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Afeganistão: Traduções que matam

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Francesca Dziadek*

Um soldado alemão e um intérprete afegão em uma cena do filme de guerra Zwischen Welten (Entre Dois Mundos). Foto: Wolfgang Ennenbach/Majestic Um soldado alemão e um intérprete afegão em uma cena do filme de guerra Zwischen Welten (Entre Dois Mundos). Foto: Wolfgang Ennenbach/Majestic

As tropas estrangeiras se retiram lentamente do Afeganistão, deixando para trás um coro de pessoas que foram seus ouvidos e seus guias no terreno: tradutores e intérpretes agora ficam jogados a uma vida de incertezas e ameaças, ou de morte.

Linguistas, profissionais dos meios de comunicação e organizações não governamentais reclamam reconhecimento internacional para os direitos dos intérpretes a segurança e proteção.

“Abandoná-los equivale a uma sentença de morte” afirmou à IPS a linguista forense Maya Hess, diretora da organização Red-T, que apoia tradutores e intérpretes. Para ela, os países que os empregam devem conceder-lhes a proteção do asilo. A Red-T publicou em 2002 o primeiro guia multilíngue internacional sobre zonas de conflito, que é atualizado continuamente com novas traduções. Em março deste ano apresentou uma nova versão.

Trata-se de uma fonte de referência da publicação Apoio Linguístico às Operações, do Ministério da Defesa da Grã-Bretanha, que detalha boas práticas das obrigações contratuais entre os linguistas das nações anfitriãs e os que pagam por seus serviços. Formalizar os direitos à segurança dos civis que trabalham como intérpretes e tradutores em zonas de guerra é um antigo caso pendente.

Entre 2007 e 2009, a empresa terceirizada norte-americana Military Essential Personnel confirmou a morte de 30 intérpretes em 30 meses, apontou Hess. No Iraque, as forças britânicas perderam 21 intérpretes no período de 21 dias. Muitos outros ficaram feridos e sofreram ameaças de morte e perseguições. As forças armadas alemãs receberam mais de 700 denúncias de empregados locais.

Noor Ahmad Noori, um intérprete afegão de 29 anos que trabalhou para o jornal The New York Times, está entre as vítimas mais recentes. Após seu sequestro, seu corpo foi encontrado com sinais de espancamento e apunhalado, em janeiro deste ano, perto de Lashkar Gah, um reduto do movimento extremista Talibã.

Jawad Wafa, outro intérprete, de 25 anos, que trabalhava para o grupo de tarefas Kunduz dentro da Força Internacional de Assistência para a Segurança (Isaf), foi encontrado estrangulado no porta-malas de um veículo, no dia 24 de novembro de 2013. Sua morte aconteceu um mês depois da retirada das forças armadas alemãs. Apesar de ter recebido reiteradas ameaças e de ter direito de asilo, seus papéis não chegaram a tempo. “A burocracia custa vidas”, destacou Hess.

Wafa havia sido convidado à sede das forças alemãs em Mazar-e-Sharif e seu nome estava na lista de 182 pessoas asiladas anunciada em outubro de 2013 pelo ministro federal do Interior, Hans Peter Friedrich. Seus papéis se perderam em um labirinto burocrático entre o Ministério das Relações Exteriores, o Escritório Federal para as Migrações e os Refugiados – que concede as autorizações de asilo – e a embaixada alemã em Cabul.

Em 2008, Matt Zeller, um capitão do exército dos Estados Unidos, foi salvo in extremis por Janis Shinwari, seu intérprete, que matou dois franco-atiradores talibãs logo antes que disparassem contra o oficial. Quando seu nome apareceu na lista de “condenados à morte” pelo Talibã, obteve rapidamente um visto norte-americano graças aos esforços de Zeller. Um ano depois, em 2009, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a lei de Proteção de Aliados Afegãos, pela qual foram emitidos 7.500 vistos para pessoal desse país, principalmente tradutores e intérpretes.

Após a morte de Wafa, a Red-T e outras organizações não governamentais, como a Pro Asyl, enviaram uma carta aberta à chanceler da Alemanha, Angela Merkel, citando a Seção 22 da lei de residência que permite expedir autorizações por “motivos humanitários urgentes”. Em outubro do ano passado, o governo alemão reconheceu que os tradutores e intérpretes são uma “categoria de alto risco” por sua particular “visibilidade” como mediadores de comunicação para as forças armadas e a polícia.

Esse foi um passo importante, mas insuficiente. “Embora a intenção das autoridades alemãs em mudar sua política de vistos e conceder autorizações a intérpretes afegãos e pessoal auxiliar seja louvável, o fato de apenas uns poucos intérpretes conseguirem entrar na Alemanha é terrível”, ressaltou Hess. Em fevereiro, os intérpretes Aliullah Nazary, de 26 anos, e Qyamuddin Shukury, de 25, aterrissaram aliviados e eufóricos em Hamburgo após enfrentarem meses de ameaças de morte. Encontravam mensagens arrepiantes nas portas de suas casas: “Você, espião alemão, agora espere sua morte”, dizia uma delas.

As tropas e outras instituições oficiais alemãs no Afeganistão empregam cerca de 500 tradutores e intérpretes. Os números mais recentes do Ministério das Relações Exteriores obtidos pela IPS confirmam que foram emitidos 296 permissões e 131 vistos de imigração, e que 107 solicitantes afegãos chegaram à Alemanha. O baixo número de entrada pode ser por causa da transição no Afeganistão. Em alguns casos, os candidatos recebem uma indenização quando seus contratos expiram.

Bernd Mesovic, porta-voz da Pro Asyl, disse que pode haver muitos que não tenham usado suas permissões para entrar na Alemanha, à espera de uma melhora na segurança no Afeganistão e que as ameaças do Talibã cedam. “Recomendamos que o processo seja acelerado”, acrescentou. “Precisamos com urgência de uma mudança de modelo no tratamento dado a tradutores e intérpretes”, disse Hess. “Espero que as potências sejam mais conscientes do quanto são perigosas essas profissões e proporcionem casas seguras e custódia aos linguistas até que possam partir”, acrescentou.

*IPS de Berlim, Alemanha, para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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