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Acordo secreto para crise dos mísseis de Cuba há 60 anos daria fim a atual ameaça nuclear?

Solução encontrada pelo então presidente dos EUA, John Kennedy, e mandatário soviético Nikita Kruschev seria revelado só três décadas depois
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Conselhos e lições da resolução diplomática da crise de mísseis nucleares soviéticos em Cuba há 60 anos são relevantes hoje diante de uma nova crise que inclui a ameaça de um desastre militar nuclear em torno da guerra na Ucrânia. 

Documentos oficiais estadunidenses desclassificados incluem um documento secreto do embaixador estadunidense ante a Organização das Nações Unidas, Adlai Stevenson, ao seu chefe, o presidente John Kennedy, em 17 de outubro de 1962, onde lhe adverte que deveria descartar as recomendações de outros assessores de atacar Cuba e em seu lugar buscar uma via diplomática, oferecendo um guia diplomático ante a ameaça soviética, “chantagem e intimidação, nunca: negociação e cordura, sempre”. 

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Stevenson recomendou, no início dos famosos 13 dias da crise dos mísseis, oferecer o desmantelamento de bases de mísseis na Europa em troca da retirada dos mísseis soviéticos em Cuba, e foi assim que finalmente se conseguiu superar a pior crise nuclear entre os dois poderes.  

Kennedy chegou a um acordo secreto, que não seria revelado por quase três décadas, com o mandatário soviético Nikita Kruschev, para retirar os mísseis estadunidenses Júpiter na Turquia em troca da retirada dos mísseis soviéticos em Cuba.

Se EUA condenaram mísseis em Cuba, por que Rússia deveria admitir o mesmo na Ucrânia?

Oficialmente, só se anunciou que Moscou retirava seus mísseis de Cuba em troca de um compromisso de Washington de não invadir a ilha no futuro, resume uma análise da documentação oficial pelo National Security Archive – centro independente de investigações e documentação sobre relações internacionais em Washington.  

Para consumo público, Washington promoveu a narrativa de que os soviéticos haviam desistido diante da posição firme dos Estados Unidos. 

“Nem Stevenson nem a diplomacia secreta encabeçada por Kennedy que resolveu o conflito mais perigoso na história moderna receberam um pleno reconhecimento e crédito. A postura de Stevenson, “chantagem e intimidação, nunca; negociação e cordura, sempre”, é mais relevante hoje do que nunca”, comentou Peter Kornbluh, diretor do Projeto de Documentação sobre Cuba do National Security Archive (NSA).

Solução encontrada pelo então presidente dos EUA, John Kennedy, e mandatário soviético Nikita Kruschev seria revelado só três décadas depois

Wikipédia
Stevenson advertiu que ataque a Cuba teria “consequências incalculáveis” e aconselhou Kennedy a descartar ofensiva militar

No 60º aniversário da crise dos mísseis, o NSA publicou documentos oficiais desclassificados sobre o papel de Stevenson, incluindo seu memorando privado a Kennedy, suas recomendações secretas por um esforço de desarmamento respaldado pela Organização das Nações Unidas para resolver a crise e outras parecidas no futuro, entre outros. 

Estes se somam a outras coleções do arquivo de documentos oficiais sobre outros aspectos da crise dos mísseis.

No conflito russo-ucraniano, as mentiras andam mais depressa que os mísseis

Kornbluh e outros analistas assinalam que as lições da crise dos mísseis, sobretudo a ênfase que imperou em buscar uma solução política e não empregar a opção da força, devem ser aplicadas na conjuntura atual, na qual o presidente Joe Biden comentou há só alguns dias que, “pela primeira vez desde a crise dos mísseis cubanos, temos uma ameaça direta sobre o uso de armas nucleares”, advertindo que o mundo enfrentava um possível “Armageddon” (apesar de que não existe nova informação de inteligência, teve que esclarecer a Casa Branca).

Stevenson advertiu que um ataque sobre Cuba teria “consequências incalculáveis” e, portanto, aconselhou Kennedy a descartar as recomendações de outros assessores a favor de respostas militares à presença dos mísseis em Cuba, relata Kornbluh ao resumir detalhes do desenvolvimento da negociação que resolveu a crise dos mísseis em um artigo publicado na Foreign Policy.  

Entre os conselhos mais importantes de Stevenson, estava a abertura de um canal de comunicação com Moscou e Havana, e foi por meio dessa iniciativa que o irmão do presidente, Robert Kennedy, e do embaixador soviético em Washington, Anatoly Dobrynin, conseguiu realizar as negociações secretas, entre as duas potências nucleares, culminando com o anúncio público em 28 de outubro de que a crise havia sido superada pela diplomacia.

David Brooks | Correspondente de La Jornada em Nova York.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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