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A síndrome de Estocolmo afeta boa parte da humanidade

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

“A Síndrome de Estocolmo é uma enfermidade que afeta os que se identificam com seus algozes, assumindo como sua a causa daqueles que lhe causam danos”.

Gabriela Amaya*

Gabriela AmayaTrabalhar para que outros fiquem ricos, recebendo por prestação de serviço, inclusive em situação de escravidão, e fazer isso convencido de que é normal e que isso nos faz dignos, é um claro indicador de sofrer a Síndrome de Estocolmo.

A Síndrome de Estocolmo é uma enfermidade que afeta os que se identificam com seus algozes, assumindo como sua a causa daqueles que lhe causam danos e preferindo não se separar deles quando poderiam fazer, ao mesmo tempo em que se distanciam dos que podem ajudar.

Milhões de postos de trabalho estão desaparecendo substituídos por máquinas.
Milhões de postos de trabalho estão desaparecendo substituídos por máquinas.

A expressão Síndrome de Estocolmo apareceu em 1973, em Estocolmo, Suécia, quando uma das reféns durante um assalto a um banco preferiu ficar ao lado de seu captor em vez de ir com a polícia. Hoje a expressão é utilizada para casos de sequestros, maltrato de gênero, dentro das empresas e em outros casos.

Dizem os especialistas que se trata de um fenômeno patológico temporal. No caso que hoje estudaremos, desgraçadamente, trata-se de um fenômeno que se mantêm ao longo dos séculos e cuja raiz e sintomas passam de geração a geração. Pois bem, hoje estamos diante da possibilidade de curar, de livrar-nos da maldição bíblica, devido às circunstâncias socioeconômicas do momento histórico que vivemos.

Falamos de um tipo de Síndrome de Estocolmo que afeta a humanidades há séculos e que, como na maior parte das enfermidades mentais, não é reconhecida pelo enfermo. Nos referimos ao valor que damos ao emprego como elemento ou meio que nos permite sobrevivera, que nos dá dignidade, que nos liberta e que pode nos fazer felizes, com todas as consequências que isso acarreta.

Ao falar de emprego nos referimos ao trabalho remunerado. E utilizaremos a palavra emprego intencionalmente para diferenciá-lo de trabalho, que abarca quase toda atividade do ser humano.

E, por que falamos de Síndrome de Estocolmo quando nos referimos ao trabalho remunerado? Esta é a questão que trataremos de explicar neste curto espaço.

Assumimos como nosso o discurso de quem nos escraviza

Imaginemos por um momento que podemos flutuar no espaço e observar nosso planeta e seus costumes. Como explicar que umas pessoas acumulam riqueza e mais riqueza e a grande maioria trabalhe voluntariamente para que esses poucos continuem acumulando riquezas graças a nosso esforço? Como é possível que a maioria da população assuma que essa riqueza, que é de todos –já que corresponde a recursos naturais ou a acumulação histórica de milhares de gerações-, tenha se convertido em propriedade desses poucos?

Dirão que milhões de pessoas vão contentes para seu trabalho, que outros nem tanto, mas se sentem obrigados a fazê-lo. O certo é que habitualmente, quando dois indivíduos se conhecem, a pergunta é “o que você faz? O outro responde, sou pedreiro, jornalista, quitandeiro, desempregado, aposentado…”Assumimos que nossa essência é dada pelo nossa profissão. A tal ponto chegou o valor dado ao emprego.

Isto é um problema, no mínimo. Não somente porque nesta sociedade desenvolver um profissão ou outra de dá poder em função do prestígio e o dinheiro correspondente, mas também porque é aceito por uma maioria que o que dignifica o ser humano é o emprego, como dissemos acima. Claro, esse discurso orquestrado pelos que detêm o poder –depois de ter usurpado ao todo social- foi e continua sendo necessário para que o sistema atual se mantenha.

Como fizemos nosso o discurso dos poderosos

Para manter tanto tempo, foi necessário algo mais que impor pela força, como talvez tenha ocorrido nos primeiros momentos dessa forma de relação entre os seres humanos.

Foram necessários elementos de mais profundidade. Comentaremos alguns utilizados hoje:

  1. Um mito enraizado nas crenças mais profundas dos indivíduos e das sociedades, mito que soe ser religioso. Neste caso concreto, nos deparamos com que no mito de base que está na nossa cultura ocidental, e que foi sendo imposto ao resto do planeta pela força em muitos casos, fica claro quando a Bíblia diz “ganharás o pão com o suor de seu rosto”.
    Gostem ou não os defensores de certas ideologias, este mito está na base de nossa cultura e nele se apoiam tanto liberais como marxistas, homens e mulheres que se autodenominam de direita ou de esquerda, crentes ou agnósticos. Todos estamos afetados pelo mito e a forma mental que o acompanha.
  2. Também são necessários os políticos a serviço dos interesses dos grandes poderes econômicos.
  3. E meios de comunicação que ajudam a construir, defender e realimentar o discurso que mantêm esse estado de coisa.

Não haverá mais pleno emprego

Contudo, isso está se tornando insustentável. Já não há emprego para todos e não voltará a ter. Milhões de postos de trabalho estão desaparecendo substituídos por máquinas, algo que, como sabemos, gera cada dia mais riqueza e que nos parece profundamente positivo e alentador.

