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A vitória de José Mujica

Beatriz Bissio

Tradução:

Beatriz Bissio*

Beatriz Bissi. Perfil DiálogosCom uma participação massiva de jovens, a campanha eleitoral de José Mujica foi alegre e descontraída e utilizou de todos os recursos que oferecem as novas tecnologias, das redes sociais da Internet às mensagens via celular

O conhecido e prestigioso escritor uruguaio Eduardo Galeano, ao comentar os resultados do segundo turno das eleições no seu país, realizadas dia 29 de novembro afirmou que os uruguaios são questionadores; ninguém aceita que lhe digam que cale a boca nem segue por caminhos que lhe sejam impostos por terceiros. E resumiu: “Somos conservadores anarquistas”.

Contundente vitória de José Mujica, com 52,85% dos votos.
Contundente vitória de José Mujica, com 52,85% dos votos.

O comentário faz sentido se colocado no contexto do teor da campanha eleitoral que acabou por dar a vitória – aliás, contundente vitória, com 52,85% dos votos – à fórmula José “Pepe” Mujica-Danilo Astori, da coligação de esquerda Frente Ampla. Os partidos tradicionais do Uruguai, o Partido Blanco ou Nacional e o Partido Colorado, aliados no segundo, tentaram por todos os meios, durante a campanha eleitoral, desencorajar o voto na Frente Ampla, tirando do armário velhos discursos – eficazes nos anos 70 – a respeito do perigo representado pelos “Tupamaros” para a democracia. Insistiram até o cansaço na tese de que “uma vez guerrilheiro, sempre guerrilheiro”, procurando semear desconfianças no compromisso com as instituições republicanas e com o respeito à Constituição de parte de José Mujica, hoje presidente eleito, que nos anos sessenta e setenta do século passado foi um dos líderes do movimento armado que dominou a cena política uruguaia.
Porém, como mostraram as urnas, a campanha difamatória não teve os resultados que a coligação do Partido Nacional e do Partido Colorado esperava, que seria a vitória ao ex-presidente conservador Luis Alberto Lacalle. Na verdade, parece ter tido os efeitos contrários ao esperado, uma vez que a Frente Ampla aumentou os percentuais de votação com relação ao primeiro turno, realizado em outubro, em até dez pontos percentuais em alguns departamentos (estados) e nunca em menos de quatro pontos, sem ter feito nenhuma aliança política. Isso significa que recebeu votos blancos, colorados e dos eleitores do pequeno Partido Independente, que liberou as pouco expressivas bases para optarem pela fórmula que desejassem no segundo turno.
Os dirigentes do Partido Nacional acusaram o golpe da expressiva derrota e em declarações no dia seguinte às eleições reconheceram que tinham que avaliar como iriam comportar-se no futuro, mas já adiantaram que deverão modernizar o seu discurso político e renovar os seus quadros dirigentes. Para o ex-presidente Luis Alberto Lacalle está foi, sem dúvida, a última chance de ser novamente um protagonista de primeira línea. Alguém já disse que ele parece uma versão uruguaia de Carlos Menem: mais sofisticado intelectualmente, porém igualmente comprometido em denúncias de corrupção: a falência do Banco Pan de Azúcar e as outorgas irregulares de meios de comunicação a seus amigos, transformadas hoje em pesadelos, fazem duvidar até da sua capacidade de se manter à frente do Diretório de seu partido. Algo semelhante ocorre com o Partido Colorado, que dominou a política uruguaia por décadas, com figuras de grande projeção, como os ex-presidentes José Batlle y Ordónez e Luis Batlle Berres. Muito debilitado eleitoralmente, os colorados têm no jovem Pedro Bordaberry, filho do ex ditador (civil) Juan Bordaberry, uma figura que representa a renovação, já que o declínio político do ex-presidente Sanguinetti é tido como definitivo. Porém, o peso negativo do sobrenome Bordaberry não ajuda muito na estratégia de mostrar uma mudança em relação ao passado recente; o pai de Pedro, o ex-ditador Juan Maria Bordaberry, atualmente em prisão domiciliar, se prestou a dar uma fachada civil aos governos militares e responde por violações aos direitos humanos.

A transformação no movimento Tupamaro, o aproximou das massas.
A transformação no movimento Tupamaro, o aproximou das massas.

