A volta da União Soviética e outras surpresas geopolíticas

Theotônio dos Santos

Tradução:

Theotônio dos Santos* 

theotonio dos santos1Num artigo sobre “The Future of geopolitical alignments” publicado pela Ritsumeikal Kokusai Kenkyu (The Ritsumeikal Journal of Internacional Studies) de março de 1992 chamei atenção para o fato de que não se podia tratar a União Soviética como um “cachorro morto” e que um equivalente da União Soviética deveria voltar a organizar-se sob um forte comando da Rússia.

Putin comanda a restauração do poder soviético Putin comanda a restauração do poder soviético

O texto era o seguinte: “vivemos um momento no qual a União Soviética vem sendo considerada um desastre econômico e político, quase terminada como regime econômico, como sistema político e como uma federação de nações. Estas fáceis conclusões são uma propaganda muito superficial. A imprensa mundial continua com uma “guerra fria cultural” que impede um conhecimento real dos eventos, tendências e situações globais. A União Soviética não é um “cachorro morto”, ela está viva e muito viva e isto influenciará muito decisivamente a evolução da economia mundial e do sistema mundial nos próximos anos e décadas. O que está morto (desde 1954, mas agora decisivamente morto) é o stalinismo como uma doutrina política e um sistema ideológico. O que também está morto (desde 1967, quando os EUA começam a perder sua hegemonia a nível mundial) é a guerra fria. Quer dizer a capacidade do complexo industrial militar e o comando das forças de direita norte-americana sobre a diplomacia internacional. O stalinismo não foi o inventor da guerra fria. Pelo contrário, Stálin foi o líder soviético mais elogiado e apoiado pelos líderes ocidentais (durante a segunda guerra muito claramente e entusiasticamente e durante as “purgas” de 1935 quando a imprensa ocidental cobriu e justificou os processos stalinistas de Moscou que legalmente assassinaram a liderança bolchevique da União Soviética)”. (P. 15-16).
A história começa a retomar seu fio na atual conjuntura mundial. A tentativa da direita americana de estabelecer uma nova “contenção” da Rússia chegou ao seu limite e revelou claramente que a guerra fria não era somente e sobretudo uma guerra ideológica e sim geopolítica. A Europa lutou durante dois séculos para submeter a Rússia (fonte fundamental de matérias-primas) seja czarista, seja soviética e fracassou todas as vezes: seja na invasão napoleônica no princípio do século XIX, seja na primeira guerra mundial, seja nas invasões de 21 países apoiando a direita na guerra civil contra a União Soviética entre 1919 e 1921, seja na invasão nazista tolerada pela Inglaterra e EUA em 1940. A Alemanha aprendeu a lição, espero, já que enquadrou sua concepção de hegemonia europeia num projeto pacífico de integração europeia e já que estabeleceu um diálogo com a União Soviética que serviu de base a perestroika soviética e esteve sempre seduzida pela proposta de Gorbachev de uma grande Europa. Falta agora que a Alemanha entenda definitivamente que a China se converte num grande pólo da economia mundial e que a Alemanha não tem outro caminho senão reconstruir a eurásia. Alemanha, Rússia e China poderão estabelecer um grande projeto de desenvolvimento pacífico que isolará definitivamente as pretensões atlantistas criadas a partir da expansão europeia tendo o Oceano Atlântico como um caminho do moderno imperialismo. Neste momento a senhora Merkel, ex-membro do Partido Comunista da Alemanha Democrática, se encontra na China estabelecendo fortes vínculos comuns. Neste momento ela também busca uma fórmula de diálogo com a Rússia em torno da aventura ocidental na Ucrânia. E ao mesmo tempo a Rússia e a China fazem um acordo de intercâmbio energético que coloca em risco as fontes energéticas da Europa. É sempre bom relembrar que a política norte-americana de destruição do mundo árabe coloca em risco também as fontes energéticas do Oriente Médio.

Será que a Alemanha vai pedir sua entrada nos BRICS em vez do Grupo dos 7 que resolveu eliminar a Rússia Será que a Alemanha vai pedir sua entrada nos BRICS
em vez do Grupo dos 7 que resolveu eliminar a Rússia

Não podemos ignorar também os acordos chineses para intercâmbios que dispensam o dólar, não só na Ásia, mas já chegando na Rússia e na Alemanha. Mas não nos esqueçamos dos BRICS que se reunirão em uma semana mais em Fortaleza, quando se criará o Banco dos BRICS com capital de 100 bilhões de dólares. Estamos diante do fim definitivo de Brettam Woods. O FMI e o Banco Mundial se convertem numa força entre outras da economia mundial.
Será que a Alemanha vai pedir sua entrada nos BRICS em vez do Grupo dos 7 que resolveu eliminar a Rússia e terminar com o generoso Grupo dos 8? Apesar de que nossos amigos keynesianos não dão importância ao fenômeno do endividamento não seria conveniente pensar que se juntarmos a dívida norte-americana (igual ao que era até 2013 o maior PIB do Mundo), a dívida do Japão que é uma vez e meia o seu PIB que até 5 anos atrás era o 2º maior PIB do Mundo, a dívida da comunidade europeia que seria em seu conjunto a segunda força econômica mundial ? Essas dívidas igual a esses PIBs não significaria uma queda de todo este império mundial ?
Será que não entendemos que definitivamente está terminado o Mundo da pós segunda guerra mundial sob a hegemonia norte-americana criadora da guerra fria ? Será que não estava certa a conclusão de que o fim da guerra fria era parte da decadência norte-americana ?
Se você ainda tem dúvidas de como a União Soviética volta a ser uma referência leia a notícia no Brasil de Fato sobre: “Rússia confirma perdão de 35 bilhões em dívidas de Cuba, acordo ratificado pelo Parlamento Russo assinado entre Rússia e Cuba que prevê a anulação de 90% da dívida de Havana para com a extinta URSS”. (07/072014).
*Membro da equipe fundadora de Diálogos do Sul – é economista e cientista político brasileiro. Um dos formuladores da Teoria da Dependência. Hoje é um dos principais expoentes da Teoria do Sistema Mundo. Mestre em Ciência Política pela UnB e doutor “notório saber” pela UFMG e pela UFF. Professor emérito da UFF. Presidente da Cátedra e Rede UNESCO-Universidade das Nações Unidas (UNU) de “Economia Global e Desenvolvimento Sustentável” – REGGEN.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Theotônio dos Santos

LEIA tAMBÉM

Venezuela
No ano do 13º aniversário de sua morte, legado de Chávez mobiliza comunas diante da intervenção dos EUA
Argentina
Argentina: Cristina Kirchner denuncia à ONU violações de seus direitos no Caso Vialidad
Milei
Argentinos condenam ofensas de Milei a Lula e alertam para prejuízo nas relações com o Brasil
Café com Vodka
CAFÉ COM VODKA | Oportunidades na crise da hegemonia: reflexões a partir do CORAL 2026