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A Solidão de Trump: com Washington cercada, Casa Branca emana estrondoso silêncio

Na capital estadunidense esperam-se 20 mil soldados para garantir transição. E mais do que as tropas que combateram no Iraque e no Afeganistão
David Brooks
La Jornada
Washington

Tradução:

Donald Trump foi formalmente acusado pela Câmara de Representantes por “incitação de insurreição” contra o governo dos Estados Unidos e é agora o primeiro presidente na história a enfrentar um segundo julgamento político em uma capital agora protegida de seus inimigos internos por mais tropas estadunidenses que as empregadas no Iraque e no Afeganistão.

Por votação de 232 contra 197 foi aprovada a acusação formal contra o presidente por fomentar o que seus acusadores chamam de um “golpe de Estado” ao convocar e promover o assalta ao Capitólio em 6 de janeiro passado em uma tentativa de frear o processo constitucional de certificação do resultado da eleição presidencial.   

Todos os democratas votaram a favor, mas foi ainda mais notável o fato de que uma dezena de republicanos se somaram contra o presidente (nenhum republicano votou por seu impeachment na primeira vez há um ano).

Na capital estadunidense esperam-se 20 mil soldados para garantir transição. E mais do que as tropas que combateram no Iraque e no Afeganistão

Reprodução: Fotos Públicas
Tropas protegem o Capitólio nos EUA

Assim, Trump se converteu no primeiro presidente em ser “impichado” (formalmente acusado para ser destituído) pela segunda vez. O julgamento político vai ser iniciado em breve no Senado, mas ainda não há data; pode avançar mesmo depois de Trump abandonar a Casa Branca.

O presidente eleito Joe Biden emitiu uma declaração sobre o impeachment de Trump. “Na semana passada — escreveu —, vimos um assalto sem precedentes sobre nossa democracia… O ataque criminoso foi planejado e coordenado. Foi realizado por extremistas políticos e terroristas domésticos que foram incitados a esta violência pelo presidente Trump. Foi uma insurreição armada contra os Estados Unidos da América. Os responsáveis têm que prestar contas”. 

A presidenta da câmara baixa, a democrata Nancy Pelosi, iniciou o processo histórico ao declarar que Trump “incitou esta insurreição, esta rebelião armada, contra nosso país em comum. É um perigo claro e presente à nação…” 

Na debate desta tarde, o deputado democrata Jim McGovern resumiu o sentimento de seus colegas ao declarar que o ocorrido na quarta-feira passada “não foi um protesto, foi uma insurreição” e denunciou: “nosso país foi atacado não por uma nação estrangeira, mas de dentro. Estes não eram manifestantes, não eram patriotas. Eram traidores. Estes eram os terroristas domésticos… e estavam agindo sob ordens de Donald Trump”.

Alguns legisladores republicanos que se inclinavam a votar a favor do impeachment, não o fizeram, comentaram privadamente, por temor de que estariam sujeitos a ataques físicos por parte de seguidores de Trump, reportou a CNN.

O deputado democrata Seth Moulton, em suas declarações diante do plenário antes da votação, apontou: “Há mais tropas agora mesmo em Washington DC que no Afeganistão. Estão aqui para defender-nos contra o comandante em chefe, o presidente dos Estados Unidos e sua turba”.

De fato, poderiam chegar a Washington um total de 20 mil soldados da Guarda Nacional (já vão superar os 10 mil a partir de sábado) — mais do que o triplo do total de tropas estadunidenses no Afeganistão e Iraque combinados. 

Na última quarta-feira (13), durante o voto sobre o impeachment, centenas de soldados da Guarda Nacional armados estavam localizados em diferentes pontos, dentro e fora do Capitólio. O nível de alerta permanece “muito alto”, revelou um funcionário do Departamento de Defesa à CBS News. Alguns soldados estão alojados dentro do Capitólio pela primeira vez desde a Guerra Civil.

Estarão concentrados, junto com milhares de oficiais de outras agências de segurança Pública, para manter a ordem na capital entre agora e a posse do presidente eleito Biden e sua vice-presidente Kamala Harris, informaram autoridades municipais diante de alertas por ameaças de possíveis ataques e ações violentas de direitistas que apoiam Trump.

Investigação

Enquanto isso, avança a investigação federal sobre os atos violentos da semana passada já com mais de 170 casos abertos, número que se elevará muito mais. Alguns serão acusados de delitos maiores incluindo homicídio e sedição. 

A caçada a centenas de suspeitos, identificados às vezes pelas imagens de sua participação que eles mesmos difundiram nas redes, continua por todo o país no que o promotor federal Michael Sherwin qualificou como uma operação sem par na história do país. Declarou que a zona do Capitólio é uma “cena de crime”.

A cada dia são compartilhados mais relatos do que foi vivido por legisladores e suas equipes no Capitólio durante o assalto. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, talvez a líder mais reconhecida da ala progressista da Câmara, disse que “pensava que ia morrer” nesse dia. “Não é exagero dizer que muitos membros da câmara foram quase assassinados”, afirmou. Ainda mais grave, comentou que “não me senti segura” rodeada por alguns dos legisladores direitistas, inclusive simpatizantes de supremacistas brancos, que poderiam expô-la a perigo.

O ex-oficial antiterrorista da Cia, John Kiriakou, que passou para o público informação sobre o programa de tortura do governo de Bush, escreveu no Reader Supported News que o que oficiais de inteligência estrangeiros observaram nos últimos dias foi “igual ao que acontece em um república bananeira” concluindo que “o que observamos na quarta-feira passada foi certamente uma tentativa de golpe. Foi mal planejada e pobremente executada, mas foi uma tentativa de golpe. Provavelmente não será a única. Necessitamos estar preparados para o próximo evento”.

E pouco depois de seu impeachment, o acusado de incitar a violência e o assalto ao Capitólio difundiu um vídeo (através da conta de Twitter da Casa Branca já que a dele está cancelada) instando seus sistematizantes a não empregar a violência em seus protestos. Trump declarou: “condeno de maneira inequívoca a violência que vimos na semana passada… não tem lugar em nosso país e em nenhum lugar em nosso movimento”. Mas não aceitou qualquer responsabilidade pelo ataque e não fez menção da acusação formal contra ele por incitar tudo isto.

Pouco antes, em outra mensagem, se atreveu, sem escrúpulos, a apelar a todos os estadunidenses “a reduzir tensões e acalmar temperamentos”.

O nível de aprovação de Trump vem baixando desde a última quarta-feira, em algumas pesquisas até 10 pontos. Na sondagem de Politico/Morning Consult sua aprovação está em seu ponto mais baixo em seus quatro anos, apenas 34%; 63% o reprovam. 

Os próximos sete dias incluem a posse do novo presidente, o traslado do poder executivo e o início do julgamento político. Tudo sob ameaça, segundo oficiais de segurança nacional e de inteligência, de protestos armados por direitistas não apenas em Washington, mas sim através do país. Não é, por ora, uma transição pacífica do poder.

A uma semana do fim desta presidência, talvez o som mais forte em Washington foi o relativo silêncio que emanava de uma Casa Branca cada dia mais vazia, deixando sozinho — inclusive abandonado por vários de seu próprio partido — e quase invisível quem durante quatro anos dominou o cenário político aos gritos. 

Muitos estão contando as horas e minutos que faltam para se desfazer deste presidente com a tensão de que ainda é capaz de provocar mais dano tanto dentro como fora deste país.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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