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A Selvageria de Barcelona

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

“Se dizem que uma imagem vale mais que dez mil palavras, a coleção da selvageria deste 1 de outubro constitui um amplo dicionário sobre a baixa estatura moral da máfia corrupta instalada no palácio Moncloa.”

Fernando López Agudín*

As imagens da repressão policial em Barcelona dão volta ao mundo.
As imagens da repressão policial em Barcelona dão volta ao mundo.

As imagens da repressão policial em Barcelona dão volta ao mundo. Da marca Espanha não sobram nem migalhas. Da cidade dos condes não sobrou mais que um fragmento da brutal repressão policial que no domingo caiu sobre centenas de milhares de pacíficos catalães em toda a Catalunha.  Se dizem que uma imagem vale mais que dez mil palavras, a coleção da selvageria deste 1 de outubro constitui um amplo dicionário sobre a baixa estatura moral da máfia corrupta instalada no palácio Moncloa. Uma trempe de políticos sob suspeita de toda classe de delitos, uma promotoria reprovada, um Tribunal Constitucional desacreditado depois da última reforma de 2015 imposta pelo PP, ordenaram às Forças de Segurança do Estado protagonizar o que será conhecido como a selvageria de Barcelona. Em um único dia, foram vistos obrigados a recuperar os maus hábitos que o desaparecimento da ditadura do general Francisco Franco tinha enfiado no baú das velhas práticas do ministério do interior.

A selvageria de Barcelona exige uma moção de censura.
A selvageria de Barcelona exige uma moção de censura.

Num dia carregaram o famoso modelo da transição que tinha assombrado o mundo no final da ditadura. Em 24 horas varreram com o regime de 1978. Já mortalmente ferido pela reforma do artigo 135 da Constituição, que nos condena a pagar a dívida antes de atender as necessidades sociais da imensa maioria dos espanhóis, recebeu o tiro de misericórdia da mão de Rajoy que autorizou a violência policial contra uma concentração social massiva. Um adeus a todo diálogo, à transação política: bem-vindos os cassetetes, balas de borracha, gases lacrimogênios, disparos. Desde o governo de Arias Navarro, e dos assassinatos de Vitória, não se tinha vivido nas ruas cenas de violências contra pacíficos manifestantes. Ilegais, é certo, mas tanto como os que se manifestavam antes contra a legalidade pré constitucional. Aquela consigna de Aznar, cortar todos os direitos democráticos de 1978 por conta da atual debilidade da oposição democrata, no domingo se deu um grande passo adiante.

Começa pela demolição do Estatuto da Catalunha, de 2006, votado pelos parlamentares espanhóis e catalães, continua por negar o direito a votar e termina com as competências das autonomias. Estamos a minuto e meio de um pacote de propostas da direita com vistas a mudar a lei eleitoral, o ensino, financiamento e segurança de algumas das nacionalidades históricas. Vai na mesma direção de pôr ponto final ao pacto de transição pelo qual a direita aceitou contrariada o Estado das Autonomias e o pacto social a troco de que a esquerda engolisse a bandeira dos vencedores da Guerra Civil e da II Restauração dos Bourbons. A posta na ilegalidade de John Maynard Keynes, como consequência da reforma do 135, já levou todo aquele pacto social. A ofensiva pré constitucional contra o direito de votar levará na frente o sistema autonômico. Por trás dos bonecos de Rajoy e Soraya, altos funcionários do estado da direita, há toda uma estratégia invisível de cariz retrógrado.

Se Pablo Iglesias, fundador do PSOE, levantasse a cabeça, faria correr a golpes de chapéu a Sánchez e suas vivandeiras. Não falamos de todos os líderes socialistas da II República. Que o socialismo avalize a selvageria neo-franquista de Barcelona carece de explicação, compreensão e justificação. Por que disputaram com Susana Díaz antes do verão? Para fazer a política de Susana Días mal começado o outono. Cobrir as vergonhas com a razão de Estado ou o Estado de Direito é inapresentável para os que contam com especialistas e juristas para saber que Rajoy é o assalto permanente à razão de Estado e o Estado de Direito, descrito por Giorgy Luckas como os passos prévios ao autoritarismo. Condenar a violência policial sem rechaçar os que como Rajoy a ordenou é puro cinismo que se esconde, ademais, na defesa das instituições, quando é o Moncloa a mais grave ameaça às instituições.

Os letrados, habituais assinantes de manifestos governamentais, são igualmente cúmplices da selvageria de Barcelona. Cabe, sim é necessário, criticar a política da Generalitat, questionar a ilegalidade de sua atuação, pedir que não se vote, sempre e quando esteja acompanhado pelo menos de uma mínima denúncia sobre a irresponsabilidade do PSOE sobre o tema catalão. Felipe González impediu o processo a Jordi Pujol em 1985; Zapatero traiu o Estatuto Catalão que tinha promovido; Aznar mobilizou o PO contra o governo catalão do socialista Maravall e Rajoy acabe a abrir a caixa de Pandora depois de se negar ao mínimo diálogo sobre uma clara demanda por voto compartilhada por 80% dos catalães. Este novo compromisso dos intelectuais, ao contrário do sartriano, é o penúltimo reflexo da degradação da cultura executada por esse “poder cultura” que tem manipulado ao longo da várias décadas, pelos meios de comunicação da Prisa.

A selvageria de Barcelona exige uma moção de censura. O de menos é contar ou não com os votos necessários. Se valeu apresentado por corrupção, muito mais será pelo retrocesso autoritário que deriva do dramático domingo de Barcelona. A extraordinária ameaça de ruptura do Estado espanhol, como consequência da política de Rajoy, que morra Espanha para que viva o PP, demanda a gritos um diálogo entre a Generalitat e um novo governo central encabeçado por um líder progressista que consiga todos os votos do centro esquerda. Esse debate parlamentar permitiria vislumbrar a todos os partidários, diretos e indiretos, de uma política de enfrentamento entre todos os povos que ainda integram a Espanha, através da repressão com cassetetes, balas de borracha e gases lacrimogênios. Urge colocar o pé no freio e baixar o Rajoy tanto como situar os que acendem duas velas a Deus e uma ao diabo diante do Moncloa.

 
*Original de Público de Espanha


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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