Voltando ao tema. O que fazem os milhões e milhões de seres humanos cujo valia depende de seu emprego, e que sem o emprego não tem condições de vida? Ocorre o que constatamos todos os dias: que o mal estar esta se generalizando, que as tensões pessoais e sociais aumentam, que o futuro se fecha para milhões de pessoas e que os afetados desenvolvem enfermidades físicas e mentais, chegando ao suicídio em não poucos casos, além de uma longa etecetera de consequências negativas.

É paradoxal, por certo, que quando a riqueza que existe no planeta permitiria que toda a população vivesse em condições dignas, aparece uma “crise” e isso justifica que mais e mais pessoas fiquem sem emprego ou que emprego que tinha fique menos valorizado e mal pago, ao mesmo tempo em que uma minoria se enriquece exponencialmente.

Respostas ao momento atual

Diante desse cenário em que não se vê futuro a médio e longo prazo por muito que digam ou se pretende acreditar o contrário, estão dando diferentes respostas.

Alguns governos europeus, por exemplo, apostaram em legislar mais descaradamente para as grandes corporações reduzindo impostos ao mesmo tempo em que sobem as taxas para o resto da população, e no caminho anulando direitos fundamentais como liberdade de expressão ou de reunião, e cortando direitos básicos como educação, saúde, aposentadoria… privatizando esses serviços ou recortando os orçamentos a eles destinados.

Por outro lado, a esquerda tradicional continua defendendo como única solução o pleno emprego. Algo que não vai acontecer mais, mas provavelmente não vêem outra saída porque sofrem esse tipo de Síndrome de Estocolmo, ou se sabem, preferem não se expressar porque sua maneira de atuar cairia.

Agora, desde há algumas décadas (embora venha de mais distante) e especialmente nos últimos anos, um bom número de pessoas e coletivos defendem, entre outras medidas, uma renda básica universal e incondicional para cada pessoa.

Tomemos essa proposta como um exemplo para sair da situação insustentável em que nos encontramos, porque hoje está num fervedouro e porque seria uma medida que poderia dar resposta à situação de pobreza sistêmica, ao mesmo tempo em que suporia um primeiro passo na direção de redistribuir a riqueza que, como dizemos, é de todos.

Contudo, surpresa!  A maioria da população não está de acordo com a implantação dessa medida, seguramente porque unicamente conta com informação manipulada, mas o fato é a desconformidade atual com sua aplicação. É importante esclarecer que boa parte dessa população é ao mesmo tempo vítima do desenvolvimento tecnológico, da cacarejada crise, do roubo a mancheias de seus recursos, etc.

“Seria bom dar dinheiro a alguém para não fazer nada; que alimentemos vagabundos! – argumentam. De onde sairá o dinheiro? Perguntam, repetindo o discurso dos poderosos, dos que acumulam riqueza sem empreender em outra coisa que não seja nisto, dos que o exploram e violentam.

Insistimos em que estamos dando esse exemplo porque nos permite observar claramente como uma maioria importante da população tem feito como seu o discurso de seu “algoz ou explorador” e vê a outras vítimas como eles como seus inimigos (por exemplo, os imigrantes).

Não nos referimos a  todo o processo de como chegamos até aqui, de como foi sendo privatizada a propriedade que era de todos ou de ninguém. Queríamos unicamente falar dessa enfermidade que afeta ainda a maioria da população e da importância do mito, que continua sendo alimentado pelas mãos de políticos, legisladores, opinólogos… que trabalham para manter esse sistema vertical e violento, junto aos meios de comunicação, que cumprem cada dia melhor com o papel de meios de propaganda em favor dos poderosos.

Hoje mais que nunca é vital exigir a visão humanista sobre o ser humano, uma visão que explica que um ser humano é digno por ter nascido tal, sem nada mais, e que não se pode por valor algum por cima de sua vida e de sua liberdade.

Conclusões: estamos diante da possibilidade real de que o ser humano se liberte

“Ainda não compreendem que a máquina é a redentora da humanidade, o Deus que libertará o ser humano do trabalho assalariado, o deus que lha dará o ócio e a liberdade” escreveu Paul Lafargue em 1883.

Porque não haverá mais pleno emprego, por um lado, e porque estamos diante da possibilidade histórica de nos libertarmos do trabalho como elemento de controle e escravidão, por outro, é fundamental que questionemos nossas crenças sobre o tema, o olhar que temos sobre nós mesmos e para com os outros, e o temor à pobreza, exigindo que a  riqueza que é de todos seja redistribuída, o que permitiria que a humanidade inteira viva em condições de vida digna.

Deixemos de assumir como nosso o discurso dos poderosos, de que não há riqueza e de que é normal que eles nos roubem e nos escravizem. Curemo-nos dessa enfermidade que estamos alimentando há vários séculos sem que nos demos conta. Hoje existe possibilidade real de libertar-nos…

Para isso podemos começar por exigir uma renda básica universal e incondicional, entre muitas outras medidas.

 

Referências bibliográficas:

Sobre síndrome de Estocolmo:
https://es.oxforddictionaries.com/definicion/sindrome_de_estocolmo?locale=es
https://es.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Estocolmo
http://www.guiasalud.es/GPC/GPC_470_maltratadas_compl.pdf pag. 48 a 51
http://www.degerencia.com/articulo/el_sindrome_de_estocolmo_en_la_empresa
http://www.aperturas.org/articulos.php?id=0000093
 
Sobre renda básica universal:
http://ilprentabasica.org/900/
https://nuevohumanismorbu.wordpress.com/
 
Sobre el questionamento do emprego:
El derecho a la pereza. Paul Lafargue. 1882. https://www.marxists.org/espanol/lafargue/1880s/1883.htm

 
*Original da Agência Pressenza – Madrid


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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