O que nem os dirigentes “blancos” nem os “colorados” perceberam com a sua campanha suja é que, a diferença do que aconteceu com outros movimentos armados sul-americanos – como o ERP e os Montoneros, na Argentina – depois da redemocratização houve uma profunda transformação no movimento Tupamaro, que o aproximou das massas e foi fazendo mudar a percepção da sociedade uruguaia em relação ao que eles representavam. Sem abandonar as suas principais bandeiras – justiça social, com reforma agrária e reforma do Estado, fundamentalmente – os dirigentes e militantes tupamaros se integraram à Frente Ampla, a coligação dos partidos políticos da esquerda uruguaia (Partido Comunista, Partido Socialista, etc) e há anos participam do jogo democrático, com parlamentares, ministros e autoridades eleitas nos diferentes departamentos.
Por outro lado, a candidatura de José Mujica representava a continuidade com o governo do presidente Tabaré Vázquez (que desautorizou a campanha para mudar o artigo da Constituição uruguaia que proíbe a reeleição e vai abandonar o poder no próximo 10 de março com invejáveis 70 por cento de aprovação). A popularidade do presidente atual está alicerçada no carisma desse médico oncologista que fez questão de continuar a dedicar um dia da semana para atender pacientes e que levou a economia do país a uma expansão expressada em um aumento do PIB da ordem de 32 % no período 2004-2008, equivalente a um 7,1 % de aumento médio anual. Esse indicador supera em dois pontos percentuais a média da América Latina no período e, mesmo com um modesto aumento de 0,7 % previsto para 2009, os resultados são os melhores para o Uruguai em toda a sua história recente.
Além disso, durante o seu governo foram criados 180 mil novos postos de trabalho, com uma redução do desemprego de 13 % a 7,9 %, um mínimo histórico. E, ainda, com a plena implantação do chamado “Plano Ceibal”, através do qual todas as crianças que freqüentam a escola pública receberam de graça um computador com conexão gratuita à Internet: mais de 460 mil computadores pessoais, um exemplo único no mundo, foram distribuídos nos últimos anos, fato que alterou profundamente a relação das crianças com a escola, com os professores e entre eles próprios e o mundo.

Mujica: um homem humilde

José “ Pepe” Mujica é um líder que soube manter-se humilde.
José “ Pepe” Mujica é um líder que soube manter-se humilde.

Aos 74 anos, dos quais 12 passados em prisão, durante a ditadura, e deles mais de dois como refém, no fundo de um poço artesiano, tendo até que beber da própria urina, para não morrer de sede, José “ Pepe” Mujica é um líder que soube manter-se humilde, mesmo tendo já se desempenhado como legislador e como ministro. “Creio que não será possível fazer transformações relativamente importantes antes de quinze ou vinte anos”, disse, honestamente, depois de confirmada a vitória.
Ele não faz promessas grandiosas: “Só posso dizer que, com certeza, vamos errar, mas saberemos reconhecer os erros e mudar; porém, isso sim, trabalharemos sem descanso até o limite das nossas forças”, foram algumas das suas primeiras declarações. E perguntado se nesses momentos de vitória lembrava da etapa do cárcere, afirmou: “A vida tem muitas coisas amargas, mas também oferece a possibilidade de revidar. O problema é saber viver com coerência e ter a capacidade de levantar-se quando a gente cai. Nós tivemos essa experiência (da prisão). Não a buscamos nem a planejamos; aconteceu, e de uma forma que supera a imaginação de um romancista. Mas não vivemos para cultuar a memória, olhando para trás. Creio que o ser humano tem que saber cicatrizar suas feridas e caminhar na perspectiva de futuro. Não podemos viver escravizados das contas pendentes da vida. É importante não esquecer; mas penso que também é importante olhar o porvir.”

Lucía Topolanski, a esposa de Mujica, também é uma mulher sofrida e de atitude humilde.
Lucía Topolanski, a esposa de Mujica, também é uma mulher sofrida e de atitude humilde.

