP), disse à IPS que “também precisamos ver além dos altos comandos. Temos que examinar onde estão as mulheres dentro da arquitetura geral das missões de paz”.

A GNWP é uma coalizão de grupos de mulheres e organizações não governamentais da África, América Latina, Ásia e Europa, associada à Rede Internacional para a Ação da Sociedade Civil. A ativista afirmou que os comandos médios também são importantes porque interagem com as populações locais, que são diretamente afetadas pelos conflitos.

Além disso, a organização considera vital saber em qual nível de hierarquia estão todas as assessoras de gênero dentro das missões de paz. “São as que garantem que a perspectiva de gênero esteja integrada plenamente” nas operações, ressaltou Cabrera-Balleza. O problema é que, em geral, as assessoras de gênero se encontram muito abaixo no escalão, lamentou.

No mês passado, o secretário-geral destacou que nunca antes as mulheres ocuparam cargos tão altos na ONU. “E este ano quero mencionar um novo marco na participação feminina em nosso trabalho pela pez e a segurança: pela primeira vez, um terço de nossas operações de manutenção de paz (cinco em 15) são encabeçadas por mulheres”, afirmou.

Estas são Hilde Johnson, no Sudão do Sul, Karin Landgren, na Libéria, Lisa Buttenheim, no Chipre, Aïchatou Mindaoudou, na Costa do Marfim, e Sandra Honoré, no Haiti. Ban também designou pela primeira vez uma mulher como mediadora em um processo de paz: a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson (1990-1997) é a enviada especial das Nações Unidas para a região dos Grandes Lagos. “Temos mais caminhos a percorrer, mas nunca antes havíamos chegado tão longe”, afirmou o secretário-geral.

Cora Weiss, representante da ONU no Escritório Internacional da Paz, disse à IPS que as palavras de Ban eram “bem recebidas, mas desejaria que colocasse o coração nessa questão”. E acrescentou que, “quando mulheres da sociedade civil redigiram o que depois se converteu na histórica resolução 1325 (da ONU) sobre mulheres, paz e segurança, estávamos apontando para um futuro mundo sem guerras”.

Weiss também afirmou que, embora as mulheres sejam pelo menos metade da população mundial, Robinson é a única que lidera um processo de paz internacional. “E estamos em 2013”, ressaltou. “Precisamos de mais mulheres na tomada de decisões e na construção da paz, mas devem ser mulheres que amem a paz e a justiça. Os dias de apelar para a força têm de acabar”, enfatizou.

Em um discurso no Conselho de Segurança em junho, Zainab Hawa Banguda, representante especial da Secretaria Geral para temas de violência sexual e conflitos armados, informou que “cerca de 50 mil mulheres foram vítimas de violação e outras formas de violência sexual”, e até aquela data houve apenas umas poucas condenações por esses casos. As vítimas “continuam caminhando nas sombras e com vergonha, incapazes de superar o passado, descansar e seguir adiante”, pontuou.

Após visitar a República Democrática do Congo (RDC) no começo deste ano, Ban informou que se reunira com mulheres e meninas violadas ou mutiladas no conflito desse país. Disse que muitas sofriam de fístula traumática, uma lesão no aparelho reprodutor que lhes causa profunda dor e no geral também as deixa incapazes de controlar a bexiga e os esfíncteres. Como estão incapacitadas, geralmente são marginalizadas socialmente.

A comunidade internacional, por meio das resoluções 1820 (de 2008), 1888 (de 2009) e 1960 (de 2010), constituiu um sólido contexto para responder à violência sexual em conflitos bélicos. Essas resoluções estabelecem as pautas para campanhas mundiais a cargo de representantes especiais da ONU, best online casino em colaboração com a Rede de Ação das Nações Unidas Contra a Violência Sexual em Conflitos, integrada por 13 entidades do fórum mundial. No mês passado o Conselho de Segurança adotou outra resolução, a 2122, também destinada a fortalecer a participação das Nações Unidas em todos os aspectos da prevenção de conflitos.

“A discussão que temos, a sociedade civil, com a ONU, sobre liderança feminina segue de pé. Pratica o que pregas, lidere com o exemplo”, disse Cabrera-Balleza à IPS. “Também queremos ver a designação para postos estratégicos das operações de paz de mais mulheres com experiência na sociedade civil organizada e que tenham trabalhado em temas de paz e segurança durante décadas”, argumentou. “Como vimos no passado, a experiência burocrática não ajudou muito a melhorar as operações de paz”, ressaltou.

Cabrera-Balleza disse que três mulheres são vice-representantes especiais da Secretaria Geral: uma para o Escritório da ONU em Burundi, outra para o Escritório Integrado de Construção de Paz na República Centro-Africana e outra para a Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque. “Alguma vez estas mulheres se converteram em chefes das operações de manutenção da paz?”, perguntou. Não faltam mulheres qualificadas. “Simplesmente escasseiam políticos dispostos a ver mulheres em cargos de poder”, ressaltou.

*IPS de Nações Unidas para Diálogos do Sul 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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