Lucía Topolanski, a esposa de Mujica, também é uma mulher sofrida e de atitude humilde, apesar da sua história de luta ser muito semelhante à de Mujica e de possuir um reconhecido tato político. De origem aristocrático, ela teve a irmã gêmea assassinada em um enfrentamento com as forças militares, foi presa política, sofreu a tortura e só saiu livre depois da redemocratização. Hoje é a Senadora mais votada do país e desempenha um papel central no grupo político liderado pelo presidente. Ambos manifestaram que não pretendem deixar a chácara onde moram, na periferia de Montevidéu, onde cultivam flores e verduras.
A atitude e a experiência de vida do Presidente eleito permitem entender porque mesmo tendo a Frente Ampla conquistado a maioria nas duas câmaras do Parlamento no primeiro turno das eleições – o que lhe permite governar sem alianças – Mujica fez questão de convocar os dois adversários, o Partido Nacional ou Blanco e o Partido Colorado para conversar, já no dia seguinte da eleição. Reuniu-se com Pedro Bordaberry e com Luis Alberto Lacalle e convidou ambos partidos a designar quadros técnicos para integrar a direção das autarquias e das empresas do Estado, aliás, uma cláusula que consta da Constituição. Tabaré Vázquez também tinha feito esse convite, que foi recusado, há cinco anos, tanto por blancos como por colorados. Agora há indícios de que a atitude da oposição será mais conciliadora. As urnas mostraram que o povo uruguaio não aprova uma oposição pela oposição, que não contribui para a o avanço do país.
Nos primeiros dias posteriores à eleição já ficaram definidos grupos de trabalho que assegurarão a transição e começam a surgir nomes para compor o futuro Ministério. O presidente eleito anunciou que no gabinete pretende respeitar a proporcionalidade entre os diferentes setores da Frente Ampla, porém levando em conta as aptidões e experiência das pessoas e a importância para o segundo governo da Frente Ampla de alguns setores específicos. Também haverá de ser observada, assinalou Mujica, a necessária e desejável continuidade com o governo de Tabaré Vázquez em áreas consideradas chaves.
Especula-se que todo o gabinete deverá estar definido até o Natal. Para o seu próprio grupo político – o Movimento de Participação Popular, MPP – o presidente eleito reservaria quatro Ministérios: Interior, Educação, Vivenda e Relações Exteriores. Para este último é dada como certa a nomeação de Luis Almagro, atual embaixador do Uruguai na China e um dos impulsionadores do acordo comercial entre o Mercosul e esse país asiático. Os Ministérios de Economia, Transporte e Turismo corresponderiam ao grupo político do vice-presidente, Danilo Astori (chamado “Frente Líber Seregni”, nome do fundador e primeiro presidente da Frente Ampla). Astori se desempenhou como Ministro de Economia durante a gestão de Tabaré Vázquez e na eleição interna da Frente Ampla foi derrotado por Mujica, tendo aceitado então o convite para ser candidato à vice-presidência.

A renovação dos métodos e das gerações

Mujica representa a continuidade das conquistas do governo liderado por Tabaré Vázquez.
Mujica representa a continuidade das conquistas do governo liderado por Tabaré Vázquez.

Além de dar continuidade a aprofundar as conquistas do governo liderado por Tabaré Vázquez – o primeiro da esquerda da história do Uruguai – José Mujica e a Frente Ampla têm que enfrentar outro desafio igualmente importante: o de integrar os milhares de jovens que deram vida e colorido à campanha eleitoral, utilizando para se comunicar as tecnologias modernas, como as redes sociais da Internet e as mensagens de texto via celular. Eles agora estão dispostos a exigir uma forma mais ortodoxa de participação na estrutura da Frente Ampla. Dirigentes e militantes de esquerda coincidem em que as mobilizações desses grupos tiveram um papel chave na campanha, particularmente, no interior do país.
Eles também contribuíram para um fenômeno novo, que foi destacado por Mujica no comício de encerramento da campanha do primeiro turno: a quase ausência, nas mobilizações, de bandeiras dos partidos políticos que formam a Frente Ampla e a predominância absoluta das bandeiras azuis, vermelhas e brancas da própria Frente, numa demonstração do avanço do sentimento unitário por encima de divisões ideológicas ou históricas. Os jovens contribuíram, também, a dinamizar o sitio web da Frente Ampla, com fotos e vídeos.
Alguns membros dessas redes gostariam de continuar por esse mesmo caminho, sem estabelecer uma coordenação mais estreita com a direção da Frente; porém, outros pensam que é necessário incorporar-se às estruturas – muito refratárias, como acontece também na esquerda em outros países – a uma renovação nas lideranças, para dar espaço às novas gerações (e também fechadas em relação a uma maior participação das mulheres). Seria necessário contribuir para a mudança a partir de dentro.
A maior surpresa destas redes foi a sua grande capacidade de convocatória, confirmada em várias oportunidades, como o desfile de uma gigantesca bandeira de vários quilômetros de extensão, levada por milhares de pessoas e a mobilização por elas idealizada para o último dia da campanha do segundo turno em Montevidéu, quando com uma ação muito criativa, convocaram a militância a tomar uma das praias de Montevidéu, organizando depois um grande baile, na mesma praia.
Além do dinamismo e da alegria próprios da juventude, que deram uma nova personalidade às mobilizações da campanha de 2009, a criativa e maciça participação dos jovens sinaliza que a Frente Ampla soube deitar raízes na política uruguaia.
* Beatriz Bissio é jornalista, cientista social e fundadora dos Cadernos do Terceiro Mundo e da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Beatriz Bissio

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